terça-feira, 17 de setembro de 2013

PORQUE DEVE-SE CONSTRUIR ESPAÇOS AUTÔNOMOS, por Carlos Taibo




Desde muito tempo venho defendendo a ideia de que a construção de espaços de autonomia nos quais buscamos aplicar regras do jogo diferentes daquelas que nos impoem deve ser tarefa prioritária para qualquer movimento que se se ponha como tarefa contestar o capitalismo desde a dupla perspectiva da autogestão e da desmercantilização.
Acredito que a opção que me ocupa é tão necessária como honrosa e possível. Em última instância está a convicção de que deve-se começar a construir, desde já, a sociedade do amanhã, com o duplo propósito de sair com urgência do capitalismo e de perfilar estruturas autogestionadas desde abaixo, longe do trabalho assalariado e da mercadoria. Me parece, por suposição, que estes espaços, que por lógica tem capacidade de atração e de expansão, configuram um projeto muito mais realista que o que preconiza desde sempre, agora a boca pequena, a social-democracia ilustrada. Quando alguém me fala da necessidade de criar um banco público, me vejo na obrigação de perguntar-me, quanto tempo podemos aguardar a que se torne realidade, tanto mais quanto a proposta em questão tem por necessidade passar pela decisão de partidos, parlamentos e instituições.
Agrego- ainda que acreditando que o presumido esteja exagerado- que estes espaços de autonomia do que falo não podem ser, de modo algum, instancias isoladas que se limitem a um projeto meramente individualista e particularista: sua perspectiva tem que ser, por força, da autogestão generelaziada. Não só isso: sua realização não pode deixar de lado a contestação ativa, frontal, do sistema. Não se esqueça que quem aposta por estes espaços na maioria das vezes tem preservado formas de luta de longa tradição e, longe do sindicalismo de pacto que se revela por todas as partes, trabalham em organizações que tem estado sempre vinculados a essas lutas.
Certo é que o projeto que agora defendo tem suscitado críticas que merecem tanta atenção como réplica. Se tem dito, de pronto, e creio que contra toda a razão, que se assenta em uma aceitação definitiva da ordem capitalista. Surpreende que isto seja dito por quem decidiu assumir o caminho das duas vias alternativas que se vislumbram no mundo da esquerda: a parlamentario-legalista e a revolucionário-putschista(golpista). Se no primeiro caso a surpresa é por razões óbvias, no segundo remete a razões que devem ser também, pela lógica da sonora acaitação de todo o imaginário do poder, da hierarquia, da vanguarda e da representação.
Não quero molestar ninguém quando sublinho que estas duas vias presumivelmente alternativas compartem demasiados elementos comuns. Em ambas falta qualquer reflexão séria sobre o poder e a alienação. Em ambas se faz alusão que o poder significa em todos os âmbitos: a família, a escola, o trabalho, a ciência, a tecnologia, os sindicatos e os partidos. Em ambas se esquivam as sequelas que acompanham as sociedades complexas, a industrialização, a urbanização e a desruralização. Em ambas se aprecia o que quase sempre é uma aceitação dos mitos do crescimento, do consumo e da competitividade. Em ambas se aprofunda, emfim, o risco de uma absorção iminente por um sistema que de fato nunca de abandonou. Castoriadis falou a respeito, decênios atrás, do “constante renascimento da realidade capitalista no seio do proletariado.
Cabe destacar que se a discussão que hoje resgato é muito antiga, hoje tem uma importância maior que a que correspondeu em qualquer momento do passado. Tem , pelo menos aos olhos de quem acredita que o capitalismo entrou em uma fase de corrosão terminal que, a mercê das mudanças climáticas, do esgotamento das matérias-primas energéticas, ou a extração do expólio dos países do Sul, a desintegração dos precários conlchões de proteção social e a emergencia de um novo e obsceno darwinismo social, coloca o colapso na volta da esquina. Frente a isso a resposta das duas vias alternativas antes mencionada se mostra infelizmente frágil: se em uns casos reclama, pouco mais do que a defesa dos Estados de Bem Estar Social e uma “saída social da crise”- ou , o que é o mesmo, um tão irreal como sórdido regresso a 2007-, em outros se assenta na ilusão de quem uma vanguarda auto-proclamada, investida de autoridade que proporsciona uma xuposta ciência social, deve decidir por todos ao amparo de seu designio de imitar alegados radicalmente anticapitalistas que não se preocupam de decumentar como o projeto correspondente será realizado. Ao final, e no melhor dos casos, se traduz em uma ativa e respeitável luta no dia a dia que, todavía, tem consequencias limitadas.
Bem sei que o horizonte da autonomia, da autogestão e da desmercantilização não resolve magicamente todos estes problemas. Me limito a certificar que nos aproxima essa solução. Nem sequer acredito que solução esteja por trás das demais aparentes opções, no que se faz uma discussão mil vezes mantida: a que nasce da pergunta relativa a se somos tão ingênuos para concluir que nossos espaços autônomos não serão objeto das iras repressivas do capital e do Estado. Não o desejam e estão em condições de nos separar dos nossos amigos que preconizam as vias parlamentario-legal e revolucionário-putschista(golpista), tanto mais quanto que, as coisas como vão, se intui que não terão nada que defender. Por acaso são mais sólidas e críveis que as nossas? Ou será que, e permita-me a maldade, quem se lança a tarefa de reprimir os espaços autônomos serão, por sua vez, os amigos com quem hoje debatemos?
Deixo para o final, em suma, uma disputa que não carece de interesse: a de se o projeto de autonomia e os outros que me referi aqui criticamente são incompatíveis ou, pelo contrário, podem encontrar algo consensual. Responderei de maneira tão rápida como interessada: se a consequencia maior desse consenso é permitir que muitas pessoas se aproximem dos espaços liberados, bem vindo seja. Mas temo que falamos de projetos que remetem a visões dietralmente distintas do que é a organização social e do que supõe a emancipação. E me vejo na obrigação de sublinhar que nessa opção que é a aposta da esquerda tradicional não há nada que cheire a autogestão, e que ao contrário, se aprecie o odor das hierarquias, delegações e reproduções cabais do mundo que aparentemente dizem contestar. Ainda que ninguém tenha nenhuma solução mágica para ods problemas, cada vez estou mais convencido de que existe quem esteja decidido a assumir o caminho mais rápido e convincente.
*Carlos Taibo é professor de Ciencia Política en la Universidade Autônoma de Madri.
Tradução : Paulo Marques; Professor da Universidade Federal de Pelotas-UFPEL.

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