quarta-feira, 11 de julho de 2012

Vocação do poder: Como se faz política no Brasil

 Um excelente documentário para assistir antes de mais uma campanha eleitoral

O Brasil inicia mais um processo eleitoral, agora para escolha de  5 mil prefeitos e milhares de vereadores. Em um país que, malgrado as mudanças da última década, continua sendo um dos países de maior desigualdade social do mundo.

O fosso entre os mais ricos e os mais pobres não diminuiu. Reformas estruturais no campo econômico( reforma tributária para que os ricos paguem imposto) e reforma política( desmercantilização da política) não saem do campo da retórica. O sistema eleitoral de voto nominal e com financiamento privado de campanha torna a disputa eleitoral um jogo restrito  a elite econômica dominante.

Sem dinheiro ninguém se elege, as exceções só servem para comprovar a regra. Para quem duvida é só pesquisar quanto custou a eleição dos últimos eleitos de cada partido e qual a classe social que predomina nos parlamentos. Dessa forma as eleições, para qualquer candidato sem recursos, serve apenas para legitimar o jogo como ele é jogado. As regras não mudam pois quem deveria mudá-las é quem se beneficia, portanto, como não temos políticos suicidas, dificilmente as regras do jogo serão mudadas.

Um excelente material para compreender, se é que alguém ainda não compreendeu, como funcionam as eleições municipais no país, qual sua lógica, seus protagonistas,  é o documentário "Vocação do Poder". O filme documenta a campanha realizada por seis candidatos ao cargo de vereador da cidade do Rio de Janeiro, durante as eleições municipais de 2004.

O documentário é muito bem feito, principalmente na escolha do perfil dos participantes, seja no que a maioria têm comum, como a questão da juventude; a maioria são jovens, assim como o fato de todos participarem pela primeira vez de uma campanha, seja nos elementos da diversidade quanto a origem social: uma candidata vinculada à igreja evangélica; dois jovens oriundos de família de politícos tradicionais; dois jovens de classe média e uma jovem da periferia. Também é garantida a representatividade partidária com a participação de candidatos dos maiores partidos.

O futuro da nação: A pastora evangélica, o jovem classe média do PSDB, o herdeiro de uma família de políticos tradicionais; o jovem filho do empresário da política; um jovem classe média "Zona Sul" do PT e  o representante da juventude da periferia. Um retrato do que é o "fazer política" no Brasil

 O documentário traça um panorama das ações de cada candidato durante todo o processo eleitoral, acompanhando a campanha, suas relações familiares e comportamentos durante o processo.

O Filme têm o mérito de captar com muita nitidez o sentido da politica para estes candidatos, o que é  o reflexo da visão predominante hoje do significado da política. Este documentário nos mostra de forma cabal porquê a democracia liberal está em crise. Uma crise já se torna explícita nos países capitalistas centrais( modelo que nós seguimos) com os altos índices de abstenção e as mobilizações sociais que exigem democracia real.

Enquanto no Brasil, pelo fato do voto ser obrigatório, não fica explícita a descrença, não é difícil comprová-la; qualquer pesquisa mostrará o que se fala nas ruas, nos bares, nas conversas familiares sobre os "políticos" e a "política" . A corrupção estrutural, a irrelevancia do que fazem e o que ganham por isso, o despreparo e principalmente o enorme abismo entre representantes e representados, torna a democracia representativa cada vez mais deslegitimada perante a maioria das pessoas.

Uma crise que atinge em cheio a forma partido,  meras máquinas eleitorais ou estruturas fisiológicas que servem apenas como instrumento de interesses econômicos particulares. Mesmo os partidos ditos de esquerda não conseguem se diferenciar em sua lógica interna. As oligarquias dos "mandatos parlamentares" compõe os grupos de interesse e poder. Sem mandato, ou vinculado a algum mandato, o filiado não existe.

Toda essa realidade salta aos olhos neste documentário que apresenta em um universo restrito a lógica universal dominante na política brasileira.

Não deixe de assistir este filme.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Para pensar a hipótese comunista de Alain Badiou





Para pensar a hipótese comunista de Alain Badiou 

Por Paulo Marques* 

Foi lançado recentemente no Brasil pela Editora Boitempo o último livro do filosofo francês Alain Badiou, "A hipótese comunista". Neste pequeno livro de 150 páginas, o filósofo busca recolocar a Idéia( com "I" maiúsculo) comunista,  no centro do debate da esquerda. A tese de Badiou tem como base a discussão sobre  os fracassos da tentativa de realizar esta hipótese ao longo da história. Segundo ele "no século XX, os socialismos, únicas formas concretas da idéia comunista, fracassaram totalmente".

Para Badiou,  esse fracasso foi acompanhado por um lado pela complexidade da organização capitalista da produção e por outro pelo sistema parlamentar do Estado, o que para muitos nos deixa sem escolha. Entretanto, ao questionar o conceito de fracasso, Badiou pergunta se  esse é o caso de "abandonar a própria hipótese"ou,  ao contrário, se o fracasso foi relativo à forma, ou  à via que foi escolhida, manter a Idéia, em detrimento do foi tentado.

Assim  Badiou, opta pela segunda alternativa, manter viva a hipótese/Idéia comunista, e a justifica comparando com ass hipótese de teoremas matemáticos que mesmo com  fracassos para sua resolução permaneceram, quer dizer, não foram abandonados até sua comprovação, ou seja, "O fracasso desde que não provoque o abandono da hipótese, é apenas a história da justificação dessa hipótese" .

Para sustentar sua tese dos fracassos práticos da idéia comunista,  Badiou analisa no livro três destas tentativas: o Maio de 1968; a Revolução Cultural na China e a Comuna de Paris. O autor adverte  que,  malgrado estes processos estejam vinculados a nomes como Lenin, Marx, Mao ou mesmo conceitos como  revolução, socialismo, proletariado e adjetivos como revisionista, revolucionário, imperialista, o que importa é o  fato de que em política o que vale são os pensamentos, as organizações e as ações, pois "a universalidade , atributo real de um corpo de verdade, não dá a mínima aos predicados. Isto porque uma verdadeira política conhece apenas aqueles fragmentos do real dos quais uma Ideia atesta que o trabalho de sua verdade está em curso.

Badiou  procura identificar  tipos de "fracasso" que ocorreram ao longo desta história de tentativas. Segundo ele,  o primeiro tipo de fracasso é aquele da tentativa em que os revolucionários são esmagados por uma contra-revolução armada, após assumirem provisoriamente o poder e estabelecer novas leis. Esse é o caso dos Espartaquistas de Rosa Luxemburgo em 1919 e os casos da Comuna de Xangai e Cantão nos anos 20. Entretanto, o exemplo paradigmático deste modelo e que é analisado mais detidamente por ele é a Comuna de Paris de 1781.

O segundo tipo de fracasso é quando emerge um grande movimento em que se engajam forças discordantes, mas numerosas, sem que estabeleçam realmente um objetivo de poder, mesmo que ponham as forças do Estado reacionário na defensiva por um longo período. Badiou identifica nesta tipo as revoltas de Maio de 1968. Segundo ele, " entre a idéia de que houve ali apenas imaginação e a de que se trata de um corte decisivo na concepção que se deve ter do que é uma política libertadora, o leque permanece aberto por um bom tempo".

 É o que poderíamos chamar de um processo interpretativo que permanece, dada a força do processo e o impacto que teve como tentativa de colocar em prática uma Idéia.

O terceiro tipo, apontado por Badiou,  é o da tentativa de mudar o Estado, que se declara oficialmente socialista, para ordená-lo mais diretamente na direção associativa livre que, desde Marx, é prescrita como hipótese comunista. Aqui,Badiou se refere ao chamado socialismo real da União Soviética e experiência Chinesa, nas palavras de Badiou:

" O fracasso neste caso é que o resultado vem no sentido contrário: ou  a restauração do terrorismo do Estado-partido, ou o abandono puro e simples de qualquer referência ao socialismo, ou mais ainda, ao comunismo e alinhamento do Estado às imposições desigualitárias do capitalismo, ou ambos, o primeiro preparando o segundo".

Para analisar estes três tipos de fracasso a partir dos eventos que lhe servem de paradigma,  Badiou reuniu neste livro artigos  elaborados em períodos diferentes que permitem um panorama de quem conhece profundamente o que está falando. Por exempo,  um dos artigos sobre Maio de 1968 foi escrito  no calor do momento, pois na época Badiou militava em um grupo maoista francês. Esta militancia também o coloca em condição privilegiada para discutir o que foi a Revolução Cultural Chinesa e o seu significado para as lutas revolucionárias do período.

O autor faz questão de destacar que esta é uma obra de filosofia ao  diferenciar-se  de um estudo sobre política, ou filosofia política, onde segundo ele, uma análise política é sempre " interno a um processo político organizado", o que não é o seu caso;   e um texto de filosofia política- que ele destaca como inútil- procuraria "fundar" a política, ou mesmo "o" político e impor-lhe normas que são morais, normas do poder "correto", o que também não é seu propósito.  Para Badiou  a filosofia política nada mais é do que a "a criada oculta do capital-parlamentarismo". Assim ele afirma sua intenção:

" O que me interessa aqui é de natureza completamente diferente. Por meio das particularidades da noção de fracasso em política, viso precisar a forma genérica que todos os processos da verdade assumem, quando encontram os obstáculos inerentes ao mundo em que se desenrolam"

Se pensarmos hoje na encruzilhada que vive  esquerda, mergulhada em uma crise que se expressa np cada vez maior descrédito da democracia liberal representantiva, apontando claramente os limites do seu horizonte estratégico,   a contribuição de Badiou chega em boa hora. Como pensador que vai além de ortodoxias paralisantes e fossilizadas, com todas as contradições que possam ter em suas teses, permite uma oxigenação necessária para uma nova esquerda que pense além dos limites da sociedade do capital.

A proposta de uma recuperação da idéia comunista, como também se refere Zizek, de uma discussão sobre os "bens comuns", a desprivatização e desmercantilização do mundo e da vida,  já é um começo importante para essa oxigenação no pensamento da esquerda contemporânea, pois é  discutir fundamentalmente a desmercantilização necessária da política.

É discutir o Estado para além da lógica do capital, o que pressuporia "nenhum Estado", ou quem sabe,  um "outro Estado". Tarefa que dificilmente será realizada pelos partidos da social-democracia e ou socialistas cujo limite se encerra na democracia liberal capitalista e na forma de ação restrita ao capital-parlamentarismo.

 O fato é que a esquerda deixou de pensar, e eis aí outro  ponto fundamental que anuncia novos fracassos. E pensar significa abrir-se para o novo, o que assusta muito as "verdades" daqueles que estão muito bem com as suas, a despeito do discurso que fazem dizer o contrário.

Um  novo fracasso da esquerda se dará na medida em que se recusra a pensar além do restrito limite que o capital lhe permite, pois conforme salienta  Badiou "o fracasso encontra-se na correlação entre uma decisão tática e um impasse estratégico.

Hoje podemos ver que as decisões táticas estão limitadas a um horizonte estratégico extremamente  limitado, principalmente da forma partido, funcional ao capital-parlmantarismo. E portanto, inadequado para os desafios de superação desta lógica. Se em um determinado período histórico a forma partido foi importante para a luta anticapitalista, no atual período histórico não mais. Pelo menos em sua forma clássica:  vertical, oligárquica e antidemocrática que é. Como bem definiu Badiou " a forma partido, assim como a de Estado socialista, é inadequada para garantir a sustentação real da Idéia". Ou seja:

" Hoje é essencial compreender que "comunista" não pode mais ser adjetivo que qualifica uma política. Este curto-circuito entre o real  e a Ideia gerou expressões- como "partido comunista" ou "Estado comunista", um oxímoro que a expressão "Estado socialista" tentou evitar- que só depois de um século de experiências épicas e ao mesmo tempo terríveis compreendemos que eram malformada( p.146)"

Desta forma Badiou se coloca como um filósofo que propõe a contribuir com a retomada da Idéia ou hipótese comunista neste pequeno livro que é muito mais um convite ao pensar,  sem medo,  e uma chave para abrir novos caminhos, mas está longe de uma "receita" ou "projeto" ou um novo "catecismo".

Ao final do livro, Badiou deixa claro os objetivos de sua contribuição, expressa no artigo escrito para uma Conferência realizada em Londres em 2009,  que teve como tema exatamente a "Idéia do comunismo" que reuniu pensadores marxistas contemporâneos como o próprio Badiou, Zizek, Toni Negri, Michael Hardt, Jacques Ranciere, Terry Eagleton entre outros:

" O que importa é sua existencia e os termos da formulação. Em primeiro lugar, dar uma sólida existência subjetiva à hipotese comunista. Essa é a tarefa que nossa assembléia de hoje cumpre a sua maneira. E, eu quero dizer, é uma tarefa exaltante. Combinando as construções do pensamento, que são sempre globais e universais, e as experimentações de fragmentos de verdades, que são locais e singulares, mas universalmente transmissíveis, podemos garantir a nova existência da hipotese comunista, ou melhor, da Ideia comunista, nas consciencias individuais. Podemos inaugurar o terceiro período de existência dessa idéia. Nós podemos, logo devemos( p. 148)

Uma ótima contribuição para, no mínimo,  colocar a esquerda a pensar...





Alain Badiou nasceu em 1937 na cidade marroquina de Rabat. Autor de vasta produção intelectual, é tido como  um dos principais filósofos franceses da atualidade. Sua trajetória está marcada pelo ativismo político. Filho de um professor que foi prefeito de Toulouse que se destacou  na Resistência Francesa contra o nazismo, Badiou participou dos movimentos de 1968, foi fundador do Partido Socialista Unificado(PSU) e um dos dirigentes da União dos Comunistas da França Marxista-Leninista(UCF-ML) grupo maoista francês. Desde a década de oitenta integra a Organisatión Polítique. Além das obras filosóficas, escreve ensaios políticos, romances e atua como dramaturgo.


*Paulo Marques é doutor em Sociologia pela Universidade de Granada, Espanha e professor de Faculdades Privadas no Rio Grande do Sul.

domingo, 8 de julho de 2012

A Servidão Moderna

 

 A servidão moderna é uma escravidão voluntária, aceita por essa multidão de escravos que se arrastam pela face da terra. Eles mesmos compram as mercadorias que lhes escravizam cada vez mais. Eles mesmos correm atrás de um trabalho cada vez mais alienante, que lhes é dado generosamente se estão suficientemente domados. Eles mesmos escolhem os amos a quem deverão servir. Para que essa tragédia absurda possa ter sucedido, foi preciso tirar desta classe, a capacidade de se conscientizar sobre a exploração e a alienação da qual são vítimas. Eis então a estranha modernidade da época atual. Ao contrário dos escravos da Antiguidade, aos servos da Idade Média e aos operários das primeiras revoluções industriais, estamos hoje frente a uma classe totalmente escrava, que  no entanto não se dá conta disso ou melhor ainda, que não quer enxergar. Eles não conhecem a rebelião, que deveria ser a única reação legítima dos explorados. Aceitam sem discutir a vida lamentável que foi planificada para eles. A renúncia e a resignação são a fonte de sua desgraça.

Eis então o pesadelo dos escravos modernos que só aspiram a deixar-se levar pela dança macabra do sistema de alienação.

A opressão se moderniza estendendo-se por todas as partes, as formas de mistificação que permitem ocultar nossa condição de escravos.
Mostrar a realidade tal qual é na verdade e não tal como mostra o poder constitui a mais autentica subversão.

 


Trecho do Filme: 

"     Não existem partidos políticos susceptíveis de chegar ao poder que duvidem do dogma do mercado. E são estes partidos que com a cumplicidade mediática monopoliza as aparências. Discutem por pequenos detalhes esperando que tudo fique onde está.  Brigam por saber quem ocupará os lugares oferecidos pelo parlamentarismo mercantil. Estas estúpidas briguinhas são difundidas pelos meios na intenção de ocultar um verdadeiro debate sobre a escolha da sociedade na qual desejamos viver. A aparência e a futilidade dominam profundamente o afronto e as idéias. Tudo isto não se parece nem de perto nem de longe a uma democracia.
    A democracia real se define primeiro e antes de tudo pela participação massiva dos cidadãos na gestão dos interesses da cidade. Ela é direta e participativa e encontra sua maior expressão na assembléia popular e no diálogo permanente sobre a organização da vida comum. A forma representativa e parlamentar que usurpa o nome da democracia limitam o poder dos cidadãos pelo simples direito ao voto, ou seja, a nada, tão real, que não existe diferença entre o cinza claro e o cinza escuro. As cadeiras do Parlamento estão ocupadas pela imensa maioria da classe econômica dominante, seja ela de direita ou da pretendida esquerda social-democrática.
    O poder não é para ser conquistado, ele tem que ser destruído. O poder é tirano por natureza, seja ele exercido por um rei, por um ditador ou um presidente eleito. A única diferença no caso da democracia parlamentar é que os escravos têm a ilusão de que podem escolher eles mesmos o mestre que eles deverão servir. O direito ao voto fez dos mesmos cúmplices da tirania esmagadora. Eles não são escravos porque existem amos, senão que existem amos porque decidiram permanecerem escravos.



A servidão moderna  um documentário de 52 minutos produzidos de maneira completamente independente; o livro (e o DVD contido) é distribuído gratuitamente em certos lugares alternativos na França e na América latina. O texto foi escrito na Jamaica em outubro de 2007 e o documentário foi finalizado na Colômbia em maio de 2009. Ele existe nas versões francesa, inglesa e espanhola. O filme foi elaborado a partir de imagens desviadas, essencialmente oriundas de filmes de ficção e de documentários.