segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O legado de Allende e a esquerda latinoamericana, por Paulo Marques



"Trabajadores de mi Patria, tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo en el que la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor. 

 ¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

( Ultimas palavras do presidente Salvador Allende na Rádio Magallanes. Allende seria assassinado no Palácio La Moneda  em  11 de setiembre de 1973 durante o golpe militar ordenado pelo presidente dos Estados Unidos e comandado, no Chile, pelo assassino  Augusto Pinochet)

Era a manhã do dia 11 de setembro de 1973 em Santiago,  capital do Chile. Palácio La Moneda, sede do governo, onde se encontrava o presidente Salvador Allende e seus assessores próximos. As noticias que chegavam ao Palácio era do eminente desfecho do golpe de Estado que desde a posse de Allende,  em 1971, vinha sendo organizado pelos EUA e pela oligarquia chilena. O presidente Allende reúne seus assessores e informa que não abandonará o palácio. Estava lá por vontade do povo e não sairia por vontade de nenhuma outra força. Com a sub-metralhadora kalichinikov que ganhara de seu amigo Fidel, o presidente se preparou para resistir. Começa o bombardeio dos caças sobro o Palácio. Allende pede que as mulheres abandonem o La Moneda e quem quiser fazê-lo; está convicto no que deve fazer. Vai resistir, não irá  se render;  é assassinado pelos EUA, pelas oligarquias, pelo capital.


Ultima foto de Allende com vida, na porta do Palácio La Moneda, com os assessores diretos que permanecem com ele até o fim


Allende, depois de três tentativas de chegar a presidência, finalmente venceria às as eleições de 1970, com a Unidade Popular, coligação do Partido Socialista de Allende com o Partido Comunista Chileno. O programa da Unidade Popular e a tarefa que Allende se propunha era de realizar a primeira experiência de implantação do socialismo pela via institucional, ou seja, dentro das regras do jogo da legalidade burguesa. Allende confiava nas instituições chilenas e nos 30 anos de democracia ininterrupta. Com partidos fortes, tanto da esquerda como da direita, o Chile era uma exceção na América Latina, e foi o palco da primeira tentativa de um processo revolucionário nas estruturas do Estado e da economia chilena.

O período era dos mais desafiadores, em plena guerra fria, onde cada região do mundo era disputado entre EUA e União Soviética. Tão logo Allende venceu os EUA declararam que não aceitariam outra Cuba em seu quintal, ainda mais na América do Sul. O poder econômico e militar do império foi posto em marcha desde o primeiro dia do governo da UP. O que não impediu que o governo do primeiro presidente marxista do Chile , em pouco mais de dois anos e meio de mandato,  realizasse profundas mudanças na economia. Vale destacar as nacionalizações das riquezas minerais como o cobre e o avançado processo de reforma agrária e nacionalização de empresas que culminou com um dosi mais avançados processos de autogestão operária nos chamados  "cordões industriais".

Allende não acreditava que a direita rompesse a legalidade e rasgasse a Constituição, como de fato o fez;  acreditou nas negociações com a Democracia Cristã e com os militares. Fez concessões, tentou até o fim impedir o que já estava traçado pela Oligarquia chilena e os EUA: o golpe fascista de 1973.Os setores mais à esquerda exigiam que Allende armasse os trabalhadores para a resistência, pois já estavam organizados nos sindicatos, nos bairros e nas fábricas autogestionadas. Allende se recusou, não seria o seu governo quem romperia com a legalidade (o que significava que o monopolío da violência legitima deveria ser do Estado), pagou um alto preço, pois a  direita já tinha as armas, mas havia perdido parcela do poder político e mais grave, estava perdendo o poder econômicoe,  portanto, não tinha mais nada a perder. A ordem foi dada pelo governo norte-americano na madrugada de 10 para 11 de setembro de 1973 e fielmente cumprida pelos militares fascistas do Chile.

Lições(?) do golpe

O golpe no Chile serviu não só para derrotar um governo de esquerda e socialista que se aventurava em avançar para além do permitido em um pais Latinoamericano; serviu como um aviso, uma lição a ser bem assimilada,  para que ninguém, nenhum "aventureiro" de esquerda ousasse  repetir esse processo. A questão de fundo foi que o projeto da Unidade Popular tocou no sagrado "direito de propriedade" da burguesia, atacou o coração do sistema capitalista e pagou o preço desta ousadia. Como bem analisou Ralph Miliband em seu clássico livro "O Estado na sociedade Capitalista", os limites que a burguesia traça para a esquerda que chega na direção do Estado burguês é o funcionamento do sistema capitalista de produção. Ultrapassar esse limite tem consequencias...

Quando vemos, 40 anos depois,  o que se passa na América Latina com a ascensão de partidos de esquerda aos  governos centrais de diversos países, logo nos vem a memória a experiência chilena. E podemos dizer que a "lição" foi bem assimilada, ou seja, as "regras do jogo" podem ser mudadas, mas desde que não mudem à logica do jogo, ou seja, o funcionamento do sóciometabilismo do capital, para usar um conceito de Mészáros. Em alguns casos como por exemplo Honduras e Paraguay, nem mesmo é necessário reformas concretas, apenas o simbolismo ou possibilidade de mudança já é motivo para a derrubada de governos.

Assim que,  por mais avançado que seja o governo de esquerda,  e aí lembramos da Venezuela, da Bolívia, do Equador, os limites de ação parecem bem claros, nenhum deles pode ameaçar concretamente o funcionamento do sistema economico capitalista. Os avanços no campo social e redistributivo foram muitos nestes países, e isso é óbvio,  principalmente se comparados aos governos neoliberais do passado; entretanto, nenhum até agora ultrapassou a lógica de reprodução do sistema. Também,  nenhum partido de Esquerda da América Latina na atualidade, chegou perto dos avanços realizados em um curto espaço de tempo pelo Programa da Unidade Popular de Allende, principalmente  no que diz respeito propostas de  mudanças estruturais na economia, em especial o controle da produção pelos trabalhadores de forma autogestionária.

Lembro que na década dos anos 90, o debate no interior do PT sobre a experiência de Allende no Chile sempre esteve presente nas análises de estratégia. Enquanto os setores social democratas "alertavam" os setores mais "radicais" do partido sobre os "perigos" de um "golpe" do tipo chileno; os setores mais à esquerda do partido discutiam as possibilidades que se abririam com um governo petista no Brasil, onde a "via chilena ao socialismo" poderia ter um outro desfecho, dado as possibilidades de uma experiência em um contexto internacional diferente e sem o fantasma da "guerra fria".

O  campo social -democrata do PT( Campo Majoritário) em franca ascensão( que já naquela  época defendia uma aliança com o PSDB) afirmava que o PT não poderia repetir Allende, e que o problema da experiência chilena foi o  isolamento da Unidade Popular, que deveria ter buscado  "alianças mais amplas" com a direita "nacionalista". 

Essa "tese" da aliança da esquerda com a  "direita nacionalista", ou "burguesia nacional", já é clássica na esquerda latinoamerica; é a tese do "desenvolvimento capitalista nacional" , foi a principal tese do PCB nos anos 50 e 60 e por ironia da história, foi a opção estratégica da maioria do PT para ganhar o governo, justamente o partido que nasceu criticando o "etapismo" do partidão no final dos anos 70. Essa posição que é hoje amplamente hegemonica no partido de Lula, é expressa no que o  governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro define como  "aliança da esquerda com o centro democrático".

O campo daqueles  que viam na experiência do PT brasileiro no poder uma possibilidade concreta de  radicalizar a experiência chilena, sem concessões, o que  poderia levar a outro desfecho,  foi derrotada nos anos 90 no interior do partido.

Com a chegada de Lula ao governo em 2002, a partir de uma aliança com os setores capitalistas "nacionalistas", é definitavamente enterrada,pela maioria do partido, qualquer possibilidade de uma "via brasileira ao socialismo"; o PT opta pelo caminho do "pacto com as elites", das reformas através da "governabilidade". Assim o PT inicia sua era baseado em um projeto de gerenciamento do capitalismo neo desenvolvimentista em coalizão com os setores "dinâmicos" do capital seja nacional ou internacional. Eike batista é o "modelo" desse capitalismo "desenvolvimentista" que representa o "Brasil 6 potencia do mundo capitalista" nesta primeira década do século XXI.

A experiência socialista chilena, a partir do aprofundamento da luta de classes e da disputa de hegemonia direta de projetos antagônicos, foi abandonada pela esquerda latinoamericana,  ficou na história como uma tentativa sem condições de êxito. De um lado pelos partidos de esquerda como o PT  que abraçaram definitivamente  a social-democracia, e de outro,  pela esquerda socialista, que não consegue construir uma estratégia em relação ao Estado que vá além do simplismo das "receitas ortodoxas" de um marxismo escolástico que prevaleceu no século XX.

Infelizmente,  o que seria a lição mais importante da experiência chilena, que é o processo de radicalização da auto-organização dos oprimidos, da força da solidariedade , daqueles que independente das contradições do governo da UP apropriaram-se do projeto socialista como seu e iniciam sua construção na prática, na ocupação de fábricas e controle da economia, não é assimilada e nem mesmo discutida  pela esquerda socialista, que não pensa,  por exemplo,  na necessidade de construir um novo projeto de economia, controlada pelos livres produtores/trabalhadores associados. A autogestão sempre foi um tabu para a esquerda marxista. Esta é sem dúvida uma das características de seu  limitado horizonte estratégico.

Que neste 11 de setembro de 2012,o legado  da ousadia da Unidade Popular chilena, dos trabalhadores associados que enfrentaram as oligarquias locais e imperio norte-americano ao lado de Salvador Allende,  sirvam, para uma reflexão por parte da esquerda anti-capitalista,  do que ela vêm sendo hoje e o que é necessário que ela seja amanhã; para que essa verdadeira  epopéia do povo chileno e do "companheiro Presidente",  naqueles breves  anos  da década de 70,  não fique somente na história, mas ganhe vida,  nas lutas de uma renovada esquerda de hoje e do futuro.

Vida e legado de Allende que já está isnpirando/movendo os milhares de estudantes chilenos que tomam as ruas do pais desde o ano passado; os indignados e occupys do mundo que saem às ruas; todos e todas contra a barbárie do capital.

Esta sim é a prova inegável do que previu  Allende em seu último discurso:  " mais cedo que tarde, de novo se abrirão novas alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor"


Nenhum comentário: