sexta-feira, 11 de maio de 2012

15M: um olhar para o futuro por Esther Vivas

Intempestivo e inesperado. Assim foi a emergência deste movimento de indignação coletiva no Estado espanhol. Se o 14M tivesse nos dito que no dia seguinte milhares de pessoas sairiam às ruas e que nas semanas sucessivas se ocupariam as praças, se organizariam as assembléias, se desafiariam o poder com atos de desobediência civil massivos permanecendo nas praças... não teríamos acreditado. Mas assim foi. As pessoas, dois anos e meio depois do estouro da “grande crise”, disseram “Já basta”. E na periferia da Europa, e emulando as revoltas populares no mundo árabe, o calor de Kasba e de Tahrir, as pessoas recuperaram, reocuparam, o espaço público. A Primavera Árabe nos devolveu a confiança em nós e na capacidade coletiva para mudar a atual ordem de coisas. E olhando, também, a Islândia e a Grécia, o 15M rompeu com o ceticismo, a resignação e a apatia imperante. Mas um ano depois de sua eclosão, o que ficou de tudo isso? O que se conseguiu? Que desafios e perspectivas enfrenta? O movimento da indignação coletiva bateu forte. Além das milhares de pessoas que ocuparam as praças, participaram nas assembléias, se manifestaram nas ruas..., muitas outras, desde suas casas, se sentiram “representadas” por esta maré indignada. E que com 23% de desemprego, 175 despejos diários e um de cada cinco moradias vivendo abaixo do umbral da pobreza como não indignar-se, rebelar-se e desobedecer. O 15M foi capaz de transcender o núcleo ativista do protesto, somar uma nova geração militante e fazer levantar muitos outros de seus cômodos sofás. S]ao estes, jovens, ecologistas, mulheres, avós.., os que configuram o “povo” de Sol, Catalunha. Um ano depois do 15M vemos como o poder econômico e político ficou socialmente sentenciado como responsável pela atual crise, pondo de manifesto os vínculos estreitos e a conivência entre ambos. Se desmascarou uma democracia de baixa intensidade, e seu sequestro por parte do poder financeiro, onde quem governa não está a serviço dos 99% mas sim dos 1%. Se conseguiu modificar o imaginário coletivo e a paisagem de fundo. A crise significou um terremoto social, político e econômico, mas a emergência do 15M têm sido, também, em sentido inverso, gerando um processo de repolitização da sociedade. A crise profunda e a emergência do movimento permitiu “pensar grande” e “atuar grande”. Hoje já não só se exige a reforma do sistema bancário mas sim se defende a expropriação e a nacionalização dos bancos e o “não pagamento" de uma dívida injusta, ilegítima e ilegal. O repertório de ação se ampliou e radicalizou, já não é suficiente manifestar-se e sair às ruas, agora se ocupam as praças, se tranca o trânsito, se param despejos... A crise põe de manifesto como, frequentemente, o ilegal é legítimo e o ilegítimo é, precisamente, aquele que é legal. Ocupar casas ou bancos pode ser penalizado, enquanto que desalojar famílias é perfeitamente legal. Frente a tão injusta realidade, por que não desobedecer ou apoiar a quem o faz? Esta é uma das grandes vitórias do 15M: normalizar estas formas de luta e fazê-las socialmente aceitáveis. E que desafios e perspectivas se apresentam ? Mudar o mundo de base não é uma tarefa nem fácil nem imediata, por isso, como bem assinalava o filósofo Daniel Bensaïd, é necessário armar-se de “uma lenta impaciência”. Há que reconstruir outra correlação de forças entre quem ostenta o poder e a grane maioria da sociedade e isto requer um longo caminho, não sempre linear nem previsível. E o 15M é tão só o prólogo deste ciclo de lutas que começou. Ao mesmo tempo, conseguir vitórias concretas é extremamente difícil, além de algumas conquistas defensivas. Apesar de que a indignação e o mal estar social se ampliam, as políticas de cortes se intensificam. Lutar contra a estigmatização, a criminalização e a repressão é outra das tarefas fundamentais no próximo período. A erosão do Estado de direito vai acompanhada da emergência do Estado de exceção. Assim o temos visto. Ao menor Estado social, maior Estado policial. Se começa por estigmatizar a quems se mobiliza tachando-os de “perroflautas” ( cachorro e flauta), se passa a sua criminalização dizendo que são “violentos anti-sistema”, até sua repressão mediante detenções preventivas, páginas web delatoras, etc. Se trata de criar “um inimigo”, para justificar sua repressão. A política do medo, da intimidação, é a outra cara da política dos cortes. Mas a massividade dos protestos é o melhor antídoto contra ditas medidas. Como estigmatizar os avós de um município que ocupam um ambulatório contra seu fechamento?, como reprimir duramente a quem se defendo com livros e mãos?... se pode fazer, e se faz, mas não sem pagar um custo alto na opinião pública. Até agora a repressão tem sido um bumerangue que volta contra o poder. Frequentemente se tem dito que com o 15M “se perdeu o medo”, mas o “medo” continua muito presente no lugar de trabalho, onde o capital domina sem apenas sacudidas. A submissão das direções dos sindicatos majoritários frente ao governo e a patronal pesa como uma rocha no conjunto dos movimentos sociais. É necessário um sindicalismo combativo, que tenha como eixo de gravidade não as negociações por cima mas sim a luta por baixo e que defenda uma cultura da mobilização e solidariedade. E se o movimento propõe uma mudança radical de paradigmas não pode esquecer outros aspectos fundamentais da crise, além dos econômicos e a luta contra os cortes, a dívida e as privatizações. A vertente ecológica e climática da crise é um elemento central. Não é possível pensar “outro mundo” sem combater a lógica produtivista de um sistema que não tem em conta os limites da terra. Crise econômica e ecológica estão intimamente entrelaçadas. Como tampouco é possível uma alternativa que não busque acabar com um sistema patriarcal que invisibiliza, supedita e não reconhece o trabalho das mulheres. Sem ir mais longe, a crise econômica atual tem, claramente, rosto feminimo. A coordenação internacional é outro dos grandes desafios a aprofundar. Apesar de que o movimento conta com jornadas de mobilização global exitosas, como do passado 15 de outubro de 2011 e agora as do 12M e o 15M, sua coordenação é ainda frágil. O capitalismo é global e, consequentemente, as resistências ao mesmo tem que ser globais, internacionalistas e solidárias. Da praça à indignação mundial há um caminho o de ida e volta pelo qual se terá que transitar cada vez mais. Olhando um ano atrás, poucos haviam previsto a magnitude dos cortes (chegando a modificar a Constituição para por um teto ao déficit público) o da repressão (ameaçando com a reforma do Código Penal para penalizar severamente as ações diretas não violentas), mas tampouco teríamos imaginado esta maré indignada que sacudiu com força o panorama político e social. Em tempos de convulsão são falsas as certezas e só temos uma: quem ostentam o poder não renunciará sem mais nem menos ao seus privilégios. Não sabemos o resultado deste “combate” entre os “de cima” e os “de baixo”, mas se não lutamos a partida estará perdida de antemão. *Esther Vivas é co-autora, junto com Josep Maria Antentas, de “Planeta indignado. Ocupando o futuro” (Sequitur). **Público.es, 11/05/2012. Tradução Português: Paulo Marques

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