quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Carta de Arnaldo Otegi



Arnaldo Otegi,líder da esquerda independentista basca, que se encontra preso atualmente, escreve uma carta sobre a declaração da ETA de fim definitivo da luta armada. Otegi está preso justamente por ser um dos protagonistas da mudança de estratégia política da esquerda abertzale que levou ao atual cenário de fim da violência política.


Hemos construido tenaz y laboriosamente este momento histórico en Euskal Herria. La valiente decisión hecha publica por la Organización ETA de cesar de manera definitiva en su campaña armada acredita de manera indiscutible la sinceridad y honestidad de nuestra apuesta política por las vías exclusivamente democráticas y satisface plenamente nuestros compromisos tanto con el Pueblo Vasco como con la Comunidad Internacional.

Llegar hasta aquí no ha sido sencillo, ha sido una tarea tenaz, difícil y llena de dificultades, pero me siento absolutamente orgulloso de que ahora como siempre, la responsabilidad de la Izquierda Abertzale se ha impuesto sobre cualquier otra consideración.

En la carta que hicimos publica desde la prisión de Extremera apenas dos semanas después de nuestro encarcelamiento decíamos textualmente: “no se trata de esperar lo que otros puedan ofrecer, sino de hacer aquello que nosotr@s podemos y debemos hacer”.

Y lo que desde nuestro punto de vista y debemos hacer, con el objetivo de volver a “sorprender” a un Estado instalado cómodamente en el inmovilismo y el bloqueo para el que la lógica “antiterrorista” funciona como excusa permanente para el saqueo de nuestros derechos nacionales, era sustituir una estrategia de carácter político militar por una estrategia que se desarrolla única y exclusivamente por vías pacificas y democráticas.

Nuestra tarea no ha sido sencilla, hemos tenido que convencer a nuestros cuadros y militantes de la necesidad de adoptar la estrategia mas eficaz para conseguir nuestros objetivos políticos.

Además hemos tenido que adoptar las medidas necesarias para “blindar” nuestro proceso de cambio de las embestidas de un Estado al que ni interesaba ni interesa el cambio de escenario. Para intentar que no llegáramos hasta aquí nos detuvieron, encarcelaron y condenaron, además de desarrollar nuevas razzias policiaco-judiciales y mantener el recorte de libertades fundamentales …. Y ahora tratan de cavar nuevas trincheras: “primero no había novedad, luego era insuficiente”, después “la pelota esta en su tejado” ¿y ahora? …. Ahora como los unionistas en Irlanda hablan de “disolución”… Esta es una actitud ciertamente inmadura y refleja el autentico miedo que existe al nuevo escenario, pero sencillamente se acabaran las excusas.

Ahora toca resolver las consecuencias del conflicto y construir un marco de paz y libertad justo y duradero. En ese sentido nos felicitamos que el lehendakari Patxi Lopez plantee para la futura convivencia la necesidad de Memoria, Justicia y Verdad como la izquierda abertzale viene manifestando desde siempren pero añado para que no haya dudas: toda la verdad, toda la memoria y toda la justicia.
También tocara mas temprano que tarde abordar las causas del conflicto, para ello nuestra propuesta es escrupulosamente democrática: la aceptación y respeto por parte de tod@s l@s protagonistas políticos , sociales y sindicales, de lo que decida la ciudadanía Vasca sobre su futuro político e institucional. La Izquierda Abertzale se comprometió a traer la parte de la Paz que nos correspondía y hemos cumplido, pero para que la PAZ sea completa corresponde AHORA AL ESTADO hacer desaparecer de nuestro pueblo todas las conculcaciones de los derechos civiles, políticos y humanos que todavía siguen vigentes… será entonces cuando disfrutemos de una Paz plena.

En cualquier caso, queremos mostrar y compartir nuestra alegría con el conjunto del Pueblo Vasco. Tampoco quiero olvidar a tod@s los que han sufrido y sufren las consecuencias de la violencia, para ell@s mi respeto.

Y por ultimo un recuerdo emocionado a tod@s las compañer@s que no podrán disfrutar de este momento, para ell@s mi agradecimiento y la promesa de que seguiremos luchando y trabajando hasta alcanzar nuestros objetivos políticos.


¡Sonreír, ahora … a ganar!

Arnaldo Otegi Mondragon

Centro Penitenciario de Logroño

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Euskal Herria: " O fim do conflito armado não é o fim do conflito político"





Maribu Ugarteburu, porta voz da Esquerda abertzale analisa em entrevista ao canal 3 o atual cenário político do País Basco após a histórica declaração do grupo ETA de final definitivo da luta armada. Segundo Ugarteburo o fim do conflito armado não significa o fim do conflito político que permanece no Pais Basco, que é a luta pelo direito do povo de decidir o seu futuro de forma soberana.

15 de outubro. Indignação Global





15 O: indignação global

Josep Maria Antentas y Esther Vivas
Tradução Português: Paulo Marques


A jornada de 15 de outubro (15O) foi a primeira resposta global coordenada à crise e sinaliza a emergência de um novo movimento internacional. Com as revoluções do norte da África como marco inicial, mediante um efeito de emulação e imitação, o protesto chegou à periferia da Europa. O mundo Mediterrâneo se situava assim no epicentro desta nova onda de contestação social, em um momento onde entrávamos em uma segunda fase da crise que têm na zona do euro seu ponto focal.

Pouco a pouco a rebelião dos indignados foi tomando uma dimensão internacional verdadeira, mais além das ações de simpatia e solidariedade. Primeiro foi o movimento de protesto grego, precedente ao espanhol e as revoltas do mundo árabe, quem integrou a simbologia e os métodos do 15M e inseriu sua lógica na dinâmica internacional nascente. Depois foi, sem dúvida, o arranque dos protestos nos Estados Unidos, todavia em um estágio inicial, a variável mais relevante do momento, cujo destino será crucial para o desenvolvimento global do movimento.

O 15 O têm sido a jornada de protesto mundial mais importante desde a grande mobilização global de 15 de fevereiro de 2003 contra a guerra do Iraque. De dimensões muito mais modestas, expressa, no entanto, uma dinâmica social mais profunda que a histórica jornada contra a guerra. Aquela foi simultaneamente o momento álgido e o final da fase ascendente do ciclo internacional de protestos antiglobalização que eclodiu em novembro de 1999 durante a Cúpula da Organização Mundial do Comercio (OMC) em Seattle, que vinha sendo gestada desde o levante zapatista de janeiro de 1994.

“O mundo têm duas superpotências: os Estados Unidos e a opinião pública mundial” escreveu o New York Yimes depois do 15 F. Desde então, no entanto, a coordenação internacional dos protestos definhou e os instrumentos lançados pelo movimento antiglobalização, como o Fórum Social Mundial, perderam força, centralidade e utilidade concreta.

O contexto atual é muito distinto daquele onde emergiu o movimento antiglobalização no final do século anterior. O presente ciclo se desenvolve em meio de uma crise sistêmica de dimensões históricas e por isso a profundidade do movimento social em curso e seu enraizamento social é sem dúvida alguma maior. A vitalidade do 15O no Estado espanhol surpreendeu de novo aos próprios espanhóis , desmentindo assim algumas análises impressionistas sobre a crise do movimento 15M que haviam proliferado nas últimas semanas. Não estamos frente a um fenômeno episódico ou conjuntural, mas sim no começo de uma nova onda contestatória que expressa um maremoto fundo que não vai evaporar-se.

A própria natureza do capitalismo global e a magnitude da crise contemporânea estimula a internacionalização do protesto social. O slogan “unidos pela mudança global ” expressa bem este novo “internacionalismo da indignação” que emana do 15O, cujo desafio é desencadear um movimento global que sinalize outro caminho de saída da presente crise civilizatória.

A diferença do período antiglobalização, a inter-relação entre os distintos planos espaciais da ação, o local,o nacional-estatal e o internacional, é agora muito mais sólida. O vínculo entre o local e o global, o concreto e o geral é muito direto e evidente. Com as ressonâncias das mobilizações no mundo árabe ao fundo, o 15M estourou como um protesto no Estado espanhol com manifestações em bastantes cidades. Rapidamente se dispersou geograficamente por um sem fim de municípios e pelos bairros das grandes urbes. As s assembléias dos bairros nasceram ou se fortaleceram sentindo-se parte de um movimento geral. Sua atividade localiza as demandas e objetivos globais do movimento e globaliza os problemas concretos particulares. Ha um caminho de ida e volta do bairrio ao 15O e vice-versa.

Desde seu estouro o movimento têm comportado em nosso país um forte processo de repolitização da sociedade e re-interesse pelos assuntos coletivos. A maré indignada não têm alcançado, todavia, consistência suficiente para provocar uma mudança de rumo e de paradigma, mas sim supôs um desafio sem precedentes a um neoliberalismo de muito pouca legitimidade e as tentativas de socializar o custo da crise , que até poucos meses parecia incontestável. Acima de tudo,o recorrido que vai do 15M até o 15O transmitiu uma mensagem de esperança na capacidade coletiva de poder incidir no sombrio curso da humanidade. Não é em vão que a indignação é, justamente, como assinalou o filósofo Daniel Bensaïd “o contrário do hábito e da resignação”.


*Josep Maria Antentas é professor de sociología da UAB e Esther Vivas, Centro de Estudios sobre Movimentos Sociaias (CEMS) de la UPF.


+ web: http://esthervivas.wordpress.com

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A ETA anuncia o fim definitivo de sua atividade armada




ETA o braço armado do Movimento Nacional de Libertação do Pais Basco, manteve a luta armada pela independência do país por mais de 50 anos. Com a mudança de cenário e avanço político da esquerda indendentista a estratégia militar chegou ao fim.



Comunicado Histórico: ETA comunica em tres idiomas declaração de fim definitivo das ações armadas. A luta pela independencia definitiva agora se dará exclusivamente no campo político.


A ETA acaba de anunciar «o fim definitivo da sua actividade armada». Através de um comunicado enviado ao Gara, apenas três dias depois da Declaração de Aiete, a organização armada basca comunica que tomou esta decisão histórica e ainda o seu «compromisso claro, firme e definitivo» com a «superação do confronto armado». Com esse objectivo, faz «um apelo aos governos de Espanha e França para que iniciem um processo de diálogo directo» com vista a solucionar «as consequências do conflito».
VER: Gara






Um novo cenário que se abre com a força política da esquerda independentista basca.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

15 de outubro: Por uma mudança global de caráter anticapitalista







15 de outubro: Por uma mudança global de caráter anticapitalista
Por Paulo Marques


No dia 15 de outubro será realizado um protesto global a partir das grandes mobilizações de massa que iniciaram este ano, começando pelos povos árabes e avançando pela Europa e culminando com o "ocupa Wall Street". Este sem dúvida é o mais sintomático resultado da pior crise da história do capitalismo. Diferentemente do diagnóstico correto feito por Lenin de que as revoluções no século XX se dariam no elo mais fraco da cadeia imperialista, podemos dizer que no século XXI estamos vendo que as revoluções estão acontecendo no elo mais forte da cadeia. Ou seja, a história está dando razão a Marx, que previu o aprofundamento das contradições do capitalismo nos seus centros mais dinâmicos. A Europa ocidental, do capitalismo mais avançado, assim como o império Americano, se tornam hoje palco das mais significativas resistências populares ao sistema que transforma os seres humanos em mercadorias. Quem diria que no coração do império capitalista, na fortaleza ideológica do capital como Wall Street, veríamos epicentro de uma mobilização de massas anticapitalista?

É correto afirmar que há uma ausência de projeto alternativo ao capitalismo. A experiência malograda do que foi o "socialismo real" como um capitalismo de Estado, calou fundo na esquerda que, perdida na tempestade, não foi capaz até hoje de apresentar uma alternativa à triunfante lógica do capital. Um projeto político para além do capital ainda permanece como um desafio para os adversários do sistema.

Mas é inegável também o caráter anti-capitalista deste movimento, mesmo que de forma subjetiva. As palavras de ordem do tipo " não somos mercadoria", " somos os 99%" contra o 1% que acumula a riqueza produzida por todos", têm um enorme conteúdo simbólico anti-capitalista. Aponta para a raiz do problema, ou seja, o modelo de concentração da riqueza e exploração que a maioria sofre de uma minoria de privilegiados. O sistema: Estado, economia, cultura, política, sociedade realmente existente foram construídos para o funcionamento deste sistema. Atacar as raízes do problema é atacar as estruturas que o sustentam.

No que diz respeito ao Brasil, vivemos um momento paradoxal. O país vive um período de crescimento econômico a partir da retomada de um projeto de caráter neo-desenvolvimentista levado a cabo pela coligação social democrata capitaneada pelo PT em aliança com setores liberais conservadores. A legitimidade do governo está assentado tanto na trajetória do PT vinculado aos movimentos sociais, como no que representou a gestão Lula, que foi a retomada do projeto interrompido em 1964 com o golpe militar. O projeto é nitidamente capitalista e, portanto,têm em sua essência limites muito concretos, sem falar na "jaula de ferro" da aliança com os "guardiões do status quo" que garante a governabilidade.

Nesse sentido, a esquerda, os movimentos sociais, que inegavelmente obtiveram alguns espaços no aparelho de Estado com a ascensão do PT, mesmo que insuficientes, estão em uma encruzilhada, na medida em que o "seu" governo não avança nas reformas que teriam caráter estrutural. Ou seja, a reforma tributária, para que os ricos pela primeira vez paguem imposto neste país, para viabilizar as políticas sociais; a reforma política para desmercantilizar o processo decisório e iniciar a construção de uma democracia substantiva e por fim uma regulamentação dos meios de comunicação, dando fim aos monopólios da informação e da cultura.

Essa seria sem dúvida uma agenda mínima de caráter anti-sistema que é obvio, não poderá limitar-se a isso. Mas que poderá abrir importantes perspectivas para uma agenda mais avançada, que acredito deve estar também no campo econômico. Em poucas palavras: Na construção de uma outra economia.

Entretanto, cabe perguntar : Quem hoje na esquerda brasileira está formulando ou defendendo propostas de uma "outra economia"? Me arrisco a dizer que são poucos. A incapacidade da esquerda de livrar-se de dogmas de um marxismo de cartilha do passado, impede que se pense em transformações no campo econômico, da produção, distribuição, sem antes passar pela etapa de "tomada do Estado". Nesta estratégia limitada não me refiro aos partidos social democratas como o PT (para este a via parlamentar já dá conta de sua tarefa histórica), mas sim aqueles que se autodenominam de "revolucionários" como o PSOL, PSTU por exemplo.

Não sou adepto do "mudar o mundo sem tomar o poder", entretanto, "tomar o poder" é muito mais que ocupar esferas do aparelho do Estado, principalmente o Estado restrito, como diria João Bernardo. A questão é, quando a esquerda vai avançar na ocupação do Estado Ampliado"? , ou seja, o controle dos meios de produção, de forma coletiva, como parte fundamental de uma economia não capitalista?

Infelizmente no Brasil a agenda da esquerda não avança nesta discussão. Oxalá este movimento global anti-sistema, cuja diversidade é sua fortaleza mas também pode ser sua fraqueza ( vide o Forum Social Mundial) , tenha ousadia suficiente para ultrapassar a mera critica, possibilitando o surgimento, desde já, de projetos alternativos para uma outra economia, outra cultura e consequentemente outra forma de sociabilidade. Quem sabe avançando para construir na prática o que o velho Marx um dia chamou de " sociedade dos livres produtores associados".

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Protesto global contra o sistema capitalista dia 15 de outubro


99 razones para movilizarse #15Oct "Unidos por un cambio global" from Ivan Roiz on Vimeo.



No dia 15 de outubro pessoas de todo o mundo tomarão as ruas e praças. Desde América a Ásia, desde África a Europa, pessoas se levantam para reclamar seus direitos e pedir uma autêntica democracia.

Agora chegou o momento de unir-mos todos em um protesto não violento em escala global.

#15oct
#globalchange
#worldrevolution

Ocupa Wall Street é o movimento mais importante do mundo hoje




Ocupa Wall Street é o movimento mais importante do mundo hoje

Naomi Klein

Foi uma honra, para mim, ter sido convidada a falar em Occupy Wall Street na 5ª-feira à noite. Dado que os amplificadores estão (infelizmente) proibidos, e o que eu disser terá de ser repetido por centenas de pessoas, para que outros possam ouvir (o chamado “microfone humano”), o que vou dizer na Praça Liberty Plaza terá de ser bem curto. Sabendo disso, distribuo aqui a versão completa, mais longa, sem cortes, da minha fala.

Occupy Wall Street é a coisa mais importante do mundo hoje[1]

Eu amo vocês.

E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto.

Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão.

Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo.

Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.

Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou.

“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.

Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos anti-globalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”.

Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.

O Ocupa Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados.

Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá.

Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.

Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.

Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.

Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.

A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.

Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.

Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.

A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.

A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.

Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.

É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.

Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:

Nossas roupas.

Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.

Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.

E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:

Nossa coragem.

Nossa bússola moral.

Como tratamos uns aos outros.

Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.

Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.

Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ela é. De verdade, ela é. Mesmo.

[1] Discurso originalmente publicado no The Nation, em http://www.thenation.com/article/163844/occupy-wall-street-most-important-thing-world-now. Tradução para o português do Brasil, de Idelber Alvelar, da Revista Fórum, em http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_noticia.php?codNoticia=9518/a-coisa-mais-importante-do-mundo-.

sábado, 1 de outubro de 2011

A última decisão de Allende



Presidente Salvador Allende, um símbolo que permanece cada vez mais forte nas lutas sociais de hoje.

La ultima decision de Salvador Allende from Canaiman on Vimeo.



Este documentário do diretor chileno Patrício Henrique apresenta as últimas horas trágicas do presidente chileno Salvador Allende. O filme ilustra magistralmente como as Forças Armadas do Chile, dirigidas plo general Pinochet, bombardearam o Palacio Presidencial em 11 de setembroe de 1973, acabando no assassinato do presidente legitimamente eleito.Uma história que jamais deve ser esquecida.