quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Revista Istoé mente para atacar MST

Não é a primeira vez que a mídia burguesa tenta destruir o MST O fim da ética da IstoÉ, a revista que vende reportagens por quilo Da Secretaria Nacional do MST A revista IstoÉ publica na capa da edição desta semana um boné do MST bem velho e surrado, sob terras forradas de pedregulhos. Decreta na capa “O fim do MST”, que teria perdido a base de trabalhadores rurais e apoio da sociedade. Premissa errada, abordagem errada e conclusões erradas. A mentira A IstoÉ informa a seus leitores que há 3.579 famílias acampadas no Brasil, das quais somente 1.204 seriam do MST. A revista mente ou equivoca-se fragorosamente. E a partir disso dá uma capa de revista. Segundo a revista, o número de acampamentos do MST caiu nos últimos 10 anos. E teria chegado a apenas 1.204 famílias acampadas, em nove acampamentos em todo o país. Temos atualmente mais de 60 mil famílias acampadas em 24 estados. Levantamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) aponta que há 156 mil famílias acampadas no país, somando todos os movimentos que lutam pela democratização da terra. A revista tentou dar um tom de credibilidade com as visitas a uma região do Rio Grande do Sul, onde nasceu o Movimento, e ao Pontal do Paranapanema, em São Paulo. Se contassem apenas os acampados nessas duas regiões, chegariam a um número bem maior do que divulgou. A reportagem poderia também ter ido à Bahia, por exemplo, onde há mais de 20 mil famílias acampadas que organizamos. O repórter teve oportunidade de receber esses esclarecimentos e até a lista de acampamentos pelo país. Mas não quis ou não fez questão, porque se negou a mandar as perguntas por e-mail para o nosso setor de comunicação. Outra forma seria perguntar para o Incra ou pesquisar no cadastro do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). Tampouco isso a IstoÉ fez. Se foi um erro, além de incompetente, a direção da IstoÉ é irresponsável ao amplificá-lo na capa da revista. Se não foi um erro, há mais mistérios entre o céu e a Terra do que supõe a nossa vã filosofia, como escreveu William Shakespeare. O desvio A IstoÉ se notabilizou nos últimos tempos nos meios jornalísticos como uma revista venal. A revista é do tipo “pagou, levou”. Tanto é que tem o apelido de "QuantoÉ". Governos, empresas, partidos, entidades de classe, igrejas (vejam a capa da semana anterior) compram matérias e capas da revista. E pagam por quilo, pelo “peso” da matéria. A matéria da IstoÉ não é fruto de um trabalho jornalístico, mas de interesses de setores que são contra os movimentos sociais e a Reforma Agrária. Não é de se impressionar uma vez que a revista abandonou qualquer compromisso com jornalismo sério com credibilidade, virando um “ativo” para especuladores. Nelson Tanure e Daniel Dantas, do Grupo Opportunity, banqueiro marcado por casos de corrupção, disputaram a compra da revista em 2007. Com o que esses tipos têm compromisso? Com o dinheiro deles. Reação do latifúndio A matéria é uma reação à nossa jornada de lutas de agosto. Foram mobilizados mais de 50 mil trabalhadores rurais, em 20 estados. Um acampamento em Brasília, com 4 mil trabalhadores rurais, fez mobilizações durante uma semana e ocupou o Ministério da Fazenda para cobrar medidas para avançar a Reforma Agrária. A jornada foi vitoriosa e demonstrou a representatividade social e a solidez das nossas reivindicações na luta pela Reforma Agrária. O governo dobrou o orçamento para a desapropriação de terras para assentar 20 mil famílias até o final do ano, liberou o orçamento para cursos para trabalhadores Sem Terra, anunciou a criação de um programa de alfabetização e a criação de um programa de agroindústrias. Interesses foram contrariados e se articularam para atacar o nosso Movimento e a Reforma Agrária. Para isso, usam a imprensa venal para alcançar seus objetivos. Os resultados da jornada e a reação do latifúndio do agronegócio, por meio de uma revista, apenas confirmam que o MST é forte e representa uma resistência à transformação do Brasil numa plataforma transnacional de produção de matéria-prima para exportação e à contaminação das lavouras brasileiras pela utilização excessiva de agrotóxicos. A luta vai continuar até a realização da Reforma Agrária e a consolidação de um novo modelo agrícola, baseado em pequenas e médias propriedades, no desenvolvimento do meio rural, na produção de alimentos para o povo brasileiro sem agrotóxicos por meio da agroecologia.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Estado Espanhol condena a dez anos de prisão líderes da esquerda independentista basca

Arnaldo Otegi, o "Mandela Basco" é o maior símbolo da luta pela independencia do País Basco. Foi deputado quando o partido Batasuna era legalizado, foi representante da esquerda independentista nas negociações de paz realizadas em 2006 com o Estado Espanhol, sendo preso em 2009 quando reorganizava a nova estratégia de paz da esquerda basca, com o fim da luta armada e a opção de luta por vias políticas e pacíficas. que deu origem a coligação BILDU, vencedora das eleições municipais de maio passado. Foi condenado por construir o atual processo de paz no País Basco.
OPÇÃO PELA REPRESSÃOEstado Espanhol condena dirigentes da esquerda independentista basca responsáveis pelo processo de paz no País Basco O Estado espanhol fez uma opção clara pela condenação ao processo de paz vivido no Pais Basco. A sentença contra 5 lideranças do processo de paz foi "balde de água fria" na construção de um cenário de paz e opção pela luta política. Cada vez fica mais claro que o grande medo do Estado Espanhol é a paz e a democracia, pois o povo basco demonstra em todas as oportunidades que tem de expressar-se livremente nas urnas que apoio a esquerda independentista e isso é o grande medo do Estado que mantém sua política de condeção a todos que defendem publicamente a independencia do País Basco. Após 700 dias presos 5 líderanças da esquerda independentista basca(Izquierda abertzale) foram condenados ontem a 10 e 8 anos de prisão pelo chamado "caso Betaragune ( local de encontro em euskera). O tribunal especial espanhol condenou Arnaldo Otegi e Rafa Díez a dez anos de prisão por "integração a ETA" na "qualidade de dirigentes", abraçando assim a tese do Estado Esapnhol. A sentença foi notificada oficialmente nesta manhã. Os demais militantes, Sonia Jacinto, Arkaitz Rodríguez e Miren Zabaleta foram condenados a oito anos, enquanto Txelui Moreno, Amaia Esnal e Mañel Serra foram absolvidos, depois de que o fiscal os retirou a acusação. A acusação como sempre foi de "pertencimento ao grupo armado ETA". O Estado Espanhol acusou os 5 líderes independentistas bascos de formar um organismo denominado "Betaragune" que atuava sob as ordens da ETA". Com essa sentença o estado Espanhol demonstra que fez uma opção pela repressão e não pelo diálogo em busca da paz, pois os acusados e agora condenados são exatamente os maiores responsáveis pela nova posição da esquerda independentista de abandonar a luta armada e construir uma saída política e pacifica. A partir da ação de Arnaldo Otegi, Rafa Diez e seus companheiros foi levada a diante a proposta de construção da estratégia de ação política da esquerda independentista com a criação da coligação BILDU ( unir) que participou das eleições municipais de maio passado e foi a segunda força, elegendo mais de mil vereadores no Pais Basco e mais de 70 prefeitos. A rotunda vitória de Bildu, coligação da esquerda abertzale e o fim das ações armadas da ETA foi a demonstração clara de que os objetivos de Otegi e seus companheiros teve enorme êxito, reconhecido pela maioría esmagadora da sociedade basca que expressou esse reconhecimento nas urnas com a votação massiva nos candidatos da esquerda independentista.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Victor Jara vive




Hoje completa-se 38 anos do assassinato do cantor chileno Victor Jara pelos fascistas de Pinochet. Militante comunista, revoluciónario Victor representava a nova cultura emancipada que nascia do socialismo chileno de Salvador Allende. Um perigo para o império e os fascistas que não só destruíram brutalmente a experiência chilena como buscaram eliminar, através do assassinato vil, todos que simbolizavam aquela esperança de um mundo melhor. Nossa homenagem a Victor e todos os cantores e artistas que fazem de seu talento uma arma contra as injustiças e desigualdades.

Para quem quer conhecer a história de Victor Jara indicamos a leitura do livro de sua companheira Joan Jara " Canção inacabada, a vida e a obra de Victor Jara". Publicado no Brasil pela Editora Record.

Publicamos um pequeno artigo homenagem de Luiz Alberto Nieto, postado hoje no site kaosenlared.net e traduzido por Paulo Marques:

38 anos da semeadura de Victor Jara

Ha 38 anos, um 16 de Setembro 1973 é assassinado por verdugos, criminosos e fascistas o revolucionário, cantor, poeta, diretor e ator de teatro Víctor Jara, quem ainda prisioneiro, ferido, com suas mãos destrossadas escreveu sua última mensagem antes de ser assassinado no estádio nacional do Chile: " somos cinco mil". Em um pedaço de papel, destes que se usam para fazer cigarros. Aí colocou sua última idéIa, seu lamento, seu desejo e sua visão.
Assim se executava mais um dos crimes da nascente ditadura fascista e criminosa de Pinochet, quem em poucos dias havia assassinado milhares de chilenos. Primero os seguidores e partidários de Allende, revolucionários, dirigentes, vanguarda, logo até os próprios inimigos e opositores.
Víctor foi uma voz dentro do processo revolucionário Chileno, desde suas diferentes trincheiras de luta soube ser um exemplo para a causa e da causa. Nascido no campo soube valorizar a natureza e suas raízes. Em 1966 grava seu primeiro disco, o amor verdadeiro foi aos trabalhadores do campo, a maioria de suas canções refletem as injustiças e abusos que se cometíam contra o povo, falou , cantou a desigualdade de classes.

Diretor de teatro até 1970, quando começa sua dedicação integral às atividades sociais. Marxista de convicção, comunista tomando elementos da situação chilena do momento. Realizou una série de documentários que iam contra o fascismo da guerra civil.
Víctor se incorporou de imediato na campanha de Salvador Allende com a qual colaborou e participou, acreditava no novo homem, tinha um sonho. O sonho de um Chile novo bem diferente, onde todos tivesse lugar e onde não houvesse diferenças de classe.

O triste e doloroso é escutar ou ler o relato de sua amada; Joan Jara, que descreve a forma eem que o viu , seu estado tão destruído, de como o haviam torturado. Mas isto não foi impedimento para desde esse lugar seguir inspirando-se e escrevendo, os militares que o golpearam e torturaram, não puderam dobrar sua moral, não puderam matar suas esperanças.

Víctor segue cantando hoje desde onde esteja, segue apontando com sua voz, segue lutando, seu fusil: a canción, suas balas: as letras. Junto con Ali Primera, Mercedes Sosa, Violeta Parra, Facundo Cabral, Fonseca, farão um coro de esperança com Pablo, com Rubén, Martí, escreverão o poema de alento da América. Que será a inspiração para a nova vida, a nova pátria. Allende e tu, guiarão com Manuel, com Pablo as luta que virão.

Seria pouco, muito pouco falar de ti, o escrever sobre ti. O único que posso dizer é : Víctor vive e não desmaia em sua luta, sua música, suas canções são guias de luta, para sempre Victor Jara, que teus assassinos que ainda não pagaran por ele, o farão em algum momento, isso não se pode esquecer e onde seja será a justiça, até sempre companheiro Jara.


Luis Alberto Nieto.







Manifiesto
Victor Jara

Yo no canto por cantar
ni por tener buena voz
canto porque la guitarra
tiene sentido y razon,
tiene corazon de tierra
y alas de palomita,
es como el agua bendita
santigua glorias y penas,
aqui se encajo mi canto
como dijera Violeta
guitarra trabajadora
con olor a primavera.

Que no es guitarra de ricos
ni cosa que se parezca
mi canto es de los andamios
para alcanzar las estrellas,
que el canto tiene sentido
cuando palpita en las venas
del que morira cantando
las verdades verdaderas,
no las lisonjas fugaces
ni las famas extranjeras
sino el canto de una alondra
hasta el fondo de la tierra.

Ahi donde llega todo
y donde todo comienza
canto que ha sido valiente
siempre sera cancion nueva.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O veneno está na mesa- O novo documentário de Silvio Tendler



O novo documentário do cineasta Silvio Tendler demonstra de forma clara o que muitos não sabem e os que sabem não querem que se saiba: QUe comemos quantidades enormes de veneno diariamente em nossas refeições.





Silvio Tendler mais uma vez surpreende com um novo e fundamental documentário. O Veneno está na mesa é uma denuncia ao uso indiscriminado de venenos nas lavouras, a pressão das indústrias de agrotóxicos e a submissão dos produtores rurais. O autor de documentários históricos como JK e Jango e realizador de mais de 30 filmes, Silvio não só realiza mais um documentário, mas em consonância com sua militância em defesa das causas populares, produz um instrumento de esclarecimento e conscientização do significado do predomínio dos agrotóxicos na produção de alimentos. Silvio não comercializará o documentário que está no youtube de forma livre para ampla divulgação.
Só temos que agradecer a Silvio e parabenizá-lo por mais essa obra que certamente será vista por milhares em todo o país.

Abaixo o filme na íntegra, assista e divulgue


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PT: Do "socialismo petista" à social-democracia brasileira


PT 1980: O socialismo petista era possível



PT 2011: A social democracia possível


PT: Do "socialismo petista" à social-democracia brasileira
Paulo Marques*


O PT é hoje o partido da social-democracia brasileira. Essa afirmação que faço, se fosse dita a uns 10 ou 20 anos atrás seria contestada por grande parte dos líderes do PT. Hoje, no entanto, ano do IV Congresso da legenda, ocorrido no final de semana passada, creio que essa afirmação seria aceita pela maioria da atual direção, isto porque essa é uma realidade incontestável. Neste breve artigo busco argumentar sobre esta realidade, apontando alguns elementos que comprovam essa afirmação.

Quem conhece minimamente a história de três décadas do PT poderá verificar como se deu esse processo de transição de um "partido de novo tipo" dos primeiros manifestos de fundação, passando pelo histórico documento "socialismo petista" até a assimilação da lógica já clássica dos partidos da social democracia européia. Malgrado o PT tenha nascido e se desenvolvido em um processo muito semelhante, para não dizer igual, aos partidos social democratas da Europa ocidental, ou seja, oriundo da organização da classe trabalhadora e seus poderosos sindicatos, o PT sempre procurou se diferenciar, em seus discursos, seja do modelo leninista de partido de quadros e de vanguarda, seja dos tradicionais partidos parlamentares da social democracia. O documento aprovado no 1 Congresso do partido, realizado em 1991 e denominado "socialismo petista", buscava exatamente demarcar essa diferença.

Podemos dizer que essa "demarcação" de uma identidade de "novo tipo" que encantou a esquerda não só na América Latina mas também na Europa, tem um percurso que vai da década de 80 até meados de 1995. Neste período o PT viveu um intenso conflito e debate interno entre diferentes correntes, mas que pode ser resumido em duas posições antagônicas, de um lado aqueles que acreditavam na possibilidade de um partido realmente "de novo tipo", anti-capitalista, socialista e de outro os sociais-democratas, que mesmo sem nunca assumir esta característica, representavam, de forma muito clara, este pensamento(vale destacar que o debate PT/PR - partido revolucionário- já havia sido superado antes do final dos anos 80 pela maioria das tendências de esquerda. Este foi um dos motivos da saída de uma das corrente trotskistas mais conhecidas que viria a formar em 1994 o PSTU).

A disputa dos dois campos vai se decidir somente após a inédita vitória das correntes mais a esquerda do partido que ocorre no 8 encontro nacional, realizado em 1993. Foi neste encontro que a corrente majoritária a Articulação, sofre um racha dando origem a "Articulação de Esquerda". Esse Encontro marca tanto o ápice como a derrocada definitiva dos setores do PT que buscavam construir um partido de caráter anti-capitalista. Foi o suspiro final de um processo iniciado com a criação do PT e que teve na campanha presidencial de 1989 o seu ponto culminante.

Além dos reflexos do 8 encontro a segunda derrota de Lula em 1994 foi decisiva para a contra-ofensiva dos setores social-democratas do PT, no sentido de definir o rumo que o partido deveria tomar dali para frente, o que passava necessariamente pela derrota dos setores da esquerda que ainda acreditavam em um partido anti-capitalista de "novo tipo".

Foi, portanto, em 1995 que a tendência majoritária(social-democrata) que logo adotaria o nome de "Campo Majoritário" assumiria o controle definitvo do partido. Esta corrente, das maiores figuras públicas do partido entre elas Lula, a principal, nunca mais perderia o controle da máquina partidária. A lição do 8 Encontro foi muito bem assimilada pelos sociais democratas do PT.

Para que não houvesse mais risco de perda do comando, foi necessário realizar também mudanças no processo decisório do partido, tirando o poder de decisão dos militantes nos congressos de delegados, em sua grande maioria vinculados as correntes internas, e colocando na mãos dos filiados. Essa foi uma das novas regras do PED, Processo de Eleições Diretas,que abria o partido para que todos os filiados pudessem votar e escolher diretamente seus dirigentes, ou seja, a decisão agora passaria para a massa de novos petistas que não tinham a tradição de militancia ou vinculação com correntes e que acompanhavam o partido pela imprensa, tendo como referencia principal as figuras públicas mais conhecidas.

Os encontros, antes marcados pelas discussões, debates e polêmicas programáticas, são substituidos por momentos de votar na "chapa dos líderes", dos quadros públicos e detentores de mandatos". A dinâmica interna, que funcionava o ano todo com a mobilização de diversos setoriais, núcleos, se resumirá a organização de campanhas eleitorais e periodos de prévias para escolhas de candidatos majoritários.

O PT avançava assim cada vez mais para sua caracterização como um tradicional partido clássico da social democracia. A prioridade dada a disputa nas instituições, os mandatos parlamentares substituindo as correntes de opinião, os núcleos de base substituídos pelos parlamentares representavam este perfil. Isto, no entanto, não impedia que o partido continuasse sendo a principal referencia dos sindicatos e dos movimentos populares, a diferença estava em que agora estes últimos tornavam-se apenas correia de transmissão do partido. Cabe destacar que esse processo não é contraditório ou estranho com a história da social-democracia européia, é mais um elemento da sua identidade.

Outro fator importante a destacar na trajetória do PT é que o partido quando esteve no poder em administrações locais conseguiu inovar na sua ação pública. Pela primeira vez diversos municipios tiveram experiências inovadoras em matéria de políticas públicas que apontavam para a superação não só da política neoliberal mas dos próprios limites da democracia representativa. Isto se deu principalmente nas experiências de democracia direta como o Orçamento Participativo. Não foi por nada que a esquerda européia e latinoamericana escolheu Porto Alegre como capital do Fórum Social Mundial, encontro dos movimentos anti-capitalistas que buscavam no deserto neoliberal alguma alternativa.

Todavia, foi só mesmo quando o PT assumiu o governo federal em 2002 que o seu carácter social-democrata se tornou explícito. O PT no governo central implementou uma agenda tipicamente social-democrata( me refiro a clássica, e não a terceira via de caráter neoliberal): estancou as políticas neoliberais de sucateamento do setor público, retomou o papel do Estado como indutor do desenvolvimento capitalista, criou políticas sociais de grande alcance como o combate a miséria e retomou uma posição soberana e pró-ativa nas relações internacionais com destaque para o protagonismo na rearticulação de um bloco Latinoamericano e de países emergentes como os BRICS.

Em uma perspectiva histõrica poderíamos afirmar que a agenda do PT foi, grosso modo, não só uma agenda social-democrata clássica mas a retomada da agenda nacional-desenvolvimentista interrompida pelo golpe militar de 64. A respeito disso podemos dizer que o PT é, em certa medida, a continuidade do que seria o PTB de Jango e Brizola caso não tivéssemos o golpe militar. Conforme assinala o historiador Jorge ferreira na biografia de João Goulart, lançada recentemente, o PTB também foi o partido dos trabalhadores, dos sindicatos, com uma ampla base social e de intelectuais progressistas que disputou com o partido comunista a representação da classe trabalhadora. Não fosse o golpe militar, o PTB teria todas as condições para tornar-se o partido da social-democracia brasileira. O que o diferenciava do PT é o fato de que no PTB nunca existiram correntes marxistas ou anti-capitalistas. A identidade dos dois está na agenda do desenvolvimento capitalista soberano, antiimperialista, nacionalista, o que é sem dúvida a bandeira do PT hoje.

Portanto, com a chegada do PT ao governo temos o coroamento da estratégia social-democrata, ou seja, a hegemonia total deste pensamento político no seio do partido. O que restava de posição anti-capitalista no interior do partido no inicio do governo Lula deixou de existir com a saída de um grupo de militantes e intelectuais para criar um novo partido, o PSOL, que pelo que demonstrou até hoje, só herdou o que de pior existia no PT, ou seja, o eleitoralismo e o pragmatismo. A única diferença do PSOL hoj é a manutenção da retórica pseudo-revolucionária de orientação trotskista.

Mas, afinal, quando o PT assume sua condição de partido social democrata? Sobre isso não ha consenso entre os analistas.Alguns teoricos dizem que o momento simbólico foi a "Carta aos Brasileiros", documento assinado por Lula sinalizando aos mercados que o governo do PT não seria um governo de rupturas.

Na verdade o PT não teve um "momento" em que assumiu sua condição que, sejamos claros até hoje não é assumida por nenhum petista. O PT mantém seu discurso de partido socialista, talvez por que a palavra social democrata no Brasil ainda esteja sendo utilizada( melhor dizendo sequestrada) ainda pelo partido mais liberal do pais.

O fato é que o PT cumpriu e ainda cumpre um papel histórico na política brasileira. O PT é a continuação das reformas de base do PTB pré-golpe, é o partido da modernização capitalista, da tentativa de construção de um Estado de bem estar social inédito no Brasil, pais que até bem pouco tempo tinha 30 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza e que detém o titulo de mais desigual, apesar de ser a 8 economia do mundo capitalista; um pais no qual ainda existe trabalho escravo, onde trabalhadores rurais são assassinados por lutarem por direitos garantidos na constituição.

Nesse pais, com estas características, a social-democracia adquire caráter revolucionário. Mas não nos enganemos, é do capitalismo que estamos falando, um sistema que se reproduz pela desigualdade, sua essência é a exploração do homem pelo homem, é a ganancia, é a destruição. E em relação a isso a social democracia não tem resposta, não é sua vocação criar um novo sistema. Esse é o papel de um partido anti-capitalista e o PT não é um partido anti-capitalista no sentido de ser um instrumento para transformar as estruturas do sistema. Pode ser sim uma parte da luta dos trabalhadores contra a exploração do capital mas não da substituição por outro sistema.

Por isso que o IV Congresso do PT não é nenhuma novidade. Não surpreendeu ninguém, apenas representou o que é o PT hoje, o verdadeiro partido da social democracia brasileira que tem adversários muito fortes ainda, como o poder econômico dos rentistas, que mesmo não sendo atingido diretamente pelas ações do governo, sentem o risco de que "o povo queira mais", e nesse sentido, o PT é e sempre será seu inimigo principal. Para estes setores quanto menos PT, menos perigo.

Por fim, uma pergunta que a esquerda anti-capitalista deveria se fazer, seja ela a que resta no interior do PT (extremamente minoritária e fragilizada) ou que está em outro partido ou mesmo sem partido: E se o povo quiser mais? Quem terá capacidade para responder a isso? Na Europa a juventude está nas ruas querendo muito mais do que a social democracia e os liberais oferecem como única possibilidade.

A social democracia do PT não será diferente. Nesse sentido, o que está colocado para os anti-capitalistas é a necessidade de pensar, elaborar um projeto anti-capitalista para o futuro mas não um projeto baseado no anti-petismo. O anti-petismo só serve à reação, ao conservadorismo, e esse é o erro daqueles que pretendem ser alternativa ao PT pela esquerda, combatendo o PT. O PT está cumprindo seu papel e tem claramente seu limite.

O que vier para superar o PT não poderá jamais ser o anti-PT, pois as massas trabalhadores beneficiadas pelo projeto social-democrata do PT não o abandonarão, defenderão cada vez mais o projeto que lhe beneficiou. A questão central é que este projeto do PT tem e terá um limite intransponível, que é não ser anti-capitalista. Este espaço precisa ser ocupado, mas não será por uma seita trotskista, um partido de vanguarda leninista. Terá que ser um partido forjado e conectado com as lutas da contemporaneidade, lutas dos explorados da nova economia do conhecimento, das novas tecnologias, das massas de jovens que estarão excluídas do irreal paraiso consumista, da luta contra a alienação e a miséria existencial, cultural e política que o capitalismo apresenta como futuro de todos.

Um partido anti-capitalista se vier a existir, terá que ser necessariamente comunista, mas no sentido marxiano do termo, ou seja, de uma prática emancipada das necessidades que escravisam os homens e mulheres, de construção de uma sociedade dos livres produtores associados. Mas para isso será fundamental ser ousado, capaz de superar os dogmas do passado, ser pós-trotskista, pós-leninista e pós-petista, não anti, mas pós, caso contrário a esquerda continuará dialogando apenas com seus fiéis em pequenos "templos de sectarismo" que nada contribuem para avançar com o olhar no presente e no futuro.


* Paulo Marques é professor, mestre em sociologia pela UFRGS e doutorando em sociologia pela Universidade de Granada na Espanha, com pesquisa sobre Movimento social da Outra Economia no Brasil.

domingo, 4 de setembro de 2011

Três anos de crise, três meses de indignação




Três anos de crise, três meses de indignação
Josep Maria Antentas e Esther Vivas

Tradução: Paulo Marques

Estamos perto do terceiro aniversário da quebra do Lehman Brothers e do estouro formal da crise, "uma racionalização irracional de um sistema irracional" como nos lembra o geógrafo David Harvey. No momento do crack do sistema financeiro, os donos do mundo viveram um breve momento de pânico alarmados pela magnitude de uma crise que não haviam previsto, por sua falta de instrumentos teóricos para comprendê-la e pelo temor a uma forte reação social. Chegaram então as proclamações vazias de "refundação do capitalismo" e os falsos mea culpa que se foram evaporando, uma vez atingido o sistema financeiro e em ausência de una explosão social.

Entrou-se em uma nova fase que, com a crise e o déficit como pretexto, as políticas aplicadas no conjunto da União Européia buscaram recortar os direitos sociais, infligir uma derrota histórica aos trabalhadores e reforçar os mecanismos de dominação de classe. Para os poderes econômicos as regulações sociais que ainda existem no velho continente são um freio para a competitividade internacional da economia européia e um incômodo peso nas costas do se quere desfazer. As medidas do governo Zapatero desde maio de 2010 e os cortes do governo de Mas, na Catalunha, o "governo dos melhores" (com as tijeras), se inscrevem plenamente nesta dinâmica geral.

Chegaremos ao tercero aniversário da crise com uma sensação ambigua. Por um lado, temos a cruel constatação da magnitude da tragédia e os graves efeitos sociais de um descalabro econômico que, longe de haver ficado atrás, ameaça agravar-se com a aceleração das turbulências financeiras internacionais, em um contexto onde as classes dominantes manifestam uma virulenta determinação em fazer com que todos paguem o custo de sua crise. Por outro lado, todavia, chegamos a este ponto com a alentadora evidência de que, finalmente, a revolta social contra um estado de coisas intolerável começou.

Efetivamente, se o movimento do 15M trasmitiu alguma mensagem, esta é da esperança, frente ao desanimo e o pessimismo, na capacidade coletiva de mudar as coisas e de poder ser sujeitos ativos, e não meros objetos passivos das necessidades do capital e sua lógica do beneficio e a competência. A indignação é, precisamente, como assinalava Daniel Bensaïd, "o contrário do hábito e da resignação".

A esperança que o movimento trouxe para aqueles que creêm que "mudar o mundo de base" é diretamente proporcional a inquietude que têm gerado nos grupos dominantes da sociedade, abruptamente interpelados por um novo ator que desafía seu monopólio sobre os assuntos coletivos e a vida pública e questiona as definições oficiais da crise, que apresentam uma visão unilateral e interessada.


O 15M e a política dominante representam duas lógicas diferentes, irreconciliaveis. Por um lado, a aspiração a justiça social e a uma democracia real no sentido mais amplo do termo, quer dizer, a capacidade de decidir sobre o próprio destino. Por outro lado, os discursos dos interesses empresariais e o império do benefício privado. Ambas marcam dois caminhos antagônicos para nossa sociedade. Nosso futuro será muito diferente em função de qual prevaleça.

Em seus três meses de existência, o movimiento significou um forte processo de politização da sociedade, de reinteresse pelos assuntos coletivos e de preocupação social de um espaço público usurpado cotidianamente pelos interesses privados. Têm significado uma aprendizagem colectiva do exercício da democracia e da auto-organização. Nos ensinou a começar a "aprender a desaprender" para nos desfazermos das idéias hegemônicas sobre a realidade e contribuir para difundir um "sentido comúm alternativo".

A maré de indignação mobilizada não alcançou, todavia, suficiente força para deter as políticas em marcha, se bem que têm conquistado algumas vitórias concretas, ainda que defensivas, importantes como a paralização de muitos despejos e o debilitamento da aplicação das ordens de civismo.

Tudo isso, não é um mal balanço para un movimento que, goste-se ou não, está apenas começando a demosstrar do que é capaz.


*Josep Maria Antentas é professor de sociología da UAB e Esther Vivas é membro do Centro de Estudos sobre Movimentos Sociais(CEMS) da UPF.
**Artígo publicado em Público (ed. Catalunya), 03/09/2011.
*** Tradução para o blog www.economiasocialistads.blogspot.com

+ info: http://esthervivas.wordpress.com/