quinta-feira, 13 de outubro de 2011

15 de outubro: Por uma mudança global de caráter anticapitalista







15 de outubro: Por uma mudança global de caráter anticapitalista
Por Paulo Marques


No dia 15 de outubro será realizado um protesto global a partir das grandes mobilizações de massa que iniciaram este ano, começando pelos povos árabes e avançando pela Europa e culminando com o "ocupa Wall Street". Este sem dúvida é o mais sintomático resultado da pior crise da história do capitalismo. Diferentemente do diagnóstico correto feito por Lenin de que as revoluções no século XX se dariam no elo mais fraco da cadeia imperialista, podemos dizer que no século XXI estamos vendo que as revoluções estão acontecendo no elo mais forte da cadeia. Ou seja, a história está dando razão a Marx, que previu o aprofundamento das contradições do capitalismo nos seus centros mais dinâmicos. A Europa ocidental, do capitalismo mais avançado, assim como o império Americano, se tornam hoje palco das mais significativas resistências populares ao sistema que transforma os seres humanos em mercadorias. Quem diria que no coração do império capitalista, na fortaleza ideológica do capital como Wall Street, veríamos epicentro de uma mobilização de massas anticapitalista?

É correto afirmar que há uma ausência de projeto alternativo ao capitalismo. A experiência malograda do que foi o "socialismo real" como um capitalismo de Estado, calou fundo na esquerda que, perdida na tempestade, não foi capaz até hoje de apresentar uma alternativa à triunfante lógica do capital. Um projeto político para além do capital ainda permanece como um desafio para os adversários do sistema.

Mas é inegável também o caráter anti-capitalista deste movimento, mesmo que de forma subjetiva. As palavras de ordem do tipo " não somos mercadoria", " somos os 99%" contra o 1% que acumula a riqueza produzida por todos", têm um enorme conteúdo simbólico anti-capitalista. Aponta para a raiz do problema, ou seja, o modelo de concentração da riqueza e exploração que a maioria sofre de uma minoria de privilegiados. O sistema: Estado, economia, cultura, política, sociedade realmente existente foram construídos para o funcionamento deste sistema. Atacar as raízes do problema é atacar as estruturas que o sustentam.

No que diz respeito ao Brasil, vivemos um momento paradoxal. O país vive um período de crescimento econômico a partir da retomada de um projeto de caráter neo-desenvolvimentista levado a cabo pela coligação social democrata capitaneada pelo PT em aliança com setores liberais conservadores. A legitimidade do governo está assentado tanto na trajetória do PT vinculado aos movimentos sociais, como no que representou a gestão Lula, que foi a retomada do projeto interrompido em 1964 com o golpe militar. O projeto é nitidamente capitalista e, portanto,têm em sua essência limites muito concretos, sem falar na "jaula de ferro" da aliança com os "guardiões do status quo" que garante a governabilidade.

Nesse sentido, a esquerda, os movimentos sociais, que inegavelmente obtiveram alguns espaços no aparelho de Estado com a ascensão do PT, mesmo que insuficientes, estão em uma encruzilhada, na medida em que o "seu" governo não avança nas reformas que teriam caráter estrutural. Ou seja, a reforma tributária, para que os ricos pela primeira vez paguem imposto neste país, para viabilizar as políticas sociais; a reforma política para desmercantilizar o processo decisório e iniciar a construção de uma democracia substantiva e por fim uma regulamentação dos meios de comunicação, dando fim aos monopólios da informação e da cultura.

Essa seria sem dúvida uma agenda mínima de caráter anti-sistema que é obvio, não poderá limitar-se a isso. Mas que poderá abrir importantes perspectivas para uma agenda mais avançada, que acredito deve estar também no campo econômico. Em poucas palavras: Na construção de uma outra economia.

Entretanto, cabe perguntar : Quem hoje na esquerda brasileira está formulando ou defendendo propostas de uma "outra economia"? Me arrisco a dizer que são poucos. A incapacidade da esquerda de livrar-se de dogmas de um marxismo de cartilha do passado, impede que se pense em transformações no campo econômico, da produção, distribuição, sem antes passar pela etapa de "tomada do Estado". Nesta estratégia limitada não me refiro aos partidos social democratas como o PT (para este a via parlamentar já dá conta de sua tarefa histórica), mas sim aqueles que se autodenominam de "revolucionários" como o PSOL, PSTU por exemplo.

Não sou adepto do "mudar o mundo sem tomar o poder", entretanto, "tomar o poder" é muito mais que ocupar esferas do aparelho do Estado, principalmente o Estado restrito, como diria João Bernardo. A questão é, quando a esquerda vai avançar na ocupação do Estado Ampliado"? , ou seja, o controle dos meios de produção, de forma coletiva, como parte fundamental de uma economia não capitalista?

Infelizmente no Brasil a agenda da esquerda não avança nesta discussão. Oxalá este movimento global anti-sistema, cuja diversidade é sua fortaleza mas também pode ser sua fraqueza ( vide o Forum Social Mundial) , tenha ousadia suficiente para ultrapassar a mera critica, possibilitando o surgimento, desde já, de projetos alternativos para uma outra economia, outra cultura e consequentemente outra forma de sociabilidade. Quem sabe avançando para construir na prática o que o velho Marx um dia chamou de " sociedade dos livres produtores associados".

Nenhum comentário: