sexta-feira, 3 de junho de 2011

O significado da vitória da esquerda basca, por Unai Aranzadi


Unai Aranzadi,jornalista e documentarista basco, especialista em conflitos( na foto Unai cobrindo o conflito na Somália)


Entrevista com Unai Aranzadi, jornalista e realizador que faz uma reflexão sobre a grande vitória politica de Bildu, a nova coalizão da esquerda basca.


O colega Unai Aranzadi já é um veterano nos campos de batalha de todo planeta. Já recorreu a maior parte do mundo onde existe um conflito político-militar. Seus trabalhos [1] são publicados no diario basco Gara, trabalha para diferentes ONG´s bascas mas também para as grandes corporações como BBC, Reuters e até CNN. E quando conversamos com ele, se encontra na fronteira quente entre Ecuador e Colombia.

Tem sua redação tanto em Bilbao como em Estocolmo, onde está radicado a alguns anos.
A grande vitória tanto eleitoral como política para a Esquerda basca unida na coalizão Bildu nas eleições de 22 de maio, causou uma grande surpresa entre muitos jornalistas que cubriam o tema. Mas a surpresa não foi tanto para o repórter e documentarista Unai que explica porquê na seguinte entrevista.

Qual é a explicação da tremenda vitória eleitoral que obteve Bildu em 22 de maio? Foi só por falta de uma alternativa política que se votou em uma coalizão que não havia sido provada pelo povo basco?

– Na realidade não é uma surpresa. Essa massa sempre ha estado aí, o que passa é que o estava ilegalizada políticamente ou atomizada em partidos mais pequenos. A sociedade basca é muito crítica com o que acontece ao seu redor, e o que ela idenficou é que o sistema capitalista atual não serve, por isso votou em Bildu. Digamos que Bildu mobilizou muitos agentes sociais, que vão desde o sindicalismo até movimentos estudantis.

Qual é a possibilidade que Bildu se reforce e saia como uma alternativa de governo no País Basco, agora que tem 1000 vereadores e 14-15 prefeituras como base parlamentar, que indiscutivelmente é uma boa base?

– Sendo a segunda força mais votada e a que mais cargos eleitos conquistou, sería possível, mas a tomada do controle parlamentar ainda se apresenta difícil. Para os partidos espanhóis, que também tem representação na Câmara Basca, Bildu é o inimigo número um, e farão todo o possível para evitar que a esquerda soberanista representada por Bildu seja parte do governo autonômico basco. Em qualquer caso e vistos os resultados, fica claro que Bildu não é um partido de resistentes, que também, é sim de ganhadores. Caberia a possibilidad de fazer um governo junto com o também soberanista (mas demcrata-cristão) PNV. Somando ambas forças teriam maioria absoluta. A Madri essa opção lhe aterroriza.

Qual será o “comportamento” de Madri frente ao fato da esquerda basca ser a verdadeira força politica e não tão "manejável" como a direita basca frente aos ditames de Madri?

– O governo espanhol, seu Estado, digamos, todo o conjunto de seu Poder estão alarmados. Hoje, me preocupa que Madri volte a contar com a permisão de Bruxelas para violar os direitos políticos do povo basco. Estamos falando de que Euskal Herria, o povo mais antigo da Europa, optou pelo marxismo de forma clara. É inédito na Europa Ocidental e muitos trabalharão duro para romper o cenário de paz com justiça social que muitos sonhamos. Nós bascos queremos soberania para decidir como queremos viver, e Bildu, a segunda força mais votada quer viver em um sistema de inclinação marxista. É incrível.

O que podemos esperar agora, com os resultados de 22 de maio, por parte da ETA que declarou antes das eleições um cessar fogo indefinido?

– Creio, sem dúvida, que ETA vai seguir adiante com sua trégua. Se o povo basco lhe permitir expressar-se com liberdade, ETA desaparecerá, não tenho a menor dúvida. Por outro lado me preocupa a previsível vitória dos conservadores no Governo espanhol no ano que vem. Essa gente do PP, herdeira do franquismo, é capaz de tudo para manter essa reacionária idéia de uma Espanha imperial.

Enquanto a esquerda europeia, com algumas exceções, se vê mais deprimida e sem um panorama político que poderia lhe tirar disso, o País Basco na noite de 22 de maio parecía ser um verdadeiro e novo bastião de uma jovem esquerda...

– Sim, sem dúvida creio que o é. O País Basco forjou durante séculos uma cultura de resistência que antigamente abarcava o cultural. Se resistía para manter nossa identidade própria, que nos era e é negada. Para nós, nosso povo não é nem melhor nem pior que outros. Só queremos que seja; queremos que nos deixem SER. Não somos supremacistas. Pois bem, penso que esta capacidade de resistência foi transformando-se e evoluindo a outras dimensões de luta, como são, por exemplo, as do feminismo, a ecologia e como não a justiça social. Ha uma grande capacidade de dizer não, ainda que nos ameacem , ainda que nos torturem, insultem ou nos coloquem na prisão. Hoje nós bascos sonhamos com nossa liberdade plena, mas entendemos que jamais um povo poderá ser verdadeiramente livre se há outro no mundo que não o é, por isso somos internacionalistas e estamos desejando construir alianças e cumplicidades com outros povos desta Europa do capital que desejamos mudar.

– Besarkada handi bat Dick (um forte abraço Dick)

* Entrevista publicada em www.kaosenlared.net

** Tradução de Paulo Marques para o blog "A Batalha"

Nenhum comentário: