quarta-feira, 8 de junho de 2011

O movimento 15M: a politização da indignação na Espanha


As praças se enchem





O movimento 15M: a politização da indignação na Espanha
Iñigo Errejón*
Tradução Portugues: Paulo Marques


As praças se enchem

No 15 de maio de 2011 diferentes manifestações, convocadas pelas redes sociais na internet recorreram as principais cidades do Estado Espanhol, sob o lema “Democracia Real Já. Não somos mercadoria nas mãos de políticos e banqueiros”. A de Madri, a mais numerosa com mais de 35.000 pessoas, terminou com a violencia brutal da polícia e mais de 20 detidos, todos aqueles que denunciaram maus tratos. Ao finalizar, duas dezenas de ativistas decidiram ficar e dormir na Puerta del Sol, o centro simbólico de Madri e, por extensão, do Estado espanhol. Foram desalojados de madrugada pela polícia, mas no dia seguinte milhares de pessoas acudíam a mesma praça para apoiar-lhes e para proteger o estabelecimiento de uma nova acampada. Durante essa semana, dezenas de acampadas se instalaram nas praças de todo o país. Quando a Junta Eleitoral Central, máxima autoridade referente a direitos políticos nos períodos eleitorais, declarou “ilegais” as acampadas e concentrações , estas se fizeram ainda mais concorridas e vivas. O movimento ganhava assim uma importante dimensão de desobediência civil de massas, amplamente legitimada. Este aspecto foi especialmente importante no fim de semana de sábado 21 e no domingo 22 de maio, día das eleições municipais e regionais. Segundo a legislação espanhola, está proibido manifestar-se em véspera de eleições. Todavía, o Ministerio do Interior encontrou o modo de justificar a não intervenção policial. Os acampados comprenderam esse día que, atrás de toda lei, há uma correlação de forças que a sustenta e sem a qual é papel molhado.

As acampadas, com o passar do tempo, forma se estruturando e convertendo-se em experiencias de auto-organização popular que têm feito das praças espaços públicos de regulação não estatal, que ademais servem como fóruns de deliberação política no coração mesmo das grandes cidades. Nós que estamos acostumados a caminhar por estas ruas e praças, não podemos conter a emoção ao ver-las agora cheias de faixas, barracas, megafones, assembléias e uma inédita paixão pela coisa pública. Em efeito, após décadas de desprestigio simbólico e erosão legislativa do público, dezenas de pessoas descubriram o compromisso com o comúm, e varriam as ruas já sim sentiam como suas, ofereciam seu trabalho para a acampada ou conversavam com desconhecidos sobre suas queixas comúns e as possíveis soluções.

Na manhã de quinta-feira, 27 de maio, excitados pelos seus bons resultados eleitorais, a direita regionalista catalã tentava desalojar a acampada de Barcelona. Após várias horas de resistência pacífica mas decidida por parte dos ativistas, a polícia voltava a ceder a praça aos indignados, deixando um saldo de dezenas de feridos –um deles ainda hospitalizado- e uma simpatía para com os acampados que crescia paralelo ao rechaço a brutalidade policial, inclusive nos meios de comunicação. O movimento, após este erro tático dos governantes catalães, cresceu em apoio social e em número de acampados. Na Espanha todas as praças mostravam sua solidaridade com Barcelona, enquanto as autoridades apontavam a lição e se cuidavam de não tentar mais desalojos. Ao mesmo tempo , a tomada de praças se extendia pela Europa e em Atenas os manifestantes cercavam o parlamento.


Da resignação ao "Que não nos representam"


Mas, de onde saíam estas dezenas de milhares de pessoas que a imprensa chama “indignad@s”? O 29 de setimbro de 2010 houve uma greve geral contra a reforma trabalhista acordada pelos empresários e o Governo, que recortava direitos trabalhistas históricos e favorecía as demissões. O desemprego, ocorrido em um contexto de erosão da imagem e a capacidade dos sindicatos, foi relativamente exitoso, ainda que de incidência muito menor nos setores de precarização juvenil. Em janeiro de 2011, quando os sindicatos majoritários acordaram já com o governo o duro recorte do sistema público de pensões, a maior parte da indignação com as contra-reformas não se transformou salvo em algumas zonas e setores, em resistência.

Em 7 de abril de 2011 uma manifestação de mais 7000 pessoas atravesou Madri, convocada pela iniciativa “Juventude Sem Futuro”, denunciando que a gestão governamental regressiva da crise arruinava o horizonte de vida de toda uma geração. Que a interpelação fosse em sentido geracional , e que o discurso dos convocantes se movesse deliberadamente entre os termos assumidos por todo o mundo no debate político espanhol –o valor “juventude” e a mobilidade social ascendente bloqueada para a geração mais instruída, o termo “democracia”, etc.- e sua resignificação frente a ordem existente, facilitou que essa convocatória, em um clima geral de resignação e pouca confiança na mobilização popular, tivesse um forte impacto midiático, e a agenda pública, e pavimentou-se o caminho para a politização da indignação: a conversão de lamento pela piora das condições de vida em uma atividade consciente que interpela as vítimas, assinala aos culpados e mobiliza até soluções inimagináveis e, por isso, ilusórias. Estes mesmos jóvens, por certo, conversaram com o Vice-presidente boliviano Álvaro García Linera, em sua visita a Madri no dia 31 de mao passado.

O “movimento 15 de maio” têm continuado e aprofundado essa senda. Têm demostrado que as ruas seguem sendo um espaço de construção de poder político, em que pese a intenção institucional de regulá-la como espaço exclusivamente comercial, e nela têm incorporado o protesto da juventude precarizada, um setor das classes subalternas até agora escasamente mobilizado. Têm demonstrado a cada um dos indignados que forma parte de um coletivo muito amplo. Têm esquivado a criminalização suscitando amplas simpatías na sociedade espanhola, frente aos poderosos. Têm questionado o caráter democrático de um sistema político que subordina a vontade política às decisões tomadas pelos organismos da economía privada, e que esgrime “o mercado” como principio superior da soberanía popular para socializar as perdas de quem nunca socializou seus beneficios. Têm impugnado a representatividade das elites políticas, repudiando-as como uma “casta” que acorda em aplicar recortes que nunca afetam a ela mesma, e tem identificado aos dois partidos majoritários, o Partido Popular e o Partido Socialista Obrero Espanhol, como as duas alternativas de um mesmo regime, que tem a Constituição Espanhola de 1978 pactada com a ditadura como estrutura jurídica e a oligarquía financeira e imobiliária como núcleo dirigente.


Para o futuro ficam, como sempre na ação insurgente, mais dúvidas que certezas. O movimento têm sido até agora pouco capaz de gestionar a tensão entre los tempos necessários da deliberação popular e aqueles da luta política, entre horizontalidade e eficácia. Tampouco os conteúdos “econômicos” lograram fazer um eco destacado entre as propostas dos indignados, mais centrados em uma renovação cívica e moral da vida política espanhola. O cenário institucional, após a avassaladora vitória da direita nas eleições locais e regionais de 22 de maio, aponta para uma dinâmica de maior agressividade do Estado frente a mobilização popular. Faltam, enfim, objetivos e inimigos comúns que cristalizem e cohesionen o nós que se vai conformando, de forma ainda difusa, nas praças. E falta a “vontade de poder”, de passar do protesto a disputar o exercício do poder político. Contudo, está sendo uma primavera democrática que destróe o tempo da resignação


Iñigo Erejón é Doutor en Ciência Política pela Universidad Complutense de Madrid

Nenhum comentário: