sexta-feira, 20 de maio de 2011

Espanha em revolução: A gramática da liberdade


Revolução dos jovens na Espanha

15 de Maio: A linguagem da revolução, uma gramática da liberdade

Luis Martin-Cabrera

tradução: Paulo Marques

April is the cruelest month
, abril é o mês mais cruel escreveu T.S. Elliot, o mês dos apaixonados e dos desencantos, mas Abril, na Espanha, é também o mês que se proclamou a II República depois de encher a Puerta del Sol e expulsar o rei; aquelas fotos em preto e branco falam como as de hoje . E Maio? Mayo é sem dúvida o mê das revoluções, de Paris, a México passando por Berkeley, maio, insiste testarudo, em chamar a porta ansias de revolução, mas , o que está se passando na Espanha?
Aqui, desde tão longe, perdido em um aeroporto dos Estados Unidos, este professor de literatura só pode ver a contraluz, palpar e escutar a distancia, graças entre outras coisas a excelente crônica de Angeles Díez (http://www.rebelion.org/noticia.php?id=128703), o que está passando na Puerta del Sol e em outras praças das cidades, que começam a produzir uma gramática urbana -a Cashba, Tahir, Wisconsin- que recupera “o direito as ruas” para falar contra o consenso neoliberal e a ditadura dos mercados.
Só posso ver o que leio, o que escuto. E o que leio, o que escuto é que os colunistas, essa turba vociferante e infame que enche as ondas de ruido e os jornais de mentiras e banalidades, perdeu a linguagem. Juan Cruz, esse lacaio de PRISA, onipresente em debates televisivos e radiofónicos fala de “ódio as urnas” e de “o perigo de uma solução populista”, um editorial de El País adverte do potencial perigo de um “liberticídio”, como se nossa liberdade não fosse inversamente proporcional a libertade dos mercados, como se os cinco milhões de desempregados tivessem outra liberdade que não fosse a libertade de morrer de fome. Estão nervosos, buscam em sua gramática de banalidades e somente são capazes de dizer, como autômatos, “ha que votar”, “são apolíticos”, está bem que expresen seu descontentamento, mas “não tem soluções ", “ha que respeitar a jornada de reflexão”, “são antisistema, não tem os pés no chão, as únicas soluções são as que podem dar os partidos”.
Não entenderam nada, não querem entender, levam muito tempo produzindo uma linguagem que já não toca a realidade nem obliquamente. Os manifestantes não são apolíticos, são apartidarios como explicou Isaac Rosa, não odeiam as urnas odeiam os bancos e seus políticos servis e tem não só soluções mas sim uma linguagem própria que toca e enche as praças com uma gramática de liberdade: “Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”, “Não somos antisistema, o sistema que é anti-nós", “Sem cú, sem dinheiro e sem medo”, “Não somos um partido político, os que tem que refletir são eles".
Quando há uma revolução? Quando alguém está mais segura e mais feliz fora de casa que em casa, disse Santiago Alba Rico, mas também quando as ruas e as praças criam uma linguagem nova para expressar o desejo e a potencia da emancipação coletiva. Essa potencia não tem nada que ver com a sociedade civil, nem com as novas tecnologias que em qualquer caso são um meio não um fim, nem com o idealismo da juventude, é mais bem a potencia plebeia. Sim, é o povo , o demos, tão manuseado e traído por políticos e sindicatos pactistas, o que escreve em cartazes e muros sua historia e seus desejos com uma linguagem nova em maiúsculas, os indignados querem uma vida digna. O que a prça pede é exatamente isso: que ol governo não abra as portas de Moncloa as 35 empresas mais importantes do país, mas sim que governe para o povo, e com o povo , ao fim e ao cabo democracia é o governo do povo, não uma marca nas mãos de Botín e seus amigos.
Não saberemos o que virá desta potencia plebeia, o que sm sabemos é que já expressa com uma nova linguagem o desejo de um futuro diferente, mais justo. Desde aquí só posso melancolicamente apoiar com todas minhas forças a todos os que resistem nas praças contra o vento e o mar, porque eu, também tive que sair do meu país quando era jovem para poder seguir pensando e escrevendo, para poder ter um futuro que não escolhi, mas sim que me impuseram os mesmos banqueiros e seus servis políticos. ¡Nem um passo atrás, as ruas são nossas!
Luis Martin-Cabrera é professor de literatura em UC, San Diego

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