quinta-feira, 27 de maio de 2010

Cada um com sua História









"A História é um profeta com o olhar voltado para trás, pelo que foi, aponta o que será" Eduardo Galeano.




FRENTE POPULAR: História, presente e futuro.

Paulo Marques

Nesta semana tivemos uma boa noticia no cenário político gaúcho que foi a recriação da Frente Popular com PSB e PCdoB somando-se à candidatura de Tarso Genro ao governo do RS.
Entretanto, um fato chamou a atenção, tão logo foi anunciada a coligação, a colunista Rosane Oliveira do jornal Zero Hora, órgão oficial dos interesses do conservadorismo guasca, informa que PSB e PcdoB vetaram a reedição da “Frente Popular” pois, segundo a colunista, para os dirigentes destes partidos a denominação “remonta a um passado que não existe mais”. Na matéria a colunista informa ainda que a proposta de PT-PSB-PCdoB é batizar a coligação com o nome de “Frente Ampla”, justificada pelo deputado petista Adão Vilaverde como “positivo” pois “sinaliza a necessidade de ampliação do palanque petista”.
Infelizmente constato que alguns setores do PT incorrem mais uma vez no erro que, entre diversos outros, creio tenha contribuido para derrota nas eleições para prefeitura de Porto Alegre, qual seja, o de apostar no abandono da própria história recente de conquistas da esquerda gaúcha.
A questão que se coloca é : Afinal qual é o “passado que não existe mais” para o deputado Beto Albuquerque? A referencia seria a história de vitórias recentes do campo popular, representado por 16 anos de Administração Popular em Porto Alegre e a gestão de Olívio-Rosseto no governo Estadual ( 1999-2002) ? Saliento o recente para afirmar que numa perspectiva histórica, não é possível falar em “passado” em um processo de disputa que ainda está em curso no Estado do Rio Grande do Sul, ou seja, a disputa do campo popular-democrático contra o campo liberal- conservador.
Uma disputa que terá um novo capítulo nesta eleição, na medida em que o projeto da esquerda mais uma vez enfrentará o projeto da direita, representada pelas candidaturas de Fogaça e Yeda ( a desgovernadora no caso cumprindo o papel de “boi de piranha” da direita). Um confronto, portanto, que é concreto.
Nesse sentido, o discurso do “passado que não volta mais” não têm sentido lógico, a não ser para aqueles que não mais se identificam com a história recente do campo popular democrático no Estado. Somente quem não tem nada a ganhar com sua própria história busca, no esquecimento, a estratégia para a disputa. É o caso do campo da direita que a cada eleição procura aparecer como “novo”, sem passado, sem história.
E porque esse “modus operandi” da direita? Simples, não é bom que o eleitor lembre ou saiba de onde vieram e qual os governos e políticas realizaram esses partidos quando no governo. Partidos como PMDB, DEM, PTB, PSDB, PP sempre representaram o mesmo projeto político e estarão sempre juntos para combater o projeto democrático-popular. Estiveram juntos nos governos Simon(1986-1990);Britto ( 1994-1998); Rigotto ( 2002-2006) e Yeda ( 2006-2010) assim como nos 7 anos de governo Fogaça em Porto Alegre.
O que significaram e significam esses governos? A privatização; o corte de recursos para políticas sociais; as políticas de “defcit Zero”, “choque de gestão”, que nada mais represetam do que a velha receita do Estado mínimo neoliberal, sem falar na utilização do Estado para interesses privados com o assalto ao Estado como nunca visto antes como nos casos DETRAN e SOLLUS só para citar os mais escandalosos.
Sem dúvida, para a direita, a estratégia de “esquecer o passado”serve muito. Para isto muda-se de nomes, símbolos, capazes de criar e recriar “biombos” que impeçam que a verdade seja reconhecida.
Já no caso da esquerda, e estamos nos referindo ao campo democrático-popular do RS, realizar a mesma tática da direita é um grave erro político na medida em que a história recente construída pela esquerda no Estado não deveria ser considerada mero “ passado que não existe mais”, pois não foi algo menor, foi uma experiência que tornou o RS uma referência não só no país mas no mundo. Não foi de graça que aqui nasceu o Fórum Social Mundial. Foi o reconhecimento do que de mais avançado o campo popular experimentou em matéria de política pública na sua passagem pelo governo, no que tange ao papel que cumpriu na inovação das relações entre Estado e Sociedade, cujo emblema maior foi o processo de radicalização da democracia, a partir do OP, inaugurado na Administração Popular em 1989 ( em vigor até hoje) e estendido ao Estado do RS no governo popular de Olívio e Rosseto.
Também é importante destacar os programas de caráter emancipatório que serviram de modelo para o governo Lula como o programa de fomento à Economia Solidária e o fortalecimento da Agricultura Familiar, só para citar duas políticas de esquerda com amplo alcance não só social como cultural. Todos programas que foram elinados pelos governos liberais posteriores.
São, portanto, agendas e pautas que estão na ordem do dia de um projeto de avanços da democracia, no sentido de uma democracia substantiva, que não esteja limitada pelos interesses dos detentores do poder econômico. A recriação da “Frente Popular”, com o nome que simboliza essa história viva e esse projeto, deveria representar fundamentalmente a retomada dessa agenda emancipatória, do primeiro governo popular do Rio Grande, interrompida pelos governo liberal-conservador de Rigotto/Yeda, e que a partir da candidatura Tarso, têm a oportunidade de retomar o fio dessa história que continua. Não podemos esquecer que a política se faz também com símbolos, que permanecem quando vitoriosos. Por isso, o minha contrariedade e questionamento da idéia de abandonar o nome Frente Popular .
Cabe salientar que na última derrota do PT na disputa pela prefeitura de Porto Alegre a tática do “esquecimento” da história vitoriosa de 16 anos de Adminsitração Popular e a aposta no discurso do “novo” e de um “futuro” abstrato sem passado , somente reforçou a estratégia da direita de derrotar a esquerda ao menosprezar símbolos que se consolidaram no imaginário popular. O meu temor é que daqui a pouco conceitos como “Participação Popular”, “radicalização da democracia”; “projeto emancipatório”também estejam incluídos no discurso do “passado que não volta mais”.
Por fim, nada mais falso do que afirmar o “fim da história”, a direita ( que no Brasil não assume seu verdadeiro caráter) têm história, que começou com os senhores de escravo, foi responsável por 20 anos de ditadura e hoje representa o agronegócio( dos também senhores de escravo) e os grandes grupos econômicos. Da mesma forma a esquerda têm sua história de resistência, luta e construção da democracia. A pergunta então que fazemos é : A quem interessa esquecer o passado? A quem interessa que a história seja esquecida?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Militancia




Militancia Política
Emir Sader


Lula comparou Dilma a Mandela e isso causou imenso desconforto na direita brasileira, expressa nos militantes dos partidos midiáticos da direita, exercendo como cronistas atualmente. Como autoritários que são, fazem parte do coro que pretende reduzir os militantes da luta contra a ditadura a “terroristas” ou a “agentes de regimes totalitários, que queriam impor aqui”.

Pobres diabos! Revejam a entrevista da Dilma no Senado. Deveria ser passada todos os dias na televisão, para que vejam de que matéria é feita uma militante. Interpelada por um senador que esteve com a ditadura, sobre o fato de que ela confessou que mentiu durante a ditadura e de que garantia haveria de que ela diria a verdade na democracia, ela respondeu que tinha mentido na tortura, para não entregar companheiros da luta contra a ditadura, que ele não sabe como é difícil mentir na tortura, que ela se orgulhava do seu comportamento como jovenzinha submetida durante muito tempo a brutais torturas.

Dilma acrescentou que na ditadura não há verdade, há apenas mentiras, que a verdade só existe na democracia. E que os dois, ela e o senador do DEM estavam em lados opostos na luta entre a ditadura e a democracia. Essa é a atitude de uma militante política da esquerda.A mesma que tiveram tantos centenas de milhares, aqui e em outros países, na luta contra ditaduras, contra regimes de apartheid – como foi o caso de Mandela.

Nas redações da imprensa-partido da direita, é impossível entender isso. Seria insuportável para jornalistas- militantes, que só fazem o que fazem por dinheiro, a quem não passa pela cabeça que um militante da luta contra a ditadura havia optado por aquela atividade por convicção, que colocava em risco sua vida e sua integridade física, por acreditar que o que havia que fazer era lutar por todos os meios contra a ditadura.

O combustível dos valores foi substituído pelo combustível do dinheiro. Essa é a direita. Essa é a imprensa mercantil, aquela que pregou o golpe militar, que saudou o golpe militar, que reproduziu servilmente todos os comunicados falsos da ditadura para tentar esconder seqüestros e execuções como se fossem “enfrentamentos”, que emprestou os carros da empresa (o que pensam disso os funcionários- militantes da empresa da família Frias,tão incomodados com a atitude dos militantes da luta contra a ditadura, que eles apoiaram e da qual se beneficiaram para se enriquecerem? ), que esteve do lado do regime de terror e não do lado dos que lutamos contra a ditadura.

A força deles é a força do dinheiro, a nossa é a força moral, dos que lutamos por causas que escolhemos livremente e às quais entregamos o melhor de nós mesmos.



Postado por Emir Sader às 08:57

quinta-feira, 20 de maio de 2010

CAPITALISMO VERDE





O “PRAGMATISMO VERDE ” DE MARINA SILVA


A candidatura à presidente da senadora e ex- ministra do meio ambiente do governo Lula, Marina Silva, foi saudada por alguns setores do campo da esquerda, particularmente dos movimentos ambientalistas e da Economia Solidária como a possibilidade de que temas centrais para a luta destes movimentos como um novo modelo de desenvolvimento econômico fossem pautados no debate eleitoral, buscando romper com o consenso em torno do desenvolvimentismo capitalista que hegemoniza as propostas em disputa.

Entretanto, com o inicio da exposição das propostas das candidaturas pode-se perceber que a candidata do Partido Verde não irá cumprir essa tarefa e pior que isso, têm sido uma enorme decepção. Para quem leu a entrevista exclusiva da candidata ao grupo RBS e publicado no Jornal Zero Hora desta segunda-feira, tomou um verdadeiro “banho de água fria” nas expectativas de que algo novo seria apresentado. Sem desconhecer todos os méritos da história de vida de Marina e seu compromisso com a pauta ambientalista, o que se viu na entrevista foi uma candidata que seguiu a risca o roteiro e a pauta de interesses do grupo RBS, ou seja, nenhuma proposta que contrariasse os interesses do capitalismo dominantes, como o agronegócio, os transgênicos e o modelo agrícola baseado no latifúndio agro-exportador. Nenhuma defesa da Reforma Agrária e sequer uma menção a Economia Solidária. Ao contrário, o que se ouviu e leu foi uma candidata dominada pela agenda da direita, inclusive com o roteiro tradicional de críticas ao que de mais avançado foi feito no governo Lula como a política externa soberana. As respostas da candidata soaram como música para os ouvidos dos jornalistas amestrados do monopólio das comunicações do Estado.

Sobre a política externa do governo Lula, Marina utilizou o mesmo sofisma da direita reacionária que não aceita a posição soberana do pais frente ao império e o apoio aos governos progressistas da região. Em relação a atuação do Brasil na questão do Irã a candidata faz coro às simplificações grotescas da direita ao dizer afirmar que de que “Acho que eles (o governo brasileiro) deram muita audiência para o Irã.

Um momento de rara coerência entre o discurso e a prática da candidata foi a defesa de uma aliança do PT com o PSDB, pois quem acompanha a trajetória de Marina no partido sabe de suas posições historicamente aliadas aos setores mais à direita do partido que sempre defenderam alianças com o chamado “centro”, eufemismo que a direita sempre usou para sua auto-identificação. Segundo a candidata: “ Se o PSDB e o PT conversassem, com certeza eles conseguiriam uma base mínima de governabilidade e, com essa base mínima de governabilidade, conseguiriam puxar para si os melhores de todos os partidos. É assim que eu quero governar. Ou seja, para a senadora ambientalista não existem mais programas políticos, ideologias, visões de mundo, tudo se resume em pessoas “melhores” ou “piores”.

É com essa “visão Política” que tentamos entender os elogios de Marina ao senador Pedro Simon, a outra razão pode ser o fato de que o octagenário político é um ícone para a RBS. Na entrevista a candidata não poupa elogios à Simon identificado como um “grande jurista”( estaria a senadora confundindo Simon com outro ídolo da RBS de nobre sobrenome Pinto? )
Para Marina Simon não pertence à ala fisiológica do PMDB, que aderiu ao governo. Simon, para ela, é um “progressista histórico do PMDB”. Para quem minimamente conhece o Senador da dupla moral, uma para o resto do país e outra para os seus (sustenta até hoje a quadrilha que assaltou o Estado no atual governo do PSDB/PMDB) essas opiniões soam como piada.

Completando o discurso sob medida para a RBS, e talvez para não fechar as portas para futuros financiadores de sua campanha Marina não conseguiu nem mesmo defender a redução da jornada de trabalho, luta histórica da esquerda. Perguntada sobre o tema reproduziu o discurso conservador da direita ao afirmar que “ não podemos fazer um discurso simplificado(...) essa redução pode ser transformada, mais adiante, em um mecanismo que vai ocultar a impossibilidade de o trabalhador ter mais tempo para o lazer, para descansar, que são as horas extras. Ela lembra ainda que, no Brasil, há muitas pessoas na informalidade”. Da mesma forma, em relação ao aborto não foi nem mesmo capaz de apresentar argumentos no campo da saúde pública, resumindo tudo a questões “morais, filosóficas e religiosas” . Nada mais reacionário.

Para fechar com chave de ouro a entrevista Marina aponta os EUA como o modelo de sociedade que ela quer construir. Ou seja, a única candidata que têm a defesa do meio ambiente como pauta central apresenta como paradigma de desenvolvimento a sociedade que mais polui e destrói o planeta. Os defensores do “capitalismo verde” e do “ambientalismo capitalista”, saúdam sua representante nesta eleição.