domingo, 29 de agosto de 2010

As eleições no Rio Grande


Tarso Genro, candidato da Unidade Popular, a possibilidade de retomar as conquistas e avanços do governo Olívio, interrompidas pela direita.


O sentido da vitória da esquerda no Rio Grande


Paulo Marques

Desde a retomada das eleições para governador na década de 80, a maioria dos governos eleitos no Rio Grande do Sul foram do campo liberal-conservador, a exceção foi o governo Olívio Dutra(1999-2002).

Na primeira eleição em 1982 o governador eleito foi Jair Soares do PDS (novo nome da ARENA, partido que sustentava a ditadura), foi um governo medíocre que representava a agonia de uma direita em crise.
Na eleição seguinte em 1986 o vencedor foi Pedro Simon do PMDB,embalado pelo Plano Cruzado(que se revelou uma farsa logo após a eleições) que elegeu 90% dos governadores naquela época. O governo foi tão fraco que a única lembrança que ficou foi a maior greve da história do magistério.
Em 1990, é eleito Alceu Collares do PDT, também embalado pela votação de Brizola nas eleições presidenciais de 1989 (no RS Brizola fez 75% dos votos e no segundo turno transferiu 90% destes votos para Lula). Foi também um governo medíocre, marcado pelas polêmicas no campo da educação onde tentou implantar um sistema de "Calendário Rotativo" que foi um rotundo fracasso. Organizou um governo de tecnocratas de perfil liberal e pouco ou nada deixou de alguma ação significativa para o Estado. Enfrentou uma CPI por casos de corrupção.
Em 1994 houve o primeiro grande embate entre a esquerda representada pela candidatura de Olívio Dutra contra o PMDB, articulado com toda a direita (do velho PDS ao PFL, PTB et caterva) em torno do nome de ANtonio Britto. Jornalista da RBS, Britto tinha em seu curriculo político o fato de ter anunciado a morte de Tancredo Neves e claro, ser uma cria da RBS. Ganhou aquelas eleições por estreita margem. O governo de Britto representou não só uma rearticulação da direita gaúcha mas a implantação mais radical do programa neoliberal, em consonância com o governo Fernando Henrique Cardoso que havia também sido eleito em 1994.Cumpriu, como bom soldado, as ordens que lhe deram, vendeu quase tudo que podia do patrimonio público só não vendeu o Banrisul pela luta da oposição e porque seu mandato chegou ao fim.

A resistência a estas políticas neoliberais foi tão intensa que o PT chegou fortalecido para o segundo embate com os conservadores em 1998. Pela primeira vez a esquerda rompia a hegemonia liberal conservadora e vencia uma eleição para o governo do Estado. Contra os meios de comunicação, o poder econômico das oligarquias regionais, representadas pela FARSUL e FIERGS a Frente Popular implementava uma nova política, baseada sobretudo na experiência exitosa realizada a frente da prefeitura da capital. Foi um governo de grandes realizações no campo da democracia e do desenvolvimento. Inverteu-se prioridades na relação do Estado com os interesses estabelecidos na sociedade, criou-se uma nova política de desenvolvimento voltada para o fomento as potencialidades regionais; aprofundou-se a democracia participativa com o OP Estadual; criou-se a primeira Universidade Estadual, políticas de trabalho e renda, de reforma agrária,Economia Solidária, questões que até então nunca haviam tido uma política do governo estadual.

Foram inúmeras mudanças que tiveram reações proporcionais ao significado delas para a correlação de forças. A RBS transformou-se no verdadeiro partido de oposição, não havia dia em que suas manchetes não pautavam o governo, sempre com duras criticas a qualquer integrante do governo ou alguma ação por mais insignificante que fosse. Zero Hora cumpriu o papel, naqueles 4 anos de governo Olívio, de um verdadeiro panfleto da oposição circulando em todo Estado, todo o dia.

Infelizmente Olivio não pode defender seu governo nas eleições seguintes. Em uma decisão que custou muito caro a esquerda e que o PT paga até hoje. Olivio foi derrotado em uma prévia interna, sendo Tarso Genro escolhido para ser o candidato. Tarso tinha dois problemas: primeiro o fato de não ter participado diretamente do governo Olivio o que lhe deixava com poucas condições de defendê-lo e em segundo lugar a contradição de defender a continuidade de um governo derrotado pelo próprio partido. Tarso entrou na campanha muito fragilizado e foi derrotado por Germano Rigotto do PMDB ( mais um dos pupilos de Simon). O mesmo Rigotto que havia perdido duas eleições para prefeitura de Caxias para Pepe Vargas do PT. O governo Rigotto, da "pacificação" serviu para que a direita retomasse o controle do Estado. Não fez nada mais que isso, um governo pífio que na eleição seguinte nem mesmo conseguiu chegar ao segundo turno.

O PT entrou na eleição passada (2006) muito enfraquecido e com Olivio novamente como candidato. O PT vinha de uma dura derrota em 2004 para a prefeitura de Porto Alegre. Sem condições de reeleger Rigotto a direita, aproveitando a pior crise do PT nacional( 2005), surge com Yeda Crusius do PSDB. O antipetismo tinha portanto dois candidatos. A ida de Olivio para o segundo turno foi considerado como uma vitória, pois muitos não acreditavam nem mesmo nisso. Com as bençãos do Senador Simon, Yeda é eleita.

Desta vez parece que a história não se repetirá. Tarso Genro, rearticulou a Frente Popular em torno de seu nome para enfrentar mais uma vez as forças do conservadorismo guasca. Só que desta vez em condições bem diferentes do passado. Tarso representa o governo Lula com 80% de aprovação, enfrenta uma governadora com mais 47% de rejeição, fruto de um dos piores governos da história do Rio Grande, também enfrenta o ex-prefeito Fogaça que tenta mais uma vez o engodo do discurso sem lado e sem posição. Se teve êxito em Porto Alegre será improvável que a farsa continue nesta eleição.

Conforme as últimas pesquisas Tarso tem condições de liquidar as eleições já no primeiro turno, mas como estamos no Rio Grande, terra da RBS,de Simon, Padilha et caterva, todo cuidado é pouco. Veremos.

Em suma , o fato mais importante desse processo é que novamente as forças de esquerda terão uma oportunidade de retomar as políticas inovadoras construidas no governo Olivio, políticas com nítido carácter transformador. Não foi a toa que foi neste Estado que as forças anticapitalistas de todo o mundo se reuniram no 1 Fórum Social Mundial para resistir ao neoliberalismo. Com o slogan que diz Rio Grande do sul, do Brasil, do Mundo,Tarso sinaliza para essa retomada. Por isso será o vencedor.

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