terça-feira, 30 de junho de 2009

Economia Solidária e Socialismo




O blog www.brasilautogestionario.org realizou uma entrevista com Raul Pont, Deputado Estadual do PT do Rio Grande do Sul, sobre o Economia Solidária e socialismo. Abaixo reproduzimos a entrevista na íntegra:


Nesta entrevista exclusiva ao Brasil Autogestionário, Raul Pont fala sobre o papel da Economia Solidária e da autogestão no projeto socialista.

Raul Pont, 65 anos, graduado em história pela UFRGS e pós-graduado em Ciência Política pela Unicamp, é um histórico militante da esquerda brasileira. Foi preso pela ditadura no final da década de 60 quando militava no movimento estudantil. Na década de 70 foi criador do Jornal Em Tempo, um dos principais jornais de oposição à ditadura. Foi fundador do PT e é membro da direção nacional do partido desde a fundação. Foi Deputado Federal e Prefeito de Porto Alegre (o único eleito no primeiro turno em 1996). Atualmente é Deputado Estadual cumprindo o terceiro mandato. A partir de sua experiência política Raul tem se dedicado também a elaboração teórica sobre os temas da Democracia Participativa e o Socialismo. São de sua autoria “Democracia, Participação e Cidadania- Uma visão de Esquerda” da Editora Palmarinca, “A Estrela Necessária”, da Editora Veraz e “Democracia, Igualdade e Qualidade de Vida. A experiência de Porto Alegre” Veraz, 2003.


“Reconstruir a economia solidária a partir do conceito de movimento social e inseri-la definitivamente numa dinâmica de luta de classes é essencial” Raul Pont


Brasil Autogestionário: A Economia Solidária (ES) têm crescido muito, principalmente na América Latina, desde a década de 90, como uma resposta dos (as) trabalhadores(as) ao desemprego causado pelas políticas neoliberais. O que falta hoje para a Economia Solidária avançar como alternativa econômica e política dos(as) trabalhadores(as)?


Raul Pont: Esse ressurgimento da economia solidária a partir da década de 90, como foi dito, acontece como reação ao desemprego causado pelas políticas neoliberais efetivadas na época em quase todos os países da América Latina. Veja-se que em tal cenário a Ecosol surge como uma reação, sem estratégias de longo prazo, apenas como possibilidade de geração de renda para homens e mulheres desempregados. Atualmente o que surge é a necessidade de um projeto, ou seja, de uma estratégia e plano de ação. Nesse caso, reconstruir a economia solidária a partir do conceito de movimento social e inseri-la definitivamente numa dinâmica de luta de classes é essencial. Isso se faz de duas formas: primeiro firmando a ecosol como instrumento da classe trabalhadora; e segundo fazendo com a mesma se agregue às lutas da classe. Um exemplo de como se pode conjugar a expansão da ecosol com a dinâmica de luta de classes é a luta por distribuição de renda. O tema central nesse caso para a economia solidária é o aumento de recursos do setor público para seus empreendimentos. Como tal luta pode-se agregar as lutas de toda classe trabalhadora? Defendendo-se que tais recursos sejam obtidos em detrimento de subsídios concedidos ao capital. E esse é apenas um exemplo, existem outros vários.



“Não se quer somente uma maior geração de emprego e renda para homens e mulheres, mas se visa, principalmente a transformação do atual estágio da sociedade, e tal transformação vai desde as relações de propriedade e produção, como também uma nova postura ética e moral”
Raul Pont


Brasil Autogestionário: Em sua opinião os partidos de esquerda estão conseguindo acompanhar esse processo de emergência da Economia Solidária?


Raul Pont: Essa nova dinâmica da ecosol é resultado, principalmente, da afirmação do caráter transformador da economia solidária. É dentro desse contexto que a ecosol se afirma como instrumento da classe trabalhadora na luta de classes. A visão de que o fim último da ecosol é a transformação social permite a construção de uma estratégia de longo prazo para a mesma. Não se quer somente uma maior geração de emprego e renda para homens e mulheres, mas se visa, principalmente a transformação do atual estágio da sociedade, e tal transformação vai desde as relações de propriedade e produção, como também uma nova postura ética e moral, em que sai de cena a maximização do lucro e entra o desenvolvimento pessoal e social dos participantes do empreendimento solidário.


“Na medida em que a ecosol se constrói como instrumento de transformação social, os partidos vão agregando em suas pautas as lutas do movimento” Raul Pont


Brasil Autogestionário: Como a Economia Solidária e o tema da Autogestão estão sendo incluídas nas proposições da esquerda brasileira?


Raul Pont: Isso ocorre, mas de maneira lenta. Na medida em que a ecosol se constrói como instrumento de transformação social, os partidos vão agregando em suas pautas as lutas do movimento. Hoje, já existem partidos bem avançados nessa construção como o Partido dos Trabalhadores, mas em geral, essa assimilação é mais lenta.


Brasil Autogestionário: Identificamos hoje na América Latina, e no Brasil em particular, a emergência de um novo movimento social e econômico em torno da Economia Solidária, organizados em diversos Fóruns, Redes e ONGs. Em sua opinião qual o significado desse novo movimento social para o atual estágio de luta de classes?


Raul Pont: Os temas da autogestão e da economia solidária ainda são pouco construídos dentro da esquerda brasileira e geralmente vem ligado ao conceito de cooperativismo. No entanto, nota-se que aos poucos esse cenário vem mudando. O número de trabalhos escritos sobre esses dois temas aumentou muito desde o início da década de 90. No plano governamental, foi criada no início do governo Lula a Secretaria Nacional de Economia Solidária, a SENAES, que é responsável pelo desenvolvimento da ecosol dentro do governo. Claro que os recursos repassados ainda são bastante abaixo do necessário, mas a própria criação da secretaria já é algo que indica uma mudança na relação entre Estado e ecosol.

Brasil Autogestionário: Em que medida esse movimento contribui para um processo de renovação do socialismo?

Raul Pont: Ele tem a possibilidade de reconstruir o socialismo sobre novas bases. A experiência do socialismo real teve forte caráter burocrático e centralizador. A autogestão teve um papel muito pequeno dentro dessas sociedades. A economia solidária surge então como a prática, através da autogestão, de algo caro para o socialismo: o controle do trabalho sobre o processo produtivo. E mostra que isso é possível na prática através da autogestão.


“…Pode-se ver a ecosol como anti-capitalista, pois se apóia e defende a mudança radical no atual processo produtivo hegemônico, e como socialista já que seus valores são congruentes com os valores socialistas” Raul Pont

Brasil Autogestionário: É possível identificar hoje na esquerda três posições a respeito da Economia Solidária. Uma que é crítica, no qual se identifica a Economia Solidária como uma prática “complementar” à economia capitalista, sendo funcional ao sistema. A outra visão, cuja referencia está em Paul Singer, identifica a Economia Solidária como sementes/embriões de socialismo nos interstícios do capitalismo, com potencial e sentido contra-hegemônico, portanto, como uma prática anti-capitalista. E a terceira que a identifica como uma proposta “anarquista”.Qual sua opinião sobre essas três visões antagônicas da esquerda a respeito da Economia Solidária?


Raul Pont: Creio que é possível hoje afirmar que a economia solidária atua como a sinalização de que algo diferente da maximização do lucro é possível. Nesse sentido, pode-se ver a ecosol como anti-capitalista, pois se apóia e defende a mudança radical no atual processo produtivo hegemônico, e como socialista já que seus valores são congruentes com os valores socialistas. Assim, ver a ecosol como processo complementar à economia capitalista não é possível já que os dois processos de produção atuam sob lógicas e objetivos diferentes. É na luta contra o atual sistema de produção que a ecosol se fortalece.

Brasil Autogestionário: Em sua opinião porque uma parcela significativa da esquerda socialista ainda é crítica ao tema da autogestão?


Raul Pont: No meu ver, tal posição ainda é resquício do socialismo real de matriz burocrática, onde o cunho centralizador do partido único era inegável. Mas creio que uma mudança em tal mentalidade já começou a ocorrer. Temos exemplos importantes de um novo pensar, como o já citado Paul Singer.


“Hoje, demonstrada a viabilidade da ecosol e a possibilidade da autogestão, qualquer projeto socialista que não tome esses dois elementos como aspectos centrais é um projeto caduco”. Raul Pont

Brasil Autogestionário: Existe hoje espaço na esquerda para um projeto socialista baseado na autogestão?


Raul Pont: Claro que existe. Diante da atual crise e do conseqüente enfraquecimento da hegemonia neoliberal, se faz mais do que necessário um novo projeto de desenvolvimento. A economia solidária deve fazer, dentro de uma perspectiva socialista, parte desse projeto e fator fundante de uma nova ética produtiva, além de dar prioridade na geração de emprego e renda. Hoje, demonstrada a viabilidade da ecosol e a possibilidade da autogestão, qualquer projeto socialista que não tome esses dois elementos como aspectos centrais é um projeto caduco.


“ A construção do socialismo passa pela construção da ecosol, ou melhor, que a primeira é a segunda em perspectiva”. Raul Pont

Brasil Autogestionário: Que posição você acha que as forcas políticas de esquerda, socialista, deveriam assumir em relação ao tema da Economia Solidária?


Raul Pont: A posição mais coerente seria de apoio ao desenvolvimento dos empreendimentos de ecosol e a assimilação cada vez maior que atualmente, a construção do socialismo passa pela construção da ecosol, ou melhor, que a primeira é a segunda em perspectiva.

As oligarquias são todas iguais, só muda o endereço

Declaração final do Conselho Presidencial Extraordinário da ALBA



Alianza Bolivariana para los
Pueblos de Nuestra América (ALBA)


Proclama del Consejo Presidencial
Extraordinario


Managua, República de Nicaragua, 29 de junio de 2009

El domingo 28 de junio en horas de la madrugada, cuando el pueblo hondureño se disponía a ejercer su voluntad democrática en una encuesta con carácter de consulta promovida por el Presidente de la República Manuel Zelaya Rosales para profundizar la democracia participativa, un grupo de uniformados con capuchas que afirmó recibir ordenes del Alto Mando de la Fuerza Armada, asaltó la residencia del Presidente Zelaya para secuestrarlo, desaparecerlo por unas horas y luego expulsarlo violentamente de su Patria.

Inmediatamente, el pueblo de Honduras reaccionó como digno heredero del legado de Francisco Morazán, en las calles de las distintas ciudades y pueblos de Honduras. A primeras horas de la mañana, centenares de mesas electorales recibieron a miles de mujeres y hombres que asistieron a ejercer su derecho al voto, y al ser informados del secuestro de su Presidente, se volcaron a las calles para protestar por el golpe de Estado, dando un ejemplo de heroísmo al enfrentar desarmados los fusiles y los tanques.

A través de las pantallas de Telesur, se logró romper el silencio nacional e internacional que quiso imponer la dictadura al cerrar el canal del Estado y cortar el suministro eléctrico, buscando esconder y justificar el golpe de Estado ante su pueblo y la comunidad internacional, y demostrando una actitud que recuerda la peor epoca de dictaduras que se vivieron en el siglo veinte en nuestro continente.

Como una sola voz, los gobiernos y pueblos del continente reaccionamos condenando el golpe de Estado, dejando claro que en Honduras hay un solo Presidente y un solo Gobierno: el del Presidente Manuel Zelaya Rosales. Asimismo, saludamos las declaraciones de condena que, desde muy temprano, comenzaron a emitir otros gobiernos del mundo.

Ante la urgencia de la situación, los gobiernos del Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra América (ALBA) convocamos de manera inmediata un Consejo Presidencial de carácter extraordinario, con el objetivo de acordar acciones contundentes para derrotar el golpe de Estado en Honduras, apoyar al heroico pueblo de Morazán y restablecer incondicionalmente al Presidente Manuel Zelaya Rosalesen sus funciones legítimas.

Luego de analizadas las circunstancias en que se ha producido este golpe de Estado, ante la gravedad de las violaciones al Derecho Internacional, los convenios multilaterales y los acuerdos de nuestros países con la República de Honduras, y en vista del tajante rechazo que ha manifestado la comunidad internacional frente al gobierno dictatorial que pretende imponerse, los países miembros del ALBA hemos decidido retirar nuestros Embajadores y dejar a su minima expresión nuestra representació n diplomática en Tegucigalpa, hasta tanto el gobierno legitimo del Presidente Manuel Zelaya Rosales sea restituido en sus funciones.

De igual manera reconocemos como unicos representantes diplomaticos de Honduras en nuestros países el personal designado por el Presidete Zelaya, bajo ningun concepto acreditaremos personal designados por los ursupadores.

Igualmente, como miembros plenos de los distintos sistemas de integración del continente, instamos a nuestros países hermanos de UNASUR, SICA, CARICOM, Grupo de Río, ONU y OEA a proceder de igual forma ante los agresores del pueblo hondureño.

Por otra parte, hemos acordado declararnos en alerta permanente para acompañar al valiente pueblo de Honduras en las acciones de lucha que han convocado, e invocamos el contenido de los artículos 2 y 3 de la Constitución Política de la República de Honduras:


“Art. 2: La Soberania corresponde al Pueblo del cual emanan todos los Poderes del Estado que se ejercen por representació n. La Soberania del Pueblo podra tambien ejercerse de manera directa, a traves del Plebiscito y el Referendo. La suplantacion de la Soberania popular y la usurpacion de los poderes constituidos se tipifican como delitos de Traicion a la Patria. La responsabilidad en estos casos es imprescriptible y podrá ser deducida de oficio o a petición de cualquier ciudadano”


“Art. 3 Nadie debe obediencia a un gobierno usurpador ni a quienes asuman funciones o empleos públicos por la fuerza de las armas o usando medios o procedimientos que quebranten o desconozcan lo que esta Constitucion y las leyes establecen. Los actos verificados por tales autoridades son nulos. El pueblo tiene derecho a recurrir a la insurrección en defensa del orden constitucional.”

Así como los principios del Derecho Internacional para respaldar los actos de resistencia y rebelión del pueblo frente a los intentos de dominación. A los maestros, obreros, mujeres, jóvenes, campesinos, indigenas, empresarios honestos, intelectuales y demás actores de la sociedad hondureña, les aseguramos que juntos conquistaremos la gran victoria frente a los golpistas que pretenden imponerse al bravo pueblo de Francisco Morazán.

Invocando el espíritu y el pensamiento de Francisco Morazán, junto a él sentenciamos a los golpistas al proclamar: “Hombres que habéis abusado de los derechos del pueblo por un sórdido y mezquino interés! Con vosotros hablo, enemigos de la independencia y la libertad. Si vuestros hechos, para procurarnos una patria, pueden sufrir un paralelo con los de aquellos centroamericanos que perseguís o habéis expatriado, yo a su nombre os provoco a presentarlos. Ese mismo pueblo que habéis humillado, insultado, envilecido y traicionado tantas veces que os hace hoy los árbitros de sus destinos y nos proscribe por vuestros consejos, ese pueblo será vuestro juez”.

Deben saber quienes dirigen el golpe de Estado, que les será imposible imponerse y burlar la justicia internacional, a la que tarde o temprano serán sometidos. A los oficiales y soldados de las Fuerzas Armadas de Honduras, les hacemos un llamado a que rectifiquen y pongan sus armas al servicio del pueblo de Honduras y de su Comandante General, el Presidente José Manuel Zelaya Rosales.

Los países miembros del ALBA, en consulta con los gobiernos del continente y con diversas instancias que garantizan el cumplimiento del Derecho Internacional, estamos adelantando medidas para que las graves violaciones y los crímenes que se están cometiendo, no queden impunes.

El único camino que le queda a los golpistas es deponer su actitud y garantizar de manera inmediata, segura e incondicional, el retorno del Presidente José Manuel Zelaya Rosales a sus funciones constitucionales.

La República de Honduras es miembro pleno del ALBA, al igual que de otras instancias de integración regional y organismos multilaterales cuya membresía exige el respeto a la soberanía del pueblo y a la constitución. Al haber sido violentados por los golpistas estos condicionantes fundamentales, los gobiernos del ALBA hemos decidido mantener todos los programas de cooperación que adelantamos con Hunduras a través del Presidente Zelaya.

Asimismo, proponemos que se apliquen medidas sancionatorias ejemplarizantes en todos los mecanismos e instancias multilaterales y de integración, que contribuyan a hacer efectiva la restitución inmediata del orden constitucional en Honduras, y otorguen vigencia al principio de acción que nos legara José Martí cuando dijo: "Haga cada uno su parte de deber, y nada podrá vencernos."

Los gobiernos del ALBA nos declaramos en sesión permanente de consulta, con todos los gobiernos del continente, para evaluar otras acciones conjuntas que permitan acompañar al pueblo hondureño en el restablecimiento de la legalidad y la restitución del Presidente Manuel Zelaya Rosales.

A doscientos años de la gesta histórica que nuestros pueblos desarrollaron a lo largo y ancho de nuestro continente, siguiendo el ejemplo eterno del General de hombres libres Augusto Cesar Sandino, de Francisco Morazan y fieles a la palabra de El Libertador Simon Bolivar, albergamos junto al pueblo del Honduras y a los pueblos del mundo, la seguridad de la victoria, pues "todos los pueblos del mundo que han lidiado por la libertad han exterminado al fin a sus tiranos”.


Managua 29 de Junio de 2009

Consejo Presidencial de la Alianza Bolivariana para los Pueblos de América

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Contra o golpe: resistência popular

Honduras: Farsa e tragédia





Marx já dizia que a história só se repete ou como farsa ou tragédia. E é isso que estamos vendo acontecer em Honduras, uma tragédia contra o povo e a democracia e uma farsa explícita realizada pela elite dominante.
Sobre o que está ocorrendo neste país da América Central que dava passos importantes no sentido da sua independência, o comandante Fidel Castro escreveu esse artigo que publicamos hoje:

Um erro suicida

Fidel Castro

Na reflexão escrita na noite da quinta-feira, 25, há três dias, eu disse: "Ignoramos o que acontecerá esta noite ou amanhã em Honduras, mas o comportamento valoroso de Zelaya passará à história."

Dois parágrafos antes, tinha assinalado: "Aquilo que lá aconteça será uma prova para A OEA e para a atual administração dos Estados Unidos."

A pré-histórica instituição interamericana se reuniu no dia seguinte, em Washington, e, em uma apagada e fraca resolução, prometeu realizar as gestões pertinentes imediatamente para procurar uma harmonia entre as partes em conflito. Quer dizer, uma negociação entre o golpistas e o presidente constitucional de Honduras.

O alto chefe militar, que continuava a comandar as Forças Armadas hondurenhas, fazia pronunciamentos públicos em discrepância com as posições do presidente, enquanto só de um modo meramente formal reconhecia a sua autoridade.

Não precisavam os golpistas de outra coisa da OEA. Não lhes importou nada a presença de um grande número de observadores internacionais que viajaram a esse país para dar fé de uma consulta popular, aos quais Zelaya falou até altas horas da noite.

Antes do amanhecer de hoje, eles lançaram cerca de 200 soldados profissionais bem treinados e armados contra a residência do presidente, que, separando brutalmente a esquadra de Guarda de Honra, seqüestraram Zelaya, que dormia. Ele foi conduzido à base aérea, colocado à força em um avião e transportado a um aeroporto na Costa Rica.

Às 8h30 da manhã, conhecemos pela Telesur a notícia do assalto à casa presidencial e o seqüestro. O presidente não pôde assistir ao ato inicial da consulta popular, que aconteceria este domingo. Era desconhecido o que tinham feito com ele.

A emissora da televisão oficial foi silenciada. Desejavam impedir a divulgação prematura da traiçoeira ação através de Telesur e Cubavisión Internacional, que informavam dos fatos. Suspenderam por isso os centros de retransmissão e acabaram cortando a eletricidade em todo o país. Ainda o Congresso e os altos tribunais envolvidos na conspiração não tinham publicado as decisões que justificavam o conluio. Primeiro levaram a cabo o inqualificável golpe militar e depois o legalizaram.

O povo acordou com os fatos consumados e começou a reagir com grande indignação.

Não se conhecia o destino de Zelaya. Três horas depois, a reação popular era tal, que foram vistas mulheres batendo com o punho nos soldados, cujos fuzis quase caiam das suas mãos por puro desconcerto e nervosismo.

Inicialmente, os seus movimentos pareciam os de um estranho combate contra fantasmas, depois tentavam cobrir com as mãos as câmaras de Telesur, apontavam tremendo os fuzis contra os repórteres, e, às vezes, quando as pessoas avançavam, os soldados recuavam. Enviaram transportadores blindados com canhões e metralhadoras. A população discutia sem medo com os soldados nos blindados; a reação popular era surpreendente.

Ao redor das 2h da tarde, em coordenação com os golpistas, uma maioria domesticada do Congresso depôs Zelaya, presidente constitucional de Honduras, e designou um novo Chefe de Estado, afirmando ao mundo que aquele tinha renunciado, apresentando uma falsificada assinatura. Minutos depois, Zelaya, de um aeroporto na Costa Rica, informou todo o acontecido e desmentiu categoricamente a notícia da sua renúncia. Os conspiradores fizeram o ridículo perante o mundo.

Muitas coisas aconteceram hoje. Cubavisión dedicou-se completamente a desmascarar o golpe, informando o tempo todo a nossa população.
Aconteceram fatos de caráter totalmente fascista, que não por esperados deixam de surpreender.

Patrícia Rodas, a ministra de Relações Exteriores de Honduras, foi depois de Zelaya o objetivo fundamental dos golpistas. Outro destacamento foi enviado a sua residência. Ela, valente e decidida, se moveu rápido, não perdeu um minuto em denunciar por todos os meios o golpe.

O nosso embaixador tinha estabelecido contato com Patrícia para conhecer a situação, como o fizeram outros embaixadores. Num momento determinado, pediu aos representantes diplomáticos da Venezuela, da Nicarágua e Cuba que se reunissem com ela, que, ferozmente acossada, precisava de proteção diplomática. O nosso embaixador, que desde o primeiro instante estava autorizado a oferecer o máximo apoio à ministra constitucional e legal, partiu para visitá-la na sua própria residência.

Quando estavam já na sua casa, o comando golpista enviou o Major Oceguera para prendê-la. Eles se colocaram diante da mulher e lhe disseram que estava sob a proteção diplomática, e que só poderia mover-se em companhia dos embaixadores. Oceguera discutiu com eles e o fez de maneira respeitosa.

Minutos depois, entraram na casa entre 12 e 15 homens uniformizados e encapuzados. Os três embaixadores se abraçaram a Patrícia; os mascarados atuaram de forma brutal e conseguiram separar os embaixadores da Venezuela e Nicarágua; Hernández a pegou tão fortemente por um dos braços, que os mascarados arrastaram ambos até um furgão ; levaram-nos à base aérea onde conseguiram separá-los, e levam-na com eles.

Estando ali detido, Bruno, que tinha notícias do sequestro, se comunicou com ela através do celular; um mascarado tentou de arrebatar-lhe rudemente o telefone; o embaixador cubano que já tinha sido golpeado na casa de Patrícia, grita-lhe: "Não me empurre, porra!" Não me lembro se a palavra que pronunciou foi alguma vez usada por Cervantes, mas sem dúvida o embaixador Juan Carlos Hernández enriqueceu a nossa língua.

Depois o deixaram em uma rodovia longe da missão e antes de abandoná-lo lhe disseram que, se falasse, poderia acontecer-lhe alguma coisa pior. "Nada é pior do que a morte! ", respondeu-lhes com dignidade, "e não sinto medo de vocês por isso”. Os vizinhos da área o ajudaram a voltar à embaixada, de onde imediatamente comunicou-se mais uma vez com Bruno.

Com esse alto comando golpista não se pode negociar, é necessário exigir a sua renúncia e que outros oficiais mais jovens e não comprometidos com a oligarquia ocupem o comando militar, ou não haverá jamais um governo "do povo, pelo povo e para o povo" em Honduras.

Os golpistas, encurralados e isolados, não têm salvação possível se o problema for encarado com firmeza.

Até a Senhora Clinton declarou que Zelaya é o único Presidente de Honduras, e os golpistas hondurenhos nem sequer respiram sem o apoio dos Estados Unidos.

De pijamas até há algumas horas, Zelaya será reconhecido pelo mundo como o único presidente constitucional de Honduras".

Fidel Castro Ruz
28 de junho de 2009

sexta-feira, 26 de junho de 2009

ALBA: O amanhecer dos povos latinocaribenhos



Alba : o amanhecer de um novo projeto emancipatório dos povos latinocaribenhos

Ángel Guerra Cabrera publicado em La Jornada e www.kaosenlared.net

Tradução: Paulo Marques

Já são nove os países que integram a Alternativa Bolivariana para os povos da América Latina e o Caribe (ALBA). Como sempre ocorre com os empenhos nobres que fazem história, quando há oito anos o presidente Hugo Chávez lançou a iniciativa parecia um sonho. Os novos membros, Antigua Holandesa e Barbados, Equador e San Vicente e Granada ingressaram na Cúpula extraordinária em memória da Batalha de Carabobo, com a que Bolívar culminou com a independência da Venezuela há 188 anos. Agora, o mecanismo integracionista soma uma superfície bastante superior aos 2 milhões de kilometros quadrados e uma população perto de 80 milhões.

Foram Cuba e Venezuela os primeiros a abraçar, em 2004, um ano depois entrou Bolívia, em 2007 Nicarágua e no ano seguinte Honduras. “O ALBA” ( uso o artigo “O” no lugar de “A” pelo significado da palavra “alba”, sinônimo de amanhecer) é a organização de integração regional mais diversa da América Latina, pela localização geográfica e diferenças de origem cultural de seus membros. Abarca desde a área andina, passando pela América Central, até o Caribe. Desde países marcados por sua vigorosa raiz indígena até os majoritariamente produto da mestiçagem afro-européia; Venezuela, como Honduras e Nicarágua, fruto de uma mescla cultural ameríndia africana e européia, e San Vicente, Granada e Antigua e Barbados, com majoritária população de origem africana.

Mas não é esta a característica definidora “do” Alba, e sim as bases ideológicas e éticas que sustentam as relações entre seus membros. O primeiro termo, a solidariedade entre os povos como principal fator, que a diferencia de todas as demais associações entre Estados existentes em escala global. O comércio e o investimento os conceitua como meios e não como fins, chamados a elevar a qualidade de vida de seus integrantes; subordina o mercado à justiça social e leva em conta as assimetrias e a complementaridades entre as economias, de modo que as decisões se adotem mediante a observância da equidade e em nenhum momento movidas pelo afã do lucro de um Estado, uma empresa ou um território às custas de outro. Se entende porque a analogia entre ALBA e “alba” é muito mais que um acidente lingüístico, pois constitui um amanhecer da solidariedade e de um novo projeto emancipador latinocaribenho. Em sua curta história tem logrado realizações importantes como o Banco da Alba, as grandes empresas que estão sendo criadas em sei seio e os transcendentes projetos educativos e culturais. “O” ALBA surgiu em contraposição a falecida ALCA, promovida por Washington e os setores entreguistas da América Latina com o objetivo de recolonizá-la e destruir sua identidade.

O ALBA não é o único mecanismo de integração regional, mas sim seu núcleo mais dinâmico, tem dito Chávez. Em efeito, instituições como UNASUR e o Banco do Sul são também muito valiosas. Mas O ALBA é mais que os nove países que o integram, posto que Petrocaribe, outra iniciativa venezuelana com a mesma filosofia, está formada pela imensa maioria dos Estados do Caribe e três da América Central. Por Certo, com as facilidades de pagamento que garante, tem salvado da ruína econômica muitos de seus membros, que não haviam podido fazer frente a suas dívidas do petróleo.

No espírito que anima O Alba se levam a cabo por Cuba e Venezuela outras ações solidárias idealizadas por Fidel Castro: A Operação Milagre, que devolveu a visão a mais de 1 milhão e 600 mil pessoas, e a aplicação massiva do método cubano “ EU SIM POSSO”, que erradicou já o analfabetismo na Venezuela, Bolívia e Nicarágua e se estende em todos os países membros do mecanismo integracionista.

O ALBA tem demostrado também sua eficácia como mecanismo de consertação e coesão política latinoamericana e assim se pode verificar na revogação da resolução que excluía Cuba, na recente reunião da OEA.

O ALBA é consequencia do ciclo de lutas anti-neoliberais latinoamericanas, cujo inicio está marcado pelo caracazo e funde suas raízes no plano de unidade continental bolivariano e Martiniano. Este, como “O Alba”, pareceu um sonho em determinado momento, mas é o único caminho para que as nações da América Latina e do Caribe rompam com a dominação imperialista e o subdesenvolvimento e afiancem sua soberania e autodeterminação. O ALBA cresce e é seu embrião.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Vontade de viver mais...Em Paz com o mundo e consigo...

MARCHA QUILOMBOLA


Mobilização Nacional em Defesa dos Direitos Quilombolas

A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas organiza, para o dia 25 de junho de 2009, Mobilização Nacional em Defesa dos Direitos Quilombolas. Somos cerca de 5.000 Comunidades Quilombolas em todo o Brasil. Atualmente, vivemos um momento de ataque aos direitos Quilombolas, garantidos na Constituição Federal de 1988. O Decreto 4887/2003 hoje sofre ameaça pela ADI 3239, do STF, de autoria do Democratas. Projetos de Lei e de Emenda Constitucional no Congresso Nacional também questionam nossos marcos legais.

- Exigimos a regularização de nossos territórios tradicionais, conforme estabelecido no Artigo 68 do ADCT da Constituição Federal!

- Exigimos a manutenção e o fortalecimento de nossa base legal, com ênfase para o Decreto 4887/2003!

- Exigimos a implementação efetiva de políticas públicas sociais, de infra-estrutura e econômicas que reduzam a vulnerabilidade de nosso povo e respeitem nossa cultura, usos e costumes!



Como você pode participar?

Através do acompanhando da transmissão do evento no site www.mocambos.net e também mandando mensagens de texto e/ou audiovisual para o seguinte endereço de Skype (pesquisa no skype) Mobilização Quilombola “mobilização.quilombola” ou adicionar com e-mail:. conaqsecretaria@yahoo.com.br .

Voce sabe como funciona o capitalismo???



Você sabe o que é " Obsolência Planejada"?
Assista esse video imperdível, divulgue para seus contatos. Se você é professor passe para seus alunos.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A Economia Solidária e a esquerda


Plenária de militantes petistas da Economia Solidária em 2006.


A Economia Solidária e os partidos de esquerda no Brasil
Paulo Marques


“En la lucha de clases todas las armas son buenas, piedras, noches, poemas” Paulo Leminski


Esse breve artigo tem o objetivo de discutir uma questão pouco analisada nos estudos até então realizados sobre a Economia Solidária no Brasil, qual seja o significado que os partidos de esquerda têm para a Economia dos(as) trabalhadores(as)/Economia Solidária e de igual forma o significado deste movimento emergente para os programas e ações destes partidos.

Na presente análise buscamos estimular e contribuir com este debate é fundamental tanto para o movimento da Economia Solidária como para os partidos de esquerda . Partimos de duas premissas que sustentam essa afirmação. A primeira é a compreensão da emergência da Economia Solidária como um movimento social contemporâmeo de novo tipo. A segunda premissa é o entendimento de que o avanço desse movimento, para além de uma prática de caráter “assistencial” ou “reformista” e sua consequente constituição como ação coletiva anti-sistêmica, com capacidade de antagonizar o modo de produção dominante e disputar a hegemonia na sociedade, requer uma acumulação de forças que passa pela articulação orgânica com os movimentos sociais e partidos de orientação socialista. Transformando assim a prática autogestionária dos trabalhadores e trabalhadoras em projeto alternativo de um novo modo de produção e de sociabilidade.

A partir dessas premissas avançamos para a compreensão da necessidade de assimilação por parte dos partidos de esquerda dos temas da Economia dos(as) trabalhadores(as)/Economia Solidária/Autogestão como elemento estratégico para a renovação do projeto socialista.

A articulação orgânica dos partidos de esquerda com o campo da Economia solidária torna-se estratégica para a constituição de um novo Bloco Histórico com capacidade de disputa de hegemonia na medida em que essa prática econômica envolve hoje milhares de homens e mulheres nos mais diversos setores econômicos no meio rural e urbano constituindo uma força em potencial que criou seus próprios espaços organizativos-políticos como fóruns e redes com uma significativa capilaridade e diversidade de atores sociais como nenhum outro na atual conjuntura.

Essa relação entre as práticas autogestionárias dos trabalhadores(as) e os partidos operários não é nova. O surgimento da Economia dos(as) Trabalhadores(as) ao longo da história se dá concomitante ao desenvolvimento do capitalismo. Segundo Paul Singer a classe trabalhadora desenvolveu diferentes formas de reação ao avanço do modo de produção capitalista. A primeira forma foi a oposição frontal ao industrialismo, em nome dos direitos adquiridos e dos fundamentos do antigo regime; a segunda forma se deu através da criação de partidos operários que tinham como objetivo principal a luta pela democracia; e a terceira forma foi desenvolvendo instrumentos potenciamente anti-capitalistas, de organização social como o sindicato, e também de organização da produção e distribuição como as cooperativas( Singer, 1999, p.68).

A Economia dos(as) Trabalhadore(as)/Economia Solidária surge com as primeiras experiências de cooperativas, juntamente com os sindicatos e partidos operários, como forma de resistência, criada pela classe trabalhadora para enfrentar o modo de produção capitalista.

Os sindicatos, partidos de classe e formas de autogestão operária da produção históricamente estiveram vinculadas, seja em programas políticos, seja em processos revolucionários. As experiências da Comuna de Paris, Revolução Russa e Revolução Espanhola são exemplos concretos de experiências no qual a autogestão esteve no centro dos processos. Em cada um destes momentos, os partidos políticos que se auto reivindicavam representantes dos trabalhadores, vanguardas da revolução tiveram que enfrentar esse debate, pois nestas experiências, pelo menos até que a contra-revolução cumprisse sua tarefa de por fim as experiências emancipatórias, seja da direita como da própria esquerda burocrática, os trabalhadores de fato assumiram o controle dos meios de produção, colocando em xeque todo e qualquer poder.

Após a trágica experiência do “socialismo real” do século XX, reduzido a um sistema de capitalismo de Estado sob controle da burocracia do partido único, e o fracasso da social-democracia, identificamos nas inovadoras experiências da América Latina do final da década de 1999 neste inicio de século XXI o ressurgimento do protagonismo de amplos segmentos da classe trabalhadora através de iniciativas de caráter autogestionario, que retomam a cena política, seja nas fábricas recuperadas na Argentina, nas cooperativas dos assentamentos do MST, nas comunidades indígenas, quilombolas que praticam uma economia comunal, e nas inúmeras experiências dos empreendimentos econômicos solidários urbanos do Brasil. Essa nova realidade no mundo do trabalho contemporâneo, apresenta um novo cenário tanto para os movimentos sociais como para os partidos de esquerda.

Com o crescimento da Economia Solidária conformou-se um movimento de novo tipo organizado a partir de Fóruns e redes de empreendimentos econômicos solidários, esse campo da Economia Solidária é formado por novos e antigos atores sociais, muitos são militantes oriundos do movimento sindical ou de entidades vinculadas à igreja católica. Essa formação plural não está isenta de conflitos em função das diferentes visões a cerca do significado do movimento e da própria Economia Solidária.
Essa realidade tem feito com que o diálogo com outros movimentos sociais e com os partidos de esquerda enfrente problemas, seja pela incapacidade dos partidos de assimilar o tema, seja pelas posições anti-partido existentes no interior do movimento. Essa difícil relação tem sido um fator negativo para o avanço da economia solidária na medida em que a não incidência nos programas partidários do tema da Economia Solidária diminui o acúmulo de força política necessária para o avanço de um projeto alternativo de desenvolvimento econômico protagonizado pelos trabalhadores a partir da prática autogestionária.

Para melhor identificar o que afirmamos como problema ou dificuldades de relação entre a economia solidária e os partidos de esquerda tomaremos como exemplo cinco partidos (PCdoB, PSB, PT, PSTU, PSOL) buscando identificar em que grau o tema é assimilado por cada um dos partidos. Posteriormente realizamos uma análise das dificuldades do movimento em assimilar o papel dos partidos no processo de avanço da economia Solidária.

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) é o mais antigo partido da esquerda brasileira em atividade, fundado em 1962 (ou em 1922 como reivindicam seus militantes), é hoje o principal representante da tradição marxista-leninista no país. Ao longo de sua história manteve a característica de um partido de quadros, com relativo crescimento político ( tem vereadores e deputados estaduais e federais) e inserção no meio sindical e estudantil. A relação do PCdoB com o tema da Economia Solidária é zero, não há no partido discussões sobre o tema nem mesmo alguma referência em seus documentos. As únicas referência que se aproximam dizem respeito ao cooperativismo rural, mesmo assim sem nenhum aprofundamento. Quanto ao tema do socialismo também não encontramos nenhuma referência a alguma forma de produção autogestionária. Em sua página eletrônica- www.vermelho.org.br- é possível encontrar a definição do partido sobre o que seria uma Economia Socialista,
46. A ECONOMIA socialista será constituída inicialmente pelas empresas de caráter estratégico que passarão à condição de propriedade coletiva de todo o povo; pelas usinas fundamentais geradoras de energia elétrica; pelas empresas monopolistas que, na atualidade, impedem o livre desenvolvimento do país; por outras empresas e serviços de interesse público. Inclui-se na economia socialista o sistema bancário nacionalizado, os portos e meios de transporte essenciais e o Fundo Agrário Nacional.
Como é possível perceber a proposta de Economia socialista do PCdoB está baseada nas “empresas de caráter estratégico” que passarão ao “controle coletivo de todo o povo”. Entretanto, o partido não identifica que empresas serão essas e como será exercido esse controle. O PCdoB também propõe um sistema de “direção estatal” que combinará a administração individual com o “controle do coletivo de trabalhadores”. Não há, entretanto maiores detalhes dessa forma de gestão. Não há referencia a conselhos operários nem mesmo co-gestão, presume-se portanto, que a administração das empresas estarão sob responsabilidade de funcionários do Estado:
47. O SISTEMA de direção estatal da economia combinará a administração individual das empresas com o controle do coletivo de trabalhadores. Incentiva, no âmbito da orientação geral, a autonomia das empresas no que se refere à introdução de melhorias técnicas tendentes a elevar a produtividade e reduzir os custos, bem como para expandir as atividades das empresas.

Quando refere-se a “propriedade cooperativada”, o PCdoB as restringe ao meio rural, como proposta para os “pequenos e médios camponeses” como nos pontos 50 e 61 de seu programa:

50. A PROPRIEDADE cooperativa terá duplo caráter: socialista, reunindo principalmente camponeses pequenos e médios; privada, agrupando produtores capitalistas, ou artesãos e pessoas de profissões rudimentares.
61. O ESTADO incentivará a criação de cooperativas de pequenos e médios camponeses que integrarão a economia socialista no campo. Essas cooperativas contarão com ajuda e apoio do Estado.



Pode-se perceber de forma inequívoca que o PCdoB mantém a tradição do “marxismo-leninismo” no qual o Estado cumpre o papel predominante e exclusivo na organização da Economia. Não o há, portanto, nenhum espaço para qualquer construção baseada na auto-organização dos trabalhadores. Quando faz referências as cooperativas, restringe-se a “economia socialista no campo”.
Assim como o PCdoB o Partido Socialista Brasileiro-PSB também é outro partido da esquerda que não apresenta nenhuma referência ao tema da Economia Solidária em seu programa, a única parte que trata da propriedade fala-se em “domínio social” sem maiores detalhes do que significa tal concepção:


Da Propriedade em Geral – A socialização realizar-se-á gradativamente, até a transferência, ao domínio social, de todos os bens passíveis de criar riquezas, mantida a propriedade privada nos limites da possibilidade de sua utilização pessoal, sem prejuízo do interesse coletivo.



O Partido dos Trabalhadores tem sido uma exceção, entre os partidos analisados, na medida em que tem avançado em relação ao tema da Economia Solidária. Mesmo que não utilize o termo Economia Solidária em seus documentos históricos, é possível identificar uma abertura ao tema a partir da critica forte que realiza ao “planejamento autocrático estatal”. No documento que apresenta as bases ideológicas do partido encontramos a referência a uma economia de caráter socialista com diferenças significativas em relação aos demais partidos, principalmente na ampliação da Economia para além do Estado, assim como a referência a três elementos vinculados a prática autogestionária, qual seja a propriedade cooperativa, uma nova organização do trabalho capaz de superar a alienação e a democratização das unidades produtivas através de Conselhos de Fábrica :

“O socialismo que almejamos, por isso mesmo, só existirá com efetiva democracia econômica. Deverá organizar-se, portanto, a partir da propriedade social dos meios de produção. Propriedade social que não se confunda com propriedade estatal, gerida pelas formas (individual, cooperativa, estatal etc.) que a própria sociedade, democraticamente, decidir. Democracia econômica que supere tanto a lógica perversa do mercado capitalista quanto o intolerável planejamento autocrático estatal de tantas economias ditas socialistas. Cujas prioridades e metas produtivas correspondam à vontade social, e não a supostos interesses estratégicos do Estado. Que busque conjugar – desafio dos desafios – o incremento da produtividade e a satisfação das necessidades materiais com uma nova organização de trabalho, capaz de superar sua alienação atual. Democracia que vigore tanto para a gestão de cada unidade produtiva – os conselhos de fábrica são referência obrigatória– quanto para o sistema no conjunto, por meio de um planejamento estratégico sob o controle social .(grifo nosso)

O termo Economia Solidária aparece explicitamente em um documento do partido após a vitória de Lula nas eleições presidenciais de 2002 no parágrafo que trata do tema do desenvolvimento:

A construção dessa nova perspectiva de crescimento sustentado e de geração de emprego exigirá a ampliação e o barateamento do crédito, o fomento ao mercado de capitais e um cuidadoso investimento em ciência e tecnologia. Exigirá também uma inversão de prioridades no financiamento e no gasto público, valorizando a agricultura familiar, o cooperativismo, as micro e pequenas empresas e as diversas formas de economia solidária.

Para além de documentos programáticos o PT foi responsável pela construção de políticas públicas de apoio a Economia Solidária em diversas administrações municipais a partir da década de 1990. Em âmbito regional a política desenvolvida no Rio Grande do Sul na gestão de Olívio Dutra (1999-2002) serviu de modelo para a criação de uma Política Nacional no governo Lula, com a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) sob o comando do prof. Paul Singer. A SENAES está vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego.

No ano de 2006 o partido cria em sua estrutura interna- a Setorial Nacional de Economia Solidária- com o objetivo de organizar os militantes do partido inseridos no movimento da Economia Solidária. No 3 Congresso do partido, realizado em 2007, diversas correntes internas fizeram referência, em suas teses, ao tema da Economia Solidária mesmo que a partir da utilização de outros termos.

É significativa as contribuições teóricas de militantes históricos do partido para o tema. No ano de 2000 o Partido dos Trabalhadores organizou através da Fundação Perseu Abramo e o Instituto Cidadania um conjunto de Seminários denominado “ Socialismo e Democracia”, um destes Seminários foi dedicado ao tema da Economia Socialista, tendo como expositor o Prof. Paul Singer e como debatedor o prof. João Machado. No evento Singer apontou para a relação da ação política dos socialistas na construção da Economia Solidária que ele identifica como Economia Socialista:

“A conquista de uma economia socialista será fruto, provavelmente, do avanço do movimento operário e socialista em uma série de frentes: na extensão da democracia no âmbito político ao econômico e social; da participação da população organizada na elaboração de orçamentos públicos e na gestão de equipamentos escolares e de saúde; da conquista de governos locais e regionais por partidos de esquerda que possam pôr em prática desde já políticas socialistas, inclusive de apoio e fomento a empresas autogestionárias”


Outro dirigente históricos do Partido dos Trabalhadores, ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont destacou em seu livro o papel que a economia autogestionária vem desenvolvendo para uma necessária renovação do socialismo:

“Para defendê-lo hoje o socialismo como alternativa, é preciso concebê-lo como a construção, pela população organizada, do controle sobre os mecanismos de gestão econômica e política da sociedade, e como criação de condições para que a solidariedade substitua a concorrência como a forma de relação básica entre as pessoas. Isso significa a criação de instituições baseadas na “Livre associação dos trabalhadores”, na atividade autônoma, democrática e soberana da população, que ocupem os lugares do mercado capitalista e do Estado burguês”

Em relação ao signficada da Economia Solidária para o socialismo Pont afirma:

“O reforço da Economia Solidária cumpre três objetivos fundamentais em uma estratégia de construção de uma alternativa socialista: o de fortalecer a organização dos trabalhadores, desenvolver sua experiência de gestão, torná-los mais capazes de exercerem seu próprio governo; o de reforçar a visão de mundo cooperativa, e portanto socialista; e o de ampliar a esfera da economia fora da lógica do capitalismo. Todos esses objetivos se unificam na idéia de fortalecer o movimento socialista”

Outros dois partidos foram analisados, PSTU e PSOL. Nos dois casos não encontramos nenhuma referencia ao tema da Economia Solidária. O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado ( PSTU) apresenta um programa de tradição leninista ortodoxo, caracterizado pelas proposições de estatização da economia como projeto socialista:

'Expropriação das grandes empresas e reestatização das empresas privatizadas!
As grandes empresas nacionais e estrangeiras dominam os principais ramos de produção e impõem o retrocesso ao país. Defendemos a expropriação sem indenização(9) dessas grandes empresas. A nacionalização é vital para impedir as crises, controlar os preços e orientar a produção segundo os interesses da maioria da população".

"Ao mesmo tempo propomos a reestatização sem indenização) das empresas estatais privatizadas. É preciso reincorporá-las ao patrimônio público e colocá-las a serviço do país e dos trabalhadores".


Em relação ao Partido Socialismo e Liberdade- PSOL , o mais novo entre os analisados, não encontramos no programa político, divulgado em sua página eletrônica, nenhuma referência ao tema da Economia Solidária.

A partir deste breve panorama a cerca da relação da Economia Solidária com os partidos de esquerda, podemos verificar que há um distanciamento ainda, tanto de um quanto de outro, o que identificamos como reflexo de uma crise teórico-programática da esquerda em geral. Crise que se manifesta na incapacidade da esquerda de responder aos desafios de construção de um projeto renovador de socialismo.

Entretanto, o problema não reside apenas nos partidos, é possível identificar também do lado do movimento da Economia Solidária a presença de uma visão “autonomista” com forte resistência aos partidos, o que impede uma aproximação que não seja apenas utilitarista nas relações que se estabelecem a partir das políticas públicas.

Em relação aos partidos, pode-se verificar através da análise de seus programas que, com exceção do PT, há uma questão ideológica de fundo, principalmente nos partidos que se referenciam no marxismo-leninismo (PCdoB/PSTU/PSOL) que mantém uma resistência a iniciativas autogestionárias, pois ainda as identificam ou como iniciativas autonomistas ou como funcionais ao capitalismo. Nesse aspecto o PT têm se diferenciado, sua tradição plural que o diferenciou dos demais partidos de esquerda possibilitam uma maior abertura ao tema.

Entretanto, malgrado o PT tenha avançado muito em comparação com os demais partidos, não somente no campo teórico mas na prática através de políticas públicas o seu programa ainda não incorpora a Economia Solidária em toda sua dimensão e significado tanto para os trabalhadores(as) que dela participam como para a construção de um projeto socialista baseado na economia autogestionária dos produtores associados.

Por fim é possível identificar a permanência de dois discursos sobre a Economia Solidária no campo da esquerda. Um que compreende essa prática como “funcional” para o capitalismo, cujas práticas estariam servindo apenas para “resolver” o problema do desemprego e da “exclusão social”, estando muito aquém de uma ação com sentido transformador, essa tem sido a posição predominante na esquerda de tradição marxista-leninista. De outra parte temos uma posição avançada, que vê nas iniciativas de Economia Solidária, células ou embriões socialistas com grande potencial de constituir-se como elementos de inovação para um socialismo do século XXI, a partir de um novo projeto de sociedade anti-capitalista baseado na autogestão econômica dos trabalhadores e trabalhadoras. Nesta última posição também encontramos duas tendências distintas a cerca dessa relação da Economia Solidária com os partidos, uma que defende um maior distanciamento dos partidos políticos, no sentido de garantir uma pseudo “autonomia” ao movimento e outra, da qual nos filiamos, que é a que defende uma relação mais orgânica do movimento da Economia Solidária com os partidos de orientação socialista, no sentido de fortalecer o movimento na perspectiva de avanço da prática autogestionária como projeto político de transformação da sociedade.

Compreendemos que a prática da Economia dos (as) Trabalhadores(as) tem um potencial de agregar para a práxis da esquerda uma nova forma de fazer política, inaugurando uma mudança de paradigmas a partir dos novos espaços organizativos –políticos como os fóruns de Economia Solidária existentes em todo o país. A forma de redes e Fóruns possibilita uma alternativa às restritas concepções e formas tradicionais de representação política (parlamentos) ao apresentar formas horizontais, baseadas na democracia participativa que garantem a diversidade e pluralidade, criando relações de cooperação e deliberação que respeitam a autonomia dos sujeitos que delas participam.

Estes novos paradigmas da participação e autogestão se assentam sobre uma lógica que rompe com o instrumentalismo do “fim que justifica os meios” e do individuo subordinado a interesses privados. Se trata de avançar em um novo projeto seja capa de colocar a prática coletiva econômica-política dos (as) trabalhadores (as) autogestionária(os) como protagonistas de uma esquerda socialista para o século XXI.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Avançar ou sucumbir



Mulheres da Via Campesina: Luta política para a transformação econômica


Economia das(os) Trabalhadoras(es): Politizar as práticas autogestionárias ou sucumbir ao sistema capitalista?
Paulo Marques


A informação de que o presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, elogiou o trabalho de bancos de desenvolvimento comunitários que atuam em áreas desamparadas, afirmando que o banco central norte-americano “está examinando meios para ajudar a aumentar a estabilidade financeira dessas instituições”, não é nenhuma novidade. A história de desenvolvimento do capitalismo demonstra que o sistema tem buscado apropriar-se de forma utilitarista e funcional de muitas iniciativas dos trabalhadores e trabalhadoras construídas para enfrentá-lo, seja no campo político como o econômico. Isto ocorreu, por exemplo, em relação ao cooperativismo, que, coetâneo ao desenvolvimento do capitalismo industrial, foi uma alternativa criada pelos próprios trabalhadores (as) que resistiam ao funcionamento do modo de exploração capitalista.

No entanto, o que vimos ao longo dos anos foi a adaptação do cooperativismo à lógica do sistema, servindo principalmente no contexto da reestruturação produtiva do capitalismo contemporâneo. Outra experiência “elogiada” pelos organismos internacionais do capital é o Orçamento Participativo, uma das mais criativas e importantes iniciativas para a democratização do Estado. Não é diferente a relação com a Economia Solidária, que é vista pelo capitalismo como uma prática econômica marginal que “resolve” o problema dos (as) “excluídos(as)” do sistema, a partir da inclusão nas esferas inferiores da economia, sem ameaça a macro-economia.

Qual reflexão que podemos fazer disso? Em primeiro lugar seria um equívoco afirmar que pelo fato do capital aceitar e até estimular as práticas dos(as) trabalhadores(as) como o cooperativismo, o OP, os Bancos Comunitários, isso signifique que essas iniciativas “não sirvam” para um projeto estratégico de uma economia anti-capitalista. Isto porque esse “apoio” nunca passa de discursos vazios, pois na realidade não há nenhum incentivo, financiamento ou política que ampliem essas iniciativas, ao contrário, toda política de caráter capitalista, realizada pelos partidos que representam o capital, quando estão a frente do Estado, é privilegiar o grande capital, as transnacionais e o capital financeiro. Portanto, esse “apoio” não passa de discurso sem efeito prático algum.

Em segundo lugar podemos perceber que grande parte da esquerda, utiliza esse fato para desqualificar essas iniciativas qualificando-as de “reformistas”. Essa miopia impede que se dê um salto político necessário que torne as práticas de autogestão e democracia participativa em estratégia para renovação do socialismo numa perspectiva anti-capitalista.

Tanto o Orçamento Participativo, como prática de democratização do Estado, o Software Livres como prática de democratização do conhecimento e da informação, a Economia Solidária, através dos Bancos Comunitários, das cooperativas populares, empresas recuperadas como Economia Autogestionária dos(as) Trabalhadores(as), constituem um enorme potencial de apresentar uma alternativa a Economia dos Capitalistas.

Entretanto, a transformação dessas práticas em projeto emancipatório, deixando de ser utilitária e funcional, só será viabilizada na medida em que se constituem em instrumentos práticos de contra-hegemonia, laboratórios de trabalho e produção emancipada com condições de enfrentar a lógica do capitalismo. Isso não será possível sem um processo de politização dessas iniciativas, o que significa incluí-las como centro de uma plataforma dos trabalhadores e trabalhadoras para enfrentar o capitalismo.

Torna-se, portanto, fundamental o papel que os partidos de esquerda e os movimentos sociais deveriam exercer como catalizadores políticos dessas práticas, pois somente quando essas iniciativas conformarem uma estratégia de caráter anti-capitalista é que serão identificadas como um perigo. Ao contrário, a desorganização, estratificação e marginalização de tais iniciativas contribuem para que sejam cooptadas e compreendidas como práticas que não ameaçam o sistema hegemônico.

Nesse sentido, o movimento da Economia Solidária precisa avançar em direção a um processo de politização das práticas autogestionárias de milhares de trabalhadores e trabalhadoras, articulando-as com outros movimentos emancipatórios como o movimento feminista, o anti-racismo, os movimentos camponeses e partidos de esquerda, contribuindo assim para formação do que Gramsci chamou de novo “Bloco Histórico”, capaz de efetivar uma contra-hegemonia como força transformadora.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Peru: A América Latina sangra










Enquanto o mundo se comove com a morte de 200 pessoas em desastre aéreo, mais de 60 indígenas do Peru são masssacrados pelo exército daquele país. Uma chacina inaceitável que não tem a mesma repercussão na mídia Isso porque para a grande mídia que representa os interesses dos donos do capital, pouco importa a vida dos povos originários que lutavam por seus direitos.
Para nós, é inaceitável que povos subjugados e explorados sejam, em pleno século XXI, tratados como animais.
BAsta de genocidio dos povos originários das Américas
Condenação imediata ao genocida Alan Garcia


Abaixo publicamos documento de um conjunto de entidades e movimentos sociais em repúdio ao massacre dos indígenos do Peru.

EXIGIMOS EL CESE INMEDIATO DE LA VIOLENCIA ESTATAL CONTRA LOS PUEBLOS INDIGENAS DE NUESTRA AMAZONÍA Y EL RESPETO DE SUS DERECHOS


Con un saldo de decenas de muertos y heridos, principalmente en los miembros del Pueblo Indígena Awajun, se ha consumado hoy el desalojo de las posiciones que estos ocupaban en Bagua, zona de Corral Quemado y Curva del Diablo. Masacre que ha cobrado entre sus víctimas al asesinado Presidente del Comité de Lucha Provincial de Condorcanqui, Sr. Santiago Manuin Valera, quien falleció como consecuencia de una intervención policial que se consumó – como la propia población y autoridades de Bagua han denunciado – a través de "balas de guerra".

Los Pueblos Indígenas de nuestra amazonía están movilizados para defender los territorios ancestrales que ocupan en las selvas alta y baja de nuestra Amazonía, que incluyen una extraordinaria biodiversidad propia del ecosistema de la vertiente oriental de nuestra selva y que ellos han preservado durante siglos.

Ese territorio se encuentra hoy ya afectado y reducido por la creciente e irracional explotación de recursos como el oro, la madera, el petróleo y el gas que, se lleva a cabo sin respeto de las áreas que dichas comunidades protegen bajo un modelo de conservación cuyo objeto es asegurar la estabilidad de tierras y bosques, y mantener la calidad y cantidad de agua, el equilibrio ecológico y un ambiente adecuado para su desarrollo. Muchas de estas explotaciones corresponden a áreas entregadas en concesión por el gobierno peruano a empresas transnacionales, que no solo se superponen a estos territorios, ignorando los derechos de las comunidades nativas encargadas de su gestión, y sin que se haya evaluado su compatibilidad con las áreas protegidas y cómo afectan su conservación.

Como sostuvieron los Obispos de la Amazonía el 5 de mayo pasado, “en nombre de un sesgado concepto de desarrollo, el Estado permite la deforestación de grandes extensiones de bosques primarios a favor de empresas nacionales y transnacionales para la inversión en plantaciones aceiteras, caña de azúcar y otros. [Y] para nadie es desconocida la contaminación de los ríos con el plomo y otros metales pesados y sustancias tóxicas como efecto de una actividad minera (formal e informal) y la extracción de petróleo, de manera irresponsable. Somos testigos, además, de la tala indiscriminada de la madera sin ningún tipo de control”.

Mediante los decretos legislativos que el gobierno ha dictado, aprovechando abusiva e inconstitucionalmente las facultades delegadas que le fueron concedidas para implementar el Tratado de Libre Comercio pactado con los EE.UU., el Estado peruano pretende dejar que las grandes transnacionales hagan lo que quieran en las reservas comunales y áreas protegidas; ignorando que los derechos defendidos por los Pueblos Indígenas no solo están reconocidos en Pactos, Convenciones y Convenios con carácter vinculante y exigible que el Perú – por haberlos ratificado – se comprometió a honrar, sino que comprometen su responsabilidad ante la comunidad internacional.

Las medidas legislativas dictadas por gobierno, y que el Congreso se niega hasta hoy a revisar y derogar, comportan una negativa al reconocimiento del igual valor y dignidad que los Pueblos Indígenas del Perú poseen al igual que la de los otros pueblos que conformamos esta Nación, como parte del carácter pluriétnico y plurinacional de un país en el que todos sus pueblos integrantes deben ser considerados iguales. Niegan, asimismo, su derecho a ejercer su identidad (entendida como el uso de su idioma, nombres, toponimias, cultura y religión), sino también sus formas propias de desarrollo, crecimiento y transformación.

Los suscritos repudiamos estos hechos y hacemos un llamado al gobierno, en primer lugar, para que suspenda de inmediato fin al estado de sitio y cese la violencia que viene descargando contra nuestros hermanos en la Amazonía, con el terrible saldo de víctimas que hoy tenemos que lamentar. Lo invocamos a cesar las agresiones que han venido llevándose sistemáticamente estas semanas contra AIDESEP y sus dirigentes y abrir un espacio de respetuoso y genuino diálogo con ésta para considerar los legítimos intereses que esta representa.

Como ha expresado el Foro Permanente para las Cuestiones Indígenas de la ONU, organismo asesor del Consejo Económico y Social de las Naciones Unidas, a través de su presidenta, Victoria Tauli Corpuz, recordamos al Gobierno peruano la obligación que tiene de consultar y respetar los derechos de los pueblos indígenas, tal y como lo establecen los compromisos asumidos en el Convenio 169 de la OIT, y garantizar el pleno respeto de los derechos de las comunidades sobre las tierras tradicionales, territorios y recursos, así como el consentimiento libre, previo e informado de las mismas.

Llamamos por último a la comunidad nacional e internacional a movilizarse para impedir que se consume un genocidio en nuestra Amazonía y se salvaguarde el derecho de nuestros Pueblos Indígenas a su libre determinación.

Es estableciendo dialogo que se resuelven los conflictos, no segando vidas

Lima, 5 de junio de 2009




Jubileo Perú, Plataforma Interamericana de Derechos Humanos, Democracia y Desarrollo(PIDHDD), Asociación nacional de Centros (ANC), Conferencia Nacional sobre Desarrollo Social (CONADES), Red Latinoamericana de Deuda, Derechos y Desarrollo (Latindadd), Llamado mundial de Lucha Contra la Pobreza Capítulo Perú, Grupo Red de Economía Solidaria del Perú (GRESP), Género y Economía, Movimiento Ciudadano frente al Cambio Climático (MOCICC), Forum Solidaridad Perú, Centro de Asesoría Laboral del Perú (Cedal), Grupo Propuesta Ciudadana Jubileo Sur, Capítulo Boliviano de Derechos Humanos, Observatorio Internacional de la Deuda, Red Brasil, Centro de Derechos, Económicos y Sociales del Ecuador, Jubileo Guayaquil, Alternativa, etc.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Internacionalismo Socialista





Arnaldo Otegi, lider da Esquerda Independentista Basca discursa no comício da Iniciativa Internacionalista em Pamplona, sob a bandeira da Marcha Mundial de Mulheres

Pela primeira vez na história das Eleições para o Parlamento Europeu, a serem realizadas no próximo dia 07 de junho, organizou-se uma lista eleitoral de esquerda inédita e inovadora,a INICIATIVA INTERNACIONALISTA- SOLIDARIEDAD ENTRE LOS PUEBLOS. A inovação está na plataforma política da lista que tem como principal bandeiras o anticapitalismo e o direito de autodeterminação dos povos sem Estado da Europa. Muitos que lutam a anos pelo direito a decidir seu destino, como o Pais Basco, a Cataluña, a Galícia entre outros tem pela primeira vez na história uma plataforma que representa sua luta no continente Europeu. Além disso tem no Internacionalismo socialista a grande bandeira que representa a luta por um outro mundo possível. Essa iniciativa pode ser considerada uma ação prática de caráter político que é fruto da confluência dos povos sem estado que estiveram reunidos no último Fórum Social Mundial em Belém, quando realizaram uma atividade inédita que reuniu mais de 30 paises de todo o mundo que lutam pela sua soberania.
A Iniciativa Internacionalista- Solidariedad entre los pueblos (II_SP) encabeçada pelo escritor, dramaturgo, diretor de cinema, Alfonso Sastre, foi impugnada pelo governo Espanhol, que acusava este histórico e reconhecido intelectual espanhol, um dos principais expoentes da chamada Geração de 1955, de "terrorista", que representaria a política do grupo Basco ETA, acusação que vêm sendo usada pelo governo espahol para reprimir todo e qualquer grupo ou cidadão que defenda o direito a autodeterminação de seus povos. Felizmente o tribunal Constitucional revogou a impunação e restituiu o direito legítimo da Iniciativa Internacionalista participar das eleições. Uma primeira vitória da esquerda e dos povos subjugados pelos Estados burgueses.
O sucesso dos últimos comicios da II-SP comprovam a empolgação e a esperança que representa essa iniciativa para os povos da Europa.

Como disse no comicio realizado em Irún ( Pamplona) no dia 30 de maio, o líder da Izquierda Abertzale ( esquerda independentista Basca) Arnaldo Otegi:

" Se estar contra esse modelo econômico é ser socialista, somos socialistas,
" Se estar contra esse modelo econômico é ser bolchevique, somos bolcheviques,
" Se estar contra esse modelo econômico é ser revolucionário, somos revolucionários
"

Sem dúvida ser socialista hoje no velho continente é ser Internacionalista, é votar II-SP.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

CUBA e a OEA




Cuba na OEA?

Atílio Boron
Tradução : Paulo Marques

Após 47 anos a 39 Assembléia Geral da OEA selou ontem um acordo para revogar por unanimidade a exclusão de Cuba aprovada em 1962. A resolução não impõe condições a Cuba, ainda que estabeleça mecanismos que deveriam ser colocados em marcha no ( improvável) caso de que Havana expressasse seu desejo de retornar a OEA. A notícia dá margem para diversas considerações.

Primeiro, a resolução é um sintoma das grandes mudanças que estão acontecendo no panorama sócio-político da América Latina e Caribe nos últimos anos e cujo signo distintivo é a persistente erosão da hegemonia norte-americana na região.

A revogação daquela ignominiosa resolução imposta pela administração Kennedy revela a magnitude das transformações em curso que a Casa Branca aceita com protestos.

Deste modo repara-se bem -tardia e parcialmente- uma decisão de imoralidade manifesta que tem pesado como um intolerável estigma sobre a OEA e sobre os governos com seus votos, ou sua abstenção, que facilitaram os planos do imperialismo norte-americano.

Este, ao não poder derrotar militarmente a Revolução Cubana em Playa Girón optou por erigir um “cordão sanitário” para evitar que suas influências emancipatórias contagiassem os demais países da área. Intenção que, por certo, fracassou rotundamente.

Segundo, o debilitamento de sua hegemonia não significa que os EUA renunciem a apoderar-se, por outros meios, dos recursos e das riquezas de nossos países ou a tratar de controlar nossos governos apelando a outros expedientes.

Seria um erro imperdoável pensar que devido a este declínio de sua capacidade de direção política-intelectual e moral- o imperialismo deporá suas armas e começará a relacionar-se com nossos países em pé de igualdade.

Muito pelo contrário: frente ao declínio da hegemonia sua resposta foi nada menos que a ativação da Quarta Frota, com o propósito de lograr pela força o que no passado obtinha pela submissão ou cumplicidade dos governos da região. E Obama não tem emitido o menor sinal de que pensa em mudar essa política.

Terceiro: Cuba, assim como os demais países de Nossa América, nada tem que fazer na OEA. Tal como temos assinalado em inúmeras oportunidades, esta instituição foi um reflexo de um momento especial da evolução do sistema interamericano: o da absoluta primazia dos EUA. Essa etapa já foi superada, e não tem volta atrás.

O amadurecimento da cosnciência política dos povos da região fez com que mesmo governos muito afins a Casa Branca não tenham outra opção que enfrentar os EUA na condenação ao bloqueio de Cuba e, em São Pedro Sula, a revogar a decisão de 1962.

Frente a essa situação, a OEA está condenada por sua larga história como dócil instrumento do imperialismo: legitimou invasões, assassinatos políticos, magnicídios, ( alguns como de Orlando Letelier, perpetrados em Washington), golpes de Estado e campanhas de desestabilização contra governos democráticos.

Foi cega, surda e muda frente as atrocidades do “terrorismo de estado” auspiciado pelos EUA e frente políticas criminais como a Operação Condor. Quando em maio de 2008 estourou a crise na Bolívia o conflito foi rapidamente solucionado pelos países da América Latina sem que a OEA jogasse papel algum. Não fez falta. Não faz mais falta.

Quarto: O que faz falta é fortalecer e coesionar sem mais demora os diversos projetos de integração dos países da América Latina e Caribe, como a ALBA ou a UNASUR, iniciativas distintas mas que expressam a realidade contemporânea da região.

A OEA, ao contrário, é uma instituição insanável e anacrônica e por isso mesmo não serve mais: representa um mundo que já não existe a não ser nos delírios dos nostálgicos da Guerra Fria e por isso não pode fazer nenhuma contribuição para enfrentar os desafios do nosso tempo. Depois de haver revogado a resolução de 1962 ela faria um grande serviço a humanidade se decidisse dissolver-se.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Perguntas que não querem calar



Desculpem a moléstia

Eduardo Galeano

Quero compartilhar com vocês algumas perguntas, moscas que zumbem na minha cabeça:

O sapatista do Iraque, o que jogou os sapatos contra Bush, foi condenado a três anos de prisão. Não merecia, na verdade, uma condecoração?

Quem é o terrorista? O sapatista ou o sapateado? Não é culpado de terrorismo o serial killer que, mentindo, inventou a guerra do Iraque, assassinou a um montão de gente, legalizou a tortura e mandou aplicá-la?

São culpados os habitantes de Atenco, no México, ou os indígenas mapuches do Chile, ou os kekchies da Guatemala, ou os camponeses sem terra do Brasil, todos acusados de terrorismo por defenderem seu direito à terra? Se sagrada é a terra, mesmo se a lei não o diga, não são sagrados também os que a defendem?

Segundo a revista Foreign Policy, a Somália é o lugar mais perigoso do mundo. Mas quem são os piratas? Os mortos de fome que assaltam navios ou os especuladores de Wall Street, que há anos assaltam o mundo e agora recebem multimilionárias recompensas por suas atividades?

Porque o mundo premia os que o saqueiam?

Por que a justiça é cega de um único olho? Wal Mart, a empresa mais poderosa de todas, proíbe os sindicatos. McDonald’s, também. Por que estas empresa violam, com delinqüente impunidade, a lei internacional? Será que é por que no mundo do nosso tempo o trabalho vale menos do que o lixo e valem menos ainda os direitos dos trabalhadores?

Quem são os justos e quem são os injustos? Se a justiça internacional realmente existe, por que não julga nunca aos poderosos? Não são presos os autores dos mais ferozes massacres? Será que é porque são eles que têm as chaves das prisões?

Por que são intocáveis as cinco potências que tem direito de veto nas Nações Unidas? Esse direito tem origem divina? Velam pela paz os que fazem o negócio da guerra? É justo que a paz mundial esteja a cargo das cinco potências que são as cinco principais produtoras de armas? Sem desprezar os narcotraficantes, este também não é um caso de “crime organizado”?

Mas não demandam castigo contra os senhores do mundo os clamores dos que exigem, em todos os lugares, a pena de morte. Só faltava isso. Os clamores clamam contra os assassinos que usam navalhas, não contra os que usam mísseis.

E a gente se pergunta: já que esses justiceiros estão tão loucos de vontade de matar, por que não exigem a pena de morte contra a injustiça social? É justo um mundo em que a cada minuto destina três milhões de dólares aos gastos militares, enquanto a cada minuto morrem quinze crianças por fome ou doença curável? Contra quem se arma, até os dentes, a chamada comunidade internacional? Contra a pobreza ou contra os pobres?

Por que os adeptos fervorosos da pena de morte não exigem a pena de morte contra os valores da sociedade de consumo, que cotidianamente atentam contra a segurança pública? Ou por acaso não convida ao crime o bombardeio de publicidade que aturde a milhões e milhões de jovens desempregados ou mal pagos, repetindo para eles dia e noite que ser é ter, ter um automóvel, ter sapatos de marca, ter, ter, e que, quem não tem, não é?

E por que não se implanta a pena de morte contra a pena de morte? O mundo está organizado a serviço da morte. Ou não fabrica a morte a industria militar, que devora a maior parte dos nossos recursos e boa parte das nossas energias? Os senhores do mundo só condenam a violência quando são outros os que a exercem. E este monopólio da violência se traduz em um fato inexplicável para os extraterrestres e também insuportável para os terrestres que ainda queremos, contra toda evidência, sobreviver: os humanos somos os únicos especializados no extermínio mútuo e desenvolvemos uma tecnologia da destruição que está aniquilando, de passagem, ao planeta e a todos os seus habitantes.

Esta tecnologia se alimenta do medo. É o medo que fabrica os inimigos que justificam o desperdício militar e policial. E em vias de implantar a pena de morte, que tal se condenamos à morte o medo? Não seria saudável acabar com essa ditadura universal dos assustadores profissionais? Os semeadores de pânico nos condenam à solidão, nos proíbem a solidariedade: salve-se quem puder, destruam-se uns aos outros, o próximo é sempre um perigo que se aproxima, olho, cuidado, esse cara vai te roubar, aquele vai te violar, este carrinho de nenê esconde bomba muçulmana e se essa mulher te olha, essa vizinha de aspecto inocente, certamente vai te contagiar com a gripe suína.

No mundo de cabeça para baixo, dão medo até os mais elementares atos de justiça e de bom senso. Quando o presidente Evo Morales começou a refundação da Bolívia, para que esse país de maioria indígena, deixasse de ter vergonha de olhar no espelho, provocou pânico. Este desafio era catastrófico do ponto de vista da ordem racista tradicional, que dizia que era a unida ordem possível. Evo era, trazia o caos e a violência e por sua culpa a unidade nacional ia explodir em pedaços. E quando o presidente equatoriano Rafael Correa anunciou que se negava a pagar as dívidas não legítimas, a noticia produziu terror no mundo financeiro e o Equador foi ameaçado com terríveis castigos, por estar dando um tão mau exemplo. Se as ditaduras militares e os políticos ladrões foram sempre mimados pelos bancos internacionais, não nos acostumamos já a aceitar como fatalidade do destino que o povo pague o garrote que o golpeia e a cobiça que o saqueia?

Mas será que se divorciaram para sempre o bom senso e a justiça? Não nasceram para andar juntos, bem pegadinhos, o bom senso e a justiça?
Não é de bom senso, e também de justiça, esse lema das feministas que dizem que se nós, os machos, ficássemos grávidos, o aborto seria livre? Por que não se legaliza o direito ao aborto? Será por que então deixaria de ser o privilegio das mulheres que podem pagá-lo e dos médicos que podem cobrá-lo?

O mesmo acontece com outro escandaloso caso de negação da justiça e do bom senso: por que não se legalizam as drogas? Por acaso não se trata, como no caso do aborto, uma questão de saúde publica? E o país que tem mais drogados, que autoridade moral tem, que autoridade moral tem para condenar os que abastecem sua demanda? E por que os grandes meios de comunicação, tão consagrados à guerra contra o flagelo da droga, não dizem nunca que provém do Afeganistão quase toda a heroína que se consome no mundo? Quem manda no Afeganistão? Não é esse um país ocupado militarmente pelo pais messiânico que se atribui a missão de salvar a todos nós?

Por que não se legalizam as drogas pura e simplesmente? Não será por que elas dão o melhor pretexto para as invasões militares, além de brindar os mais suculentos lucros aos bancos que de noite trabalham como lavanderias?

Agora o mundo está triste porque se vendem menos carros. Uma das conseqüências da crise mundial é a queda da próspera indústria automobilística. Se tivéssemos algum resto de bom senso e um pouquinho de sentido de justiça, não teríamos que celebrar essa boa noticia? Ou por acaso a diminuição de automóveis não é uma boa noticia, do ponto de vista da natureza, que estará um pouquinho menos envenenada e dos pedestres, que morrerão um pouco menos?

Segundo Lewis Carroll, a Rainha explicou a Alice como funciona a justiça no país das maravilhas:

- Ai você tem – disse a Rainha. Está presa cumprindo sua condenação, mas o processo só vai começar na segunda-feira. E, claro, o crime será cometido no final.

Em El Salvador, o arcebispo Oscar Arnulfo Romero comprovou que a justiça, como a serpente, só morde os descalços. Ele morreu baleado, por denunciar que no seu país os descalços nasciam condenados de antemão, pelo delito de nascimento.

O resultado das recentes eleições em El Salvador não é de alguma forma uma homenagem? Uma homenagem ao arcebispo Romero e aos milhares que como ele morreram lutando por uma justiça justa no reino da injustiça?
Às vezes acabam mal as historias da História, mas ela, a História, não acaba. Quando diz adeus, está dizendo até logo.

Tradução: Emir Sader

Toma posse o primeio presidente de esquerda da história de El Salvador


A vez de El Salvador

O jornalista Carlos Mauricio Funes Cartagena, de 49 anos, se converteu no primeiro presidente de esquerda da historia de El Salvador, ao tomar posse hoje na capital San Salvador.

Funes, candidato da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) organização guerrilheira que participou da guerra civil salvadorenha entre 1980 y 1992 e transformou-se no maior partido de esquerda do país no final da década de 1990, ganhou as eleições de 15 de março passado com 51,2% dos votos.

O presidente eleito nasceu em San Salvador em 18 de outubro de 1959 e realizou seus estudos primarios no Colegio Centro América e secundarios com os jesuitas do externado San José, onde anos deppois foi professor. Formou-se em Letras pela Universidad Centroamericana José Simeón Canas (UCA). Em 1986 iniciou sua carreira de jornalisnta no Canal 10, estatal.

En 1991 dirigiu o Centro de Audiovisuais e a Radio de la UCA e no ano seguinte dirigiu o programa "Entrevista Al Día", que começou a lhe dar popularidade pelo estilo incisivo de suas perguntas.

Em 11 de novembro de 2007 foi proclamado candidato a presidente pela primeira vez pela FMLN, ficando em segundo lugar.

Na chapa construída pela FMLN para as eleições de 2009 Funes contou com Salvador Sánchez Cerén, um dos líderes históricos da guerrilha, como candidato a vice-presidente. Ele foi um dos cinco comandantes da FMLN. Utilizando o pseudônimo de Leonel González, combateu nas zonas rurais onde as Forças Populares de Libertação(FPL) seu grupo de origem, detinha o controle.
Quando a FMLN se converteu em partido político legal, Sánchez Cerén foi eleito deputado. No ano passado publicou um livro autobiográfico denominado "Com sonhos se escreve a vida".

A FMLN foi fundada em 10 de outubro de 1980, quando houve a fusão de cinco organizações político-militares que buscavam chegar ao poder pela luta armada.

A guerra civil de ElSalvador deixou um saldo de 70 mil mortos depois de 12 anos de luta aberta, até a assinatura dos acordos de paz, em 16 de janeiro de 1992, entre o então presidente Alfredo Cristiani e o comando da FMLN.

A vitória eleitoral da FMLN depois de 30 anos de sua fundação, significa uma enorme conquista para o povo salvadorenho, que assim como a Bolívia, Venezuela, Equador, Nicarágua, Cuba, inicia um novo período na construção de sua libertação.