quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A Economia Solidária e a renovação do socialismo

Paul Singer é um pioneiro na elaboração teórica sobre papel da Economia Solidária para a renovação do socialismo.


Seminário internacional discute
economia solidária e socialismo no Fórum Social Mundial.

A construção de uma globalização solidária, que respeite os direitos humanos universais, com livre circulação dos povos e dos saberes, é o grande desafio a ser encarado por todos aqueles que vêm contribuindo para a consolidação do Fórum Social Mundial (FSM) como espaço de antagonismo, mas também de proposições. Quando o FSM nasceu, em 2001, como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos, o neoliberalismo ainda era cantado em prosa e verso e o pensamento único vicejava nos quatro cantos do mundo. Oito anos depois, a doutrina do livre mercado não só perdeu força como está em descrédito com a ruína do sistema financeiro internacional.
É nesse contexto que será realizado o “Seminário Internacional Economia Solidária e a Revolução Social Socialista no Século 21”, como parte da programação do FSM 2009. O seminário marca os 10 anos da publicação de Uma utopia militante - Repensando o socialismo, do professor Paul Singer, atual secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego (Senaes/MTE). A conferência será realizada a partir da exposição, pelo professor Singer, da tese que compõe a sua obra Uma Utopia Militante. Participam do evento, como debatedores, Thomas Coutrot, economista francês, que foi integrante do Conselho da ATTAC/França e Rosa Guillén, da Red Latinoamericana Mujeres Transformando a Economía (REMTE) do Peru.

A reflexão de Singer sobre a Economia Solidária, na atualidade, está inserida em sua tese sobre a Revolução Social Socialista. A partir de sua caracterização como prática que surge dos(as) próprios(as) trabalhadores(as) no contexto do capitalismo contemporâneo, essa “outra economia” possibilita o surgimento de novos paradigmas e estratégias para construção do socialismo ao resgatar temáticas que foram suprimidas do pensamento socialista mais ortodoxo, como a economia dos livres produtores associados.

O “Seminário Internacional Economia Solidária e Revolução Social Socialista no Século 21” é promovido pela Associação Brasileira de Entidades de Apoio e Fomento à Economia Solidária (Abesol), instituição criada em 2007 e que congrega 17 entidades em nove estados brasileiros.


Seminário Internacional
A Economia solidária e a Revolução Social Socialista do século XXI

Painel de abertura: Prof. Paul Singer
Exposição da tese que compõe sua obra: Uma utopia militante - Repensando o socialismo, e debate com teóricos(as) sobre o papel da Economia Solidária na construção de uma sociedade socialista


Debatedores:
Thomas Coutrot- Economista (França)
Rosa Guillén- Red Latinoamericana Mujeres Transformando la Economía-REMTE/ Peru


Data: 30/01/2009- sexta-feira- 15h30min às 18h30min
Local: UFRA - Prédio Central - Bloco C , Sala 001

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

COMEÇOU O FÓRUM SOCIAL MUNDIAL




Começa mais um Fórum Social Mundial

Teve inicio hoje, com a Marcha pela Paz, a nona edição do Fórum Social Mundial, na cidade de Belém, capital do Estado do Pará, no norte do Brasil. Essa nova edição do FSM é marcada por um contexto muito diferente daquele da sua primeira edição em 2001, na cidade de Porto Alegre. Naquele ano a maioria dos países da América Latina, com excessão da Venezuela, estavam sendo governados por representantes do neoliberalismo. A realização do encontro mundial das alternativas, ou dos altermundistas como ficou conhecido, surgiu, portanto, como resistência ao pensamento único e a hegemonia do capitalismo triunfante. Oito anos depois vivemos um outro momento histórico, de um lado a maior crise da história do capitalismo e de outro um novo cenário de lutas e resistências populares na América Latina, com uma nova configuração de atores sociais em luta por sua emancipação. Esses novos protagonistas são os povos originários, povos indígenas, os quilombolas, os trabalhadores sem terra, sem trabalho, a juventude explorada e sem perspectiva, milhares de homens e mulheres que estão a margem do assalariamento. O Fórum Social Mundial reflete essa diversidade e essa nova conformação da classe explorada pelo capitalismo. O desafio da esquerda é compreender esse novo cenário da luta de classes e o significado das experiências trazidas para o FSM, que comprovam que um outro mundo é possível, mas que precisa de força política organizada para avançar.

Para uma reflexão sobre este tema e quais seus principais desafios publicamos um artigo do professor Emir Sader,

Uma breve história do Fórum Social Mundial
Emir Sader


O Fórum Social Mundial já tem história. Uma história que não pode ser entendida separada daquilo que lhe deu nascimento e a que ele está intrinsecamente vinculado: a luta contra o neoliberalismo e por um mundo posneoliberal – que é o sentido de seu lema central “Um outro mundo possível”.

Nas suas origens está o “grito zapatista” de 1994”, conclamando à luta global contra o neoliberalismo. Em seguida, veio o editorial do Le Monde Diplomatique, de Ignacio Ramonet, chamando à luta contra o “pensamento único”, seguida pelas manifestações em Seattle, que impediram a realização da reunião da OMC e as outras, em tantas cidades do mundo. Enquanto isso, se realizavam anualmente manifestações na Suiça, chamadas de anti-Davos.

Até que, com o crescimento da resistência ao neoliberalismo, se pensou no projeto de organizar um Forum Social Mundial em oposição ao Forum Economico de Davos. A idéia foi de Bernard Cassen, jornalista francês que naquele momento dirigia a Attac, que ao mesmo tempo propôs que a sede fosse na periferia do sistema – onde residem as vitimas privilegiadas do neoliberalismo -, na América Latina – onde se desenvolviam os principais movimentos de resistência, no Brasil – que tinha a esquerda mais forte naquele momento – e, em particular, em Porto Alegre – pelas políticas dos governos do PT, de Orçamento Participativo.

O FSM passou assim da sua pré-história à sua história, com a série de 6 FSMs realizados desde então. Depois do primeiro se constituiu um Conselho Internacional, com participação de todas as entidades que quisessem se incorporar, porém a direção continuou em um estrito grupo de entidades brasileiras, dominadas por ONGs. Este foi um limitante original do FSM, dado que o movimento se apoiava centralmente em movimentos sociais – de que a Via Campesina agrupa a parte significativa deles -, enquanto as ONGs – cujo caráter ambíguo, até mesmo neoliberal pela sua definição anti-governamental, mas também com várias delas com ações obscuras no seu sentido, no seu financiamento e nas suas alianças com grandes empresas privadas – se apoderava do controle da organização, imprimindo-lhe um caráter restrito.

Restrito, porque limitado a um suposta “sociedade civil”, o que já lhe imprimia um caráter liberal, oposto a governos, a partidos, a Estados, bloqueando a capacidade de construção de “um outro mundo possível”, que teria que ser um mundo global, com transformação das relações de poder, do Estado e da sociedade no seu conjunto.
Também ficava fora um tema que passou a ser central no mundo conforme os EUA adotavam sua política de “guerras infinitas” – a luta pela paz -, que no entanto representou o momento de maior capacidade de mobilização dos novos movimentos populares no mundo, com as mobilizações de resistência à guerra do Iraque, em 2003.

O Conselho Internacional decidiu a alternância de sedes do FSM, que passou a se realizar em outros continentes, com o que ser realizaram FSMs na Índia e no Quênia, ao mesmo tempo que decidiu que os FSM se realizassem a cada dois anos, alternados por FSM regionais.

No entanto o FSM passou realmente a girar em falso conforme a definição inicial de se limitar um espaço de troça de experiências entre entidades da “sociedade civil” foi limitando suas temáticas e sua capacidade de formular alternativas. Nem sequer balanços das maiores mobilizações populares jamais havidas, as contra a guerra do Iraque, foram feitas, para definir a continuidade da luta. A fragmentação dos temas se acentuou conforme foi decidido que as atividades dos FSM seriam “autogestionadas”, sem definição política dos temas fundamentais, que deveriam ser financiados centralizadamente, promovendo um imenso privilegio das ONGs e outras entidades que dispõem de recursos contra os movimentos sociais – que deveriam ser os protagonistas fundamentais do FSM.

Embora tenha sido eleito um novo Secretariado, pelo voto dos membros do Conselho Internacional, dominado pelas ONGs, somente neste FSM é que se tem a possibilidade de acerto de contas com a realidade existente desde 2001. Seis FSM depois, o “novo mundo possível” tem em governos latinoamericanos progressistas, os agentes da sua construção.

Avanços como a Alba, o Banco do Sul, a Unasul, o Conselho Sulamericano de Defesa, além de políticas nacionais como as de refundação dos Estados na Bolívia e no Equador, além do combate ao analfabetismo, das Escolas Latinoamericanas de Medicina, da Operação Milagre, entre outras iniciativas – configuram os principais avanços na luta pelo posneoliberalismo.

Os movimentos sociais que souberam rearticular de maneira criativa suas relações com a esfera política – de que a fundação pelos movimentos bolivianos do MAS – e disputar a criação de novos governos e a construção de projetos hegemônicos alternativos, avançaram significativamente na criação do “outro mundo possível”.

Enquanto que os que seguiram refugiados na chamada “autonomia dos movimentos sociais” – como os casos dos piqueteiros argentinos ou dos zapatistas – perderam peso ou até mesmo tenderam a desaparecer politicamente.O movimento anti-neoliberal passou assim da fase de resistência à fase de construção de alternativas.

Este FSM demonstrará se permanece na fase de resistência, de fragmentação de temáticas, de limitação à “sociedade civil” ou se se coloca à altura da etapa atual de disputa hegemônica, já não mais a nível nacional ou regional, mas a nível global, quando a crise capitalista e o esgotamento do modelo neoliberal coloca para o FSM seu maior desafio: ser agente na construção concreta do “outro mundo possível” ou permanecer como espaço de testemunhos, ricos, mas impotentes.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Uma nova Bolívia


Multidão em frente ao Palácio Quemado comomoram a vitória do SIM com mais de 60% dos votos.

"Quiero que sepan algo, aquí terminó el Estado colonial, aquí se acabó el colonialismo interno y externo"


Evo Morales e o Vice -Presidente Garcia Linera comemoram a vitória com o povo boliviano no palácio Quemado


"Ahora, gracias a la conciencia del pueblo boliviano, los recursos naturales se recuperan para toda la vida, y ningún Gobierno, ningún nuevo Presidente podrá subastar y entregar los recursos naturales a las transnacionales"

A vitória do SIM no referendo que aprovou a Nova Constituição da Bolívia ,como mais de 60% dos votos, é a comprovação inequívoca de que começa a ser escrito um novo capítulo na história deste país. Malgrado a furia e violência da direita racista e oligárquica que tentou de todas as formas impedir o processo, os povos originários deram a resposta nas urnas. Na mesma noite o presidente Evo Morales declarava no palácio de governo junto a multidão que comemorava a vitória as tarefas de avançar na construção deste novo país:


"Ahora la responsabilidad del gobierno es implementar la nueva Constitución, y quiero que sepan mañana ministros, ministras, viceministros, viceministras, desde las ocho de la mañana estarán reunidos para planificar cómo se implementar y cómo se hará una gestión publica plurinacional".

Junto com a aprovação da nova constituição também foi a provado o limite máximo de terras por pessoas, 5 mil hectares. Uma medida que visa acabar com o latifundio improdutivo e realizar uma verdadeira reforma agrária.
Abaixo publicamos e-mail direto da Bolívia de nossa camarada Valéria Mutuberria que esteve acompanhando o processo:


Compañer@s!

Está demás decirles la emoción que siento luego del gran momento histórico que se vivió ayer en Bolivia!!!
Fue realmente muy emotivo.

Les comento que ayer acompañé a una compañera Boliviana a sufragar, el acto tuvo dos propósitos: votar por SI o NO a la Nueva Constitución y porque las parcelas de tierras no sean de una extensión mayor a 5 mil hectáreas.

Hacia las 18hs la información extra oficial fue que ganaba el SI por más del 60% y la elección en torno a las 5ml ha ganaba por más de 80%.

Alrededor de las 19hs las cifras más certeras arrojaban un 60% a favor de la Nueva Constitución y alrededor de un 80% a favor de extensiones de no más de 5 mil ha.

La concentración en la Pza Murillo, frente a la casa de Gobierno se hizo a partir de las 18hs. Conjuntamente con
un@s compañer@s estuvimos presentes desde las 14hs, para seguir paso a paso los acontecimientos. Había compañer@s de distintos países: argentina, brasil, chile, uruguay, colombia, venezuela, etc. Particularmente muchos argentinos.

A eso de las 20hs, Evo salió junto al vice y restante compañeros, al balcón de la Casa de Gobierno y emitió un discurso de aproximdamente 15 minutos. Entre sus palabras más emotivas se escucharon: a partir del 25 de enero se inicia una nueva Bolivia, una Bolivia Libre, una Bolivia que respeta los pueblos originarios y campesinos, no más al Latifundismo......y al grito de:
"Patria o Muerte: Venceremos", Concluyó su discruso.

Este mail no dice nada en comparación de lo que se vivió en el día de ayer, pero quería hacerles llegar a´lgunas líneas de los sucesos y compartir la emoción que siento al vivir este hecho histórico en América Latina!

Cumpas!
Les mando un fuerte brazo desde la Bella Bolivia!!!!!
Hasta la Victoris Siempre!
Vale Mutu

domingo, 25 de janeiro de 2009

BOLIVIA DE TODOS OS POVOS

El presidente Evo Morales convocó este domingo al pueblo boliviano a acudir a las urnas para definir, de forma consciente, qué tipo de país quiere con su voto entre el Sí o el No a la nueva Constitución Política del Estado (CPE).
Villa Tunari (Cochabamba), 25 enero (ABI)
En entrevista a radio Soberanía, en la Tercera Sección de la provincia Chapare en el departamento de Cochabamba, Morales dijo que en especial la juventud debe participar activamente porque se está definiendo su destino.
"A esa verdadera juventud que defiende los intereses del país y a todos los sectores, lo más importante sería que todos participen con su voto, sea para aprobar o para rechazar (la nueva Constitución), es una decisión de conciencia", sostuvo Morales.
Hoy 3.891.397 electores asistirán a las urnas para tomar dos decisiones: la primera se refiere a la aprobación o no del proyecto de Constitución Política y la segunda tiene relación con la extensión de la propiedad agrícola permitida constitucionalmente, es decir, entre 5.000 o10.000 hectáreas. Morales aseguró que a partir de esta decisión se formará la estructura de un nuevo estado basado en la igualdad, el respeto y la pluralidad. (Jcch/Rq Agencia Boliviana de Información)

sábado, 24 de janeiro de 2009

DIA DO SIM, DIA DA VITÓRIA POPULAR NA BOLÍVIA







Bolivia diz SIM a nova Constituição

Evo fala e o povo responde: " EL Alto de pie, nunca de rodillas"
Evo apresenta ao povo a constituição que mudará a história da Bolívia

Comicio final pelo SIM no departamento de Cochabamba, quinta-feira 22/01/09. O povo lota a praça, 50 mil bolivianos com Evo em apoio à nova constiução.

O SIM para a nova Constituição Boliviana representa a construção de um país para as maiorias.


Neste domingo 25 de janeiro, o povo Boliviano votará no referendo da Nova Constituição do país. Uma nova página na história deste que tem sido, ao longo de 500 anos, um dos países mais explorados por uma elite branca e racista. A eleição do indígena Aymára Evo Morales foi uma ruptura com essa história de exploração e misérias. A Constituição que repõe os direitos dos povos originários é o primeiro passo na construção de um novo país, soberano, justo, democrático e popular. Evo já venceu várias batalhas, essa é mais uma e não será a última. A elite branca, racista da oligarquia que perdeu o poder está ainda viva, detém o poder econômico em regiões inportantes do país e de lá se organiza, com apoio dos EUA e das corporações internacionais para resistir a mudança inexorável. Ainda não compreenderam que um novo tempo está sendo construído, no qual as maiorias são protagonistas e não coadjuvantes como antes. Evo Morales é o simbolo e expressão destes novos tempos. A vitória do SIM , com a aprovação da Constitução dos direitos dos povos originários neste domingo é a grande batalha que abrirá o caminho sem volta para a construção de uma pátria livre e soberana.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

IL Gatopardo










Gatopardismo imperial

Atilio Borón
Publicado originalmente no Jornal Página 12; www.kaosenlared.net e www.rebelion .org

Tradução: Paulo Marques


Finalmente chegou o grande dia. Toda a imprensa mundial não faz outra coisa que não seja falar da nova era aberta com a ascensão de Barack Obama a Casa Branca. Isso confirma os prognósticos pessimistas a cerca do retrógado papel que cumprem os meios de comunicação do establishment ao aprofundar, com as ilusões e os enganos de sua propaganda, a chamada “sociedade do espetáculo”, uma forma de retrocesso do social onde o nível intelectual de grandes segmentos da população é rebaixado sistematicamente mediante sua cuidadosa (des)educação e (des)informação. A sufocante “obamamania” atual é um magnífico exemplo disso.

Obama chegou a presidencia dizendo que representava a mudanza. Mas os indícios que surgem a partir da formação de sua equipe e de suas diversas declarações revelam que se existe algo que vá prevalecer em sua administração será a continuidade e não a mudança. Haverá algumas mudanças, sem dúvida, mas serão marginais, em alguns casos cosméticas e nunca de fundo. O problema é que a sociedade americana, especialmente no contexto da formidável crise econômica em que se debate, necessita mudanças profundas, e isso requer algo mais que simpatia e eloqüência discursiva. Há que lutar contra adversários ricos e poderoso, e nada indica que Obama esteja sequer remotamente disposto a considerar tal eventualidade. Vejamos alguns exemplos.

Mudança, designando como chefe de seu Conselho de Assessores Econômicos Lawrence Summers, ex secretário do Tesouro de Bill Clinton e artífice da inaudita desregulamentação financeira dos anos noventa, causadora da crise atual? Mudança, ratificando o secretário de defesa designado por George W. Bush, Robert Gates, para conduzir a “ guerra contra o terrorismo”, que agora tem como cenário o Iraque e o Afeganistão? Mudança, com personagens como o próprio Gates, ou Hillary Clinton, que apoiaram sem questionamento a reativação da Quarta Frota destinada a dissuadir os povos latinoamericanos e caribenhos de enfrentar os interesses e os desejos do império? Em sua audiência no Senado, Clinton disse que a nova administração de Obama deveria ter “uma agenda positiva” para a região para contrapor-se “ao temor propagado por Chávez e Evo Morales”. Seguramente se referia ao temor de superar o analfabetismo ou a terminar com a falta total de atenção médica, ou temor que geram as contínuas consultas eleitorais de governos como da Venezuela ou Bolívia, muito mais democráticas que dos Estados Unidos, onde, todavia, existe uma instituição tão trapaceira como o Colégio Eleitoral, que possibilitou, como ocorreu em 2002, que George W. Bush derrotasse, nesse antidemocrático âmbito, o candidato que havia obtido a maioria do voto popular, Al Gore. Pode esta Secretaria de Estado representar alguma mudança?

Mudança, produzida por um lider político que ficou encerrado em seu estrondoso silêncio, frente ao brutal genocídio perpetrado em Gaza? Que autoridade moral tem para mudar algo quem atuou deste modo? Como supor que representa uma mudança uma pessoa que diz, como lamentavelmente fez Obama recentemente na cadeia de televisão Univisión, que “ Chávez tem sido uma força que tem impedido o progresso da região, ( ...) Venezuela está exportando atividades terroristas e respalda entidades como as FARC? Tamanho exagero e semelhantes mentiras não podem alimentar a mínima esperança e confirmar as previsões que suscita o fato de que um dos seus principais conselheiros sobre a América Latina seja o advogado Greg Craig, assessor da inefável Medeleine Albright, ex-secretária de estado de Bill Clinton, a mesma que disse que as sansões contra o Iraque logo após a primeira guerra do golfo ( que custaram entre meio milhão e um milhão e meio de vidas, predominantemente crianças) “ valeram a pena”. Craig, ademais, tem como um de seus clientes Gonzalo Sanchpes de Lozada, cuja extradição para a Bolívia está sendo solicitada pelo governo de Evo Morales para julgá-lo pela selvagem repressão as grandes insurreições populares de 2003 que deixaram um saldo de 65 mortos e centenas de feridos. Suas credenciais são, pelo visto, insuperáveis para produzir a tão desejada mudança.

Nessa mesma entrevista, Obama se manifestou disposto a “ suavizar as restrições as viagens e ao envio de remessas a Cuba”, mas deixou claro que não contempla por fim ao embargo decretado contra Cuba em 1962. Agregou ademais, que poderia sentar-se para dialogar com o presidente Raúl Castro sempre e quando “ Havana se mostre disposta a desenvolver as liberdades pessoais na ilha”. Em fim, a mesma cantilena reacionária de sempre. Um caso de gatopardismo de pura cepa: algo tem que mudar, e nesse caso a cor da pele, para que nada mude no império.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Repensando o socialismo com Paul Singer


Resenha do livro
Uma utopia militante- Repensando o socialismo de Paul Singer

Paulo Marques



Em 2009, completam-se 10 anos da 2 edição do livro Uma utopia militante- Repensando o socialismo, do professor Paul Singer, atual titular da Secretaria Nacional de Economia Solidária do governo federal.
A importância de comemorar a edição desta obra reside no fato de que ela representa hoje uma das referências teóricas mais significativas sobre o tema da renovação do socialismo e do potencial da Economia Solidária nesse processo, ou seja, das novas possibilidades de luta dos trabalhadores em busca de um projeto socialista e democrático de caráter emancipatório.

A primeira edição do livro se deu em 1998, um ano paradigmático, pois foi o inicio de um processo de descenso político do neoliberalismo na América Latina,, inaugurado com a eleição de Hugo Chávez para presidente da Venezuela.


Depois de uma década de políticas neoliberais, com resultados catastróficos para a totalidade dos países que a implantaram, estamos completando outra década, agora de novas possibilidades, contraditórias, sem dúvida, na medida em que mesmo com uma maioria de governos progressistas hoje na América Latina, o neoliberalismo não foi derrotado, mas que abrem enormes possibilidades para um novo momento histórico de lutas anti-capitalistas.


O livro de Singer, nesse contexto, se antecipava ao processo necessário de renovação do pensamento socialista na América Latina, capaz de retomar o sentido emancipador proposto por seus teóricos fundadores. Quando da segunda edição do livro em 1999, ainda não se falava em socialismo do século XXI- termo que começou a ser utilizado na Venezuela, a partir das práticas inovadoras realizadas pelo projeto bolivariano encabeçado por Chávez e depois fortalecido pelas experiências da Bolívia e do Equador. Entre os projetos destaca-se as inovações no campo da economia com novas formas de produção: Economia social, Economia solidária, distritos produtivos, empresas de produção social, empresas de produção comunal, Núcleos de Desarrollo Endógeno[1]. São estas experiências em curso nesses países, que podem ser identificadas com a realização prática do que Paul Singer anunciava como possibilidade para renovação do socialismo.

A leitura do livro, portanto, no atual contexto político da América Latina, nos permite identificar o quanto Singer se antecipou aos processos que ainda estão em curso. Isso quer dizer que mesmo que seja prematuro tirar conclusões sobre suas conseqüências, é possível, principalmente no campo da teoria, repensarmos as perspectivas para uma renovação do socialismo a partir dessa nova realidade, no qual a Economia Solidária pode desempenhar um papel fundamental.
É com esse objetivo quew buscamos, com essa resenha contribuir com o debate sobre economia solidária e construção do socialismo a luz das inovadoras teses do prof. Singer.

O objetivo do livro, segundo palavras do próprio Singer foi o de “reconceituar a revolução social socialista e reavaliar suas perspectivas e possibilidades, face às vicissitudes do capitalismo e do movimento operário nos anos finais do século e do milênio[2] , para isso o autor apresentou uma análise do papel da revolução social, “como processo multissecular de passagem de uma formação social a outra, e o papel da revolução política, como episódio de transformação institucional das relações de poder[3] . Estas premissas, de certa forma, realizam uma ruptura com as análises mais ortodoxas do marxismo.


Ou seja, Singer não rompe com os pressupostos marxistas, ao contrário, desenvolve suas teses a partir do marxismo. Se há uma ruptura é com uma ortodoxia ou dogma que a própria realidade concreta da história encarregou-se de superar, tais como a idéia de que a “construção” do socialismo (as aspas são do próprio Singer ao referir-se ao que pretendeu ser uma construção na experiência soviética) significariam “estatização dos meios de produção e instituição do planejamento centralizado da economia”.


Segundo Singer, esse processo foi responsável pelo fracasso do chamado “socialismo real”, ou seja, “o fracasso do “ socialismo realmente existente” revelou que o socialismo sem aspas terá de ser construído pela livre iniciativa dos trabalhadores em competição e contraposição ao modo de produção capitalista dentro da mesma formação social”[4]. Ou seja, Singer reafirma a premissa marxista, segundo qual, a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores e que é parte de um processo da luta pela hegemonia.
Nesse sentido, ele recoloca alguns elementos para a construção do socialismo que haviam sido suprimidos pela ortodoxia, ou seja,


A essência do socialismo, enquanto modo de produção, é a organização democrática da produção e consumo, em que produtores e consumidores livremente associados repartem de maneira igualitária os ônus e os ganhos do trabalho e da inversão, os deveres e direitos enquanto membros de cooperativas de produção e/ou de consumo ou o nome que venham a ter essas organizações.”[5]


Singer desenvolve sua tese em quatro partes. A primeira parte realiza o que ele denomina de reelaboração conceitual acerca do termo revolução, identificada aqui como “Revolução Social” dividida em capitalista e socialista. Na segunda e terceira parte são estudadas as caracterisiticas destas duas revoluções. No capítulo sobre a Revolução Social Socialista, Singer identifica a mesma como processo de luta política contra o capitalismo, levado a cabo pelos trabalhadores ao longo de 200 anos. Destaca-se nessa análise o papel dos sindicatos e das cooperativas como uma das principais formas de reação da classe operária à revolução capitalista ao longo de seu desenvolvimento. Na última parte, realiza-se um estudo sobre o capitalismo contemporâneo, no qual identifica o atual estágio de seu desenvolvimento e as potencialidades para sua superação. É aí que a emergência da Economia Solidária ganha destaque no processo de renovação socialismo.


Em relação ao tema da revolução Singer verifica que as teorias usuais sempre a vinculam ao emprego da violência, mas “nenhuma delas cobre a noção de revolução social como transformação sistêmica das estruturas econômicas, sociais e supra-estruturais- política, jurídica, cultural- de um país ou de vários[6] sendo este o conceito que ele desenvolve em sua tese.

Ainda sobre o conceito de revolução Singer esclarece que sua análise refere-se às duas grandes revoluções sociais em curso: a revolução capitalista e a revolução socialista[7]. “é preciso distingui-las das revoluções políticas comumente designadas como “burguesas” e “proletárias”. Estas últimas são episódios bem delimitados no tempo, em que é possível reconhecer o emprego genérico da violência, embora ele estivesse longe de ser essencial no processo[8]. A revolução, portanto, é considerado um processo de longo prazo, como mudanças entre formações sociais,

O que nos importa aqui é desfazer a confusão entre as revoluções políticas e revoluções sociais. Estas últimas constituem processos de mudanças entre formações sociais, cada uma das quais é caracterizada pela hegemonia de um modo de produção, que lhe empresta o nome. Assim a revolução social capitalista, como veremos, abarca, na Inglaterra, o período que vai da implantação do capitalismo como modo de produção subordinado, até a sua transformação em dominante, a partir da revolução industrial. Analogamente, a revolução social socialista começa com a implantação de instituições anticapitalistas resultante das lutas do movimento operário contra certas tendências imanentes do capitalismo, como a concentração da renda e da propriedade, a exclusão social ( que toma a forma predominante de desemprego) e a destruição criativa de empresas e postos de trabalho[9] ( grifos nossos)


Singer destaca que esse conceito de revolução social é de Marx que o expôs no prefácio de “Para a crítica da economia política”, de acordo com essa teoria a revolução social é a transformação supra-estrututral, condicionada e exigida pela evolução das forças produtivas. Essa teoria revela com extraordinária, perspicácia, segundo Singer, a dinâmica da revolução capitalista. [10]

No que diz respeito a revolução socialista, Singer sustenta que a transfornação supra-estrutural é muito clara quando identificado com um conjunto de processos como a legalização dos sindicatos, a regulamentação das cooperativas, a instituição de uma previdência pública até a conquista do sufrágio universal.


Entretanto, observa que essa revolução não foi condicionada pelo desenvolvimento das forças produtivas, e sim resulta “basicamente de lutas reativas do movimento operário e aliados contra os prejuízos econômicos acarretados pela dinâmica cega da acumulação[11]. Singer salienta que a hipótese sugerida pelos dados históricos é que a relação entre desenvolvimento das forças produtivas e as mudanças supra-estruturais na revolução socialista é bem diferente da que se verifica na capitalista.


O capítulo sobre o conceito de Revolução Social Socialista compõe, portanto, a parte inovadora e polêmica do livro. Inovadora no sentido conceitual que Singer apresenta de um processo em curso, ou seja, a Revolução Social socialista significa em linhas gerais “reações da classe operária à revolução capitalista[12], ou seja, transformações como fruto da práxis anticapitalista dos trabalhadores e trabalhadoras ao longo de 200 anos de história.


A polêmica está no fato de que para uma esquerda ortodoxa, somente é possível falar em práxis socialista, após a “tomada do palácio de inverno”, ou seja, antes da “revolução” qualquer iniciativa anticapitalista estaria fadada ao fracasso. Por esse motivo grande parte da esquerda ignora o potencial da Economia Solidária, rotulando-a de antemão como iniciativas “funcionais ao capitalismo”, ou de caráter “reformista burguês”, sem perceber, por sua miopia dogmática, o potencial intrínseco de organização de um segmento que cresce a partir de uma prática antagônica ao processo de reprodução da lógica capitalista.
Para sustentar sua tese da Revolução Social Socialista como reação da classe explorada, Singer resgata as diversas formas que se dá essa reação ao avanço do modo de produção capitalista ao longo dos séculos:
1) oposição ao industrialismo, do qual se destaca a ação de “quebra de máquinas” conhecido como “luddismo”; 2) conquistas democráticas , impulsionadas pela revolução francesa e 3) Formas potencialmente anticapitalistas de organização social, no qual destacam-se os sindicatos, e formas de organização da produção com as cooperativas. Singer destaca que essas reações são organizadas principalmente por trabalhadores qualificados, seus ideólogos, lideres políticos, sindicalistas e cooperadores[13].


É nesse capitulo que Singer analisa essa terceira reação que foi a ação no campo econômico com os sindicatos e as cooperativas. Para isso ele resgata a trajetória das experiências cooperativadas e autogestionárias, com destaque para o Owenismo que teve grande influencia no sindicalismo na segunda metade do século XIX na Europa. Segundo Singer “foi a primeira das grandes doutrinas sociais a prender a imaginação das massas naquele período, que começava com a aceitação dos poderes produtivos ampliados da energia a vapor e da fábrica[14] .


Como a oposição ao industrialismo mostrava-se inviável, a única opção que restava aos trabalhadores era desenvolver um projeto de sociedade em que seus interesses pudessem ser realizados através do aproveitamento das forças produtivas desencadeadas pelas máquinas e pelos motores[15]

Segundo Singer o exame destas ações de resistência ao capitalismo mesmo com o malogro de grande parte das experiências, permite generalizações relevantes para o entendimento do capitalismo contemporâneo. Sendo a primeira reação generalizável é a formulação de um projeto social alternativo ao capitalismo, em que se combinam as novas forças produtivas com relações sociais de produção concebidas para superar a exclusão social e suscitar uma repartição equânime da renda e , portanto, dos ganhos decorrentes do avanço das forças produtivas.[16] A outra reação generalizável é a formação de sindicatos e cooperativas que funcionam, de certa forma, como implantes socialistas nos interstícios do capitalismo[17]. (grifo nosso) Ambas generalizações potencializam-se através da práxis da Economia Solidária.
As experiências históricas expostas no livro, servem, nesse sentido, para demonstrar as potencialidades do processo, conforme afirma Singer:

A história da cooperativa dos Pioneiros de Rochdale é, neste sentido, riquíssima em lições. O êxito econômico da cooperativa, que depois foi replicado em numerosas localidades da Grã-Bretanha e de outros países em transição ao capitalismo industrial, demonstra que o modo de produção capitalista apresenta brechas que podem ser aproveitadas para organizar atividades econômicas pro princípios totalmente diferente dos capitalistas e que, por isso, devem ser denominadas “ socialistas”. [18]


É nesse sentido que Singer afirma que uma das lições significativas dos “Pioneiros” é o fato de que não é necessário isolar-se da economia dominante capitalista para desenvolver formas socialistas de distribuição e, eventualmente, de produção. As inúmeras experiências de Economia Solidárias da América Latina corroboram com essa afirmação de Singer sobre os potenciais dos processos de economia alternativa no âmbito do capitalismo. Isso não impede que se tenha claro os limites e desafios deste processo.


Em relação aos limites e ameaças a um processo como este, de desenvolvimento de uma economia alternativa, Singer identifica tendências e contra-tendências que se apresentam na revolução social socialista,


Se as instituições anticapitalistas são sementes socialistas plantadas nos poros do capitalismo para resistir às tendências destrutivas e concentradoras da dinâmica capitalista, é necessário discutir mais detidamente essas tendências, distinguindo-as das contratendencias que surgem como reação alas.[19] ( grifo nosso)


Discutir esse processo de tendências e contratendencia é para Singer também uma superação da análise marxista ortodoxa para quem tudo que aocntece no seio da sociedade capitalista é automaticamente tido como sendo “capitalista”.

A reflexão de Singer sobre a Economia Solidária, na atualidade, está inserida em sua tese sobre a Revolução Social Socialista. A partir de sua caracterização como prática que surge dos próprios trabalhadores no contexto do capitalismo contemporâneo, essa “outra economia” possibilita o surgimento de novos paradigmas e estratégias para construção do socialismo ao resgatar temáticas que foram suprimidas do pensamento socialista mais ortodoxo, como a economia dos livres produtores associados.


Em relação ao significado da produção associativa e cooperativada, Singer destaca a visão de Marx sobre o cooperativismo, segundo qual, em projeto o cooperativismo supera positivamente a contradição entre capital e trabalho, constituindo um elemento do modo de produção socialista, que se desenvolve a partir do modo de produção capitalista. Mas, nem por isso a cooperativa deixa de funcionar competitivamente no mercado, o que a obriga a enfrentar problemas cuja solução nem sempre se coaduna com seus princípios. [20]
Nesse sentido que a questão da consciência e do projeto político são elementos centrais da construção de uma outra economia ,


O espírito cooperativista ou consciência socialista não surge espontaneamente. O anseio pela desalienação pressupõe que as pessoas estejam informadas de que estão alienadas da maioria das decisões que afetam suas vidas e dos seus dependentes. Essa é sem dúvida a primeira grande tarefa de uma educação para o cooperativismo ou para o socialismo. Despertada a consciência da alienação (assim como da exploração), é preciso educar o jovem para competir não só individual mas coletivamente, mediante participação ativa em cooperativas, sindicatos, centros estudantis, partidos políticos[21]

Este resgate conceitual sobre o socialismo permite a identificação de novos sujeitos sociais e processos em curso neste novo século, baseados na centralidade da cooperação e autonomia do trabalho, que definem a economia solidária como um conjunto de ações com vistas à formação de modos de produção associativos para um projeto estratégico anticapitalista. Esse processo ocorre no contexto do próprio modo de produção capitalista, ao mesmo tempo em que rompe com seus limites ao colocar em xeque o próprio funcionamento do sistema, baseado na exploração do homem pelo homem como lógica.


A derrocada do chamado “socialismo real” abriu um espaço para uma renovação no pensamento socialista sendo possível construir essa novas hipóteses, nas quais, o socialismo se desenvolverá como conflito interno no período histórico de hegemonia do modo capitalista de produção. O estudo histórico e a reflexão sobre a transição dos modos de produção pré-capitalistas para o modo de produção capitalista já apontavam, na obra dos pensadores socialistas, para a afirmação da hipótese que articula as transformações históricas com a mudança estrutural nas formas de produção, fundamento do chamado materialismo histórico[22].


O elemento central no processo de transição nos marcos da economia solidária é a necessidade de autonomia da classe trabalhadora, enquanto condição necessária para a criação de um novo modo de produção que emancipe do jugo do capital o poder coletivo do trabalho socializado.
Segundo Singer, continua sendo verdadeiro que o socialismo pressupõe a transferência do controle efetivo dos meios de produção dos capitalistas aos trabalhadores, entretanto, “esta transferência requer muito mais do que um ato jurídico-político de transferência formal da propriedade, ela requer antes de mais nada que os trabalhadores estejam desejosos de assumir o coletivamente tal controle e que se possam habilitar para exercê-lo em nível aceitável de eficiência”[23]


É a possibilidade de resgatar o conceito de Marx sobre desenvolvimento das capacidades humanas, ou seja, ao imaginar o ser humano como produto social mais universal e completo possível “tão enriquecido em necessidades como seja possível, já que é rico em qualidades e relações”[24] que a Economia Solidária é hoje uma práxis com enormes possibilidades para o desenvolvimento da uma outra sociabilidade.


Marx dava a conhecer uma proposta fundamental: a verdadeira riqueza é o desenvolvimento da capacidade humana. Este conceito introduz algo mais que o simples desenvolvimento das capacidades de produção, ao abarcar, também os meios de consumo já que a capacidade de desfrutar constitui “o desenvolvimento de uma possibilidade individual[25]”. Em lugar de considerar um ser com necessidades e faculdades produtivas sensíveis, Marx inspirava o desenvolvimento da rica individualidade multifacética na produção e no consumo[26]

Sobre estes conceitos versava a concepção socialista de Marx, ou seja, a criação de uma sociedade que elimine todos os obstáculos que impeçam o desenvolvimento pleno dos seres humanos. Marx almejava uma sociedade de produtores associados em que cada indivíduo fosse capaz de desenvolver todas suas potencialidades; “ o resultado absoluto de suas possibilidades criativas [...] o resultado total do conteúdo humano[...] o desenvolvimento de todos os seres humanos como um fim em si[27]. É na sociedade cooperativa baseada na propriedade comum dos meios de produção, afirmava Marx, que as forças produtivas “aumentam como o desenvolvimento integral do indivíduo, e todos os mananciais das riquezas cooperativa fluem com maior abundancia” [28]


A ênfase, portanto, sobre a criação de uma sociedade que permita o desenvolvimento total das possibilidades humanas sempre foi o objetivo dos socialistas. Mas como construir esse processo? Todas as tentativas de experiências revolucionárias realizadas até hoje não foram capazes de responder a esse desafio. Nesse sentido, que é possível identificar a práxis da Economia Solidária, a partir do conceito de Revolução Social Socialista de Singer, como uma construção que atualiza o projeto socialista a partir da emergência de um modo de produção que resgata as práticas de cooperação e autogestão, em um sentido de transformação, ou práxis revolucionária que nas palavras de Marx significava “a coincidência das transformações das circunstâncias com a transformação pessoal”.


A práxis da Economia Solidária, portanto, recoloca ao socialismo o desafio de transformar as circunstâncias e os homens, conforme sustentava Marx que logo após a Comuna de Paris, em 1871- mais de 25 depois de começar a estudar o tema- reiterou que os operários sabem que “deverão enfrentar lutas prolongadas, através de uma série de processos históricos, que transformem as circunstâncias e os homens[29],


Marx explicou que “os produtores também se transformam na medida em que fazem aflorar novas qualidades próprias, se desenvolvem na produção, se transformam, desenvolvem novas faculdades e idéias [...] novas necessidades e uma nova linguagem[30], ou seja, as pessoas se transformam no processo de produção. Também observou que o operário “ atua sobre a natureza externa e a transforma; transformando simultaneamente sua própria natureza”. Essa é a essência da sociedade cooperativa baseada na propriedade comum dos meios de produção.
As experiências da emergente Economia Solidária apontam para possibilidades concretas de transformações das circunstâncias (o modo de produção) e dos homens ( de trabalhador subordinado à trabalhador autogestionário) numa perspectiva que Singer apresenta como possibilidade, nos interstícios do capitalismo, da construção de novos modos de produção, que seriam as sementes de uma produção socialista.


A Economia Solidária é formada por uma constelação de formas democráticas e coletivas de produzir, distribuir, poupar e investir, segurar. Suas formas clássicas são relativamente antigas: as cooperativas de consumo, de crédito e produção, que datam do século XIX. Elas surgem como solução, algumas vezes de emergência, na luta contra o desemprego. Ocupações de fábricas por trabalhadores, para que não fechem, são semelhantes a ocupação de fazendas por trabalhadores rurais sem – terra. Ambas são formas de luta direta contra a exclusão social, tendo por base a construção de uma economia solidária, formada pro unidades produtivas autogestionárias.”[31]

A crise do capitalismo, pós-avalanche neoliberal da década de 1990 e o advento dos governos progressistas na América Latina, abrem condições objetivas para o aprofundamento de alternativas de desenvolvimento antagônicas a lógica dominante. As experiências de políticas públicas no Brasil, Venezuela, Equador e Bolívia comprovam isso e precisam ser analisadas a luz da emergência dessas novas formas de produção e organização do trabalho, protagonizadas pelos próprios trabalhadores e trabalhadoras, identificadas genericamente como Economia Solidária.
Entretanto, a Economia Solidária requer outros elementos para sua consolidação como projeto político estratégico, conforme salienta Singer,

Estas formas reativas, abandonadas a si, tendem a ficar marginalizadas, por terem pouca significação social e pequeno peso econômico. Mas, elas têm um respeitável potencial de crescimento político, se o movimento operário- sindicatos e partidos- apostar nelas como alternativa viável ao capitalismo. [32] (grifo nosso)


Ou seja, mesmo que a atual conjuntura possibilite brechas maiores para experiências com caráter anti-sistêmicos, ela requer, sobretudo uma profunda mudança de visão e postura da esquerda (partidos) e dos sindicatos no que tange ao potencial da Economia Solidária para a classe trabalhadora. Um primeiro passo nesse sentido seria compreendê-la, como demonstrou de forma inequívoca a obra de Singer , que ela é parte intrínseca, junto com a democracia, das grandes conquistas da classe trabalhadora rumo ao socialismo.


Outro elemento fundamental para o avanço deste processo é o debate teórico acerca da renovação do Socialismo do Século XXI e o “lugar” da Economia Solidária neste processo.
Esta tem sido, sem dúvida, a grande contribuição do livro de Singer, que é uma Utopia sim, mas no sentido da busca de algo concreto, realizável porque feito por sujeitos concretos; é militante no sentido de tomar partido, ser sujeito e fundamentalmente por repensar o socialismo sem negar seus pressupostos, como muitas teorias pós-modernas pretenderam.


Propõe, por isso, a renovação a partir do resgate do essencial da teoria socialista de Marx, ou seja, o conceito de socialismo vinculado à democracia econômica, o que Marx chamava de sociedade dos “livres produtores associados”, ou seja, uma sociedade no qual não apenas a economia e os meios de produção, mas fundamentalmente a possibilidade de emancipação, estejam nas mãos dos próprios trabalhadores.


[1] CABOT, E. e RIERA, M. Viaje a un mundo nuevo. Sobre distritos productivos y economía social. Revista El Viejo Topo.Número 249. Barcelona, outubro de 2008.
[2] SINGER, P. Uma Utopia militante, Petrópolis, RJ: Vozes, 2 Edição, 1999.
[3] Idem, p.11.
[4] Ibidem , p. 9
[5] Uma utopia militante, 1999. p. 9.
[6] Idem, p.17.
[7] Idem p. 18
[8] Idem, p. 18
[9] Idem, p.19
[10] Uma Utopia, 1999, p.20.
[11] Ibidem, p.20.
[12] Uma utopia,1999..pg.65
[13] Idem, p.68
[14] Uma utopia,1999., p.70
[15] Ibidem, p.89
[16] Ibidem, p109.
[17] Ibidem, p112.
[18] Ibidem, p112.
[19] Uma Utopia, 1999,p 114
[20] Ibidem, p.129
[21] Ibidem, p.131.
[22] BOCAYUVA, C. Transição, revolução social socialista e a economia solidária. In Revista Proposta, número 97, jun de 2003.
[23] Ibidem, p.10
[24] Marx, K. Grundrisse, Vintage Books, Nova York, 1973, p.488.
[25] Ibídem, p.409.
[26] Ibídem, p.711.
[27] MARX, K. Crítica ao programa de Gotha, 1962, p.325.
[28] Ibidem, p. 24.
[29] LEBOWITZ. M. Gestión Obrera, desarrollo humano y socialismo. In Revista Temas, no.54:4-13, abril-jun, de 2008.
[30] MARX, Grundisse, op. Cit. p. 498.
[31] Uma utopia.1999.p. 181
[32] Uma Utopia, 1999, p. 182

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Solidariedade


A FEPAL - Federação Árabe Palestina do Brasil- convida a todas as entidades palestinas no Brasil, ONGs , Organizações Sindicais , Movimentos Sociais e simpatizantes da Causa Palestina à participarem de um ato público , a ser realizado dia 13 de Janeiro de 2009 , às 10:00 , na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul em Porto Alegre, onde será renovado o Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino . Logo após , será realizada uma marcha até o centro de Porto Alegre , como forma de protesto frente ao genocídio perpetrado por Israel contra o povo palestino em Gaza.

O Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino defende as seguintes propostas das quais este blog apoia em sua totalidade:

1) A luta pela imediata retirada das tropas israelenses do território palestino;

2) O imediato reconhecimento do Estado Palestino;

3) O boicote aos produtos israelenses. A idéia é não comprar produtos fabricados pelos sionistas, que hoje escondem o “Made in Israel” para driblar a repulsa mundial, mas tem o código de barras iniciado com o número 0729;

4) Rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Israel;

5) Não ao acordo Mercosul/Israel;

6) Responsabilização pelas atrocidades cometidas por Israel.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Quem são os terroristas?


Chávez expulsa embaixador de Israel


Chávez ( com lenço palestino) fez o que todos os governos que denominam democráticos e defensores dos direitos humanos deveriam fazer.




A Venezuela anunciou hoje a expulsão do embaixador de Israel em Caracas, Shlomo Cohen, em resposta à ofensiva militar deste país na Faixa de Gaza, disse o Ministério das Relações Exteriores por meio de um comunicado lido na televisão estatal. O governo venezuelano condenou fortemente as flagrantes violações do Direito Internacional pelo Estado de Israel, bem como o uso do terrorismo de Estado para castigar a um povo.
O presidente venezuelano, Hugo Chávez, comparou a situação na Faixa de Gaza ao Holocausto e pediu à comunidade judaica de seu país que condene a ofensiva de Israel na região, que já fez mais de 600 vítimas. Chávez lembrou que vivem na Venezuela tanto palestinos como israelenses, e que todos são bem quistos no país, mas ressaltou que a comunidade judaica precisa condenar o que qualificou como uma "barbaridade".
Chávez chamou ainda os soldados israelenses de "covardes". "São uns covardes, pois bombardeiam povos inocentes. Que tremendos soldados são, como são valentes os soldados de Israel", disse o presidente que classificou a situação em Gaza como um "genocídio realizado por um governo assassino, braço executor dos Estados Unidos". Chávez fez um apelo ao mundo árabe para que se coloque de pé contra o ataque de Israel e anunciou que entrou em contato com países do Oriente Médio e organizações internacionais para levar ajuda humanitária a Gaza.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Israel mata os "terroristas" do Hamas



A menina na foto é Lama Hamdan, uma criança palestina de 4 anos, flagrada sendo enterrada no cemitério de Beit Hanoun, no norte da Faixa de Gaza, pelo fotógrafo da Reuters, Mohammed Salem.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Povo Basco nas ruas pela liberdade e democracia





Neste sábado realizou-se em Bilbao ( Pais BAsco) um das maiores manifestações dos últimos anos em prol da anistia aos presos políticos bascos presos, atualmente são mais de 750 os militantes bascos presos por lutarem pela independencia do Pais Basco.