quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Uma história real




A História de Khalia e Mombo


Khalia era uma das mulheres mais belas e inteligentes de sua comunidade: conhecia todas as regras, sabia desenvolver-se extraordinariamente bem em todas as facetas de sua vida, curava alguns males, cozinhava bem, estava a par das notícias relevantes, era alegre, dançava, usava trajes elegantes que ela mesma criava... Khalia era muito querida por todos e tinha mil apelidos: Khalia a bela, Khalia a sorridente, Khalia a amável, Khalia a graciosa...

Muitos jovens de sua comunidade a queriam. Mas ela sabia, desde muito tempo, que só aceitaria Mombo, o mais audaz da comunidade, o mais avançado e o mais lúcido, que era, ademais, sensível aos sorrisos que Khalia dedicava somente a ele, sensível a inteligência de Khalia e sensível ao brilho, atividade e entusiasmo dessa mulher, e, por tudo isso, a pediu em casamento.

Khalia e Mombo eram uma fortaleza vital : juntos produziam mais que ninguém, riam mais que ninguém, vibravam mais que ninguém e eram profundos conhecedores das tradições do passado e atores do futuro.

Mas as coisas se tornaram difíceis em seu país quando nasceu o primeiro de seus filho, Tron, e Mombo , o audaz, empreendeu um difícil caminho até outra parte. Khalia o amava e o seguiu com Tron.

Em questão de horas, difíceis horas, por outra parte, Khalia, Mombo e Tron foram despojados de todos os seus atributos. Estão rodeados de pessoas que falam outro idioma, se movem de outra maneira, fazem coisas incompreensíveis, estão nas ruas em certos momentos para deixá-la vazia em outros, ha dias que fecham tudo. Tudo está cheio de estranhos símbolos, as vezes fixos, as vezes alternados.Manejam umas moedas estranhas e vão em lugares que não parecem acessíveis, movem as mãos de maneiras diferentes, fazem gestos estranhos, colocam as coisas em lugares diferentes, falam desde muito longe...

Em questão de horas, Khalia já não é a mesma: não conhece as regras, não sabe comprar, não encontra os alimentos que conhece e os que encontra não sabe como cozinhá-los, não pode explicar sua história, não vê no campo as ervas que curam a dor de estômago, não sabe o que acontece na comunidade, seus vistosos vestidos- os três que pôs na mochila- não servem para o frio e não sabe como vestir-se, olha Tron e pensa que não pode mais curá-lo, que ela não sabe a quem acudir... E, sobretudo, Khalia deixou de cantar e já não sorri.

Mombo também está como Khalia, ambos vítimas do desconcerto e do estranhamento, mas, por sorte, ele encontrou um primo terceiro que lhe ofereceu um trabalho no campo. Mombo sai de casa e passa o dia trabalhando com os amigos de seu primo, todos do mesmo país. Somente um deles fala com o chefe em uma língua que Mombo não conhece, logo seu primo traduz por cima. Ele sabe que a tradução foi por cima, só por cima… Mombo já não domina a situação. Ao contrário, a situação domina ele. Também domina Khalia. Já não são Mombo e Khalia, já não tem mil apelidos, já não são audazes, nem belos, nem... Somente tem um apelido: são imigrantes, e, “o pior”, dois: são imigrantes africanos.

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