sábado, 15 de agosto de 2009

Vitória da autogestão





Zanon expropiada: uma jornada inesquecível

Por Titin Moreira

“Já se passaram 8 anos, não queremos mais enrolação , queremos a expropriação”, gritavam os ceramistas de Zanon acompanhados por uma numerosa coluna de funcionários estatais, docentes, trabalhadores da saúde, organizações sociais e partidos da esquerda a caminho da Legislatura Neuquina, onde se trataria a expropriação da fábrica.

O vento patagônico soprava frio e forte, fazendo a espera em frente ao congresso provincial insuportável. Os ceramistas, que 8 anos atrás se atreveram e tomaram a fábrica, a colocaram para produzir e fizeram com que sua epopéia fosse parte das melhores páginas da história operária de nosso país, cantavam com orgulho: “aqui estão, esses são os operários de Zanon”, até enrouquecer suas gargantas.

Nos dias anteriores, Neuquén era um fervedouro. Apesar do fato de que o Governador havia se decidido pela expropriação, desde seu partido, o MPN, desde a oposição direitista e desde a mesma CGT se escutavam as queixas porque entregavam a fábrica aos “esquerdistas” incorrigíveis, aos “delinqüentes”. Não pouparam nenhuma ofensa para desprestigiar a exemplar luta ceramista. A burocracia sindical cegetista e a câmara empresária tentaram evitar que se votasse a expropriação. Mas não conseguiram.

Marcha a legislatura

Uma grande coluna encabeçada por um cartaz que dizia: “Carlos Fuentealba, presente”, era o símbolo dessa marcha. Uma frente única dos que apoiaram a luta ceramista pela expropriação, dos que lutaram também para castigar os que assassinaram o professor, lá em Arroyito. E recordaram que Carlos Fuentealba foi um das centenas de docentes que em 8 de abril de 2003 foram cercar Zanon frente a tentativa de desocupação. E subindo pela Avenida Argentina, os ceramistas faziam ouvir sua voz: “Não lhes damos trégua, que vão a merda...”, caso algum desprevenido pensasse que porque haviam lhes prometido a expropriação iam deixar de lutar e de apoiar cada luta.

Transcorria a longa e tediosa sessão legislativa, na qual haviam entrado uns 50 companheiros, uma delegação destacada dos veteranos de Zanon acompanhados das Mães da Praça de Maio de Neuquén, delegações da CTA, de trabalhadores do INDEC, do Metrô, do Estaleiro Río Santiago, de Brukman, entre outros. Enquanto isso, do lado de fora acontecia um ato no qual falaram todas as organizações políticas solidárias. Um momento muito emotivo foi quando subiram as companheiras que organizaram, 9 anos atrás, a primeira comissão de mulheres de Zanon. A mãe de Alejandro López, mostrando a primeira camisa de luta de seu filho, contou orgulhosa como começou a apoiá-los, a ele e a seus companheiros. Houve recordações (e como não haveria) para Daniel Ferrás, o jovem que morreu pela desídia patronal e foi o estandarte que conseguiu unir a força ceramista. Também para Boquita, Jorge Esparza, falecido recentemente e membro das diretivas do SOECN. A emoção era visível. E a meia-noite dessa longa jornada da quarta-feira, 12, com um frio que as fogueiras não conseguiam mitigar, votou-se a expropriação. Estouraram as comemorações. “Por fim”, gritavam, “e pensar que alguns diziam que nunca conseguiríamos”. Cantavam, saltavam, abraçavam-se e algumas lágrimas rolavam por essas bochechas curtidas. Os mais veteranos se recordavam do fim da grande greve de 2001, a dos 34 dias. Do festejo daquele triunfo, depois da grande tensão acumulada. E a comparação não estava errada. Aquela grande greve abriu o caminho ao que meses depois seria a ocupação e colocação em andamento da fábrica dos ceramistas mais importantes do país.

Lolín, uma das queridas Mães do Comahue, subiu ao cenário e com suas palavras de alento, como tantas vezes, deu calidez a essa noite gelada. Ninguém se movia e já era 1 da manhã. Quando a consígnia cantada era que “a classe operária é uma, e sem fronteiras” foi a vez de apresentar o brasileiro Claudionor Brandão, dirigente do SINTUSP, sindicato dos trabalhadores da Universidade de São Paulo, que reivindicou o exemplo de Zanon e da expropriação para centenas de milhares que perdem o emprego no Brasil. Depois falaram os dirigentes de Zanon, as figuras públicas e aqueles que têm a tarefa de manter em andamento uma empresa que dá de comer a 470 famílias, em meio à crise capitalista atual. E para reafirmar essa unidade subiram ao palco os próximos dirigentes do sindicato, que se apresentam às eleições em duas semanas pela histórica lista Marrom.

Todos os oradores agradeceram o apoio recebido aos que foi nos fazendo unha e carne, não só nesse dia, mas nesses longos 10 anos de luta, desde que conquistaram a Comissão Interna. E houve tempo para abraçar-se com os companheiros presentes da cerâmica Stefani, hoje em conflito.

Mas não dormiram nos louros. Conscientes de que a expropriação alcançada não é o fim, e que além disso, no tratamento particular, artigo por artigo, podem querer colocar alguma armadilha (como a “paz social” ou o pagamento de indenização), votaram voltar a mobilizar-se na legislatura no dia seguinte. Essa jornada é o fim de um longo vão da história, e o começo de outro não menos combativo e difícil. Porque, como repete ao cansaço Raúl Godoy, “Zanon não é uma ilha”, e que exemplo mais concreto para ilustrá-lo que a cerâmica Stefani de Cultura Có, que está em greve há mais de um mês por uma provocação patronal. A luta de Zanon e seu sindicato continua.

Um exemplo nacional e internacional

A gestão de Zanon é reconhecida em todo o país, e teve uma importante difusão a nível internacional. Com o tempo, esse prestígio e essa transcendência, longe de diminuir, cresceram. O último ano, isso é notório. Não é mérito apenas dos ceramistas e de sua direção. É que a crise capitalista mundial, com sua seqüela de milhões de demitidos no mundo todo e milhares de fábricas fechadas, põe na ordem do dia a experiência das fábricas recuperadas na Argentina que provocou a crise de 2001 e teve difusão internacional. Há 8 anos, a estrela de Zanon brilha com mais força. Sua política de controle operário, distinta e superior à das cooperativas normais que adotou o conjunto das empresas ocupadas, seu sindicato classista, sua política de coordenação, seu método de democracia operária no qual a assembléia decide, o controle periódico permanente da base sobre a gestão da empresa, sua solidariedade militante com dezenas de conflitos em todo o país. Sua atitude de apoio a setores necessitados, fomentando sempre o que eles chamam de “o trabalho com a comunidade”, os shows com bandas como La Renga, la Bersuit, Attaque, entre outras, para que os garotos da região, seja de graça ou pagando o mínimo, possam desfrutar de shows sempre inacessíveis. Enfim, uma fábrica de ceramistas que é uma fábrica militante, e que ganhou a expropriação. Ninguém a deu de presente. Não conseguiram- na sozinhos, mas foi fundamental o apoio extraordinário que receberam de trabalhadores da região e de todo o país. “Unidade dos trabalhadores, e quem não gosta, que se foda, que se foda.” Cantam e cantam.

Ganharam a expropriação. Arrancaram-na ao regime neuquino com esforço. Saem da Legislatura, contentes pela batalha ganha. A noite gelada guarda o eco desse hino de guerra de tantas jornadas, que, claro, não está e nem esteve ausente: “Viva a luta de Zanon, que viva o controle operário, porque essa fábrica é do povo, em Zanon não passarão.”

Nenhum comentário: