quarta-feira, 17 de junho de 2009

Avançar ou sucumbir



Mulheres da Via Campesina: Luta política para a transformação econômica


Economia das(os) Trabalhadoras(es): Politizar as práticas autogestionárias ou sucumbir ao sistema capitalista?
Paulo Marques


A informação de que o presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, elogiou o trabalho de bancos de desenvolvimento comunitários que atuam em áreas desamparadas, afirmando que o banco central norte-americano “está examinando meios para ajudar a aumentar a estabilidade financeira dessas instituições”, não é nenhuma novidade. A história de desenvolvimento do capitalismo demonstra que o sistema tem buscado apropriar-se de forma utilitarista e funcional de muitas iniciativas dos trabalhadores e trabalhadoras construídas para enfrentá-lo, seja no campo político como o econômico. Isto ocorreu, por exemplo, em relação ao cooperativismo, que, coetâneo ao desenvolvimento do capitalismo industrial, foi uma alternativa criada pelos próprios trabalhadores (as) que resistiam ao funcionamento do modo de exploração capitalista.

No entanto, o que vimos ao longo dos anos foi a adaptação do cooperativismo à lógica do sistema, servindo principalmente no contexto da reestruturação produtiva do capitalismo contemporâneo. Outra experiência “elogiada” pelos organismos internacionais do capital é o Orçamento Participativo, uma das mais criativas e importantes iniciativas para a democratização do Estado. Não é diferente a relação com a Economia Solidária, que é vista pelo capitalismo como uma prática econômica marginal que “resolve” o problema dos (as) “excluídos(as)” do sistema, a partir da inclusão nas esferas inferiores da economia, sem ameaça a macro-economia.

Qual reflexão que podemos fazer disso? Em primeiro lugar seria um equívoco afirmar que pelo fato do capital aceitar e até estimular as práticas dos(as) trabalhadores(as) como o cooperativismo, o OP, os Bancos Comunitários, isso signifique que essas iniciativas “não sirvam” para um projeto estratégico de uma economia anti-capitalista. Isto porque esse “apoio” nunca passa de discursos vazios, pois na realidade não há nenhum incentivo, financiamento ou política que ampliem essas iniciativas, ao contrário, toda política de caráter capitalista, realizada pelos partidos que representam o capital, quando estão a frente do Estado, é privilegiar o grande capital, as transnacionais e o capital financeiro. Portanto, esse “apoio” não passa de discurso sem efeito prático algum.

Em segundo lugar podemos perceber que grande parte da esquerda, utiliza esse fato para desqualificar essas iniciativas qualificando-as de “reformistas”. Essa miopia impede que se dê um salto político necessário que torne as práticas de autogestão e democracia participativa em estratégia para renovação do socialismo numa perspectiva anti-capitalista.

Tanto o Orçamento Participativo, como prática de democratização do Estado, o Software Livres como prática de democratização do conhecimento e da informação, a Economia Solidária, através dos Bancos Comunitários, das cooperativas populares, empresas recuperadas como Economia Autogestionária dos(as) Trabalhadores(as), constituem um enorme potencial de apresentar uma alternativa a Economia dos Capitalistas.

Entretanto, a transformação dessas práticas em projeto emancipatório, deixando de ser utilitária e funcional, só será viabilizada na medida em que se constituem em instrumentos práticos de contra-hegemonia, laboratórios de trabalho e produção emancipada com condições de enfrentar a lógica do capitalismo. Isso não será possível sem um processo de politização dessas iniciativas, o que significa incluí-las como centro de uma plataforma dos trabalhadores e trabalhadoras para enfrentar o capitalismo.

Torna-se, portanto, fundamental o papel que os partidos de esquerda e os movimentos sociais deveriam exercer como catalizadores políticos dessas práticas, pois somente quando essas iniciativas conformarem uma estratégia de caráter anti-capitalista é que serão identificadas como um perigo. Ao contrário, a desorganização, estratificação e marginalização de tais iniciativas contribuem para que sejam cooptadas e compreendidas como práticas que não ameaçam o sistema hegemônico.

Nesse sentido, o movimento da Economia Solidária precisa avançar em direção a um processo de politização das práticas autogestionárias de milhares de trabalhadores e trabalhadoras, articulando-as com outros movimentos emancipatórios como o movimento feminista, o anti-racismo, os movimentos camponeses e partidos de esquerda, contribuindo assim para formação do que Gramsci chamou de novo “Bloco Histórico”, capaz de efetivar uma contra-hegemonia como força transformadora.

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