segunda-feira, 25 de maio de 2009

A utopia da Democracia Integral


Mario Bunge: "A democracia integral poderá tardar vários séculos para realizar-se, mas que seu embrião nasceu já a mais de um século, quando se constituíram as primeiras cooperativas de produção e trabalho na Itália, sobre a base de empresas capitalistas falidas..."

A utopia da Democracia Integral *

Este artigo que postamos é a conclusão de uma conferência realizada no Peru, pelo filósofo argentino Mário Bunge que defende uma tese que corrobora com o que nosso coletivo defende como atualização programática para uma esquerda do século XXI que é a tese segundo qual o “o autêntico socialismo renascerá sobre as cinzas do capitalismo”, ou seja, através de iniciativas econômicas auto-organizadas pelo trabalhadores, nos interstícios do próprio sistema. Da mesma forma Bunge defende os empreendimentos autogestionários, empresas recuperadas como embriões de um projeto renovado de socialismo de caráter emancipatório. Esse socialismo “ de baixo para cima” é para Bunge a única forma, segundo ele, de superar o capitalismo e a incapacidade de proposições da esquerda. Representa o que denomina de uma utopia da “ Democracia Integral”, que significa a ampliação da democracia para todos os âmbitos da sociedade.

Mario Bunge: “O autêntico socialismo renascerá sobre as cinzas do capitalismo**

A sociedade capitalista, caracterizada pelo chamado mercado livre, passa por uma grave crise. Ainda que os políticos e seus economistas nos prometam que eventualmente sairemos dela, não nos dizem como, nem quando. Não podem fazer porque carecem de teorias econômicas e políticas corretas: somente dispõe de modelos matemáticos irreais e de consignas ideológicas desgastadas. Isto vale não só para os dirigentes neoliberais mas também para os socialistas, tanto os moderados como os autoritários. Os neoliberais não nos explicam a alquimia que transformaria a liberdade de empresa e de comércio em prosperidade; e os poucos marxistas que encontramos se regozijam com a crise que profetizaram tantas vezes, mas não propõe idéias novas e realistas para reconstruir a sociedade sobre bases mais justas e sustentáveis.

Eu creio que exista motivos práticos e morais para preferir o socialismo autêntico ao capitalismo, e que a construção do socialismo não requer a restrição da democracia, mas muito pelo contrário, requer sua ampliação, do terreno político a todos os demais. Isto é o que chamo democracia integral: biológica, econômica, cultural e política . Semelhante sociedade seria inclusiva: não haveria exclusões por sexo nem por raça, nem exploração econômica, nem cultura exclusivista, nem opressão política.

Perguntar-se-á, com razão, se esta não será uma utopia a mais, e minha postura a de um cantamañanas. Minha resposta é que a democracia integral poderá tardar vários séculos para realizar-se, mas que seu embrião nasceu já a mais de um século, quando se constituíram as primeiras cooperativas de produção e trabalho na Itália, sobre a base de empresas capitalistas falidas. Um exemplo parecido, mais recente e modesto, é o movimento argentino das fábricas recuperadas, estas foram as empresas que, quando foram abandonadas por seus donos por considerá-las improdutivas, foram ocupadas e reativadas por seus trabalhadores . Estes são exemplos que pequena escala de socialismo cooperativista.

Se nos EUA existissem sindicatos e partidos políticos progressistas, estes aproveitariam a ocasião atual e transformariam em cooperativas as grandes empresas em bancarrota, tais como General Motors e AIG. Obviamente, semelhante mudança requer a anuência dos poderes públicos, já que envolve o reconhecimento legal das empresas “recuperadas” por seus empregados, o que ocorreu na Argentina. Mas o que está fazendo o governo norte-americano desde final de 2008 é usar dinheiro público para resgatar essas empresas privadas falidas por mal gestão. Ou seja, estão fazendo o oposto de Robin Hood. Garret Hardin o chamou “ socializar as perdas e privatizar os lucros”
Em resumo, um programa realista para os partidos socialistas partiria da consigna da Revolução Francesa, agregando participação e competência na gestão do Estado. O meio para realizar este ideal da democracia integral é: Ir construindo ela aos poucos desde abaixo com as cinzas do capitalismo como um trem de autocombustão. Ou seja, multiplicar as cooperativas e mutualidades, renovar os partidos socialistas com uma forte dose de ciência e tecnologia social, e multiplicar os sindicatos independentes, fundar centros de estudo da realidade social, e multiplicar as bibliotecas e universidades populares.
Em suma, o socialismo terá um porvir se propor-se a ir socializando gradualmente todos os setores da sociedade. Sua finalidade seria ampliar o Estado para construir um socialismo democrático e cooperativista. Este poderia ser em prática uma versão atualizada da consigna da Revolução Francesa de 1879, a saber: Liberdade, igualdade, fraternidade, participação e idoneidade.

*Texto publicado em www.kaosenlared.net

**Tradução : Paulo Marques

***Mario Bunge é argentino, nascido em Buenos Aires, físico, epistemólogo e um dos mais importantes e internacionalmente reconhecidos filósofos hispanoamericano do século XX. Acumula quinze doutorados honoris causa, o prêmio Príncipes de Astúrias, já escreveu mais de 50 livros. Com uma sabedoria enciclopédica e permanentemente comprometido com os valores da democracia republicana, os direitos humanos e a justiça social e econômica, são memoráveis suas devastadoras críticas as pretenções pseudo-ciêntíficas da teoria econômica neoclásica ortodoxa e das psícoanálises “charlatanistas”.

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