quarta-feira, 6 de maio de 2009

Pete Seeger 90 anos






Pete Seeger: 90 anos de uma lenda viva da música folk

Nossa homenagem a Pete Seeger, a lenda viva da música folk norte-americana que completou 90 anos no dia 03 de maio. O texto abaixo é de autoria de Rui Tentúgal , publicado no site português www.aeiou.expresso.pt

Pete Seeger é uma lenda americana. Personagem mítica que percorria com Woody Guthrie as terras do 'Dust Bowl', as 'Vinhas da Ira', a cantar para os deserdados e oprimidos. A memória viva da tradição musical popular. A voz da esquerda que canta canções de luta e de trabalho de todo o mundo. Um homem perseguido, que esteve na Lista Negra e sobreviveu ao Macartismo. O patriarca do revivalismo folk dos anos 60. O mentor que ensinou Dylan a cantar para o povo. Um modelo de luta e persistência, tão empenhado a defender os direitos civis ao lado de Luther King como a combater a poluição do rio Hudson. Um dos nomeados para o próximo Nobel da Paz.

Pete Seeger filiou-se ao partido Comunista em 1942, foi considerado pela direita como "maldito comunista marionete de Moscou", "perigoso anti -americano". O renegado cujo primeiro disco 'desapareceu' por ser historicamente incorrecto. O velho que ameaçou pegar num machado para impedir Dylan de entrar na 'fase elétrica' e alterar a história da música.

Pete Seeger fez 90 anos e a data foi celebrada com uma grande homenagem no dia 3 de Maio, no Madison Square Garden de Nova Iorque. Entre as dezenas de músicos que participaram da histórica festa marcaram presença Bruce Springsteen, Joan Baez, Eddie Vedder, Arlo Guthrie, Ben Harper, Billy Bragg, Emmylou Harris, Ramblin' Jack Elliott, Richie Havens, Roger McGuinn. Um dos convidados mais esperados o compositor e amigo de longa data de Pete, o cubano Silvio Rodríguez não compareceu pois não obteve o vista de entrada nos EUA. Pode-se comprovar com isso que muitas coisas ainda não mudaram desde os anos 60. O bloqueio americano continua contra Cuba, a fome e a miséria do capitalismo ampliam-se, ou seja, a obra e a luta de Pete e Silvio Rodrigues por um mundo justo e igualitário continua muito atual .

"Considero-me um contador de histórias, por vezes um organizador. Não sou um bom cantor. Não sou particularmente bom a tocar banjo. Mas sou especialista em conseguir que uma multidão cante comigo, e quando esta canta bem sinto-me feliz."

Pete Seeger nasceu em Manhattan. O pai, Charles Louis Seeger, era compositor e etnomusicólogo com investigação no campo da folk americana, a mãe uma violinista clássica. A família Seeger tornou-se uma espécie de aristocracia folk e os seus filhos continuaram a tradição.
Aos 17 anos descobriu o banjo de cinco cordas, instrumento que o acompanha até hoje, e na Universidade de Harvard descobriu a explosiva mistura de folk com radicalismo político.
Abandonou os estudos em 1938, para integrar os Vagabond Puppeteers, uma trupe de marionetistas inspirada pelas campanhas rurais de educação do México pós-revolucionário. Acabou indo trabalhar no Arquivo da Canção Folk Americana, em Washington, com um dos maiores musicólogos do século, Alan Lomax, amigo do seu pai. Santo emprego que lhe deu oportunidade para se familiarizar com um impressionante corpus gravado da tradição popular.

Iniciou a carreira de cantor com os Almanac Singers em 1940/41. O grupo (no qual participou Woody Guthrie), muito politizado, empenhou-se na promoção do sindicalismo, dos direitos dos trabalhadores e da inclusão religiosa e racial. Os Almanac Singers tornaram-se membros da Frente Popular (uma aliança de esquerda que incluía o Partido Comunista Americano, no qual Seeger se filiou em 1942). Cantavam o que consideravam ser o melhor da música branca e negra de todo o mundo, usavam roupas do dia-a-dia e convidavam a audiência a cantar com eles. Seeger e Guthrie percorriam a América rural e sonhavam lançar um grande movimento de canção operária.

O primeiro disco ficaria para a História pelas piores razões: "Songs for John Doe" (1941) seguia a agenda de Moscou e era um libelo contra a guerra e as políticas de Roosevelt de recrutamento em tempo de paz. Contudo, pouco depois, Hitler quebrava o pacto com a União Soviética e os Almanac mudavam de opinião: no ano seguinte, após o ataque japonês a Pearl Harbor, editavam "Dear Mr. President", apoiando o esforço de guerra americano. As cópias existentes de "Songs For John Doe" foram destruídas e as gravações apagadas, restando hoje alguns exemplares (não se sabe quantos) nas mãos de coleccionadores.

As posições abertamente políticas do grupo acabaram por levar à sua dissolução. Em 1948/49, com a perseguição aos comunistas em curso, morriam os Almanac Singers, Seeger desfiliava-se do Partido Comunista, e nasciam os Weavers. Sediados em Greenwich Village, em Nova Iorque, as suas canções deixavam de ser declaradamente políticas, as roupas do dia-a-dia seriam substituídas por trajes formais e mantinham-se longe das greves e outros ativismos. Artisticamente, o grupo alcançou vendas nunca sonhadas pelos Almanac. Muitos dos seus temas entraram no repertório folk como, 'Midnight Special', uma versão de 'Goodnight, Irene ' de Leadbelly, ou 'Kumbaya', um espiritual negro dos tempos da escravatura que ainda hoje sobrevive em todos os acampamentos onde haja uma guitarra e uma fogueira. Os Weavers foram a fundação sobre a qual iria florescer nos anos 60 o 'Folk Revival'. Contudo, mesmo tomando todas as precauções e com a imprensa de esquerda a rotulá-los de 'vendidos', acabariam na Lista Negra da era McCarthy. Chamado a testemunhar perante a Comissão de Atividades Anti-Americanas, Seeger acabou processado e condenado a prisão, num processo do qual só se livrou em 1972.

Em "Crónicas - Vol.1", Bob Dylan conta uma história desta altura: "John Hammond [da Columbia Records], tinha recentemente levado Pete Seeger para a editora. Não foi ele que o descobriu. Pete já andava por aí há anos. Tinha estado no popular grupo folk The Weavers, tinha estado na lista negra durante a era McCarthy e tinha passado dificuldades, mas nunca parou de trabalhar. Hammond era provocador quando falava de Seeger, dizia que os antepassados de Pete tinham vindo no 'Mayflower', que parentes dele tinham estado na batalha de Bunker Hill, pelo amor de deus. 'Como é que foi possível aqueles filhos da puta terem-no posto na lista negra? Deviam ser cobertos de alcatrão e penas'".

Os Weavers sobreviveram com muitas dificuldades e Seeger acabaria por os deixar em 1958 por estes terem aceite gravar um jingle para um anúncio de cigarros. A solo, iria gravar frequentemente para a Folkways de Moses Asch e encontrar novas causas políticas: com o movimento contra o nuclear, canções como 'Where Have All the Flowers Gone?' tornaram-se grandes êxitos. Nos anos 60 empenhou-se no movimento pelos direitos civis e chegou a cantar 'We Shall Overcome' na marcha de Martin Luther King para Washington. Com o renascer da actividade política após os anos McCarthy, a oposição à Guerra do Vietname e o advento do Folk Revival e da música de intervenção nos anos 60 em Greenwich Village, Seeger tornou-se uma figura tutelar do movimento. Vivia um sonho, rodeado pelos "filhos de Woody", como lhes chamava, e a sua música estava de volta aos tops - 'If I Had a Hammer ', escrita em 1949 nos Weavers, foi popularizada em 1962 por Peter, Paul and Mary, e 'Turn! Turn! Turn! (to Everything There is a Season) ' composta em 1959 teve uma versão dos Byrds que chegou ao primeiro lugar dos tops em 1965.

Escreve Ramón Padilla em "Canciones de Protesto del Pueblo Norte Americano": "Muito alto, magro, e com o cabelo começando a embranquecer, um homem sai do teatro, de banjo ao ombro e viola na mão. Durante duas horas, com as mãos meio ligadas porque se feriu a rachar lenha, tocou aqueles instrumentos e cantou em inglês, yiddish e castelhano. Cantou canções da guerra civil espanhola, canções de amor, canções para crianças - e canções contra a guerra do Vietnã. É ainda meio aloirado, tem olhos azuis e, embora mantenha um aspecto juvenil, descobrem-se-lhe na face marcas de dificuldades e canseiras. Em Pete Seeger conjuga-se o tradicional e o atual, as canções de há séculos e as dos cantores urbanos de hoje. Cantará, umas atrás das outras, uma balada escocesa, uma canção de trabalho judaica, uma melodia negra nascida nas prisões do Sul, uma canção de mineiros, outra contra a Guerra do Vietname. O fio condutor desta enorme variedade é a luta contra a injustiça, a fome e a miséria, a sua indestrutível fé no homem, a luta contra toda a opressão."

Tornou-se um exemplo para todos os jovens cantores. Nicholas Dawidoff, no livro "In The Country of Country", conta que a adolescente Emmylou Harris, passando os dias fechada em casa a ouvir música folk na rádio, decide escrever uma carta a Seeger confessando-se aflita por não ter sofrido o suficiente na vida para poder cantar. "Ele respondeu-me dizendo: 'Não te preocupes. A vida vai-te apanhar. Vais sofrer. Não te metas num comboio de mercadorias'."

Foi nesta altura, em que vivia no melhor dos mundos, que uma nova lenda surgiu, abafando durante muitos anos a anterior. Em 1965, Dylan, a voz da nova geração, o mais dileto 'filho de Woody', toca, como era hábito, no festival folk de Newport (em cuja organização estava Seeger). Ninguém imaginaria que aquele seria 'o dia em que Dylan mudou a música' ao decidir apresentar-se pela primeira vez em palco com uma banda 'elétrica' (até aí todos os seus concertos tinham sido com uma viola acústica e uma harmónica). Toca 'Maggie's Farm', 'Like a Rolling Stone' e 'Phantom Engineer'. E sai do palco sob os apupos da assistência. A lenda diz que nos bastidores Pete Seeger ameaçou pegar num machado e cortar o cabo do microfone - o representante da folk mais pura tinha enlouquecido ao ver o seu delfim trair a causa. Seeger assegura que estava irritado, não com o Dylan 'elétrico', mas com o fato de a distorção impedir que se percebesse a letra de 'Maggie's Farm'. Mas há muitas outras versões e não se sabe o que realmente aconteceu. No documentário "No Direction Home", de Martin Scorsese, Dylan diz que a reacção negativa de Seeger foi como se o apunhalassem no coração.

Seeger viu Dylan 'partir' em 1965 e Woody morrer em 1967. "Tudo o que consegui pensar nessa altura foi 'Woody não morrerá enquanto houver gente que goste de cantar as suas canções'. Dezenas delas são conhecidas por cantores de uma ponta à outra dos EUA, e uma delas é hoje amada por dezenas de milhões de americanos: 'This land is your land, this land is my land/ From California, to the New York Island/ From the redwood forest, to the gulf stream waters/ This land was made for you and me'."

Ultimamente, Seeger tem sido recuperado publicamente nos EUA. O primeiro passo foi dado em 2006 por Bruce Springsteen quando editou "We Shall Overcome: The Seeger Sessions", um enorme projecto (disco e digressão) construído sobre músicas de (ou popularizadas por) Pete Seeger. Bruce já tinha gravado em 1997 uma versão de 'We Shall Overcome' para um álbum de tributo, "Where Have All the Flowers Gone: the Songs of Pete Seeger", e tornou-se um defensor incansável dos méritos do veterano músico. Com a exposição internacional que teve graças ao disco de Springsteen, vários colunistas desenterraram as opções políticas passadas de Seeger. Em resposta, este escreveu em 2007 uma canção condenando Estaline, 'Big Joe Blues'.

Finalmente, a 18 de Janeiro deste ano, Seeger, o seu neto Tao Rodríguez-Seeger e Bruce Springsteen protagonizaram um dos momentos altos da cerimónia de tomada de posse de Barack Obama ao cantarem 'This Land Is Your Land '. A multidão que cantou com eles por certo nunca soube que Woody Guthrie compôs a canção em resposta a 'God Bless América' de Irving Berlin. Seeger, Springsteen, a estátua de Lincoln em frente à qual sonhou Martin Luther King, Obama e Woody. Os círculos da História tocavam-se. Seeger pode regressar à lenda e descansar

Nenhum comentário: