quinta-feira, 30 de abril de 2009

Primeiro de maio: A necessidade de uma perspectiva anti-capitalista



Primeiro de Maio: A necessidade de uma perspectiva anti-capitalista

Paulo Marques


O Primeiro de Maio é uma data carregada de símbolos. O principal e que infelizmente vêm perdendo força, é o simbolo da luta anti-capitalista. Malgrado as capitulações e cooptações dos sindicatos cada vez mais burocratizados e submersos no “status quo”, a luta anti-capitalista é intrínseca ao próprio sistema hegemônico do capital. A origem do Primeiro de Maio como data dos trabalhadores compõe o processo permanente de resistência dos explorados frente a dinâmica de funcionamento do modo capitalista de produção.

O direito às oito horas de trabalho foi, e ainda é, uma das lutas permanentes da classe trabalhadora além da reivindicação por outros direitos fundamentais de proteção e seguridade. Muitos destes direitos conquistados nos países centrais a partir das jornadas de luta e processos revolucionários ao longo do século XX continuam sendo uma demanda histórica cada vez mais distante para a maioria dos trabalhadores do mundo.

Se nas primeiras fábricas capitalistas do século XIX crianças e mulheres trabalhavam em regime de mais de 12h de trabalho ininterrupto, hoje no capitalismo do século XXI, o trabalho nas grandes corporações espalhadas pelo mundo não é muito diferente, mantém uma dinâmica das mais perversas para qualquer ser humano. Milhares de produtos de grandes marcas são produzidos por crianças e trabalhadores(as) de forma precária, sem a mínima proteção, em jornadas de mais de 14h de trabalho, ou seja, um regime semi-escravo de produção. A precarização e a super-exploração tornam-se naturais tanto para os capitalistas como para os trabalhadores frente a ampliação do desemprego a partir da crise do sistema.

Mesmo que o desenvolvimento tecnológico já permitisse uma redução da jornada de trabalho no século XIX, a classe trabalhadora necessitou de mais cem anos para garantir esse direito. Da mesma forma, hoje já existe plenas condições técnicas para uma diminuição da jornada de trabalho para todos os trabalhadores em todos os ramos de produção e serviços, entretanto, a hegemonia política dos capitalistas e não dos trabalhadores impede uma mudança nesse sentido. É simbólico, por isso, o significado da luta da esquerda como expressão política da luta dos explorados.

No Brasil, a algum tempo a Primeiro de Maio deixou de ser uma data para manifestações de caráter político para transformar-se em um momento de “festa”. As centrais sindicais promovem shows milionários e o que menos importa é a razão do ato.

Podemos identificar nessa realidade um reflexo da crise da esquerda, na medida em que não consegue apresentar e representar um projeto de sociedade anti-capitalista, que signifique uma alternativa concreta de ruptura com a lógica do sistema. A esquerda atual tem demonstrado uma total incapacidade de compreender as profundas transformações no mundo do trabalho e as consequencias para a classe trabalahdora imersa no trabalho cada vez mais alienado e alienante.

O trabalho alienado, característico do modo de produção capitalista, ocorre quando o produtor perde o controle do processo de produção e passa a ser controlado por outro, o não –produtor. Se o trabalhador perde o controle do processo de trabalho, então perde o controle do produto do trabalho e passa a ver esse com estranhamento. Estas são conseqüências da alienação, que é a fonte da exploração e do fetichismo (estranhamento). Por conseguinte, o elemento fundamental aqui é a direção do não –trabalhador, ou seja, o capitalista, sobre o processo de trabalho; a questão da perda do produto e seus efeitos na consciência são apenas conseqüência desses processo.

Para Marx, a perda do produto do trabalho é apenas resultado do trabalho alienando, ou seja, o ponto de partida é a atividade, que se torna alienada, o trabalho se torna alienado, o que significa dizer que ele deixa de ser atividade vital cosnciente e se torna atividade dirigida por outros. Decorrente disso, surge a propriedade privada, ou seja, a apropriação do resultado do trabalho, pois o não-produtor ao dirigir o processo de trabalho também irá dirigir o destino do seu produto.

Marx ainda diz que a análise do conceito de propriedade privada “ ...mostra que , embora a propriedade privada pareça ser a base e causa do trabalho alienado, é antes uma consequencia dele ( p.99)

Compreender esse processo que transforma o trabalho em trabalho alienado no capitalismo é um elemento fundamental para a esquerda retomar a perspectiva de construção de uma nova sociabilidade anti-capitalista que supere essa lógica.

Um dado significativo divulgado pelo IPEA ( Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada) informa que no atual estágio do capitalismo brasileiro apenas 6% dos brasileiros são proprietários dos meios de produção. Ou seja, a concentração da propriedade e por consequência da economia é um elemento que deve ser levado em consideração em qualquer análise séria sobre o processo de luta de classes.

Nesse sentido, a retomada da ação coletiva dos trabalhadores(as) no campo econômico, a partir de práticas autogestionárias de produção e consumo, no qual o trabalhador, como sujeito emancipado, controle os meios de produção, constitu um fator chave para o avanço de uma perspectiva anti-capitalista na luta socialista. Enquanto a esquerda fechar os olhos ao grande potencial que as iniciativas da chamada Economia Solidária, ou o que denominamos Economia dos Trabalhadores tem para um projeto emancipatório, dificilmente romperá as cadeias de alienação do trabalho assalariado e subordinado.

Outra questão central é o problema de combater o capitalismo com formas de organização que reproduzam o seu modelo, hierarquizado, burocrático, e antidemocrático ( como a maioria dos sindicatos e partidos) que só pode ter como resultado, não a abolição da exploração, mas a instauração de novas formas de exploração. O resultado de uma luta está pressuposto na forma como se organizam os que lutam. Por isso, a crítica à democracia burguesa não deve servir para passar de contrabando a apologia de qualquer burocracia. Os regimes de tipo soviético, onde a propriedade aparecia como pública mas onde os trabalhadores estavam completamente afastados da organização da produção, da administração das empresas e da direcção política, mostraram-se uma alternativa tão nociva como o capitalismo privado.

É preciso,portanto, em mais este primeiro de maio, repensar as estratégias, visando uma perspectiva anti-capitalista, de luta contra o capitalismo na sua essência, ou seja, na superação da dinâmica do trabalho alienado e alienante e na idéia da substituição por uma nova sociedade, onde os meios de produção sejam propriedade coletiva e os próprios trabalhadores organizem o processo de trabalho.


Referência:

Marx. K. Manuscritos Econômicos Filosóficos. In. FROMM, E. Conceito Marxista de Homem. Rio de Janeiro, Zahar, 1983, p.99

2 comentários:

Anônimo disse...

achei interessante esta matéria, porém, percebo que a questão q se impõe no momento, refletindo a partir do prof. sínger, é de que para a construção de um novo sistema, os trabalhadores devem estar dispostos a assumir tal controle, realizando assim uma gestão, democrática e participativa. Diante disso, fica minha pergunta: como mudar a lógica de um pensamento capitalista para efetivas novas relações sociais baseadas na COOPERAÇÃO, SOLIDARIEDADE?!
parabéns pelas matérias!!!

Economia Socialista disse...

Do nosso ponto de vista esse dasafio de mudar o pensamento capitalista, baseado em valores de individualismo e competição por novos valores de solidariedade e cooperação é também uma tarefa de todos que militam contra o capitalismo, os socialistas, marxistas, anarquistas, partidos, movimentos sociais, ou seja, todas as forças políticas anti-capitalistas tem que contribuir com a organização e conscientização da classe trabalhadora.