quarta-feira, 1 de abril de 2009

Crítica da razão conformista


O conformismo como sintoma senil*
Patrocinio Navarro

Você é conformista? Não se deixe enganar por uma resposta apressada.

Pode ser um operário conformista, ainda que reclame do patrão o que ele lhe deve segundo as leis, porque o que lhe deve sempre é mais do que diz o contrato (ou por acaso é pago a mais-valia que você produz com seu trabalho?). Pode ser um funcionário conformista ainda que cumpra estritamente com os regulamentos (e isso mesmo denuncia seu conformismo), pode ser um intelectual conformista, não pelas coisas que diz, mas sim pelas que não diz. ( Leia-se a imprensa virtual ou de papel). Ou pode ser um soldado conformista, algo por outra parte inseparável de sua profissão.

Conheço brilhantes conformistas. Escrevem livros, participam de conferências, são premiados, identificados como embaixadores da inteligência, e tidos como modelos por outros conformistas. E eles existem em todos os campos. Observe-os. Estamos rodeados por sua presença.
Sua atitude é sempre a mesma: carecem de interesse em ir até as últimas conseqüências naquilo que forma parte de seu comedimento, porque essencialmente o conformista é medroso, e seu medo o impede de “ meter-se onde não é chamado”, com objetivo de não ter sobressaltos. Um sobressalto supõe uma incomodação, um mal-estar, e o conformista necessita sentir-se cômodo, pisando com segurança, cumprindo o que lhe dizem e atuando como tem que atuar. Faz isso porque espera uma recompensa de algum tipo, ainda que seja em forma de reconhecimento.
A falta de aprovação de seu trabalho equivale para ele a um aviso perigoso: seu prestígio, seu nome, o seu bolso, podem se ver comprometidos. Para afastar o perigo não esperamos dele opinião alguma contrária ao sistema em que está envolvido. A submissão e a capacidade criativa não formam parte de suas virtudes, por isso, os conformistas não podem ser artistas, nem revolucionários, nem místicos, nem produzir algo novo. Tudo ao contrário: essas palavras despertam no seu interior todas as armas e lhe produzem pânicos inconfessados que disfarça como indiferença.

O conformista não produz: reproduz. Não atua, é atuado. Não crê: transmite o aceito. Não vive, é vivido. È uma forma como outra de não estar no mundo, de estar morto.

Mas não nos deixemos levar pela simplicidade. Os conformistas podem ser tecnicamente corretos. Podem pintar quadros que as pessoas admiram; escrever livros de êxito, artigos que as pessoas valorizam e dizem coisas que as pessoas compreendem como sábias. Os muito famosos até podem ter estátuas cagadas pelas pombas nos parques públicos. É uma merecida recompensa aos conformistas destacados, o prêmio de seus imitadores menores e admiradores entusiastas. Merecem por serem bons meninos. Meninos, e não meninas, pois as mulheres conformistas não chegam a ter nem estátuas.

Nossas sociedades ocidentais estão cheias de conformistas. Ocupam cargos de relevo em todos os terrenos, e em todos eles sabem rodear-se de colaboradores adequados. Ou seja, fiéis, brilhantes – com sorte- e tão medíocres como eles. Se encarregam de transmitir ao público desde o setor social a que servem ( política, economia, imprensa, educação, cultura, etc..) todas aquelas coisas de que as pessoas se ocupam a pensar, e impedir, como natural, as que podem produzir a eles algum tipo de inquietude, o qualquer enfrentamento com o aceito pela maioria, que são a multiplicação deles mesmos por todos os códigos das boas condutas.
Levados por esse zelo pelo sonho sem sonho, sempre optam por dirigir nossas inquietudes até os terrenos neutros e vazios. Eles nunca propõe as suas, se é que chegam a compreendê-las. E as pessoas para quem vão dirigidas suas mensagens, que são a imensa maioria, como é natural, mordem o anzol e pensam, escrevem, debatem, fazem sobre tudo isso que se propõe pensar, escrever , fazer ou debater, ignorando que lhes propõem com o objetivo de evitar, como fazem eles, aquilo que mereça a pena ocupar-se verdadeiramente.

E quando alguém alheio a este jogo de sonâmbulos, levanta sua voz dissidente por algum dos muitos fóruns deste mundo, em seguida é qualificado de extremista, terrorista, anti-sistema, e outros adjetivos que em seguida encontram a concordância dos abduzidos pelo conformismo.
Poucos dos que escutam os saídos da rede são capazes de questionar se atrás das cortinas do conformismo não se ocultam bonitas paisagens para explorar. Esta seria a juventude do coração, o resto é a enfermidade senil das mentes improdutivas que necessita do Sistema: o deserto mental das consciências dormidas.


Artigo publicado em http://www.kaosenlared.net/ , tradução Paulo Marques.

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