segunda-feira, 6 de abril de 2009

A crise


A mutação do capitalismo

Edgar Borges


Muito se fala que o sistema capitalista está em crise; os mais otimistas (desde a outra calçada ideológica) já celebram a queda da “estrutura consumista”. Entretanto, se analisarmos o assunto a fundo, poderíamos pensar que o capitalismo simula essa terapia intensiva quando, na realidade, se prepara para mudar para um estado de domínio perigosamente superior.

Desde que surgiu a repentina crise econômica global acredito que se trata de uma mentira dirigida. Não pode ser gratuita semelhante invocação ao caos. É possível supor que a promoção da crise somente acreditam (e padecem) os povos; ingênuo seria acreditar que os grandes investidores não tomaram as precauções a tempo, muito antes de que a crise fosse notícia (às 24 horas de todos os dias).

Suspeito que o capitalismo derrubará seu funcionamento global tal como o conhecemos. E logo, frente a nossa memória adormecida, surgirá convertido em uma rede de consumo virtual. Sim, parece filme de ficção ciêntífica. Inclusive, se parece muito com a trama que George Orwell descreve no seu livro “ 1984”. É a sociedade vigiada pelo onipresente “Grande Irmão”. Se trata da autêntica ditadura planetária; o triunfo do pensamento único sobre a particular vontade de cada indivíduo. E tudo isso por obra e graça da legalidade democrática.

Alguns estudiosos tem associado a histórica de Orwel com qualquer ditadura clássica ( quase sempre assinalado ao vermelho como o monstro que vem); não obstante, como costuma acontecer com as obras artísticas, sua transcendência permite múltiplas interpretações. Como, por exemplo a que relaciona o conteúdo da novela com o tempo presente que atravessamos.
O controle mental dos indivíduos (aniquilação da memória e do livre pensamento); a educação totalitária (sistematização e conveniência do mercado) e erradicação da intimidade (a vida privada como espetáculo). Estes temas circulam por “1984”, mas também rondam esses dias.

Não falta muita imaginação para supor que se está tramando a instauração definitiva de um mundo virtual. A crise poderia ser simplesmente uma oportuna desculpa para dar o grande salto.
Cada vez mais nossa vida é vivida na internet. Só falta que as estruturas de poder global se mudem radicalmente do espaço exterior e operem exclusivamente desde a “Rede Mãe” (senhores que simulam a vida através do computador e do celular; mas não se esqueça de pagar, pagar, quem não paga está fora da rede). Para então, quando se concretizar o jogo do sistema (ou a vida que não era vida), os trabalhadores cumprirão as funções desde a “privacidade” de sua casa, incluindo a cobrança do salário mínimo, o pagamento de todos os aluguéis, os “círculos afetivos” e as “ diversões intelectuais” ou de “ aventuras”.
Quem sabe terminem coexistindo dois mundos paralelos. As funções das maiorias serão ordenadas e obedecidas no mundo virtual, enquanto, na vida real (a das ruas), os grandes recursos ficarão sob o implacável cuidado de uns poucos.
Que ninguém se confunda. Não é a sinopse de uma nova novela. O capitalismo não está em agonia, só prepara sua grande mutação.




Tradução Paulo Marques

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