quinta-feira, 12 de março de 2009

Paul Singer: A crise capitalista e a Economia Solidária

Prof. Singer: " Eu acredito que o sistema financeiro deva ser totalmente mudado, eu pessoalmente defendo que haja em cada país, somente bancos públicos ou bancos sociais"

Deputado petista Elvino Bohn Gass, coordenador da Frente Parlamentar de Apoio a Economia Solidária da Assembleía Legislativa do RS na mediação do debate que contou com a participação do prof. Carlos Schmidt, da Economia da UFRGS; Mauri Cruz, do CAMP e Raul Pont , deputado Estadual do PT.

Prof. Paul Singer deu uma aula sobre a crise econômica e o significado da Economia Solidária como Alternativa.


Desvendando a crise capitalista


Na noite de quarta-feira, 11/03, na Assembléia Legislativa do Rio Grande doSul foi realizado, pela Frente Parlamentar de apoio a Economia Solidária, um debate sobre a crise capitalista e o papel da Economia Solidária como alternativa, com a presença do prof. Paul Singer, um dos maiores economistas brasileiros, referência mundial do tema da Economia Solidária que atualmente está a frente da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Governo federal.

Com o Plenarinho da Assembléia lotado com mais de 300 pessoas, o prof. Singer discorreu por mais de uma hora sobre a crise atual do sistema capitalista, desfazendo mitos e esclarecendo dúvidas tanto em relação a crise como o lugar da Economia Solidária como alternativa de um novo modelo econômico. Abaixo publicamos os principais trechos do painel.


As origens da atual crise capitalista

Esta crise tem uma origem importante que normalmente nos condiciona, e que não é apenas a crise imobiliária americana, essa é só a causa imediata. Mas ela tem por origem a desregulamentação dos sistemas financeiros nacionais e a sua globalização. Esse processo ocorreu basicamente a partir dos anos 60,70 , 80, 90, e foi responsável por criar uma situação de sistema financeiro livre, desregulamentado, autoregulamentado. Essa não é a primeira crise, houve outras crises imensas na Ásia ainda nos anos 90, houve crise nos EUA em 90 no ano 2000 foi a penúltima e essa agora”.

'É preciso entender porque o sistema financeiro periódicamente tropeça e cai. Houve uma crise financeira violentíssima nos anos 30 do século passado. Esse é o ponto de partida fundamental. Uma crise que começou nos EUA, em Wall Strett, e se espalhou muito rapidamente pelo mundo inteiro, muito semelhante ao que está acontecendo desde 2008. Na época também prevalecia a idéia de que os mercados se auto-regulam e que, se estão em desequilíbrio, se reequilibram e a única coisa que os governos devem fazer é evitar a inflação".
Em 1929, praticamente seis anos depois de uma inflação devastadora que começou na Alemnha , a crise atingiu a Áustria e o centro Europeu, em partes devido as mudanças ocorridas em função da primeira guerra mundial. O pavor da situação manteve os governos do mundo, o governo americano, o Russia, o governo inglês, Frances, paralisados desde a crise. E a crise foi não só se alastrando, mas se aprofundando. Em vez da temida inflação o que tivemos foi uma deflação.

Durante três anos os preços caíram quase que o tempo inteiro , e no final desses anos o nível dos preços nos EUA era 40% menor do que antes da crise. Deflação é muito pior que inflação. A inflação é ruim porque você tem que correr atrás dos preços que sobem sem parar, lutar por aumento de salário etc...

Qual é o efeito da deflação? é que se você está percebendo que os preços estão caindo o tempo todo, tudo que você puder adiar, ao invés de comprar, é melhor. Porque iria comprar uma coisa por 100 se amanhã vai custar 90?

Então você cria um obstáculo para o funcionamento da economia. Estou mencionando esse fato porque há uma perspectiva de que isso ocorra agora.

No final da crise dos anos 30, que chegou ao seu ponto mais profundo em 1933, praticamente a metade da população americana tinha empobrecido.Uma proporção enorme estava desempregada, 25% ou mais. E o sistema bancário estava totalmente quebrado.

Quando o presidente Rosevelt depois de eleito, como uma espécie de Obama, ou o Obama é uma espécie de Rosevelt, havia filas de depositantes em milhares de bancos norte-americanos procurando para tirar os depósitos e os bancos não podiam porque tinham que emprestar a outros bancos. Então Rosevelt , para salvar os bancos, decretou feriado bancário de 15 dias. Durante esses dias ninguém podia tirar dinheiro dos bancos. Então as pessoas não podiam pagar nada. A situação continuava e ele foi prorrogando os feriados, foi uma coisa única no mundo. A maior economia do mundo ficou sem nenhum banco funcionando por uns 3 meses.
Estou falando isso para mostrar que o sistema capitalista saiu daquela crise profundamente alterado e em particular o sistema financeiro. O Sistema financeiro tornou-se regulamentado a partir disso .

Os governos tinham obrigação de controlar o fluxo do seu capital para dentro e para fora do país. Quando se criou o FMI, foi colocado nos estatutos que estava proibido socorrer governos que deixassem o capital entrar e sair a vontade. E durante, cerca de 40 anos, não houve crise financeira em lugar nenhum. Criou-se um sistema financeiro capitalista extrememamente controlado pelos governos nacionais. Era o contrário da globalização.

Na crise dos anos 30 o comércio internacional caiu a nível extemamente pequeno, muito baixo . Todo mundo estava substituindo os produtos importados pela produção nacional. Porque? Porque precisavam criar empregos. A partir do ano de 1932, alguns governos resolveram jogar as doutrinas ortodoxas para o espaço. E intervir na economia pra economia funcionar.

E quais foram esses governos? Um era o Sueco, com um governo social-democrata aliado ao partido camponês. Trabalhadores e camponeses, portanto, que resolveram fazer uma política ativa, onde o governo gastasse dinheiro, fazendo obras públicas, como PAC, como o que o Brasil está fazendo hoje, com muito vigor. O outro pais foi um “paízão” latino-americano chamado Brasil.

O sistema acabou se recuperando a partir da recuperação da economia real . A crise financeira foi quem criou essa espécie de PAC, da industria, da agricultura do comércio e dos serviços. Mas foi a recuperação da economia real, por uma intervenção enorme dos governos a responsável pela superação da crise. Logo depois dos governos sueco e brasileiro, foi a vez do governo de Rosevelt que tomou posse nos EUA e começou a fazer as mesmas políticas.

O mundo se reconstruiu depois da segunda guerra mundial, buscando fazer uma economia real a prova de crises. A famosa conferencia que criou esse sistema novo em Breton Woods em 1944 foi presidida por um economista inglês chamado John Maynard Keynes. O Keynes tinha apoiado as políticas heterodoxas, junto com outros economistas e percebeu que é uma lorota que uma economia sem o Estado passa se recuperar. Mas Keynes foi além e elaborou uma teoria mostrando que em momentos de crise o governo tem que gastar muito além daquilo que ele arrecada, tem que ter défcit .

Foi uma ousadia inacreditável porque os economistas são todos favoráveis a que o governo limite seus gastos. Olhe a polêmica hoje no Brasil. O que a oposição está reclamando do governo hoje? Que gasta demais, que isso é um perigo etc..

Pelo contrário, devem gastar e gastar mais, pelo menos enquanto a crise que estamos sofrendo continuar do jeito que está.

A razão de ser dessa crise é que nós voltamos ao mundo pré-Keynes. Está acontecendo o que tinha que acontecer. Essa é uma crise de super especulação financeira que se alimentou pelo mundo inteiro e acelerou a economia mundial.

Esses anos positivos que houve não só no Brasil entre 2001 até 2008, houve também na China, no Japão nos EUA. Agora tem o reverso, o sistema financeiro está praticamente paralisado e sem crédito e a economia real que produz coisas que nós consumimos: comida , roupas, casa, automóvel , não vive sem crédito, então ela está caindo. Na medida que ela deixa de produzir ela manda gente embora e quanto mais gente embora menos ela vende. Estamos num processo de crise de ciclo vicioso que se aprofunda.

Não tem nenhuma economia que já começou se recuperar, é uma crise que está atingindo os países de forma muito desigual. A economia americana já está num processo de recessão desde meados de 2008, está aprofundando a recessão. A economia brasileira entrou só em novembro de 2008, ou seja, muito mais tarde e o impacto que nós sofremos é comparativamente muito menor. O desemprego que está acontecendo hoje no Brasil está começando, enquanto os americanos já estão com o triplo da taxa que eles tinham antes, enfim, essa crise pega diferentes países de uma forma muito desigual.

Porque o Brasil está sendo poupado? Basicamente porque o nosso sistema financeiro não foi afetado. Os bancos brasileiros não entraram na loucura dos empréstimos hipotecários para pessoas muito pobres. Os empréstimos que os bancos americanos fizeram foram vendidos no mercado mundial a outros bancos. Houve também bolhas imobiliárias em outros países como Espanha, Irlanda, outros países que também estouraram.

A razão pela qual o Brasil ficou a margem da crise, até quase o fim do ano passado, não é as centenas de milhões de dólares que o banco central amealhou, isso ajudou também, mas a razão fundamental é que os grandes bancos brasileiros não sofreram nenhum baque. A crise penetra no Brasil de fora. É uma crise que vem por que de repente acaba, seca, o crédito internacional.

Nós tomamos muito empréstimo no exterior, e porque isso foi feito? Porque a taxa de juros no Brasil é obscena, não dá pra falar em casa de família o que nós cobramos de juros. Uma economia que tem 5% de inflação cobra 150% no cartão de crédito, cobra 50% para capital de giro, quanto menor a empresa mais juros cobram. Então as grandes empresas brasileiras foram tomar crédito nos EUA no Canadá, porque lá a taxa de juros estava na ordem de 5% ao ano. Ao invés de pagar 30% e 40% pegam lá. Esse crédito que as empresas estavam utilizando fora do Brasil, com taxa de juros muito menores, sumiu. De um momento para outro acabou, não tem.

O que as empresas brasileiras estão fazendo? Buscando crédito nos nossos bancos mesmo tendo que pagar juros altos. E o que os bancos brasileiros fizeram? Atenderam alguns, não todos. E com juros ainda mais salgados. E de onde saíram o dinheiro que as grandes empresas brasileiras estão tomando aqui no mercado interno? Dos bancos médios e pequenos. Os grandes bancos repassam uma parte dos seus depósitos a bancos pequenos que praticamente não tem depositante. Todos nós usamos os grandes bancos seja Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú. Agora esses bancos pequenos são os que atendem as empresas pequenas, inclusive da Economia Solidária.

A lógica é que para os bancos grandes uma empresa pequena, um comerciante, um agricultor é mal negócio. Porque se ele vai tomar emprestado, por exemplo 5 mil reais, o grande banco gasta mais do que isso só pra fazer a ficha dele, cadastro, informações etc...Então não interessa, por isso ele passa o dinheiro para o banco pequeno que faz tudo isso a custo mais baixo e empresta dinheiro. O crédito secou no Brasil , começou a secar , praticamente no ano passado, atingindo exclusivamente os nossos empreendimentos da economia solidária e semelhantes, porque os bancos pequenos não estavam recebendo mais o dinheiro dos grandes bancos.

As ações do governo Lula

E o que fez o governo brasileiro? Interveio e fez os bancos, BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica, emprestarem para os bancos pequenos, por isso que a crise não é tão grave no nosso país. Assim, desta forma que nós limitamos o prejuízo. Na hora que acabam as fontes importantes de empréstimos para a elite da economia, alguma conseqüência tem. Agora poderia ser mil vezes pior. O governo Brasileiro faz a política keynesiana total. É como se o Palocci nunca tivesse existido , a verdade é essa.
É fantástico, porque a gente brigou, todos nos economistas de esquerda. Agora tudo aquilo que nós estávamos propondo para ser feito está sendo feito.

O PAC veio a calhar, quando foi lançado no final do primeiro ano do primeiro governo Lula a crise imobiliária nos EUA estava começando e ninguém imaginou que ia ter as conseqüências que teve. Agora o PAC está sendo executado, isso minora, muito fortemente, os efeitos da crise sobre a nossa economia. O Obama está fazendo um PAC agora. Grandes investimentos em ciência, em educação e saúde, em infra-estrutura. Sò que ele precisará esperar semanas para ser aprovado no parlamento para finalmente conseguir executar. Nós já estamos executando.

O presidente Obama está propondo fazer um PAC internacional , ou seja, uma ação keynesiana de fomento da atividade econômica, um gasto publico, coordenado no mundo inteiro. Porque, na medida em que muitos países, por várias razões não conseguem fazer, a crise se mantém nesses países, e como a economia mundial está totalmente globalizada, está interligada, ela puxa pra baixo.

Aquilo que o governo federal poderia fazer ele está fazendo, e de forma muito inteligente, o fato de envolver os governos estaduais é bem inteligente. O programa de 2 milhões de casas , sobretudo para população mais pobre, com subsídio, garantindo que se eles ficarem três anos sem pagar as prestações eles não perdem as casas, é exatamente o que o Obama está querendo fazer a posteriori com as milhões de famílias, sobretudo negras dos EUA , que não estão conseguindo pagar as taxas muito altas dos seus empréstimos hipotecários.


O Brasil, portanto, está mais uma vez na vanguarda. Esteve em 1932 e está novamente, hoje é modelo. Por razões várias o fato é que nós estamos fazendo o que o governo alemão está evitando porque é um governo mais conservador, o governo inglês está fazendo pela metade, por exemplo, é preciso estatizar os bancos.
Meramente salvá-los , colocando dinheiro púbico sem eles estarem capitalizados não leva a nada. O crédito continua faltando hoje nos EUA na Europa, no Japão. Agora é preciso que eles emprestem.


Banco público não precisa dar lucro


Banco público não precisa dar lucro, banco púbico não quebra por maior que seja o prejuízo. Tem todas as condições de continuar emprestando. A sorte brasileira é que metade do sistema bancário ainda é pública, isso pra nós é um presente dos céus. Felizmente o nosso presidente anterior não teve tempo de privatizar, pois ia privatizar tudo, não tenho dúvida quanto a isso, mas aconteceu que não deu tempo.


Mas hoje temos o Banco do Brasil, temos a Caixa Econômica, temos os bancos regionais, como Banco do Nordeste, Banco da Amazônia, temos o BNDS, sobretudo com gente de esquerda, estou pensando no Guido, no Coutinho, que eu conheço , foram meus alunos. Gente boa, que está fazendo finalmente a política que pregou a vida inteira. Então eu não estou muito pessimista não.


As alternativas para saída da crise

Nas entrevistas sempre a pergunta é qual a sua impressão, quando vai arrefecer a crise? Sinceramente não tenho resposta pra isso,
Qualquer palpite é um palpite baseado na emoção e no desejo, e aí eu sou otimista e espero que nossa crise não seja muito prolongada em muito profunda, mas já está mais forte do que eu tinha imaginado. Então não vou dar palpite.

Essas perguntas não são bobas, bobas são as respostas, por que nós não sabemos. A crise é imprevisível porque depende de muitos fatores, vejam , uma coisa que é boa, todos os países envolvidos hoje com exceção da China são democracias. Estão na mão dos seus eleitores, dos seus parlamentos. Depende muito disso. São governos democráticos que ganharão as próximas eleições face ao que sua base ideológica lhe permite fazer.

Os de esquerda estão nadando a braçadas e a meu ver vão conseguir sair da crise bem mais cedo. A Venezuela está crescendo, não tem recessão lá. Não sei exatamente que políticas o Hugo Chávez está fazendo, mas eu posso imaginar. Outros governos latino-americanos não estão ainda profundamente envolvidos em crise.

O panorama mundial é uma volta, eu diria, atabalhoada, sem muita preparação, nem da opinião publica, que não entende essa situação, de políticas que nunca deviam ter sido abandonadas. Sabíamos que ao serem abandonadas as crises teriam que vir. È uma questão probabilística, ou seja, a probabilidade de ter crises financeiras é quase 100% num determinado lapso de tempo.


Eu tenho certeza que teremos uma crise financeira se não for mudado o sistema financeiro. Quando? Daqui a um ano? Daqui a três? A seis?


Eu acredito que o sistema financeiro deva ser totalmente mudado, eu pessoalmente defendo que haja em cada país, somente bancos públicos ou bancos sociais. E banco social significa cooperativas, bancos comunitários, ou seja, bancos que não maximizam lucros e sejam dirigidos pelos próprios depositantes e eles então em autogestão, obviamente não vão colocar seu dinheirinho pra ver se ganham um pouco mais com riscos menores. Manter os que jogam com o dinheiro alheio fez isso , e fez com um monte de crimes contábeis, fiscais. É um desbunde do capitalismo, a verdade é essa.


Eu sou economista a 50 anos e eu nunca imaginei antes que poderia existir paraísos fiscais que são pseudo –países, ilhas, ou países pequenos que vivem de sonegar imposto dos outros.
É isso que está acontecendo e aconteceu anos a fio, quer dizer, os milionários colocaram seus dinheiro nas Bahamas, na Suíça e não pagavam impostos. Os escândalos do Daniel Dantas têm histórias e não é só ele. É preciso acabar com os paraísos fiscais. Simplesmente, proibir que os cidadãos ricos , ou quem quer que seja, coloque seu dinheiro lá . Isso é perfeitamente possível. Não tem nenhum motivo deixar que pessoas que tem obrigações fiscais, porque absorvem, eles recebem uma parcela enorme da renda nacional se furtem de pagar seus impostos.

Existem bancos suíços que por decisão da constituição deles, obriga que mantenham sigilo total a respeito dos seus depositantes. Um banco deles que é União dos Bancos Suíços- UBS, aproveitou dessa proibição constitucional e criou o serviço especial de sonegação de impostos para milionários brasileiros, americanos e de qualquer país. Isso é real, pode parecer piada e parece, mas é verdade, não estou inventando. Agora os EUA estão pressionando esse banco suíço para que revele os sonegadores. Com muito custo revelaram uns 200, mas eu desconfio que são milhares. Esse tipo de sistema financeiro de jogatina e bandidagem não dá mais.


Cosntruir um outro sistema financeiro

A partir desse cenário de capitalismo financeiro de cassino que o prof. Paul Singer advoga a necessidade de criação de outro sistema financeiro, baseado em outra lógica, no qual os bancos públicos e comunitários teriam um papel exclusivo:

Temos que ter outro sistema financeiro, um sistema em que os intermediários criadores dos meios de pagamentos que nós precisamos para viver sejam instituições publicas, pois é um serviço publico, ou instituições comunitárias, como cooperativas, ou qualquer outra denominação. Nos quais a direção seja dos próprios depositantes. Eu diria, a iniciativa privada deve ficar fora dessa atividade, tem mil outras coisas que pode fazer. Se quiser fazer jogo de roleta, tudo bem, mas jogar com o dinheiro dos outros devia ser proibido.

Os dados da história nos colocam esses desafios, para mim, como economista e para vocês como cidadãos. Como ter um sistema financeiro que nos sirva e não que nós sirvamos a eles? Um sistema financeiro que maximize o bem estar, o emprego, o ganho, o avanço cientifico, etc..

E já tivemos, dos anos 30 até os anos 70. Agora podemos tornar mais forte as proibições e acabar com a jogatina que efetivamente só e aproveita uma pequena elite de jogadores financeiros profissionais.

A Economia Solidária no contexto da crise


A economia Solidária está inteiramente fora das causas da crise. O nosso sistema financeiro como temos no Brasil, que não está tão avançado como o da Europa, e outros países, nunca teve bancos comunitários ou cooperativas de crédito quebrados porque colocaram o dinheiro dos seus sócios em especulação financeira. Os empreendimentos não fazem isso, porque ninguém quer. Os dirigentes das cooperativas não ganham bilhões de dólares por mês, bilhões por ano, com essas opções.


Eu vejo que a Economia Solidária, na parte especificamente financeira, tem um papel importante a cumprir. E por isso não dá pra proibir, que os cidadão se reúnam e juntem o seu dinheiro para fins coletivos , para ter seu dinheiro em um lugar seguro com juros mínimos, que possam ser usados para necessidades de empréstimos deles próprios, sobretudo.


A falácia do livre mercado


Essa é uma velha discussão sobre livre comércio. Eu estou, como vocês estão percebendo, em desacordo com a linha do governo federal a esse respeito. Eu acho que o protecionismo é a forma democrática de organizar o comércio internacional. O comércio internacional deve ser organizado com a participação espontânea de cada país,ou seja, os países não poderiam ser obrigados a participar como são hoje. Se proíbe os os governos de regulamentar o mercado que eles querem”.

Os tratados que criaram a organização Mundial do Comércio-OMC, proíbem os governos de, por exemplo, não importar mercadorias que ele acharem desnecessário importar. Não podem aumentar as barreiras alfandegárias, a não ser em casos muito específicos. Tem tribunal sobre isso.

E o país que não cumprir as deliberações da OMC, pode ser boicotado , pode receber sansões graves. Eu acho isso realmente muito ruim, eu acho que não deve impedir comércio algum, Acho que cada país tem que organizar o seu comércio externo do jeito que achar melhor, por isso é uma democracia.

Eu presenciei durante décadas, que o nosso país progrediu muito, nos industrializamos, nos urbanizamos, nos educamos, e assim por diante. Em todo esse tempo era proibido importar o similar nacional. Era proibido comprar lá fora o que era produzido aqui dentro. Simplesmente isso. As divisas que recebíamos vendendo café , nós comprávamos petróleo , na época nós não tínhamos petróleo próprio. O petróleo era indispensável, importávamos remédios que não conseguíamos produzir aqui.

Comércio internacional é bom quando complementa o que não pode ser produzido dentro do país e não porque poderá garantir um valor um pouco mais baixo. Hoje estamos comprando, e o mundo todo também , ursinho de pelúcia da China, isso é um crime ecológico. A poluição que as trocas comerciais proporcionam é equivalente a metade da poluição de todos os automóveis existentes. Porque nós estamos transportando produtos de um lado para outro do mundo só para que o consumidor ao invés de pagar R$ 15,00 pelo ursinho pague R$ 11,00?

Eu acho que a esquerda tem a obrigação de desenvolver um conjunto de propostas tanto para evitar a crise, que não é um fato consumado, uma fatalidade. Podemos ainda preservar o país, e aí estão as políticas que o governo já está fazendo, não há o que acrescentar, a não ser que surjam uma nova idéia, mas nós temos que pensar no que mudar institucionalmente , para que crises destrutivas, terríveis, tragédias econômicas não voltem a se repetir.


Economia Solidária como alternativa consciente

O Estado não deve ser responsável pela Economia Solidária, ela dever ser iniciativa das pessoas. A opção pela Economia Solidária tem que ser autêntica e por valores. Na Economia Solidária ninguém obedece e ninguém manda. Este é o valor especial. Quem quiser viver nessa sociedade com outros nos quais ele é um igual, e com os quais ele democraticamente decide o que tem que decidir no interesse comum, esse será bem vindo na Economia Solidária.

Existe muita gente jovem que quer viver a economia solidária. Qual é a importância do governo? É criar condições razoáveis para que as pessoas possam viver isso. O nosso papel é praticamente de ajuda, não de tomar o lugar das pessoas. Na medida em que a Economia Solidária continuar crescendo como vem crescendo, nosso papel no governo é dar toda a ajuda possível.

No Quilombo Sopapo, que eu visitei hoje a tarde, ( projeto dos Pontos de Cultura, realizado em parceria com o MinC) , tem 60 jovens fazendo as mais diferentes coisas desde software livre, audiovisual etc.. Eu tenho certeza de que eles estão lá convictos de que isso pra eles é bom, e inclusive se sentindo felizes por poderem gostar dos seus colegas sem estarem competindo com eles. Essa é a educação que faz sentido. Dar oportunidade das pessoas que quiserem experimentar e acredito que muitas vão gostar.

Economia Solidária, política e socialismo

Nós de esquerda temos que continuar lutando pelo poder, fazer o que? Primeiro acabar com as injustiças, ter um sistema tributário em que quem mais tem mais paga. Ter um sistema de saúde decente para todos os brasileiros e não o que nós temos hoje que não é decente. Fazer o que o Lula quer fazer agora que é subsidiar todo mundo para ter uma casa própria. Ou seja, há muitas tarefas de governo, no plano da justiça social, que a gente deve acreditar, no recuo da injustiça, da desigualdade da pobreza.

Eu sou da Economia Solidária mais do que sempre, sou ao mesmo tempo membro de partido político e pretendo continuar lutando ao máximo para ter governos motivados como o atual, para mais. Mais para a esquerda. É possível fazer isso, e tornar o país melhor pra todo mundo.


Agora, o que eu entendo por socialismo, o que é o que a Economia Solidária está construindo, isso é uma transição que vai envolver gerações. Nunca se passou de um modo de produção para outro, através de uma revolução política, nunca deu para fazer isso. É preciso que as pessoas mudem, autenticamente, mas não de fachada porque é vantajoso, e eu estou convencido de que nós estamos conseguindo fazer isso no nosso país.

Pra deixar bem claro o que quero dizer: Uma pessoa entusiasmada pela Economia Solidária no nosso continente chama-se Hugo Chávez. O Hugo Chávez levou várias coisas que estamos fazendo no Brasil, sobretudo, a experiência dos Bancos Comunitários para a Venezuela. Nós conseguimos ao longo de dez anos construir no Brasil, 44 bancos comunitários, e vamos ter em breve, provavelmente uns 200, vai ainda levar uns anos pra fazer.


Sabe quantos bancos comunitários do mesmo modelo lá do Ceara do Instituto Banco Palmas, existe hoje na Venezuela? 3 mil. Isso ele fez em um ano. Ele ( Chávez) fez um programa governamental, com a melhor das intenções. Ele está fazendo uma experiência diferente da nossa, no sentido de este é um governo que pretende fazer uma revolução e quer fazer o socialismo do século XXI e pelo que eu percebo a Economia Solidaria é uma parte importante desse socialismo.

Mas eu diria que pela hipertrofia do Estado pode acabar sendo difícil de fazer. Segundo o que eu sei uma grande parte desses bancos não funcionam. E por que não funcionam? Porque é preciso ter uma comunidade consciente que crie o banco e o sustente. O Banco Comunitário não é uma coisa que nós fazemos de cima para baixo, pode até ser feito. O Banco Palmas foi criado por uma associação de Moradores. Hoje temos banco Quilombola, de Alcântara no Maranhão.

Eu não estou criticando o Chávez, longe disso, provavelmente se eu estivesse na Venezuela estaria fazendo a mesma coisa, mas eu não aposto nessa forma de fazer. Quer dizer eu posso escolher a forma brasileira, que é mais lenta, mas ela é muito mais autentica.

Hoje todos os grandes movimentos sociais que tem projeto econômico estão conosco. Até hoje o que eu sei , as mulheres, os negros, os deficientes físicos, há muitos movimentos sociais importantíssimos nesse país transformando e lutando para esse país ser muito mais decente. E eu me sinto profundamente contente que na parte da organização da atividade econômica eles estão conosco, pedem nossa ajuda e a gente dá.

Isso me permite realmente acreditar que nós estamos transformando o país.
Isso não é pra ter pressa, não dá pra fazer a toque de caixa. Quando estamos no governo ou em um mandato parlamentar, gostaríamos de ter um país mudado já amanhã.

Em ultima análise, tem muita coisa que a esquerda pode fazer a partir do governo. Tudo menos uma: fazer o socialismo. O socialismo, para valer, não dá pra fazer de cima pra baixo. Ele tem que ser feito de baixo pra cima. Esta é minha modesta opinião nesse momento.

Transcrição e fotos: Paulo Marques

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