terça-feira, 3 de março de 2009

Bartolina Sisa, símbolo de luta e resistência da mulher indígena


A Federação de Mulheres Camponesas e Indígenas da Bolívia leva o nome de Bartolina Sisa, simbolo de luta e resistência, uma referência inesquecivel para as batalhas de hoje.

Quem foi Bartolina Sisa
Por Paulo Marques

Em poucos dias, as fileiras cresceram de 20 para 40 mil pessoas. Em cinco meses, chegaram a 80 mil combatentes. À frente dessa organização, os indígenas aymaras Bartolina Sisa e Tupac Katari dividiram igualmente o comando do cerco a cidade de La Paz.

A cena, que faz parte do levante contra a opressão dos espanhóis em 1781, marcou a história da Bolívia e das mulheres em todo mundo.

Na época, a comandante Bartolina Sisa tinha apenas 25 anos, mas sua trajetória de luta já era longa. Nascida em 1753 na comunidade de Sullkawi del Ayllu, Bartolina sempre conviveu com a repressão do governo espanhol, que há dois séculos havia invadido o continente americano.
Seu pai, José Sisa, e sua mãe, Josefa Vargas, eram comerciantes de tecido e coca e se deslocavam pelos povados bolivianos para vender seus produtos. A vida itinerante permitiu que Bartolina presenciasse a pobreza e humilhação sofridas por seu povo, desde o árido altiplano até os vales de La Paz, despertando nela a necessidade de defender a emancipação definitiva das comunidades indígenas.

Ao se casar com o aymara Tupac Katari, Bartolina continuou trabalhando com comércio. Por isso, teve a oportunidade de acompanhá-lo em conversas com os revolucionários indígenas peruanos como Tupac Amaru, de origem quechua, e sua companheira Micaela Bastidas, afro-quechua, com quem discutiu estratégias de luta para a libertação dos povos.

Diante da situação de escravidão nas fazendas e minas espanholas, responsável pelo genocídio dos povos originários da região, Katari e Amaru decidiram reivindicar o restabelecimento da Nação Andina. Como resultado de seus debates, planejaram uma guerra que recrutou mais de 150 mil indígenas entre os territórios do Peru e Bolívia.

No início das movimentações, as tropas da Espanha, sob comando de Jose Pinedo, atacaram com canhões, armas e pólvora os quechuas e aymaras, que combatiam apenas com pedras. Mesmo assim, os espanhóis foram derrotados. Ao chegarem na região de Ventilla, já com a moral alta, milhares de aymaras escravizados se levantaram contra os dominadores e toda a província se declarou como território livre.

Nesse momento, Bartolina assumiu parte do comando das fileiras indígenas. Os espanhóis ficam isolados na capital.
Em 13 de março de 1871, Bartolina e Katari iniciaram o cerco a La Paz, que durou 109 dias. Mais de 10 mil espanhóis morreram, principalmente de fome. Segundo relatos, sem conseguir alimentos, os espanhóis começaram a comer seus sapatos e malas. Após dois meses, as tropas inimigas enviaram 400 soldados para capturar Bartolina, mas foram derrotados por 50 homens e mulheres sob seu comando.

Apesar da grande resistência, boatos de que a revolta estava derrotada foram espalhados e, em 29 de junho, o exército indígena sofreu dura perdas. O cerco a La Paz começou a se romper e as autoridades coloniais oportunamente ofereceram uma recompensa aos rebeldes que entregassem seus comandantes.

Três dias depois, quando Bartolina se dirigia ao acampamento El Alto, foi supreendida no caminho por seus acompanhantes, que a entregaram aos espanhóis como prisioneira de guerra. Conduzida a La Paz, era foi recebida por uma chuva de pedras.

Bartolina permaneceu presa por mais de um ano. Nesse período, seu companheiro Tupac Katari também foi traído por um dos combatentes, Tomas Inkalipe. Na cadeia, ele recebeu uma coroa de cravos e espinhos e foi exposto à população. Foi assassinado em 14 de novembro.

A crueldade de sua morte entrou para a história assim como sua valentia. “Matam apenas a mim. Voltarei e serei milhões”, gritou Katari antes de falecer.
Em 5 de setembro de 1782, Bartolina e Gregoria Apaza, combatente aymara, recebem sua sentença de morte. Elas foram levadas nuas pelas ruas de La Paz e torturadas, inclusive com coroa de espinhos. Arrastadas por cavalos pela praça central, suas línguas foram arrancadas para calar os gritos. Partes de seus corpos foram levados a locais simbólicos de resistência indígena para exibição pública.

Exemplo de luta na Bolívia, a líder aymara, assim como Gregoria e Micaela, não foram as únicas mulheres. No levante de 1780, muitas combateram e comandaram, tornando-se famosas por sua valentia. Bartolina fazia parte de um grupo de mulheres guerreiras, trabalhadoras e dirigentes no mesmo nível dos homens, como coloca a filosofia aymara.

Em sua homenagem, assim como de todas as mulheres que combateram a dominação e o etnicídio espanhol, se celebra na data de sua morte, 5 de setembro, o Dia Internacional da Mulher Indígena.

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