quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

IL Gatopardo










Gatopardismo imperial

Atilio Borón
Publicado originalmente no Jornal Página 12; www.kaosenlared.net e www.rebelion .org

Tradução: Paulo Marques


Finalmente chegou o grande dia. Toda a imprensa mundial não faz outra coisa que não seja falar da nova era aberta com a ascensão de Barack Obama a Casa Branca. Isso confirma os prognósticos pessimistas a cerca do retrógado papel que cumprem os meios de comunicação do establishment ao aprofundar, com as ilusões e os enganos de sua propaganda, a chamada “sociedade do espetáculo”, uma forma de retrocesso do social onde o nível intelectual de grandes segmentos da população é rebaixado sistematicamente mediante sua cuidadosa (des)educação e (des)informação. A sufocante “obamamania” atual é um magnífico exemplo disso.

Obama chegou a presidencia dizendo que representava a mudanza. Mas os indícios que surgem a partir da formação de sua equipe e de suas diversas declarações revelam que se existe algo que vá prevalecer em sua administração será a continuidade e não a mudança. Haverá algumas mudanças, sem dúvida, mas serão marginais, em alguns casos cosméticas e nunca de fundo. O problema é que a sociedade americana, especialmente no contexto da formidável crise econômica em que se debate, necessita mudanças profundas, e isso requer algo mais que simpatia e eloqüência discursiva. Há que lutar contra adversários ricos e poderoso, e nada indica que Obama esteja sequer remotamente disposto a considerar tal eventualidade. Vejamos alguns exemplos.

Mudança, designando como chefe de seu Conselho de Assessores Econômicos Lawrence Summers, ex secretário do Tesouro de Bill Clinton e artífice da inaudita desregulamentação financeira dos anos noventa, causadora da crise atual? Mudança, ratificando o secretário de defesa designado por George W. Bush, Robert Gates, para conduzir a “ guerra contra o terrorismo”, que agora tem como cenário o Iraque e o Afeganistão? Mudança, com personagens como o próprio Gates, ou Hillary Clinton, que apoiaram sem questionamento a reativação da Quarta Frota destinada a dissuadir os povos latinoamericanos e caribenhos de enfrentar os interesses e os desejos do império? Em sua audiência no Senado, Clinton disse que a nova administração de Obama deveria ter “uma agenda positiva” para a região para contrapor-se “ao temor propagado por Chávez e Evo Morales”. Seguramente se referia ao temor de superar o analfabetismo ou a terminar com a falta total de atenção médica, ou temor que geram as contínuas consultas eleitorais de governos como da Venezuela ou Bolívia, muito mais democráticas que dos Estados Unidos, onde, todavia, existe uma instituição tão trapaceira como o Colégio Eleitoral, que possibilitou, como ocorreu em 2002, que George W. Bush derrotasse, nesse antidemocrático âmbito, o candidato que havia obtido a maioria do voto popular, Al Gore. Pode esta Secretaria de Estado representar alguma mudança?

Mudança, produzida por um lider político que ficou encerrado em seu estrondoso silêncio, frente ao brutal genocídio perpetrado em Gaza? Que autoridade moral tem para mudar algo quem atuou deste modo? Como supor que representa uma mudança uma pessoa que diz, como lamentavelmente fez Obama recentemente na cadeia de televisão Univisión, que “ Chávez tem sido uma força que tem impedido o progresso da região, ( ...) Venezuela está exportando atividades terroristas e respalda entidades como as FARC? Tamanho exagero e semelhantes mentiras não podem alimentar a mínima esperança e confirmar as previsões que suscita o fato de que um dos seus principais conselheiros sobre a América Latina seja o advogado Greg Craig, assessor da inefável Medeleine Albright, ex-secretária de estado de Bill Clinton, a mesma que disse que as sansões contra o Iraque logo após a primeira guerra do golfo ( que custaram entre meio milhão e um milhão e meio de vidas, predominantemente crianças) “ valeram a pena”. Craig, ademais, tem como um de seus clientes Gonzalo Sanchpes de Lozada, cuja extradição para a Bolívia está sendo solicitada pelo governo de Evo Morales para julgá-lo pela selvagem repressão as grandes insurreições populares de 2003 que deixaram um saldo de 65 mortos e centenas de feridos. Suas credenciais são, pelo visto, insuperáveis para produzir a tão desejada mudança.

Nessa mesma entrevista, Obama se manifestou disposto a “ suavizar as restrições as viagens e ao envio de remessas a Cuba”, mas deixou claro que não contempla por fim ao embargo decretado contra Cuba em 1962. Agregou ademais, que poderia sentar-se para dialogar com o presidente Raúl Castro sempre e quando “ Havana se mostre disposta a desenvolver as liberdades pessoais na ilha”. Em fim, a mesma cantilena reacionária de sempre. Um caso de gatopardismo de pura cepa: algo tem que mudar, e nesse caso a cor da pele, para que nada mude no império.

5 comentários:

Lucio Uberdan disse...

A importância de uma posição política, em especial, a teórica, é que ela além de tencionar uma situação, a faz com lastro de realidade, antecipando assim os acontecimentos, ou seja, os(as) pensadores(as), pelo fato e dedicação de estudo da realidade do tema que for, aqui em especial, a política, acabam por ter a capacidade de frente aos aspectos históricos e realidade colocadas, sugerirem e dialogarem sobre suas teses a partir/através das possibilidade mais contundentes de se realizarem. De nada ou muito pouco nos adianta uma teoria panfletária. Essa por sua vez dura muito pouco.

No caso Obama em questão, vejo Atílio Boron destoando da maioria dos discursos de seus pares, correndo solto em uma seara de arriscada de adjetivos que poderá em breve necessitar engolir a todos, e a seco. O processo de fechamento de Guantánamo por sinal já deve estar trancado na Goela do Atílio por sinal.

Enfim, desejo que Atílio Boron esteja de todo errado, não por problemas com ele e seu esquerdismo, mas sim por que nem eu, nem ninguém (espero que Boron também), querem outro Bush presidindo o USA. Desejo que Boron erre como errou com relação ao Brasil ao afirmar que LULA terminaria como o presidente Fernando de La Rua, renunciando e fugindo, ou como em uma outra entrevista, ao Brasil de Fato, que disse que: “Lamentavelmente, Lula é uma figura decorativa. O mundo sabe que não é ele quem manda. Lula é um presidente sem poder nenhum, é apenas uma personagem a mais”.

Também para o Brasil de Fato, Boron faz uma comparação entre seu compatriota argentino Kirchner e Lula, sustentando que Kirchner estava pronto para a revolução: “Kirchner proclama a necessidade de abandonar o neoliberalismo (seu discurso na Reunião de Cúpula de Monterrey, diante de George W. Bush, foi, nesse sentido, impecável), mas desconfia de suas próprias forças para conseguir esse abandono. Sente que necessita do apoio do Brasil para iniciar tal empreendimento, mas para sua desgraça o governo Lula se converteu no novo bastião da ortodoxia neoliberal na região, sendo, como Menem no passado, “mais realista que o rei”. Então Kirchner conclui que a Argentina não pode iniciar sozinha tamanha batalha contra o neoliberalismo. Esperando pacientemente uma eventual mudança de rumo de seu amigo Lula, que o apoiou com firmeza na campanha eleitoral e durante seu primeiro ano de governo, Kirchner se limitou a adotar poucas iniciativas no terreno econômico e a cultivar uma ácida retórica condenatória do neoliberalismo.

Pois bem, parece que o esquerdismo “científico” de Boron falha ao olhar a realidade, “graças a deus”. Previu que o povo ia colocar Lula para “correr”, mas Lula já passa de 80% de aprovação popular. O que aconteceu afinal?

Um abraço
Lucio Uberdan

Paulo Marques disse...

Contra fatos como este, exposto no artigo de Atílio Borón, é realmente muito dificil manter qualquer otimismo em relação ao novo presidente norte-americano. Infelizmente a vida é muito mais concreta e real do que nossos desejos.

Lucio Uberdan disse...

Meu camarada e líder Paulo Marques, raramente me aventuro nas águas turbulentas de discordar do amigo, mas no atual “caso Boron” teimarei em minha discordância. Ainda que poderei os ver no futuro, igualmente a você e Boron, não percebo ainda os “fatos concretos e ações realizadas” em uma dia de governo de Obama que citas no teu comentário existirem no artigo Boron - “realidades” que justificariam jogar Obama no óleo fervente com uma coleira de gatopardo.

O que tem-se afinal? Discursos mais a direita com relação a Venezuela? Sim, é o Estados Unidos da América em plena eleição, não sejamos ingênuos, como sabes em determinado momento de uma eleição, os candidatos costumam falar e realizar para a base do oponente. Recordas da Carta aos Brasileiros? Recordas do superavit primário do Brasil?

O que tem-se afinal? Nomeações conservadoras? Sim, é os Estados Unidos da América passando por uma profunda crise interna e externa, por muito menos o Brasil também não arriscou a se aventurar na composição do governo. Por sinal deves recordar dos comentários de Borón sobre a composição do governo LULA por exemplo, e mais, Obama nomeou a ativista gay Nancy Sutley para o Meio-ambiente e Arn Duncan ativista da Educação-comunitária para a secretaria da Educação. Tanto lá como aqui, o modelo esquizofrênico de montar um governo parece regra.

Sigo afirmando, de certa forma festejei já no primeiro dia de governo a parada dos processos de Guantánamo, e o fato de Israel retirar suas tropas de dentro de Gaza até a meia-noite da véspera da posse com o motivo de “não conflitar relações com o novo governo americano”. Se isso vai ser duradouro não sei, mas são dois fatos mais concretos que “nomeações” e “discursos”.

Sigo afirmando (http://outraeconomiacontece.wordpress.com/2009/01/21/discurso-da-posse-de-barack-obama-o-primeiro-presidente-negro-dos-eua-economia-solidaria-rspost-169/ ) “o mundo está sempre a espera de um messias, mas esse nunca veio e nem virá. De Obama espero apenas que mantenha-se o mais próximo possível de seus discursos de campanha, sendo assim, dessa forma, o melhor presidente americano possível. Nada além disso”.

Boron escreve um texto denúncia como que traído, mistura crítica com veredicto final, recheando de adjetivos como que “magoado” por um suposto traidor, criticas por sinal muito semelhantes a que fez contra LULA. Boron sente-se traído pois esperava um messias, chama de gato-pardo pois infla um suposto gato, para criar um suposto pardo, igual ao que fez com LULA. Ele e todo o esquerdismo brasileiro. LULA é um traidor não fez a revolução, mas quem disse que seria feita a revolução?

Posso me enganar, espero que não, mas não concordo com o “gatopardo”, afinal nunca ví e esperei de Obama a “ditadura do proletariado”, mas ainda acho até prova em contrário (espero que não), que o momento de jogar a água e o bebê fora esta longe e incerto. Bem como, que num país onde a esquerda não consegue sair do gueto, a diferença de Obama e Bush é gritante e tem de ser festejada como a melhor diferença possível.

Um abraço
Lucio Uberdan

Economia Socialista disse...

Camarada Lucio, é exatamente pelo que tu mesmo afirma " sim é os Estados Unidos da América... o império, e por isso não podemos tapar o sol com a peneira como fazem os meios de comunicação que de forma unânime ( não acha isso estranho) fazem coro ao novo presidente. Como diria o Mino Carta " até o mundo mineral" sabe como funciona a política norte-americana com seu bipartidarismo de fachada, duas caras da mesma moeda. Ninguém é respaldado pelo establishment se não aceitá-lo como norma. A comparação com qualquer país latinoameircano é temerário, tanto em relação ao processo democrático, como a conjuntura. Não se compara o papel da esquerda no Brasil com o que existe nos EUA. Por isso comparar Obama com o processo do governo Lula não é algo aconselhável para uma análise razoável. Continuo cético em relação aos resultados práticos deste governo. Os fatos que sinalizam isso são concretos e todos que fazem uma análise mais profunda do papel dos EUA no mundo sabe que essas mudanças cosméticas pouco influenciarão na política externa americana. Ou será que Obama vai mudar a política de dominação das grandes jazidas de petróleo no Oriente Médio? e a industria de guerra que garante os lucros das grandes corporações armamentistas? E o "modo de vida americano" responsável pela destruição do meio ambiente? o que vai mudar? Não acredito que uma análise mais profunda desse processo seja "esquerdismo". Esquerdismo é não saber quem é o adversário, nesse caso o adversário está bem explícito como sempre esteve, e conhecê-lo é fundamental para qualquer ação no campo da esquerda.

Lucio Uberdan disse...

Divido texto de Laurindo Filho especial para a Agência Carta Maior:

Carta Maior

Colunista:
Laurindo Lalo Leal Filho

DEBATE ABERTO

A briga dos colunistas com a realidade

Seria ingenuidade esperar uma revolução social a partir da chegada de um democrata à Casa Branca. Mas que as coisas mudam, mudam. Lembro apenas os constrangimentos internacionais sofridos pela ditadura militar brasileira, com Jimmy Carter na presidência dos EUA.

http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4086&boletim_id=518&componente_id=8986