domingo, 30 de novembro de 2008

Um movimento unificado pela economia dos trabalhadores e trabalhadoras

























Só a luta faz valer:
Por uma ação política afirmativa do movimento da Economia Solidária.

Paulo Marques e Analine Specht

“A Economia Solidária busca reverter à lógica capitalista que promove crescente exploração do trabalho e dos recursos naturais, gerando desigualdade social, cultural, econômica, territorial, degradação ambiental e prejuízos à saúde dos seres vivos. Ela afirma a emergência de um novo ator social composto de trabalhadores associados e consumidores conscientes e solidários, portadores de possibilidades de superação das contradições próprias do capitalismo, caracterizando-se, portanto, como um processo revolucionário”. (trecho do documento final da I Conferência Nacional de Economia Solidária, junho de 2006.

Entre fevereiro e abril de 1997, o MST realizou a grande marcha dos 100 mil à Brasília, na data que lembrava o primeiro ano do Massacre de Eldorado do Carajás. Na ocasião os trabalhadores e trabalhadoras sem terra ocuparam Brasília para demonstrar que a luta pela Reforma Agrária fazia parte de uma luta maior, por um outro modelo de desenvolvimento para o país. Foi uma mobilização histórica que bem mais do que afirmar a força do movimento contribuiu muito para mudar a visão que muitos setores da sociedade tinham em relação ao MST e sua luta.
Passada mais de uma década dessa demonstração de força, na qual, o MST se consolidava como o maior movimento social do Brasil nos anos 90 (Gohn, 2006, p.3025), é possível afirmar que diferente daquele período, hoje temos um contexto de recuo político do neoliberalismo (derrotas eleitorais em quase todo o continente) e a partir da crise do capitalismo, uma defensiva no campo ideológico.

Se essa realidade pôs na lata do lixo as cartilhas liberais convertidas em bíblias sagradas durante toda a década de 1990, por outro lado, isso não significou que o neoliberalismo tenha sido derrotado. Os neoliberais mantêm o poder econômico, e no caso brasileiro, o poder político, na medida em que permanecem incorporados ao governo que os derrotou em 2002. O poder que detêm no controle da política macro-econômica é o elemento mais concreto dessa realidade contraditória do governo Lula.

É nesse contexto que buscamos analisar o papel dos movimentos sociais, em particular os novos movimentos como a Economia Solidária. A chamada Economia Solidária, que preferimos denominar pelo que realmente é, ou seja, a ECONOMIA DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS, pode ser considerada um movimento em construção.

O Fórum Brasileiro de Economia Solidária -FBES, espaço organizativo-político do movimento, recém completou cinco anos de existência. È um avanço importante na dimensão política das práticas de Economia Solidária, na medida em que busca organizar e mobilizar os segmentos que dela participam. A criação do FBES no âmbito do Fórum Social Mundial o caracteriza e vincula ao movimento anti-globalização, como prática e proposta anti-sistema.

È, portanto, um movimento com um enorme potencial, com as condições de constituir-se, assim como o MST , numa nova força social capaz de apresentar um projeto político-econômico que põe em xeque o sistema capitalista. Essa afirmação é baseada em dois elementos, o primeiro a emergência, na última década, de milhares de Empreendimentos Econômicos Solidários por todo o país, e segundo, a construção de espaços de articulação e organização política desse segmento, os Fóruns e redes em todos os Estados da federação, criando uma capilaridade em diversas regiões envolvendo diferentes setores econômicos, rural e urbano.

Entretanto, a consolidação de um movimento com esse caráter não é um processo espontâneo, mas que necessita, sobretudo, de uma organização com capacidade de ação política e estratégia de mobilização de sua base social. O que acreditamos passa por uma articulação com outros movimentos já consolidados como o MST, MTD, MMM, Meio ambiente, movimento negro, juventude etc...

Isto porque a plataforma da Economia Solidária tem como sujeitos estes outros movimentos setoriais, ou seja, fazem economia solidária os cooperados dos assentamentos do MST; os núcleos de produção do MTD; os grupos produtivos de mulheres organizados pela MMM, os jovens do setor da cultura e das tecnologias livres (software Livres) entre outros. Por isso a construção do movimento da economia solidária não é um processo corporativo ou setorial, mas sim intersetorial e econômico-social, cujo principal elemento é a produção e organização autogestionária.

Nesse sentido, é que está na hora do Movimento da Economia Solidária construir ações políticas afirmativas, de mobilização de sua base social, dando visibilidade para uma prática concreta e viável para milhares de trabalhadores que já praticam essa economia autogestionária, colocando a produção autogestionária dos trabalhadores/produtores no centro de um projeto realmente emancipatório e anti-capitalista.

Portanto, o que se apresenta como desafio é a capacidade do movimento social de apresentar e mobilizar suas bases em torno de um projeto que aponte para um enfrentamento real com o sistema. Se no auge do neoliberalismo na segunda metade da década de 1990, o MST mobilizou centenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras para enfrentar o modelo que acabou com mais de 3 milhões de empregos (Mattoso, 2000), na atual conjuntura de crise profunda do sistema, não estaria na hora dos movimentos sociais apresentarem um projeto próprio alternativo ao capitalismo? E que projeto seria esse? Políticas Keynesianas para salvar o capitalismo? Ou seria possível um projeto estratégico baseado na economia dos trabalhadores e trabalhadoras, popularmente conhecida como Economia Solidária?

Certamente uma proposta como esta encontraria diversos inimigos, o que requer capacidade para o enfrentamento, cuja premissa é a organização e a conscientização como bem nos ensina a experiência do MST, uma organização da base social, conscientização política dos protagonistas e unidade de ação do movimento popular em torno de um projeto político estratégico.
É nesse sentido que identificamos que essa é a hora do movimento da Economia Solidária avançar no processo de mobilização social e organização de sua base, a partir de ações de caráter político, mobilizando os/as trabalhadores/as que já compõem a produção e o trabalho autogestionário no Brasil.

Já superamos o processo de negação e do discurso de superação e rompimento do capitalismo, não bastam apenas palavras de ordem abstratas sem nenhum vínculo lastro com a realidade do mundo do trabalho hoje. O momento atual coloca, para os movimentos sociais o desafio da ação propositiva, da audácia em apresentar uma plataforma realmente revolucionária com alternativas concretas e viáveis para a imensa classe-que-vive do trabalho e não está organizada.
Entre essas ações é possível e urgente construir uma Conferência Nacional dos Movimentos Sociais que tenha como pauta específica a ECONOMIA DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS, (Economia Solidária) como projeto político alternativo dos movimentos sociais para as bases de um novo modelo de desenvolvimento econômico.

Entendemos que é imprescindível a inversão da pauta econômica através da radicalização das propostas do movimento popular para iniciarmos não apenas a superação do neoliberalismo, mas, sobretudo, a transição para um novo modelo econômico e social. Isto requer a consolidação e fortalecimento da proposta da Economia Solidária nos diferentes espaços, seja no âmbito das instituições da sociedade (Universidades, Entidades, sindicatos), seja na institucionalidade (SENAES no governo Lula). Somente com força política é possível a disputa pelos fundos públicos e investimentos do Estado na ECONOMIA DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS e não mais nas grandes empresas capitalistas.

Nesse sentido, é fundamental que o Movimento reforce e amplie as conquistas realizadas até aqui. Dentre elas destacamos o espaço institucional no governo Lula com a Secretaria Nacional da Economia Solidária, que foi uma das proposições da plataforma de luta do Fórum Brasileiro, o que diferencia este processo e esta secretaria de todas as demais estruturas do governo.
A SENAES na figura do professor Paul Singer representa a política pública mais ostensiva em direção a constituição de um projeto de desenvolvimento de caráter anticapitalista, a partir do fomento a iniciativas econômicas e políticas capazes de realmente transformar as relações sociais numa perspectiva emancipatória. O avanço do movimento da ES perpassa, também, o fortalecimento da SENAES como espaço de contra-hegemonia no seio do governo Lula.

As ações realizadas pela SENAES, com todos seus limites e obstáculos, é uma demonstração clara das possibilidades que o Estado brasileiro têm de priorizar uma Economia dos trabalhadores e Trabalhadoras ao invés da Economia dos Capitalistas, voltada para a especulação e drenagem de recursos públicos para interesses privados. Outra vantagem da SENAES e do movimento de ES é contar com a importante contribuição intelectual e militante do professor Singer, que, conforme sua trajetória de vida e de luta, representa a força viva da esquerda revolucionária e propositiva.

O Movimento da Economia Solidária conta, portanto, com elementos significativos para avançar em um processo de mobilização de sua base social no sentido de articular os demais movimentos do campo popular para exigir medidas imediatas para o fortalecimento da Economia Solidária como a criação de um Pronades, (Programa Nacional de Desenvolvimento da Economia Solidária) com recursos do BNDES; criação de um sistema de finanças populares com a multiplicação de bancos comunitários; Programa de Compras Públicas dos produtos e serviços dos empreendimentos econômicos solidários e da Agricultura Familiar; Criação de milhares de empreendimentos Econômicos Solidários pelos/as beneficiários do Programa Bolsa Família.

Essa ação política afirmativa da Economia Solidária como projeto estratégico do conjunto dos movimentos sociais do Brasil tem um potencial, não só de uma proposta de superação da crise dentro dos marcos do modelo capitalista de produção, mas uma alternativa de criar as bases de uma nova economia, voltada para os interesses e necessidades dos trabalhadores e trabalhadoras, resgatando o que Celso Furtado chamou de “fins substantivos da economia”.

Por fim acreditamos que os movimentos sociais, construídos ao longo de décadas de luta, podem garantir uma intervenção política com protagonismo dos trabalhadores e trabalhadoras, como já demonstraram em outros períodos recentes, nesse momento histórico que mostra todas as debilidades, fragilidades e inconsistências do capitalismo. Basta levar a diante o que diz uma das músicas do MST: “Só a luta faz valer”.

Referências:

GOHN, Maria da Glória. Teoria dos Movimentos Sociais. Paradigmas Clássicos e Contemporâneos. São Paulo, Loyola, 2007.
MATOSO, Jorge. O Brasil desempregado. São Paulo, Perseu Abramo, 2000.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Economia Solidária como movimento social




Desafio do movimento da ES : Construir a nova identidade da classe trabalhadora
Os desafios da Economia Solidária como movimento social emancipatório

Paulo Marques

Nesta quarta-feira, 26 de novembro, o presidente Lula realiza reunião com os movimentos sociais do país. A pauta: a crise econômica mundial. Os convidados: representantes dos diferentes movimentos tais como trabalhadores sem terra, sem teto, mulheres, juventude, negros e o movimento da Economia Solidária.


A partir desse fato significativo (vale recordar a diferença de tratamento aos movimentos sociais do governo Lula comparado ao governo de Yeda Crusius no RS) que apresentamos para debate a seguinte a questão: A Economia Solidária constitui-se como um movimento social? O que poderia caracterizar a ES como um movimento social? Existem novos sujeitos deste movimento?
A partir de uma análise da emergência da Economia Solidária no Brasil nos últimos 10 anos (Singer, 1999; Laville, 2004) e a construção de espaços político-organizativos como o Fórum Brasileiro de Economia Solidária -criado no âmbito do Fórum Social Mundial, o que reforça a sua identidade com os movimentos sociais contemporâneos- podemos responder de forma positiva a pergunta se a ES é um movimento social.


Entretanto, essa constatação não impede que ela seja problematizada, isto por dois motivos, primeiro uma questão teórica, e outra política, ou seja, na questão teórica é possível identificar uma defasagem de estudos e pesquisas sobre a ES como movimento social, tanto os paradigmas clássicos sobre movimento sociais como os contemporâneos ainda não identificam a Economia Solidária stricto senso como um movimento social específico. O problema reside no fato de que a Economia Solidária carcteriza-se como uma prática intersetorial, ou seja, ela constitui uma proposta de novas relações de produção e trabalho que incorpora um conjunto de atores sociais e movimentos já existentes que encontram nas demandas e na plataforma da ES uma identificação no que tange a uma alternativa de desenvolvimento anti-capitalista assim como uma nova cultura emancipatória.


Entretanto é importante destacar que esses diferentes atores sociais que assumem as propostas da ES e praticam essa nova economia , preservam também suas demandas específicas , ou seja, a economia solidária portanto, é constituída hoje por trabalhadores(as), da classe-que-vive-do-trabalho (Antunes, 2000) , em sua grande parte oriundas do trabalho assalariado, sejam nas empresas recuperadas, ou nos milhares de empreendimentos econômicos solidários, trabalhadores sem-terra assentados, a partir de suas cooperativas; as comunidades quilombolas; os trabalhadores do setor da reciclagem; o movimento de mulheres; as comunidades quilombolas; grupos de jovens que desenvolvem empreendimentos no campo da cultura e das novas tecnologias como o Software Livres, que contém os mesmos princípios do trabalho cooperativo e a ruptura com a lógica da propriedade privada a partir da socialização do conhecimento e do saber construído coletivamente.


No que tange a questão política, identificamos o problema da estratégia do Fórum Brasileiro de Economia Solidária- FBES. Essa questão têm sido um dos pontos de discussão proposto pelo FBES, na sua IV Plenária Nacional, realizada em março deste ano, que buscou auto-definir sua natureza, caráter, função e estratégias para o movimento. Em relação a natureza tanto do FBES como do movimento, a resolução aprovada auto reconhece o FBES não como o movimento de economia Solidária, mas como um instrumento do movimento:

O FBES é um instumento do movimento da Economia Solidária, um espaço de articulação e diálogo entre diversos atores e movimentos sociais pela construção da economia solidária como base fundaental de outro desenvlvimento sócio-econômico do país que queremos. ( Relatório Final IV Plenária Nacional)

A caracterização do FBES como um instrumento do movimento definiu também quem compõe o fórum (empreendimentos econômicos solidários, entidades de Assessoria e gestores públicos) e aprovou uma resolução polêmica que impedia a participação no FBES de outros movimentos sociais. A resolução aprovada foi,

Movientos sociais não participam como um segmento dos Fóruns Locais e nacional. São aliados na construção de lutas comuns, a partir das pautas específicas a cada um. Cada Fórum ( desde o local ao nacional) deve definir sua agenda e dialogar com outros movimentos sociais, em prol da transformação social e mudança na perspectiva de desenvolvimento do país. É fundamental amp,iar as alianças com outros movimentos sociais. ( Resolução 3.2.4 sobre Movimentos Sociais- Resoluções IV Plenária Nacional)

A polêmica, no meu ponto de vista, reside nesta questão, ou seja, está no fato de que ela é contraditória com a própria construção do movimento e mesmo com a resolução do FBES se auto-reconhecendo como um dos instrumento do MES. Se o movimento da Economia Solidária se diferencia dos outros movimentos sociais por representar uma pauta intersetorial, na medida em que propõe uma outra economía, a exclusão de qualquer segmento e ou movimento específico que pratica essa outra economia é uma profunda contradição.


O FBES fortaleceria muito o movimento com a participação de outros movimentos já organizados como o MST, Movimento de Luta pela Moradia, Movimento dos Trabalhadores Desempregados, Marcha Mundial de Mulheres, Movimentos de Juventude, Cultura, Movimento dos Trabalhadores d Reciclagem, Entidades Quilombolas entre outros. Pois esses movimentos já compõe, com suas práticas, a Economía Solidária que existe no país , na medida em que a construção de projetos de desenvolvimento destes movimentos passa por projetos de autosustentabilidade econômica baseado nos princípios da autogestão e do trabalhos associativo, sem falar no conteúdo ideológico cultural anti-capitalista, ou seja, os princípios e valores do movimento de Economía Solidária.


Entretanto, o FBES optou por uma espécie de “corporativismo”, ou exclusivismo de representação, limitando o Fórum aos empreendimentos como se os mesmos não tivessem vínculos com outros movimentos, entidades de assessoria e rede de gestores públicos.
Em virtude destas duas questões, defasagem teórica e estratégia política do FBES, ainda em disputa, nos autoriza a identificar a Economia Solidária como um novo movimento social em construção.

Essa definição de movimento social em construção nos apresenta como principal questão tanto a caracterização do movimento como suas estratégias. Se a estratégia escolhida for a de construir um setor econômico paralelo ao modo de produção majoritário e adaptado ao sistema capitalista, a proposta de um Fórum corporativo é um alternativa que responde a esse desafio.
Ao contrário , se a proposição estratégica do movimento da Economia Solidária for a construção de um projeto político emancipatório, baseado em um modelo de desenvolvimento centrado na economia autogestionária, que supere o paradigma de produção e organização do trabalho capitalista, o FBES, como instrumento do movimento precisa superar o “corporativismo” e envolver todos os segmentos e movimentos anti-capitalistas e emancipatórios organizados na sociedade.


Isso pressupõe abrir o FBES para os demais movimentos e não exigir um “exclusivismo irreal”. Isso pressupõe não apenas realizar “diálogos entre movimentos” ou “parcerias”, como se o projeto da Economia Solidária estivesse separado das pautas estratégicas dos outros movimentos anti-capitalistas.


É necessário compreender que não haverá outra economia sem reforma agrária, sem o fim da desigualdade de gênero; sem a democratização da comunicação e do conhecimento; sem a valorização da cultura e da produção das comunidades quilombolas; sem os desempregados entre outros diversos movimentos já existentes.E o contrário também é verdadeiro não haverá emancipação das mulheres, trabalho digno para jovens, fim da discriminação de raça se não for construído uma nova forma de produção e de trabalho.


O movimento da Economia Solidária, tem todas as condições que constituir-se como um novo movimento emancipatório da classe-que-vive-do-trabalho ao mesmo tempo que tem um potencial de superar a crise da esquerda que é uma crise de sujeito e de projeto (a partir da crise do modelo fordista-taylorista, ficou sem sujeito revolucionário).


Mesmo que estejamos assistindo a um aumento do trabalho assalariado formal, principalmente nos chamados países emergentes do capitalismo como o Brasil, isso não significa um fortalecimento da classe trabalhadora para construir um projeto emancipatório, isso por dois motivos: as mudanças no mundo do trabalho com um trabalho cada vez mais precário e alienante, na grande maioria com remuneração abaixo do necessária pra uma vida digna; e a estratificação e falta de identidade de classe que impede qualquer ação coletiva de caráter emancipatório.


Portanto, a classe operária assalariada como sujeito transformador ficou no passado ( a fragilidade do sindicalismo é m reflexo incontentável disso). Também podemos identificar que essa nova configuração do mundo do trabalho, que joga milhares de trabalhadores na informalidade e do trabalho autônomo, permite sim uma nova organização da classe trabalhadora, resgatando a proposição marxista libertária do trabalhador/produtor autogestionário.


Esse contexto é o que possibilita um avanço da Economia Solidária, ou seja, a construção de empresas cooperadas e autogeridas pelos próprios trabalhadores como forma de resistência a crise, que se reflete no aumento do desemprego, e ao mesmo tempo possibilita uma identidade de classe, mas uma nova identidade de classe.

A construção dessa identidade de classe, dos trabalhadores autogestionários, e sua organização não será obra do espontaneísmo, mas dos instrumentos organizativos políticos do movimento como os Fóruns e os partidos políticos de esquerda (cabe destacar que dos partidos de esquerda brasileiro apenas o PT , criou uma setorial específica para o tema). Pois sem acúmulo de força política e ideológica na sociedade, cuja premissa é a consciência de classe, o projeto do movimento não avançará.

Da mesma forma que o capitalismo somente foi viabilizado, e ainda o é, a partir do financiamento público, a Economia Solidária não sobreviverá sem financiamento público, via políticas de Estado. O Segredo é a correlação de forças entre o capital e o trabalho, que é desfavorável ao último. Enquanto os movimentos sociais, e aí incluímos o sindical, não compreender que o mundo do trabalho mudou e necessita de outras estratégicas e acúmulo de força política, o capital continuará controlando os recursos públicos para sua sustentação.


Nesse sentido, o movimento da economia solidária tem hoje a sua frente o seguinte desafio: ou amplia sua força política incluindo todos os movimentos sociais no projeto da Economia Solidária, como a economia dos produtores associados, ou mantém-se como um movimento setorial marginal, sem força política para disputar os recursos púbicos nem a capacidade de disputar a hegemonia na sociedade.


Referencias:

Relatório Final da IV Plenária Nacional de Economia Solidária. FBES, Brasília, 2008.

ANTUNES, Ricardo. OS sentidos do trabalho. Ensaio sobre a afirmação e anegação do trabalho. São Paulo, Boitempo, 2000.

LAVILLE, JeanLouis, CARVALHO, Genauto. Economia Solidária. Uma aobrdagem Internacional, POA, UFRGS, 2004.

SINGER, Paul. Uma Utopia militante, Repensando o Socialismo. Petrópolis, Vozes,1999.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Feminismo, por um novo socialismo























"Mudar o mundo para mudar a vida das mulheres e

mudar a vida das mulheres para mudar o mundo"


Analine Specht

Marcha Mundial das Mulheres/RS

Muito se fala em recorte de gênero, direitos das mulheres, políticas afirmativas, superficialmente reconhecem às desigualdades, o sexismo, a divisão sexual do trabalho, as cotas em espaços de poder entre outros elementos que compõem o discurso vazio da esquerda mundial e especialmente do Brasil.

A pauta feminista permanece como secundária e marginal, apenas para “agradar” e “contemplar” as mulheres militantes dos partidos e organizações de esquerda, em que pese à organização política de milhares de companheiras, que cotidianamente precisam legitimar e defender suas bandeiras de luta. O patriarcado e a opressão historicamente têm-se adaptado aos modos de produção, aos regimes políticos, ao pensamento intelectual, as ciências conformando as bases das estruturas e aparelhos de poder. O patriarcado é o resultado mais violento e duradouro da união política entre a igreja, o poder do estado (considerando este em todas as suas formas ao longo da história) e o mercado. Esta construção cultural relegou às mulheres a condição de submissão, inferioridade, opressão, objeto, mercadoria e muitas outras mais que foram e são “naturalizadas” e reproduzidas socialmente.

O patriarcado e o capitalismo se complementaram e se transformaram mutuamente para garantir a manutenção da sociedade que os alimenta e os mantém, para assegurar o status quo burguês, machista, racista e preconceituoso dominante. Todos estes elementos são estruturais posto que, conformam a divisão sexual do trabalho, sua exploração em grau máximo, especialmente do trabalho invisível das mulheres materializado pelas atividades domésticas. O sistema do capital avançou na expropriação da vida das mulheres, mercantilizou seus corpos, dita regras, marginaliza e usa o aparelho do estado e da igreja para legitimar suas mazelas e meios de sobrevivência. O principal instrumento ideológico de manutenção desse status quo senso comum tem sido a mídia que deturpa a imagem das mulheres, que aprofunda as desigualdades de gênero, transforma vidas e corpos em simples mercadorias, valores de troca, como se fossemos “carne em açougue”.

Romper com essa lógica dominante estrutural é urgente e necessário, principalmente para a esquerda que muito precariamente reconhece as lutas e pautas do movimento feminista. As organizações e partidos de esquerda têm muito nítida e presente a luta das mulheres por igualdade, entretanto não a relaciona com a luta pela autonomia sobre o corpo, o aborto legal, ou com a pauta de uma vida livre de violência, de emancipação. A esquerda ainda reproduz a lógica de dominação masculina na esfera privada, e também na pública, quando não agrega em suas plataformas políticas o aborto legal e o fim da violência contra as mulheres. Os poucos avanços que tivemos foram isolados, dentro de alguns grupos políticos e à custa de grandes embates promovidos pelas mulheres, muitas vezes, custando à morte de muitas companheiras.

Como nos conta Margaret Randall citada por István Mézaros: “Na verdade nem as sociedade capitalistas que tão falsamente prometem igualdade nem as sociedades socialistas que prometeram igualdade e até mais, adotaram a bandeira do feminismo. Sabemos como o capitalismo coopta qualquer conceito libertador, transformando-o em slogan utilizado para nos vender o que não carecemos, onde as ilusões de liberdade substituem a realidade. Agora me pergunto se a incapacidade do socialismo de abrir espaço para a agenda feminista – para realmente adotar esta agenda à medida que emerge naturalmente em cada história e cada cultura – seria uma das razões pelas quais o socialismo não poderia sobreviver como sistema.” (Mészáros, 2002, p. 290).

A agenda política do movimento feminista, exatamente da Marcha Mundial das Mulheres, do qual essa que vos escreve faz parte, compreende a opressão das mulheres como estrutural e produto do patriarcado e do capitalismo. Para tanto nossa intervenção é orientada pela autonomia do corpo e da vida mulheres, pela emancipação social, pela igualdade de gênero e por uma sociedade de paz livre da violência e das guerras, a nossa luta é radicalmente anticapitalista.

Nosso lema “Somos mulheres e não mercadoria” contempla a noção de mercadoria como objeto de valor de troca, e, portanto, compreende a esfera pública (mercado, espaços de poder) e a privada (doméstica e social).

Hoje 25 de novembro é uma data simbólica e representativa para o movimento de mulheres e o movimento feminista, pois nos lembra o brutal assassinato das irmãs Mirabal, Pátria, Minerva e Maria Teresa, no dia 25 de novembro de 1960, pelo ditador Rafael Trujilo, na República Dominicana. Este episódio demarca o 25 de novembro como Dia Internacional da Não-Violência contra as mulheres, data definida no 1º Encontro Feminista da América Latina e Caribe, realizado em julho de 1981 em Bogotá, Colômbia.

O movimento feminista realiza no dia de hoje várias atividades e debates pautando a realidade da violência contra as mulheres e o sexismo dominante que se reproduz dentro e fora de casa. Apresentamos os avanços legais como a Lei Maria da Penha e permanecemos vigilantes quanto a sua aplicação e efetividade, posto que, assistimos diariamente a deturpação e o questionamento acerca desta Lei. Vivenciamos um grande embate com o judiciário que através do poder que lhe é conferido contribui a manutenção da “ordem” vigente, a reprodução do machismo e do patriarcado, juízes intransigentes e equivocados nos colocam uma permanente tensão e embate pela garantia dos nossos direitos conquistados.

A nossa luta política anticapitalista busca romper com as relações de poder em todos os espaços e esferas. O socialismo que queremos contempla a superação da violência doméstica, o fim de relações hierárquicas dentro de casa e o rompimento com a dominação masculina. Precisa agregar em sua agenda a autonomia do corpo e da vida das mulheres, a emancipação social em todas as esferas e com isso garantir a igualdade de homens e mulheres.

O Socialismo não se viabiliza, como nos mostra a história, com base em relações desiguais de gênero, sustentado pela continuidade da opressão das mulheres. Por isso afirmamos NÃO EXISTIRÁ SOCIALISMO SEM FEMINISMO.

MARCHAMOS ATÉ QUE SEJAMOS LIVRES

Referência:

Mészáros, István: Para além do capital. Editora da UNICAMP, Boitempo editorial. São Paulo, 2002.