sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A VIDA COMO CARNAVAL. 24 HORAS POR DIA.


Disponibilizamos abaixo excelente análise de Umberto Eco com comentários de Luiz Carlos Azenha, acerca da fetichização generalizada, do espetáculo da banalização e superficialidade que tomam conta das vidas, das relações e dos dias, como reflexo da reprodução do senso comum, superficial e dotado de crescente preguiça mental. Em tempos do violento consumismo natalino e da obrigação de festas de fim de ano.... avisamos.... não é mera coincidência!!

Postagem original em http://www.viomundo.com.br

Outro dia, mal humorado, escrevi sobre a impressão de que a ajuda aos flagelados pela enchente de Santa Catarina tivesse se tornado uma espécie de "gincana de caridade", onde o mais importante não eram os flagelados, mas a "bondade" dos doadores.

Depois escrevi sobre a ansiedade das crianças de hoje em dia, que precisam ser "divertidas" 24 horas por dia pelos pais.

E um leitor do Viomundo notou que o Jornal da Globo deu mais destaque à Carla Bruni do que ao encontro entre os presidentes da França e do Brasil.

Esses assuntos tão diversos acabaram se encaixando num texto que acabo de ler, do Umberto Eco, sobre a vida contemporânea.

Diz ele, grosseiramente (o texto, em inglês, traduzo livremente):

"Agora, uma das características da cultura em que vivemos é a total carnavalização da vida. Isso não significa que trabalhamos menos, deixando o trabalho para as máquinas, já que dar incentivos e organizar o tempo livre sem dúvida foram objetivos de regimes ditatoriais ou liberais. O fato é que mesmo o trabalho foi carnavalizado.

É fácil e óbvio falar sobre a carnavalização das horas que em média o cidadão gasta em frente do aparelho de TV. Tirando o pequeno espaço reservado para as notícias, a TV oferece em primeiro lugar entretenimento, e nos dias de hoje o entretenimento preferido é o tipo que retrata a vida como uma festa sem fim nos quais palhaços e mulheres lindas atiram não confete, mas milhões em qualquer um capaz de jogar um jogo (e nós reclamamos que os albaneses, seduzidos pelas imagens da Itália, fazem qualquer coisa para entrar neste nosso parque de diversões).

É fácil falar do Carnaval em termos de tempo e dinheiro gasto com turismo de massa e suas ofertas de ilhas do sonho a preços módicos, com seus convites para visitar Veneza -- onde, depois de dar uma de turista, você deixa as latas, o papel e o que sobrou do cachorro-quente com mostarda, como no fim do Carnaval propriamente dito.

Mas consideremos a carnavalização do local de trabalho, onde pequenos robôs amigáveis, fazendo o que antes você fez, transformaram as horas de trabalho em tempo de lazer.

É Carnaval permanente para o trabalhador em escritório que, sem que o chefe saiba, usa o computador para jogar videogame ou visitar a página da Playboy. É também Carnaval para aqueles que dirigem automóveis que conversam com eles, dizem a eles que rua pegar e os expõem ao risco de ter que apertar botões para receber informação sobre a temperatura, o combustível que resta no tanque, a velocidade média e o tempo necessário para fazer a viagem.

O telefone celular [...] é uma ferramenta para aquelas profissões que requerem uma resposta rápida, como médicos e encanadores. Deveria servir aos restantes em circunstâncias excepcionais nas quais, longe de casa, devemos comunicar uma emergência, atraso num compromisso por causa de um acidente de trem, de carro ou enchente. No caso o telefone seria usado talvez uma -- para os sem sorte, duas vezes por dia. Ou seja, 99% do tempo gasto pelas pessoas que vemos com o celular grudado na orelha é diversão. O imbecil que se senta atrás da gente no trem fechando negócios falando alto na verdade é como um faisão com uma coroa de penas e um anel multicolorido em volta do pênis.

Estamos brincando quando gastamos tempo em um supermercado ou num posto de beira de estrada, quando os dois nos oferecem uma infinidade de objetos sem utilidade de forma que, embora você entre para comprar uma lata de café, fica por uma hora e sai com comida para cachorro -- você não tem um cachorro, mas se tivesse seria um Labrador, o cão da moda, que não tem uso como cão de guarda, não pode ser usado para caça e lambe a mão de quem te esfaqueia, mas é ótimo para brincadeiras, especialmente se colocado na água.

[...]

O resultado [da automação] não foi o enobrecimento da classe trabalhadora como condição utópica sonhada por Marx, na qual todos pescam, caçam e assim por diante. Pelo contrário, a classe trabalhadora passou a ser empregada pela indústria da carnavalização como o usuário médio. O usuário já não tem apenas as correntes a perder. Hoje em dia, se algum ato revolucionário causar um blecaute, a classe trabalhadora perderia um episódio de um reality show, por isso ela vota nos que oferecem o show, e continua trabalhando para oferecer mais valia aos que oferecem divertimento.

Se é descoberto que em algumas partes do mundo as pessoas não estão se divertindo, estão morrendo de fome, nossa consciência nos leva a participar de uma grande (e divertida) caridade para coletar fundos para crianças da África, paraplégicos e doentes.

O esporte foi carnavalizado. Como? O esporte é diversão por excelência: como poderia ser carnavalizado? Ao se tornar não um interlúdio que era (um jogo de futebol por semana e as Olimpíadas a cada quatro anos) mas uma presença constante; ao se tornar não uma atividade-fim mas uma empresa comercial. O jogo jogado não importa mais (um jogo, aliás, que se tornou uma tarefa tão difícil que exige o uso de drogas para melhorar a performance) mas o grande Carnaval do antes, do durante e do depois, no qual o público, não os jogadores, jogam toda a semana.

A política foi carnavalizada e agora nós usamos a expressão "política do espetáculo". Enquanto o parlamento perde cada vez mais poder, a política é conduzida através da TV, como os jogos de gladiadores, e a forma de legitimar o primeiro-ministro é fazê-lo encontrar a Miss Italia. E ela não pode aparecer vestida como uma mulher comum (apesar de sua inteligência) mas em seu traje de desfile. Vai chegar o dia em que o próprio presidente da República, para se legitimar, terá que aparecer fantasiado de presidente.

[...]

Alguns gays acreditam que encontraram compensação no Carnaval da Parada Gay para séculos de marginalização. No fim eles foram aceitos, já que nos dias de Carnaval tudo é aceito, até mesmo uma cantora mostrando o umbigo na presença do papa João Paulo II.

[...]

Já que somos criaturas brincalhonas por definição, e que perdemos a dimensão do jogo, obtivemos Carnavalização total. Nossa espécie tem muitos recursos, talvez esteja passando por transformação e vai se adaptar a essa nova condição, mesmo tirando vantagem espiritual disso. E talvez seja bom que o trabalho deixou de ser um fardo, que não temos que passar a vida nos preparando para uma boa morte e que a classe trabalhadora vai finalmente para o paraíso gargalhando. Não se preocupe, seja feliz!

Ou talvez a História tome providências -- uma boa guerra com bombas de urânio, um belo buraco de ozônio -- e o Carnaval vai acabar. Mas precisamos refletir sobre o fato de que a Carnavalização total não satisfaz o desejo, só aumenta. Prova disso encontramos nas discotecas, onde depois de toda a dança e todos os decibéis os jovens ainda saem para a gincana da morte em alta velocidade nas avenidas.

A Carnavalização total pode acabar reproduzindo a situação admiravelmente descrita na velha piada sobre o cara que dá em cima de uma jovem de forma insinuante para dizer: "Ei, broto, tem compromisso depois da orgia?".

ps: do texto "From Play to Carnival", publicado no La Repubblica em janeiro de 2001 e republicado em "Turning Back the Clock, Hot Wars and Media Populism", Hartcourt.

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