segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Saudações a quem tem coragem

O trabalho na sociedade capitalista é tão surreal quanto essa imagem

A necessidade da crítica radical à lógica do sistema capitalista
Paulo Marques


Para Marx ser radical significava agarrar as coisas pela raiz, e a raiz no caso, significava o próprio homem. A partir dessa premissa Marx formulou a crítica mais radical ao modo de produção capitalista; uma crítica que identificou tanto a lógica de funcionamento do sistema, seus instrumentos de reprodução, como apontou a possibilidade de sua superação por um sistema baseado em outra sociabilidade, o que ele chamou de sociedade comunista, no qual o homem superaria o reino da necessidade que lhe impõe uma situação de alienação permanente para erigir o reino da emancipação e da liberdade.

Ao contrário do que seus detratores afirmam, Marx tinha clareza da necessidade da ação consciente dos homens para o processo de superação do sistema. Mesmo que tenha desenvolvido a tese, identificada como determinista, segundo qual as contradições do sistema levariam a sua destruição, o que Marx salientou foi que o capitalismo criaria seus “próprios coveiros”, ou seja, a classe explorada pelo sistema, que se ampliaria cada vez mais, realidade que é comprovada nos dias de hoje, e que seria responsável, através de sua ação política, por enterrar o modo de produção capitalista.
O que é importante na análise de Marx e muitas vezes é esquecida, portanto, é a afirmação de que a “emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, o que quer dizer que a ação consciente dos sujeitos históricos é condição do processo emancipatório.

A partir desse ponto de vista marxista, que entendemos que não é possível pensar em enfrentamento ao sistema sem uma crítica radical aos seus pressupostos. Mas não uma crítica como diletantismo academicista, desvinculada da realidade e da ação política concreta. Mas sobretudo que , contribua para a construção de alternativas que recoloquem na ordem do dia a possibilidade de superação do atual sistema.

Atualmente estamos longe dessa capacidade dos pensadores que se identificam com o marxismo. Segundo Paulo Mekenas em um artigo sobre o papel dos intelectuais marxistas,
hoje são poucos os marxistas a admitir como Marx, que uma idéia não é superada por outra idéia, mas por uma ação política. O distanciamento dos marxistas diante da política tornou-se tão forte que é possível ver cultores sequiosos, autoproclamados seguidores de Marx e incapazes, no entanto, de relacionar suas pesquisas com as ações de classe, preocupados que estão com o espírito que paira sobre o mundo acadêmico. Assistimos à total cisão da teoria com a prática”. (Meksenas, 2008,p. 62)*

Esse afastamento da prática e da vida concreta dos trabalhadores ( principalmente a compreensão das profundas transformações na estrutura de classes da sociedade capitalista) impede uma crítica radical do atual estado das coisas, ou seja, da lógica de reprodução do sistema.

Nesse sentido, entendemos que o pensamento crítico tem um papel fundamental na retomada da ofensiva contra a ideologia dominante. Para isso categorias como modos de produção; trabalho; mercado; devem ser re-colocadas no centro do pensamento crítico anti-capitalista.
Se pretendemos um pensamento crítico no sentido marxista de radicalidade de que nos falava Marx, é preciso também superar dogmatismos e exclusivismos. Nesse sentido, coerente com nossa proposta de utilizar a crítica como arma, seja ela marxista, anarquista, anticapitalista, apresentamos em nosso blog uma crítica não –marxista que reforça o “espírito marxista” da crítica, ou seja, a radicalidade da crítica anticapitalista. Consiste do ensaio “ Abolição do Trabalho” de Bob Black , que não é marxista mas um anarquista, que apresenta uma crítica profunda ao significado do trabalho na sociedade capitalista.

Bob Black, o autor, tem uma formação acadêmica tradicional ( graduações em ciências sociais e direito, dois títulos de mestrado), mas rejeitou desde o início os caminhos habituais à ‘intelectualidade séria”. Em vez disso, tornou-se famoso pelos cartazes anarquistas/situacionistas/absurdistas que criou à frente da “Última Internacional”, entre 1977 e 1983. A lém da ação panfletária, escreveu também centenas de ensaios, distribuídos inidstintamente entre periódicos anarquistas, jornais da área do direito e órgãos da grande imprensa, como Waal Street Journal e Village Voice. Sua capacidade singular para criar jogos de palavras, aliada ao humor ácido e ao conhecimento teórico, faz dele um dos grandes nomes do anarquismo heterodoxo.

Acreditamos, da mesma forma que a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores, que a reinvenção da teoria crítica anticapitalista somente poderá avançar na medida em que supere os dogmatismos e exclusivismos e utilize o melhor de cada teoria emancipatória seja ela marxista ou não. Abaixo publicamos alguns trechos do Ensaio/Manifesto de Bob Black escrito na década de 1980, que permanece uma crítica muito atual ao status quo do trabalho na sociedade capitalista contemporânea.


A Abolição do trabalho
Bob Black

(...) Os liberais dizem que devemos acabar com a discriminação nos empregos. Eu digo que devemos acabar com os empregos. Os conservadores apóiam leis de direito ao trabalho. Seguindo o genro rebelde de Karl Marx, Paul Lafargue, eu apóio o direito à preguiça. Os esquerdistas são a favor do pleno emprego. Como os surrealistas- só que eu não estou brincando-, sou a favor do pleno desemprego. Os trotskistas fazem agitação em nome da revolução permanente. Eu faço agitação em nome do deleite permanente. Mas se todos os ideólogos ( como de fato eles fazem) defendem o trabalho- e não apenas porque planejam fazer com que outros trabalhem por eles- , estranhamente, eles relutam em dizer isso. Falam sem parar de salários, jornadas, condições de trabalho, exploração, produtividade, rentabilidade. Falam de tudo, menos do próprio trabalho. Esses especialistas, que se oferecem para pensar por nós, raramente divulgam suas conclusões sobre o trabalho, por mais que ele tenha relevância na vida de todos nós. Entre eles, esmiúçam os detalhes. Sindicatos e patrões concordam que devemos vender o auge de nossa vida em troca de sobrevivência, embora discordem quanto ao preço (...) Você deve estar se perguntando se estou brincando ou falando sério. Estou brincando e falando sério. Ser lúdico não é ser ridículo. Brincadeiras são precisam ser frívolas, embora a frivolidade não signifique trivialidade; muitas vezes, deveríamos levar a frivolidade a sério. Eu gostaria que a vida fosse um jogo- mas um jogo de apostas elevadas. Eu quero jogar a sério.

A alternativa ao trabalho não é apenas a inatividade. Por mais que eu valorize o prazer do torpor, ele nunca é mais recompensador do que quando pontua outros prazeres e passatempos. Tampouco estou promovendo a válvula de escape gerenciada e cronometrada chamada “lazer”, longe disso. O lazer é o não–trabalho em nome do trabalho. O lazer é o tempo gasto se recuperando do trabalho e na frenética, porém vã, tentativa de esquecer o trabalho. Muitas pessoas voltam tão esgotadas das férias que ficam ansiosas por voltar ao trabalho e poder descansar. A principal diferença entre o trabalho e o lazer é que trabalhando pelo menos você é pago por sua alienação e exasperação.

(...)Não estou fazendo nenhum jogo retórico. Quando digo que quero abolir o trabalho, quero dizer exatamente isso- mas quero dar meu recado definindo termos de formas não-idiossíncráticas. Minha definição resumida de trabalho é o trabalho forçado, ou seja, a produção compulsória. Ambos os elementos são essenciais. O trabalho é a produção garantida por meios econômicos ou políticos, pela recompensa ou pela punição ( um tipo de recompensa que é apenas a punição por outros meios). Mas nem toda criação é trabalho. O trabalho jamais é um fim em si mesmo, ele é feito em prol de algum produto ou resultado que o trabalhador (ou, mais frequentemente , outra pessoa) obtém dele. È isso que o trabalho é, necessariamente. Defini-lo é desprezá-lo. Mas o trabalho em geral, é até pior do que sua definição determina. A dinâmica da dominação intrínseca ao trabalho, tende, com o tempo, a se tornar mais elaborada (...)

(...) Todos os trabalhadores industriais e de escritório são empregados e submetidos a um tipo de vigilância que assegura a servilidade.
Mas o trabalho moderno tem implicações piores. As pessoas não apenas trabalham, elas têm “empregos”. Uma pessoa desempenha uma única tarefa produtiva o tempo todo sob a ameaça de um “ ou senão...” Mesmo quando a tarefa tem algo de intrinsecamente interessante ( caso cada vez mais raro nos empregos) a monotonia de sua exclusividade obrigatória drena todo potencial lúdico(...)


(...)Um “emprego” que poderia mobilizar a energia de algumas pessoas, por um tempo razoavelmente limitado e apenas por prazer, torna-se um fardo para aqueles que têm que fazê-lo 40 horas por semana, sem voz ativa sobre como ele deve ser feito, para enriquecer proprietários que não contribuem em nada para o projeto, e sem oportunidade de compartilhar tarefas ou dividir o trabalho entre aqueles que realmente precisam fazê-lo. Esse é o verdadeiro mundo do trabalho: um mundo de incompetência burocrática, de assédio sexual, e discriminação, de chefes cabeças-de-bagre explorando e fazendo de bodes expiatórios seis subordinados, os quais- por qualquer critério racional ou técnico- deveriam estar dando ordens. Mas o capitalismo, na realidade, subordina a maximização racional da produtividade e do lucro às exigências do controle organizacional.

(...)A degradação que a maioria dos trabalhadores sofre no emprego é a soma de indignidades variadas, que pode ser denominada “ disciplina”. Foucault faz parecer complexo esse fenômeno, mas ele é bastante simples. A disciplina consiste na totalidade dos controles totalitários no local de trabalho- vigilância, tarefas repetitivas, ritmo de trabalho imposto, cotas de produção, horário para entrar e para sair e por aí vai. A disciplina é o que a fábrica, o escritório e a loja têm em comum com a prisão, a escola e o hospital psiquiátrico. É algo históricamente original e horripilante. Estava além da capacidade de ditadores demoníacos de antigamente como Nero, Gêngis Khan e Ivã o terrível. Mesmo como todas as suas más intenções, eles simplesmente não dispunham de mecanismos para controlar seus súditos tão completamente quanto os déspotas modernos. A disciplina é o modelo de controle moderno, distintamente diabólico- é uma intrusão inovadora que precisava ser contida na primeira oportunidade(...)

(...) O trabalho ridiculariza a liberdade. A versão oficial é que todos temos direitos e vivemos numa democracia. Outros desafortunados que não são livres como nós tem que viver em Estados policiais. Tais vitimas obedecem a ordens, por mais arbitrárias que sejam, ou sofrem as conseqüências . As autoridades as mantêm sob vigilância regular. Burocratas do Estado controlam até os menores detalhes do dia-a-dia. OS funcionários que as oprimem respondem apenas a seus superiores públicos ou particulares. De qualquer forma, a discordância e a desobediência são punidas. Informantes relatam tudo regularmente às autoridades. Tudo isso deve ser muito ruim.

E é mesmo, em embora não seja nada mais do que uma descrição do local de trabalho contemporâneo. Os liberais, conservadores e libertários que se lamentam pelo totalitarismo são fingidos e hipócritas. Há mais liberdade em qualquer ditadura moderadamente “ desestalinizada” do que num local de trabalho americano normal. Num escritório ou numa fábrica, encontra-se o mesmo tipo de hierarquia e disciplina que existe numa prisão ou num mosteiro. De fato, como Foucault e outros demonstraram, prisões e fábricas foram criadas mais ou menos ao mesmo tempo, e seus operadores conscientemente emprestaram as técnicas de controle uns dos outros. Um trabalhador é um escravo em meio período. O chefe diz quando ele deve chegar, quando deve ir em borá e o que deve fazer durante a jornada. Ele diz quanto trabalho alguém deve fazer, e com que rapidez. Tem liberdade para levar seu controle a extremos humilhantes, regularmente, se assim desejar, o que alguém deve vestir ou com que freqüência deve ir ao banheiro. Com poucas exceções, pode demitir alguém por qualquer motivo, ou sem motivo. Põe dedos0duros e supervisores para espionar as pessoas e acumula um dossiê para cada empregado. Retrucar é chamado de “insubordinação”, como se um trabalhador fosse uma criança mal criada, e não só leva à demissão da pessoa, como também impede que ela tenha um seguro –desemprego. Sem necessáriamente endossar a prática, vale ressaltar que crianças, em casa e na escola, recebem praticamente o mesmo tratamento, justificado, no caso delas, por sua suposta imaturidade. Que argumento usar no caso de seus pais e professores que trabalham?

O sistema de dominação humilhante que descrevi rege mais da metade das horas de vigília da maioria das mulheres e da grande maioria dos homens há décadas, durante a maior parte de sua vida. Para certos fins, não é muito enganador chamar nosso sistema de democracia, capitalismo ou – melhor ainda- industrialismo, mas sues verdadeiros nomes são fascismo de fábrica e oligarquia de escritório. Quem disser que essas pessoas são “livres” está mentindo ou é burro.

Você é o que faz. Se você faz um trabalho chato, idiota e monótono, provavelmente vai ficar chato, idiota e monótono. O trabalho é uma explicação muito melhor para a crescente cretinização que nos cerca do que até mesmo mecanismos claramente imbecilizadores como a televisão e a educação. Pessoas que são arregimentadas por toda a vida, entregues ao trabalho pela escola e delimitadas pela família no início e pelo asilo no fim, estão acostmadas à hierarquia e escravisadas psicologicamente. Sua aptidão para a autonomia está tão atrofiada que o medo da liberdade está entre suas poucas fobias embasadas racionalmente. O treinamento para a obediência no trabalho contamina as famílias que elas criam, gerando assim, outras formas de reprodução do sistema, e contamina igualmente a política, a cultura e tudo o mais. Quando se drena a vitalidade das pessoas no trabalho, elas ficam predispostas a se submeter à hierarquia e à especialização em tudo. Estão acostumadas a isso.
Estamos tão próximos do mundo do trabalho que
não conseguimos ver o que ele faz conosco. Temos que confiar em quem o vê de fora, de outras épocas e outras culturas, para entender quão extrema e patológica é a nossa situação atual ( ...)

(...) Finalmente, precisamos acabar com aquela que é de longe a ocupação com mais funcionários, com a jornada mais longa, o salário mais baixo e algumas das tarefas mais tediosas que existem. Refiro-me às donas de casa que fazem o trabalho doméstico e criam os filhos. Abolindo o trabalho assalariado e alcançando o pleno desemprego, sabotamos a divisão sexual do trabalho. O núcleo familiar que conhecemos é uma adaptação inevitável à divisão do trabalho imposta pelo trabalho assalariado moderno. Gostando ou não, do jeito que as coisas estiveram nos últimos 100 ou 200 anos era racional, do ponto de vista econômico, que o homem sustentasse a família, que a mulher se matasse no fogão e no tanque e proporcionasse ao marido um porto seguro num mundo desalmado. Também fazia sentido que as crianças marchassem para os campos de concentração juvenis chamados de “ escolas”, sobretudo para saírem da barra da saia da mamãe- mas de forma secundária, também para que adquirissem os hábitos de obediência e pontualidade tão necessários aos trabalhadores. Se quiser se livrar do patriarcado, livre-se da núcleo familiar, cujo “trabalho invisível” não remunerado, como diz Ivan illich, possibilita o sistema de trabalho que torna a família necessária ( ...)

(...) O que eu quero realmente ver é o trabalho virar brincadeira. Um primeiro passo é descartar as noções de “emprego” e “ocupação”(...) O segredo de transformar o trabalho em brincadeira, como Charles Fourier demonstrou, é agendar as atividades úteis para tirar vantagem das coisas que várias pessoas, em vários momentos, de fato gostam de fazer. Para que seja possível que algumas pessoas façam coisas de que poderiam gostar, será suficiente erradicar as irracionalidades e distorções que sobrecarregam tais atividades quando elas são reduzidas a trabalho. Eu por exemplo, gostaria de dar algumas ( não muitas) aulas, mas não quero estudantes forçados e não estou a fim de bajular pedantes patéticos por uma cadeira (...)

(...)A reinvenção do cotidiano significa marchar para além dos limites dos nossos mapas. Existe, é verdade, mais especulação sugestiva do que a maioria imagina.Além de Fourier e Morris- e até sugestões, aqui e ali, em Marx- há os textos de Kropotkin, dos sindicalistas Pataud e Pouget, dos velhos ( Berkman) e novos ( Bookcin), anarco-comunistas (...)

(...) A vida se tornará um jogo, ou melhor, muitos jogos, mas não um jogo sem resultados como é agora. Um encontro sexual bem –sucedido é o paradigma da brincadeira produtiva. Os participantes potencializam os prazeres um do outro, ninguém faz pontos e todos ganham.Quanto mais você dá mais você recebe (...) Se jogarmos as cartas certas, todos poderemos obter mais da vida do que colocamos nela; mas só se jogarmos a sério (...)


Trabalhadores do mundo .... relaxem!!!


Esse ensaio surgiu como discurso em 1980. Uma versão revista e ampliada foi publicada como panfleto em 1985 . Foi editado pela primeira vez em 1986 com o título de The abolition of work and Other Essays ( Abolição do Trabalho e outros ensaios). Esse ensaio também apareceu em periódicos e antologias, com traduções em inglês, francês, alemão, italiano e holandês.



* Meksenas, Paulo. Ideologia, intelectuais e dogmatismo na ciência. In Bianchetti et all (orgs.) A trama do Conhecimento. Campinas,Papirus, 2008.

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