sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Os Espelhos de Galeano

Eduardo Galeano: Os espelhos, uma história quase Universal

Eduardo Galeano, escritor uruguaio, cronista da história que não é contada pelos livros de história. O autor do clássico As Veias Abertas da América Latina, esteve na provincia ontem (Porto Alegre) lançando seu mais novo livro que ele denominou de "Espelhos", mas que poderia muito bem ser As veias continuam abertas, na América Latina, no Mundo.
Veias que muitos não conhecem, porque não aparecem nos filmes, nos livros, nas novelas, nos noticiários, portanto, não existem.
Contra essa lógica alguns Quixotes teimam em contrariar a "realidade" para lembrar a história, a história que teima em não ser esquecida.

Galeano é um destes que teimam em lembrar, resgatar, contar essas Histórias que são realmente com H maíusculo por que verdadeiras, se parecem estórias com "e" por serem muitas vezes inacreditáveis, mas são sim, verdadeiras. Galeano se recusa a colocar as fontes, diz que ocupariam um outro livro. Galeano disse que ouve muito, nas ruas por onde anda, lê as paredes também, aí estão suas fontes.

Na atividade realizada em Porto Alegre para um publico de mais de 800 pessoas, Galeano leu algumas das histórias que estão no seu novo livro. Aqui publicamos algumas que dizem muito sobre o que foi e o que é o mundo em que vivemos. Como o próprio Galeano escreveu uma vez. A História é um profeta com o olhar voltado para traz, pelo que foi, e o que fez, anuncia o que será.


O diabo é pobre

Nas cidades do nosso tempo, imensos cárceres que trancam os prisioneiros do medo, as fortalezas dizem ser casas e as armaduras simulam ternos.
Estado de sítio. Nâo se distraia, não baixe a guarda, não confie. Os amos do mundo dão a voz de alarme. Eles, que impunemente violam a natureza, seqüestram países, roubam salários e assassinam multidões, nos advertem: cuidado. Os perigosos acossam, tocaiados nos suburbios miseráveis, mordendo invejas, engolindo rancores.
Os perigosos, os pobres: os pobres-diabos, os mortos das guerras, os presos dos cárceres, os braços disponíveis, os braços descartáveis.
A fome, que mata calando, mata os calados. OS especialistas, os pobrólogos, falam por eles. E nos contam em que não trabalham, o que não comem, o quanto não pesam, o quanto não medem, o que não têm, o que nãopensam, o que não votam, em que não crêem.
Só nos falta saber porque os pobres são pobres. Será porque sua fome nos alimenta e sua nudez nos veste?

O precursor do capitalismo

Inglaterra, Holanda, França e outros países devem a ele uma estátua.
Boa parte do poder dos poderosos vem do ouro e da prata que ele roubou, das cidades que incendiou, dos galeões que esvaziou e dos escravos que caçou.
Algum escultor refinado deveria modelar a efigie desse funcionário armado do capitalismo nascente: a faca entre os dentes, o tapa-olho, a perna-de-pau, o gancho no lugar da mão, o papagaio no ombro.

Doutor corporação

Aconteceu em Washington, em 1886.
As empresas gigantes conquistaram os mesmos direitos legais que os cidadãos comuns correntes.
A Suprema Corte de Justiça anulou mais de duzendtas leis que regulamentavam e limitavam a atividade empresarial, e ao mesmo tempo estendeu os direitos humanos às corporações privadas. A lei reconheceu para as grandes empresas os mesmos direitos das pessoas, como se elas também respirassem: direito à vida, à livre expressão, à privacidade...
No começo do século XXI, isso continua valendo.

Muros

O Muro de Berlim era a notícia de cada dia. Da manhã à noite líamos, víamos, escutávamos: O Muro da Vergonha, o Muro da Infâmia, a Cortina de Ferro...
Finalmente, esse muro, que merecia cair, caiu. Mas outro muros brotaram, e continuam brotando, no mundo. Embora sejam muito maiores que o de Berlim, deles fala-se pouco ou não se fala nada.
Pouco se fala do muro que os Estados Unidos estão erguendo na fronteira mexicana, e pouco se fala das cercas de arame farpado de Ceuta e Melilla.
Quase nada se fala do Muro da Cisjordânia, que perpetua a ocupação israelita de terras palestinas e será quinze vezes mais longo que o Muro de Berlim, e nada, nada de nada, se fala do Muro do Marrocos, que perpetua o roubo da pátria saharaui pelo reino marroquino e mede sessenta vezes mais que o Muro de Berlim.
Por que será que há muros tão altissonantes e muros tão mudos?


Breve história da revolução tecnológica

Crescei e multiplicai-vos, dissemos, e as máquinas cresceram e se multiplicaram.

Tinham nos prometido que trabalhariam para nós.
Agora nos trabalhamos para elas.

As máquinas que nós inventamos para multiplicar a comida multiplicam a nossa fome.
As armas que inventamos para nos defender nos matam.

Os automóveis que inventamos para nos mover nos paralisam.

As cidades que inventamos para nos encontrar nos desencontram.

Os grandes meios que inventamos para nos comunicarmos não nos escutam nem nos vêem.

Somos máquinas de nossas máquinas.
Elas alegam inocência.
E têm razão.

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