quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Marxistas

Para eles o importante era transformar o mundo, e esse o objetivo da teoria.


Breve crítica da razão academicista: Onde estão os teóricos marxistas?
Paulo Marques


Após a década de auge do pensamento neoliberal, a profunda crise do capitalismo que vivemos hoje, pôs abaixo os argumentos pseudo-ciêntíficos da racionalidade econômica liberal. Segundo Daniel Bensaid, filósofo marxista francês, hoje na Europa ninguém mais quer ser identificado como liberal. Esse recuo dos pressupostos liberais já vem ocorrendo na América Latina desde 1998, com as sucessivas derrotas da direita .

Entretanto, o que poderia ser um contexto importante para a retomada da ofensiva do marxismo como teoria crítica, não está sendo aproveitado pela esquerda. A incapacidade dos partidos de esquerda de avançar na disputa ideológica, mesmo em um momento de crise profunda do sistema, demostra o enorme divórcio entre a teoria e a prática no marxismo atual, ou mesmo podemos afirmar que o marxismo, como teo ria crítica, têm sido atualmente irrelevânte para os partidos de esquerda.
A realidade é muito clara, onde as transformações políticas, sociais e econômicas avançam como em diversos países da América Latina, os marxistas ainda não conseguiram compreender o que está realmente acontecendo, na medida em que não é a classe operária tradicional que está na vanguarda dos processos de transformação. A incapacidade de compreender as profundas transformações no mundo do trabalho e na configuração de classes no capitalismo atual têm sido um dos principais problemas do marxismo, e sua capacidade de formular teorias críticas da realidade, o que caracterizou a essência da práxis marxista. Isto reflete também uma realidade no campo da intelectualidade marxista que é o seu total divórcio da luta social concreta dos setores explorados. Um grande contraste com os intelectuais fundadores e principais referências da teoria.
Essa condição de divórcio da teoria marxista com a realidade concreta dos trabalhadores, suas lutas e resistências cotidianas, não é algo recente, já havia sido identificada por Perry Anderson no seu estudo sobreo o marxismo ocidental, pós segunda guerra. Segundo Anderson:

" O divórcio estrutural entre teoria e prática inerente à natureza dos partidos comunistas desta época (pós guerra) impediu o trabalho político -intelectual unificado do tipo que definiu o marxismo clásico. O resultado disso foi a reclusão dos teóricos nas Universidades, distantes do proletariado de seus próprios países, e o estreitamento do campo de atuação da teoria, concentrando-se na filosofia em detrimento da economia e da política. Esta especialização veio acompanhada de um crescente hermetismo da linguagem, cujas barreiras técnicas foram fator de distanciamento das massas. ( Anderson, 1976, p. 112).

Essa situação muito bem identificada por Anderson não é diferente do que vivemos hoje. Partidos de esquerda sem nenhuma preocupação teórica, e teóricos sem nenhuma vinculação partidária.
Uma diferença muito significativa se compararmos com os grandes teóricos marxistas que mantiveram estreitos vínculos com a ação política. Sem falar em Marx, Engels, Lenin e Trotski, fundadores da primeira, segunda, terceira e quarta internacionais respectivamente, Anderson resgata o fato de que os três principais teóricos da segunda geração de marxistas pós 1920, Lukács, Korsh e Gramsci, " foram todos inicialmente importantes dirigentes políticos nos seus respectivos partidos. Todos eles tomaram também parte ativa nas insurreições revolucionárias de massa desse tempo e foram seus organizadores diretos; realmente só neste contexto político se pode compreender o surgimento de suas teorias"( Anderson, 1976, pg.43)

Essa mudança da relação entre a teoria e a prática do marxismo, contribuiu para o engessamento da teoria enquanto instrumento de transformação. Aquilo que Marx defendia na sua XI tese, contra Feuerbach, segundo qual "os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão porém, é transformá-lo" não é mais levada em conta, como verificou com muito propriedade Paulo Meksenas ao destacar o predomínio do marxismo acadêmico em detrimento de um marxismo político,

" A partir da segunda metade do século XX, vemos surgir uma espécie de marxismo acadêmico e profissional, dissociado de qualquer prática política de classe. Com o passar do tempo, gerações de novos marxistas, que nunca se relacionaram com qualquer movimento social ou que abandonaram qualquer perspectiva de ação dos "tempos de junventude", formaram-se e deram continuidade aos trabalhos científicos de seus predecessores em centros de pesquisa e nas Universidades. ( Meksenas, 2008,p .62)

O processo de institucionalização dos partidos de esquerda é um reflexo também deste abandono da ação política por parte dos intelectuais marxistas tanto na luta concreta dos movimentos sociais, quanto na intervênção nos partidos de esquerda, relegados atualmente a partidos meramente eleitorais, máquinas voltadas para ocupação de espaços na institucionalidade burguesa sem projetos ou capacidade de disputar hegemonia nas parcelas conquistadas do Estado burguês.

O "marxismo academicista" têm avançado na mesma proporção que o pragmatismo oportunista dos partidos de esquerda, ou seja,

"Gerações pós gerações de intelectuais criaram um lento e irreversível processo de institucionalização do marxismo, que o esvaziou de suas prerrogativas revolucionárias de origem , ainda afirmando-se dentro de um cerimonial acadêmico e marcado por " ritos de passagem": dos mestrados aos doutoramentos; com seus índices de produtividade embasados em números de publicações, citações em revistas especializadas; participações em congressos e conluios afins, muitas vezes realizados à beira de uma bela piscina em cidade interiorana"( Meksenas, 2008,p.63)

Enquanto esse quadro não for revertido, tanto por parte dos partidos de esquerda, quanto por parte dos intelectuais marxistas atualmente voltados para a academia, dificilmente será possível derrotar a visão de mundo liberal, que mesmo estando completamente fora da realidade concreta, permanece como a única com capacidade de hegemonia cultural e ideológica na sociedade.


ANDERSON, P.( 1976) Considerações sobre o marxismo ocidental, Porto, Afrontamento.

MEKSENAS, P. (2008)Ideologia, intelectuais e dogmatismo na ciência. In Bianchetti, L. (org.) A trama do Conhecimento, Campinas, Papyrus.

Um comentário:

Anônimo disse...

Uma boa crítica ao pseudomarxismo acadêmico vc pode ver no Manifesto Autogestionário, de Nildo Viana.

Aproveito para indicar a leitura deste autor, que é, no meu ponto de vista, o maior téorico marxista do Brasil, e um dos mais atuantes intelectuais brasileiros, referência obrigatória para qualquer marxista.

Vejam:

http://nildoviana.teoros.net/
http://sites.google.com/site/artigosdenildoviana/