terça-feira, 25 de novembro de 2008

Feminismo, por um novo socialismo























"Mudar o mundo para mudar a vida das mulheres e

mudar a vida das mulheres para mudar o mundo"


Analine Specht

Marcha Mundial das Mulheres/RS

Muito se fala em recorte de gênero, direitos das mulheres, políticas afirmativas, superficialmente reconhecem às desigualdades, o sexismo, a divisão sexual do trabalho, as cotas em espaços de poder entre outros elementos que compõem o discurso vazio da esquerda mundial e especialmente do Brasil.

A pauta feminista permanece como secundária e marginal, apenas para “agradar” e “contemplar” as mulheres militantes dos partidos e organizações de esquerda, em que pese à organização política de milhares de companheiras, que cotidianamente precisam legitimar e defender suas bandeiras de luta. O patriarcado e a opressão historicamente têm-se adaptado aos modos de produção, aos regimes políticos, ao pensamento intelectual, as ciências conformando as bases das estruturas e aparelhos de poder. O patriarcado é o resultado mais violento e duradouro da união política entre a igreja, o poder do estado (considerando este em todas as suas formas ao longo da história) e o mercado. Esta construção cultural relegou às mulheres a condição de submissão, inferioridade, opressão, objeto, mercadoria e muitas outras mais que foram e são “naturalizadas” e reproduzidas socialmente.

O patriarcado e o capitalismo se complementaram e se transformaram mutuamente para garantir a manutenção da sociedade que os alimenta e os mantém, para assegurar o status quo burguês, machista, racista e preconceituoso dominante. Todos estes elementos são estruturais posto que, conformam a divisão sexual do trabalho, sua exploração em grau máximo, especialmente do trabalho invisível das mulheres materializado pelas atividades domésticas. O sistema do capital avançou na expropriação da vida das mulheres, mercantilizou seus corpos, dita regras, marginaliza e usa o aparelho do estado e da igreja para legitimar suas mazelas e meios de sobrevivência. O principal instrumento ideológico de manutenção desse status quo senso comum tem sido a mídia que deturpa a imagem das mulheres, que aprofunda as desigualdades de gênero, transforma vidas e corpos em simples mercadorias, valores de troca, como se fossemos “carne em açougue”.

Romper com essa lógica dominante estrutural é urgente e necessário, principalmente para a esquerda que muito precariamente reconhece as lutas e pautas do movimento feminista. As organizações e partidos de esquerda têm muito nítida e presente a luta das mulheres por igualdade, entretanto não a relaciona com a luta pela autonomia sobre o corpo, o aborto legal, ou com a pauta de uma vida livre de violência, de emancipação. A esquerda ainda reproduz a lógica de dominação masculina na esfera privada, e também na pública, quando não agrega em suas plataformas políticas o aborto legal e o fim da violência contra as mulheres. Os poucos avanços que tivemos foram isolados, dentro de alguns grupos políticos e à custa de grandes embates promovidos pelas mulheres, muitas vezes, custando à morte de muitas companheiras.

Como nos conta Margaret Randall citada por István Mézaros: “Na verdade nem as sociedade capitalistas que tão falsamente prometem igualdade nem as sociedades socialistas que prometeram igualdade e até mais, adotaram a bandeira do feminismo. Sabemos como o capitalismo coopta qualquer conceito libertador, transformando-o em slogan utilizado para nos vender o que não carecemos, onde as ilusões de liberdade substituem a realidade. Agora me pergunto se a incapacidade do socialismo de abrir espaço para a agenda feminista – para realmente adotar esta agenda à medida que emerge naturalmente em cada história e cada cultura – seria uma das razões pelas quais o socialismo não poderia sobreviver como sistema.” (Mészáros, 2002, p. 290).

A agenda política do movimento feminista, exatamente da Marcha Mundial das Mulheres, do qual essa que vos escreve faz parte, compreende a opressão das mulheres como estrutural e produto do patriarcado e do capitalismo. Para tanto nossa intervenção é orientada pela autonomia do corpo e da vida mulheres, pela emancipação social, pela igualdade de gênero e por uma sociedade de paz livre da violência e das guerras, a nossa luta é radicalmente anticapitalista.

Nosso lema “Somos mulheres e não mercadoria” contempla a noção de mercadoria como objeto de valor de troca, e, portanto, compreende a esfera pública (mercado, espaços de poder) e a privada (doméstica e social).

Hoje 25 de novembro é uma data simbólica e representativa para o movimento de mulheres e o movimento feminista, pois nos lembra o brutal assassinato das irmãs Mirabal, Pátria, Minerva e Maria Teresa, no dia 25 de novembro de 1960, pelo ditador Rafael Trujilo, na República Dominicana. Este episódio demarca o 25 de novembro como Dia Internacional da Não-Violência contra as mulheres, data definida no 1º Encontro Feminista da América Latina e Caribe, realizado em julho de 1981 em Bogotá, Colômbia.

O movimento feminista realiza no dia de hoje várias atividades e debates pautando a realidade da violência contra as mulheres e o sexismo dominante que se reproduz dentro e fora de casa. Apresentamos os avanços legais como a Lei Maria da Penha e permanecemos vigilantes quanto a sua aplicação e efetividade, posto que, assistimos diariamente a deturpação e o questionamento acerca desta Lei. Vivenciamos um grande embate com o judiciário que através do poder que lhe é conferido contribui a manutenção da “ordem” vigente, a reprodução do machismo e do patriarcado, juízes intransigentes e equivocados nos colocam uma permanente tensão e embate pela garantia dos nossos direitos conquistados.

A nossa luta política anticapitalista busca romper com as relações de poder em todos os espaços e esferas. O socialismo que queremos contempla a superação da violência doméstica, o fim de relações hierárquicas dentro de casa e o rompimento com a dominação masculina. Precisa agregar em sua agenda a autonomia do corpo e da vida das mulheres, a emancipação social em todas as esferas e com isso garantir a igualdade de homens e mulheres.

O Socialismo não se viabiliza, como nos mostra a história, com base em relações desiguais de gênero, sustentado pela continuidade da opressão das mulheres. Por isso afirmamos NÃO EXISTIRÁ SOCIALISMO SEM FEMINISMO.

MARCHAMOS ATÉ QUE SEJAMOS LIVRES

Referência:

Mészáros, István: Para além do capital. Editora da UNICAMP, Boitempo editorial. São Paulo, 2002.

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