segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A Política da não -política



Encerra-se mais um espetáculo da democracia ou uma democracia do espetáculo? A realidade nos mostra que estamos mais próximos da segunda alternativa. Para ficarmos somente no exemplo dessa provincia, ao Extremo sul do Brasil, que um dia foi chamada de "capital da esquerda", pode-se comprovar o que significa a política eleitoral, cada vez menos política e cada vez mais eleitoral, ou seja, o que importa é eleger, seja lá o que isso signifique, desde que não interfiram no bom funcinonamento do "mercado".
Em Porto Alegre decretou-se, pelo porta-voz da "opinião pública"- a mídia direitista- o fim da política. Nada de disputa de projetos, de contradição, de antgonismos, de crítica, pois todos agora buscam o posto de "gerente" da grande "empresa" chamada Porto Alegre.
Numa situação como essa, onde o que está em jogo é o gerenciamento da empresa, não se questiona os fundamentos da empresa, os objetivos, os pressupostos, ou seja, não se uestiona sua lógica de funcionamento e muito menos seus donos ( oligopólios imobiliários -cujo objetivo é privatizar o que resta de público na cidade- e o monopólio midiático), só para citar os prinicipais interessados na "boa" escolha do "gerente".

A não-política das eleições de Porto Alegre teve uma característica importante que é a inexistencia de dissidentes, ou seja, todos os partidos entraram no jogo ( o PSTU não pode ser considerado partido, não passa de uma seita perdida no tempo, próxima das religiões fundamentalistas).
Isso quer dizer que a "esquerda", sem excessões , cumpriu o papel que os "donos" da empresa lhe concederam. A candidatura de Manuela atitude Dávila em aliança o com o natimorto briitismo gaúcho ( britismo no RS é sinônimo de neoliberais radicais, para quem o que não é privado não funciona, então privatize-se tudo). A aliança somente serviu pra ressuscitar um grupelho sem nenhum expressão política, a legenda do britismo fez 800 votos e levou 3 vereadores, o PCdo B fez 14 mil e não levou nada. Coisas da não-política.
Também tivemos a "radical" de salão de beleza" ( nova categoria de militante criada pelo PSOL de Porto Alegre), a filhinha do Tarso ( moradora do Moinhos de vento, espaço mais caro de Porto Alegre). Recebeu uma pequena contribuição de 1oo mil reais da GERDAU ( outra das donas do Estado) e elegeu dois vereadores. Novo visual, discurso feito, dinheiro no bolso, tarefa cumprida.

E o PT, o que fez o velho PT de guerra? Como essa era a eleição do "novo", qualquer coisa que lembrasse, um ou dois anos atrás devia ser descartado, esquecido, extinto, inclusive o que restava do vocabúlário que caracterizou a idéia e a história do PT, o vocábulário do coletivo.
Aquela "velha" forma de falar na terceira pessoa (nós) foi substituída pela moderna atitude da primeira pessoa (EU). Eu sou o novo, Eu sou a melhor, Eu vou fazer, Eu quero ser.
E o projeto? Que projeto? coisa mais antiga, agora o que está em discussão é a melhor "atitude". Não existe projeto coletivo. Não existe mais o "Modo Petista de Governar", que foi referencia para esquerda em várias partes do mundo, baseado nos pressupostos da radicalização da democracia e na inversão de prioridades ( que significava nada mais nada menos do que o Estado investir prioritáriamente em quem mais precisa, ou seja, com um nítido e claro compromisso de classe). A política da não-política, não reconhece projeto de classe, as classes foram também extintas, somos todos iguais e por isso a candidatura é para todos (uma candidata moderna não tem compromisso com classe social, mas com os "eleitores")


A eleição se definirá no segundo turno entre dois candidatos da "base" do governo Lula: O PMDB (o partido da RBS que depois da democratização nunca esteve fora do poder) do inodoro e incolor José Fogaça, que cumpriu sua promessa de campanha, ou seja, não fazer nada em quatro anos ( talvez por isso recebeu 45% de votos, por sua coerência com discurso e prática), e a candidata do "novo PT", o "PT do EU", da nova categoria do "militante remunerado", do fim dos conflitos e contradições (coisa antiga), dos projetos pessoais (assim foram a lógica das prévias de 2000 e 2002, projetos pessoais).
É nesse contexto que temos a politica da não-política, o que pressupõe também a existência dos "eleitores", como disse Crsitóvam Feil na crônica que publicamos abaixo, o eleitor é a nova categoria das ciências sociais. Nesse sentido, sem esse "consumidor-eleitor" as coisas não seriam tão fáceis assim. Quem ainda não é deve ser e quem já é deve ser atendido, ou seja, precisa conhecer o melhor produto, o que lhe dê satisfação pessoal, assim como a satisfação do próprio produto, pois isso é o que interessa, tanto para os "donos" da empresa como para seus gerentes.


Abaixo publicamos um artigo de hoje do sociólogo Cristóvam Feil, publicado em seu excelente blog http://www.diariogauche.blogspot.com/ sobre o que é essa nova categoria das ciências sociais, o "eleitor".


O eleitor

Cristóvam Feil


A nobre estirpe dos çábios do marketing eleitoral criou uma categoria nova nas ciências sociais de nossos dias – o eleitor.
O eleitor é um derivativo de consumidor. Portanto, não tem classe social, identidade cultural, expressão étnica e personalidade organizada que o oriente como cidadão/cidadã portador de demanda e crítica política.
O eleitor é tratado como um consumidor de refrigerante ou sabonete. Alguém que age pelo impulso do segundo ou pelo estímulo pavloviano dos cães e dos gatos. Logo, alguém destituído de razão e constituído somente de emoções, receptáculo permanente de meras sensações que devem ser agradáveis, coloridas, imagéticas, simplificadas e de quase ou nenhuma complexidade.
O eleitor é um banana! Está bem, não vamos a tanto, é como um fanático torcedor do Inter (ou do Grêmio), vá lá.
Orientado, então, por esse conceito sociológico de “altíssima relevância científica” – o eleitor – os marqueteiros afirmam que “o consumidor de produtos eleitorais” não gosta de briga, debate ou discussão entre candidatos a cargos públicos.
Em suma, o eleitor não gosta de política, por que a política divide em vez de unir, a política inspira ódios, em vez de estimular o amor e a harmonia entre as criaturas, a política provoca discussões chatas, inúteis e que fazem o consumidor trocar de canal. A política é tudo o que o eleitor/consumidor não quer. E, fantástica coincidência: como também os investidores e especuladores do solo urbano de Porto Alegre.
Disseram-me que Maria sou-uma-vitoriosa do Rosário tem desses marqueteiros çábios como quadros profissionais para enfrentar o segundo turno.
A ver.

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