domingo, 10 de agosto de 2008

A dimensão política da Economia Solidária (III)

"Operários" de Tarsila do Amaral

A dimensão política da Economia Solidária (III)
P. Marques

A formação da consciência de classe

Enquanto o fim a atingir se encontrar fora do alcance, homens clarividentes podem até certo ponto percebê-lo claramente, captar a sua essência e a sua necessidade social. Serão, no entanto, incapazes de tomar consciência dos processos concretos que o levariam até o fim, dos meios concretos resultantes da sua intuição eventualmente correta, que seria necessário adquirir.
Lukács, in História e Consciência de Classe


O tema da formação da consciência de classe consiste em um elemento chave da teoria marxista da revolução. Muito além da leitura "determinista" do marxismo, o tema da consciência de classe esteve presente nas elaborações de Marx, principalmente em seus escritos de juventude e no Manifesto Comunista. Para o filósofo alemão a classe operária era acima de tudo e em toda parte, a classe "em si", isto é, a classe tal como é produzida pelo desenvolvimento do modo de produção capitalista, puro objeto do processo econômico, simples "matéria a explorar". A classe " em si" não teria nem consciência de si própria, nem consciência dos seus interesses históricos. Partilha as idéias, os valores, a concepção do mundo propagados pela classe dominante. Coloca-se no lugar que lhe é reservado por essa classe nas suas relações capitalistas de produção. Não concebe como possíveis quaisquer outras relações sociais. É já, nas palavras do próprio Marx "uma classe em relação ao capital mas não uma classe em relação a si própria". Isso quer dizer que a classe dominada da sociedade burguesa é igualmente dominada ideologicamente. A sua subserviência ideológica constitui, além do mais, a garantia mais eficaz da ordem estabelecida, o meio de a classe dominante perpetuar a sua dominação pacificamente.

Essa construção teórica de Marx continua válida no atual estágio de desenvolvimento do capitalismo, isto porque com as transformações profundas no mundo do trabalho, principalmente a crise do trabalho de tipo fordista, que fez com que muitos teóricos pós-modernos, profetizassem o "fim do trabalho" e consequentemente o "fim da luta de classes" , o que temos é uma mudança de configuração de classe , mas não a mudança de sua condição de classe explorada. Ou seja, a realidade é bem mais real do que os desejos de muitos futurólogos. E a realidade hoje demostra sim uma profunda mudança na configuração dessa classe explorada . A classe-que-vive-do-trabalho, na concepção de Ricardo Antunes, não deixou de ser explorada pelo capital, sendo na atual conjuntura mais explorada ainda , na medida em que o capitalismo financeiro precinde cada vez mais da força de trabalho para sua reprodução. Nesse sentido o "exército de reserva" é cada vez maior e, portanto, a situação de precarização do que ainda resta do trabalho assalariado está cada vez mais próxima das relações escravistas, ou seja, o trabalhador hoje trabalha cada vez mais em troca do mínimo para sua sobrevivência.

O resultado é uma massa de trabalhadores não-assalariados, dos quais uma quantidade significativa compõe o que denominamos de Economia Solidária, forma de trabalho e produção coletiva baseada nos principios da coooperação, da solidariedade na ajuda mútua entre seus associados. Essa economia surgiu da necessidade de enfrentar a crise do desemprego, portanto, não surge de um "projeto político-ideológico".

No entanto, o seu crescimento e suas características, que são antagônicas a lógica de produção capitalista, abriram uma possibilidade histórica de retomar a organização dos trabalhadores enquanto classe, ou seja, a classe dos livres produtores associados, na concepção de Marx, portadores de um projeto de sociedade emancipada da exploração capitalista.

Daí a necessidade da Economia Solidária, principalmente a partir do movimento da economia solidária, avançar no processo de formação da consciência de classe como ação política estratégica voltada para os trabalhadores associados em empreendimentos econômicos solidários. A construção da classe "para si", ou seja, consciente de que engendra nos insterstícios da economia capitalista, uma forma de trabalho e produção que afirma a possibilidade de uma nova sociedade, é o fator que possibilita ao trabalhador identificar claramente essa outra sociedade a construir, como uma sociedade anti-capitalista e socialista.

Marx em a Miséria da Filosofia afirmava: "A classe em si opõe-se a classe para si, plenamente consciente dos seus interesses históricos, do sistema social que os realiza e partindo do antagonismo fundamental que a opõe à sociedade burguesa. A classe para si já não age como simples somatório de agentes econômicos que procuram vender o mais caro possível a sua força de trabalho. Emancipou-se de tutela ideológica e política da burguesia. Começa a lutar conscientemente pelos seus prórpios fins: a destruição das relações sociais existentes,a instauração do socialismo. Deixa de ser simples peça da máquina econômica para se tornar sujeito do processo histórico".

Hoje a classe trabalhadora associada nos empreendimentos econômicos solidários, em sua grande maioria, em que pese a contínua ação de ONGs e assessoria para a formação em autogestão e trabalho associativo, continuam agindo como classe em si, sendo o objetivo de consolidar o empreendimento econômico torna-se um fim em si mesmo. Entretanto , essa realidade não impede que o movimento da Economia Solidária, ou seja, os seus intelectuais orgânicos, iniciem um processo de formação da consciência de classe desses trabalhadores.

Nesse sentido que advertimos que qualquer projeto de caráter emancipatório, e a Economia Solidária enquanto projeto se propõe a isso, necessita de sujeitos conscientes do seu papel histórico. O processo histórico da formação da consciência de classe confunde-se , portanto, com o processo de auto-organização da classe. À medida que avança na consciência de sí própria, a classe engendra as suas organizações autônomas, no caso da economia solidária os seus espaços organizativos-políticos como fóruns e redes que compõem instrumentos estratégicos para o avanço do projeto político da Economia Solidária.

No atual contexto do capitalismo financeiro monopolista global, qualquer alternativa de desenvolvimento econômico baseado nos pressupostos de um "capitalismo nacional" não passam de ilusões. A alternativa, ou será dos próprios trabalhadores que já se organizam, de forma embrionária, para gerir a produção e sua vida de forma coletiva e autogestionária, ou não será alternativa alguma.

Segundo Marx a classe trabalhadora é a única capaz de resolver a contradição fundamental do capitalismo, que implica uma sociedade de uma natureza social muito particular: uma sociedade na qual os produtores exercam um controle efetivo sobre a produção e os produtos, as empresas sejam geridas pelos próprios trabalhadores democraticamente eleitos. Isso implica a organização dos produtores diretos- a organização da classe trabalhadora como classe dominante, gerindo efetivamente a economia e a sociedade.
Nesse sentido, hoje resgatar a formação da consciência de classe como uma ação política estratégica do movimento da economia solidária constitui-se como condição sine qua non para o projeto de um novo modo de produção, base de uma economia socialista. É essa práxis que denominamos como dimensão política da Economia Solidária.

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