quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A dimensão política da Economia Solidária


A Dimensão Política da Economia Solidária (I)
P. Marques

Um elemento que tem sido negligenciado no âmbito da Economia Solidária, tanto no debate teórico quanto na ação prática dos seus intelectuais orgânicos, diz respeito a dimensão política da Economia Solidária. Consideramos dimensão política, o projeto estratégico da Economia Solidária como processo de transformação nas estruturas da sociedade, ou seja, na infraestrutura, com a democratização da economia e na superestrututura, com a democratização do poder. Esse debate sobre a dimensão política da Economia Solidária no Brasil é parte de outro que diz respeito à Economia Solidária como um movimento social contra-hegemônico. Um movimento que tem um programa (plataforma do FBES), uma identidade (Economia Solidária), uma classe social (trabalhadores(as) dos empreendimentos econômicos solidários, trabalhadores(as) técnicos(as) de assessorias), um espaço organizativo-político (Fórum Brasileiro de Economia Solidária), precisa de uma estratégia política para avançar na disputa de hegemonia na sociedade. Além do conjunto de novos sujeitos sociais engajados na militancia da Economia Solidária, o contexto do mundo do trabalho no capitalismo contemporâneo, com milhares de trabalhadores e trabalhadoras fora do mercado formal de trabalho(sem careira assinada) constitui um amplo espaço de crescimento e ampliação do movimento da Economia Solidária no Brasil, a partir da incorporação desses trabalhadores ao projeto dessa outra economia.

Entretanto, esse é um processo de ação política. O grande problema dessa questão é o fato da incapacidade da direção atual do movimento de construção de uma estratégia de fortalecimento político do movimento da Economia Solidária, capaz de identificar parceiros estratégicos no campo político para avançar na construção de um bloco histórico que consolide um projeto de sociedade alternativo ao capitalismo. Isso somente será possível a partir de uma opção pela política, pela identidade política anti-capitalista para a Economia Solidária, o que pressupõe além da ampliação quantitativa de empreendimentos consolidados, que tenham viabilidade econômica, a consciencia política dos trabalhadores da Economia Solidária do significado da sua práxis para um projeto revolucionário.

Entretanto, identificamos que esse ainda é um desafio para a esquerda. O projeto político da economia solidária, a partir dos pressupostos de Paul Singer que identifica essa economia como parte da Revolução Social Socialista em curso, enfrenta duas posições hegemonicas no seio da esquerda. Uma posição que identifica a Economia Solidária apenas como experiencias marginais e funcionais ao capitalismo, e que tem como objetivo único incluir no mercado a massa de excluídos que o sistema não incorpora. Para essa esquerda, com os olhos voltados para o século passado, somente após a revolução, com a tomado do poder de Estado, pode-se discutir a gestão da economia e o papel dos trabalhadores no controle dos meios de produção. Outra esquerda identificada como "autonomista", ignora o papel do Estado e das políticas publicas no fortalecimento da Economia Solidária, para estes a luta política, ou acumulação de forças no Estado burgues em disputa, é desnecessária. MAntém por isso um comportamentos anti-partido e anti-política. Esse tem sido o grande dilema para o avanço da Economia Solidária como projeto estratégico de esquerda.

A não compreensão por parte da esquerda do significado das experiencias de autogestão na atualidade, impede que os partidos de esquerda coloquem na sua agenda o tema da economia socialista como alternativa à economia capitalista, impossibilitando por um lado a disputa do poder com um projeto econômico, social, cultural alternativo e por outro lado deixando de cumprir uma papel fundamental de formação politica dos trabalhadores autogestionários. Conforme apontou Marx todo movimento social é o mesmo tempo um movimento político. Negligenciar isso é não compreender a dinâmica da luta de classes e o processo de transformações sociais da história.

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