sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A Dimensão Política da Economia Solidária (II)

O movimento dos trabalhadores somente obteve conquistas quando acumulou força política

A dimensão politica da Economia Solidária (II)

P. Marques

Todo indivíduo ativo tem uma prática, mas não tem uma clara consciência teórica dessa prática que, no entanto, é um conhecimento do mundo, na medida em que transforma o mundo"
A. Gramsci



Quando apresentamos o tema da dimensão política da Economia Solidária como central para a estratégia de construção de um projeto alternativo de sociedade, estamos nos referindo a necessidade de avançar além das discussões de caráter economicista, que muitas vezes dominam as pautas sobre o tema. Ou seja, chamamos a atenção para a necessidade de uma ação política da Economia Solidária nas relações que estabelece enquanto movimento, seja no interior dos empreendimentos econômicos solidários, na relação com os outros movimentos sociais; com os partidos políticos e com o Estado. Compreendemos que essa ação política tem objetivos distintos em cada uma destas esferas:

Em relação aos empreendimentos economicos solidarios a ação política central é o da conscientização política do trabalhador autogestionário, ou seja, sobre o sentido da prática autogestionária. É avançar do estágio de consciencia em si ao para si . A construção do trabalhador autogestionário como sujeito da transformação cultural, econômica e política de uma sociabilidade alternativa ao capitalismo, que é a prática autogestionária.

Em relação aos movimentos sociais, a ação política do movimento da economia solidária está na construção do bloco histórico, capaz de acumular força social para disputa de hegemonia na sociedade. Em relação a isto foi um grave equívoco a IV Plenária nacional do Fórum Brasileiro rejeitar a proposição de garantir a participação na coordenação do FBES de representantes de outros movimentos sociais. O erro está em que o instrumento político organizativo da Economia Solidária -FBES- perde muito com essa resolução na medida em que muitos movimentos como o MST, os catadores, quilombolas, movimento de mulheres, de juventude, movimento dos desempregados, já praticam a economia solidária na sua construção cotidiana e fortaleceriam muito o FBES. A trajetória , organização e consciencia política históricamente construída por estes movimentos constituem o acúmulo de experiencia organizativa imprescindivel para a construção do bloco histórico , condição fundamental para um projeto alternativo.

No que tange a ação política em relação aos partidos políticos , o movimento de economia solidária teria uma grande contribuição a dar na atualização programática de muitos partidos de esquerda, que tem um programa socialista mas que, contraditóriamente, considera o tema da autogestão e da economia solidária como marginal ou mesmo o ignora completamente., seja como política publica ou como programa econômico alternativo ao capitalismo.O movimento da Economia Solidária não necessita de um partido, mas sim que os partidos comprometidos com as transformações sociais assumam as bandeiras de luta da Economia Solidária, que hoje, concretamente representam o que de mais avançado existe enquanto projeto, protagonizado pelos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, de desenvolvimento alternativo ao modelo capitalista hegemônico.
A esse respeito, é importante destacar que o Partido dos Trabalhadores criou em 2006 uma Setorial de Economia Solidária, com a função de pautar o tema no interior do partido e organizar seus militantes no movimento da economia solidária. Esse é um exemplo de ação política que os militantes da economia solidária de partidos de esquerda poderiam adotar, buscando resgatar nos programas que se identificam como socialistas o sentido original do pensamento marxista, ou seja, a construção da sociedade dos livres produtores associados de que falava Marx.

Em relação ao Estado a ação política do movimento vem avançando a apartir da relação estabelecida com a SENAES. A experiência de construção de uma política pública em âmbito nacional a partir de uma plataforma construída pelo movimento é uma importante referência para as transformações necessárias na relação Estado-sociedade. Ou seja, se é inegável o caráter de classe do Estado burguês, é inegável também que a disputa de hegemonia tanto na sociedade civil como na sociedade politica, conforme definiu Gramsci, é uma realidade que não pode ser ignorada.
O movimento da Economia Solidária precisa incidir sobre todas as instâncias do Estado, nos seus diferentes órgãos e estruturas executores de políticas. Isto porque a Economia Solidária não é uma política setorial, é um projeto de caráter macro estrutural que propõe mudanças nas dimensões econômico-sociais, político-institucional e simbólico cultural. O que requer a re-construção de um Estado com outro caráter, voltado para viabilizar as condições gerais de produção da Economia Solidária.
Entretanto, essa ação política em direção ao aparelho de Estado burguês somente tem viabilidade a partir das ações políticas já pontuadas, ou seja, em direção a formação política dos(as) trabalhadores(as) autogestionários(as), constituindo os mesmos enquanto classe; em direção aos outros movimentos, constituindo o bloco histórico ; e em direção aos partidos de esquerda como instrumentos importantes na disputa política na esfera institucional.
O Estado, portanto, está em disputa, assim como a cultura, a economia, portanto, as relações que o movimento estabelece construindo parcerias e aliados estratégicos é condição para avançar na construção de políticas públicas voltadas para o fortalecimento dessa outra economia.

Nesse sentido, a guerra de posições da Economia Solidária no campo minado capitalista, somente tem condições de avançar na medida em que sua dimensão política adquira força capaz de construir hegemonia.

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