segunda-feira, 12 de maio de 2008

Elogio a Marx


Em 14 de março foi lembrada os 125 anos da morte de Karl Marx, ocorrida em Londres, Inglaterra.Em 05 de maio deste ano comemora-se os 190 anos de seu nascimento. Em homenagem ao velho Mouro Publicamos este texto de Francisco F. Buey


Elogio a Marx - 1818-1883*
Francisco Fernández Buey*


Mesmo que hoje não se leia tanto Marx como se lia a algumas décadas. Todavia as pessoas cultas consultadas na Inglaterra, o país onde ele viveu durante sua maturidade e em que morreu, seguem o considerando o filósofo mais importante da história. Isto soa como um paradoxo. Primeiro porque, falando com propriedade, como recordava a pouco tempo Toni Doménech, Marx foi mais cientista social que filósofo. E depois porque essa consideração choca com o que muitos intelectuais deslumbrados pelos principais meios de manipulação de massas vem dizendo nos últimos tempos sobre o marxismo.

Mas seguramente também este paradoxo tem sua explicação: a maioria das pessoas cultas sabem hoje que a filosofia se mundanizou , que o filosofar do nosso tempo é inseparável da ciência social e que Marx foi precisamente um dos primeiros pensadores em chamar a atenção, já no século XIX, sobre a importância destas coisas. Se compreende, portanto, que se valorize sua filosofia, aquela filosofia, da práxis elaborada por Marx em conexão com a economia, a sociologia e a teoria política.

Além disso, para os novos escravos da época da economia global ( que, segundo estatísticas recentes, andarão rondando os cem milhões), para os proletários que estão obrigados a ver o mundo desde abaixo ( um terço da humanidade) e para outros quantos milhões de pessoas sensíveis que, sem ser pobres ou proletários, tem decidido olhar o mundo com os olhos destes outros ( e sofrido com eles), o velho Marx todavia tem coisas que dizer. Inclusive depois que seu busto caiu dos pedestais que os adoradores de outros tempos construíram para cultuá-lo.
Que coisas são estas? O que pode permanecer vigente na obra de Marx depois que o renegaram, aqueles mesmos que haviam construído estados e partidos em seu nome?

Mesmo que Marx seja um clássico do pensamento sócio-economico e do pensamento político, todavia não é possível responder a estas perguntas ao gosto de todos, como responderíamos, talvez, no caso de algum outro clássico literário dos que cabem em um cânon. E não é possível, porque Marx foi um clássico com um ponto de vista muito explícito em uma das coisas que mais dividem os mortais: a valoração das lutas entre as classes sociais.

Isto obriga a uma restrição quando se quer falar do que, todavia, existe de vigente em Marx. E a restrição é grande. Falaremos de vigência somente para os que seguem vendo o mundo desde abaixo, com os olhos dos desgraçados, dos escravos, dos proletários, dos humilhados e ofendidos da terra. Não é necessário ser marxista para ter esse olhar, com certeza. Bastaria termos algo que não tem nos sobrado muito ultimamente: compaixão com as vitimas da globalização neoliberal ( que é capitalista, pré-capitalista e pós-moderna). Mas algo de marxismo segue fazendo falta para que a compaixão não fique acomodada, para passar da compaixão a ação racionalmente fundada.

Para quem pensa assim, ainda que não tenha sempre voz, Marx segue tão vigente como Shakespeare ou Cervantes para os amantes da literatura. E tem suas razões. Vou dar aqui algumas das razões destes seres sem nome que, em geral, só aparecem em nossa mídia nas estatísticas e nas páginas de sucessos.

Marx disse que, mesmo que o capitalismo tenha criado pela primeira vez na história a base técnica para a libertação da humanidade, ao contrário, por sua lógica interna, este sistema ameaça transformar as forças de produção em forças de destruição. E aqui seguimos ainda. O capitalismo se transformou em muitos aspectos substanciais, mas aquela ameaça se tem feito ainda mais patente.

Marx disse que todo o progresso da agricultura capitalista é um progresso não só da arte de depredar ao trabalhador mas também, e ao mesmo tempo, a arte de depredar o solo; e que todo progresso no aumento da fecundidade da terra para um prazo determinado é, ao mesmo tempo, um “progresso” da ruína das fontes duráveis desta fecundidade. Agora, graças a ecologia e ao ecologismo social, sabemos mais desta ambivalência, mas os milhões de camponeses proletariados que sofrem por ela no mundo tem aumentado.

Marx disse que a causa principal da ameaça que transforma as forças produtivas em forças destrutivas e mina assim as fontes de toda riqueza é a lógica do beneficio privado, a tendência a valorizar tudo em dinheiro, e viver nas “gélidas águas do cálculo egoísta”. Milhões de seres humanos, na África, Ásia e América, sobre tudo, experimentam hoje que essas águas são piores, em todos os sentidos ( não só no metafórico) do que as que tiveram em outros anos. Os informes anuais da ONU e de outros organismos internacionais confirmam essa situação do mundo.
Marx disse que o caráter ambivalente do progresso técno-científico se acentua de tal maneira sob o capitalismo que obstrui as consciências dos homens, aliena o trabalhador em primeira instancia e a grande parte da espécie por derivação; e que neste sistema “ as vitimas da ciência parecem pagar com a perda de caráter e com a submissão dos homens pelos próprios homens ou por sua própria vileza”. Disse isso com pesar, porque ele era um amante da ciência e da técnica. Mas, pelo visto no século XX, também aí acertou.

Marx disse que a obstrução da consciência e a extensão das alienações produzem a cristalização repetitiva das formas ideológicas da cultura, em particular de duas de suas formas: a legitimação positivista e acrítica do existente e a ignorância romântica e religiosa. Olho os jornais do nosso tempo e me vejo, e vejo os pobre desgraçados, aqui mesmo, na mesma paranóia, entre essas duas formas: repetindo que vivemos no melhor dos mundos possíveis ou rezando pelos milhões dos papas, Emires e predicadores que condenam os anticonceptivos em época de AIDS e consumindo entre milhões a última nadería.

Marx disse que para acabar com essa paranóia exasperante das formas ideológicas, repetitivas e alienantes da cultura burguesa fazia falta uma revolução e outra cultura. Não o disse nem por amor a violência nem por desprezo da alta cultura burguesa, mas sim com a convicção própria de historiador, a saber: que os de cima não cedem graciosamente os privilégios alcançados; e com ele o convencimento, ademais, de que os de baixo também tem direito a cultura. Não foi o único em dizer, mas foi o que melhor e mais claro disse em seu tempo.

Como Marx só conheceu o começo da globalização capitalista e era, um eurocentrico, quando falava de revolução pensava na Europa. E quando falava de cultura pensava na proletarização da cultura ilustrada. Agora, para falar com propriedade, havia que falar da necessidade de uma revolução mundial, não só Européia. E para falar de cultura, havia que valorizar o que havia de bom nas culturas dos povos que ele considerava “sem história”. Quem sabe porque, de momento, não parece que se possa falar sério disto ( ou porque o que se seguiu as revoluções desonrou o pensamento de Marx) muita gente volta hoje seus olhos novamente até as religiões, as quais seguem sendo- não se esqueça- algo parecido ao que Marx pensava delas: o suspiro da criatura abrumada, o sentimento de um mundo sem coração, o espírito dos tempos sem espírito.

A esse olhar científico-filosófico sobre o mundo desde abaixo Marx o chamou Materialismo histórico. Não cabe dúvida de que, como Homero, Marx também dormia às vezes, sobretudo, como digo, a siesta eurocentrica; nem de que em seu nome se tem feito muitas barbaridades. Mas o que o fizeram outros em seu nome é coisa dos outros. Tampouco há dúvida de que, desde que ele morreu, tem surgido outros olhares, talvez mais laicos e mais firmemente expressados.

A pergunta, cento e vinte cinco anos depois, poderia ser esta: Temos produzido, enquanto isso, algo que dê mais esperança aos que não tem nada? E se não é assim, que tem de estranho que inclusive no lugar clássico do capitalismo( e do liberalismo e do republicanismo moderno) se pense agora , frente ao que pensam os letrados, que Marx foi o mais grande dos filósofos da história? Não será que os anônimos a os que se pedem agora a sua opinião tem entendido melhor que os letrados o que significa filosofia mundalizada, ou seja, baixar a fumaça ao velho filosofar para voltar a vê-lo “pobre e nu”, como queria Dante?


Francisco Fernández Buey é autor do livro “Marx ( sem ismos)”, lançado pela editora da UFRJ.
* Tradução Paulo Marques

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