terça-feira, 25 de setembro de 2007


Mulheres da econonomia solidária no ato em apoio á Olivio, Rosseto e Lula, Guaiba/RS-12/09/06.


Economia solidária e Autonomia Econômica das Mulheres[1]

Divisão sexual do trabalho
As relações de gênero são sustentadas e estruturadas por uma rígida divisão sexual do trabalho. O papel masculino idealizado é de responsabilidade pela subsistência econômica da família e a isso corresponde designar o trabalho do homem na produção. A atribuição do trabalho doméstico designa as mulheres para o trabalho na produção: ter filhos criá-los, cuidar da sobrevivência de todos no cotidiano.

O que se observa é que essa divisão entre trabalho reprodutivo e produtivo não é tão real assim. Há homens trabalhando no campo da reprodução e há muitas mulheres na produção. No entanto, o mito que designa um tipo de trabalho para cada gênero influencia o real. Pode-se dizer que a divisão sexual do trabalho perpassa o conjunto das atividades realizadas por homens e mulheres. É comum dizer que tal serviço é trabalho “de homem” ou que tal tarefa é tarefa “de mulher”.

No caso das mulheres, a tentativa é sempre de considerar o trabalho realizado fora da casa com uma extensão do seu papel de mãe. As se concentram em atividades consideradas tipicamente femininas como serviço domestico, professoras, enfermeiras, assistentes sociais. Em 1990, 30% das mulheres que se declararam como trabalhadoras no Censo 2000 do IBGE eram empregadas domésticas, costureiras e professoras primárias.
A maioria das professoras dá aula para o primário, já são menos as que trabalham no nível secundário e muito pouco as da universidade. Quando estão na universidade, elas se concentram em determinadas áreas, como educação e psicologia, e tem menos aceso a promoção, a títulos etc. Este exemplo mostra que mesmo dentro de uma determinada categoria, formas de divisão sexual são recriadas. Um outro exemplo: as mulheres são minoria entre os escritores literários, mas a maioria das escritoras são autoras de literatura infantil.

Na indústria, as mulheres são embaladoras, montadoras e costureiras, funções que exigem habilidade manual, coordenação motora fina, paciência. As habilidades para exercer essas profissões foram sendo desenvolvidas no processo de educação das meninas: brincando de casinha, cuidando dos irmãos, bordando, ajudando a mãe no trabalho domestico. As pessoas “esquecem” que as meninas precisam treinar para aprender tudo isso e agem como se toda mulher já nascesse com essas “aptidões”, como se fosse uma dádiva da natureza. E se é dádiva da natureza, não precisa ser reconhecida, nem devidamente remunerada. Porém, se homens fossem ser treinados para realizar essas tarefas, seria necessário um grande investimento.

O trabalho das mulheres rurais também é menos valorizado que o dos homens. A pesquisadora Maria Inês Paulilo, comparando as etapas do trabalho agrícola na cana -de - açúcar, em diferentes regiões do Nordeste, pôde perceber uma diferença significativa. carpir, no sertão nordestino era uma tarefa dos homens e era considerado um trabalho pesado. Carpir, no Brejo Paraibano era tarefa das mulheres e era considerado trabalho leve. Como se vê, no cultivo da cana o que caracterizava um trabalho como leve ou pesado não era a força física necessária para executá-lo, mas o valor social de quem o fazia. Sempre que o trabalho é considerado de mulher, ele é leve, é coisinha à-toa, é ajuda.

Desigualdade e pobreza.
Como os homens é que são considerados os provedores da família, o trabalho profissional das mulheres é sempre visto como complementar às suas “responsabilidades” domésticas; estas, sim, sua verdadeira ocupação. A partir dessa idéia, surgem várias conseqüências negativas para as mulheres. A primeira é a de que o salário delas pode ser baixo, já que o que elas ganham é visto como suplementar. Em segundo lugar, os serviços públicos não se organizam para assegurar às mulheres condições de trabalhar fora.

Não existem serviços de apoio, como creches, abrigos para idosos, lavanderias coletivas. Os postos de saúde e as escolas têm horários restritos, como se todas as mães estivessem o tempo todo em casa, à disposição da família, prontas para levar crianças e outras pessoas à escola e ao médico somente nesse horário. Dessa forma, muitas mulheres “optam” por ocupações em que há maior flexibilidade de horários: elas “escolhem” trabalhos em tempo parcial ou no mercado informal; “belas escolhas”, que não garantem direitos trabalhistas e oferecem poucas perspectivas de crescimento profissional.

O resultado disso é uma enorme desigualdade na distribuição dos recursos e do poder na sociedade, entre homens e mulheres. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU):

Ø O salário médio das mulheres do setor industrial no mundo representa ¾ do salário masculino.
Ø As mulheres executam 2/3 do trabalho realizado pela humanidade.
Ø As mulheres recebem 1/3 dos valores destinados a salários mundialmente.
Ø Somos proprietárias de apenas 1% dos bens imóveis do mundo.
Ø As diferenças de renda entre mulheres e homens no Brasil são as maiores do mundo.
Ø Dos quase 1,3 milhão de miseráveis do mundo, 70% são mulheres.
Ø No Brasil, as mulheres recebem em media metade do salário dos homens e, as mulheres negras, a metade do que ganham as mulheres brancas.
Ø Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a situação das mulheres está melhorando e, se o ritmo atual se mantiver, 475 anos conseguiremos a igualdade salarial entre homens e mulheres.

Conforme demonstram os dados do instituto brasileiro de Geografia e estatístico (IBGE) a participação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro ampliou-se na década de 90. Segundo estes dados à presença feminina na população economicamente ativa (PEA) do país cresceu cerca de 9%, mas ao contrário do que se poderia esperar, a inserção qualificada tem pequena parcela de responsabilidade nesse crescimento. Houve, sim, uma precarização da mão-de-obra feminina urbana, resultado, entre outros fatores, do ingresso no mercado de um expressivo contingente de mulheres na faixa etária de 40 a 54 anos, com baixa escolaridade e sem profissionalização. A grande maioria delas se tornou empregadas domésticas premiadas pela necessidade de auxiliar a família economicamente.

Mulher e economia e solidária.
Como exposto anteriormente perceber que a participação das mulheres no mundo de trabalho, apesar de apresentar relativa ampliação, está longe de garantir uma situação de igualdade entre homens e mulheres.

A partir do que foi visto até aqui é possível perceber como tem sido a vida das mulheres, ou seja, como este sujeito se constitui. As histórias de formação, as experiências no mundo do trabalho, como um ambiente hostil de trabalho tem prejudicado a saúde da classe trabalhadora. Este é um elemento importante, pois conhecendo a história, percebemos que podemos mudar os seus rumo e construir um mundo de igualdade, solidariedade, respeito mútuo e de cooperação.

Na economia capitalista, as mulheres ainda são consideradas cidadãs de segunda categoria, desempenhando tarefas que requerem habilidades consideradas como pertencentes a “natureza feminina” e estas por serem tidas como pré-existentes desqualificam o trabalho da mulher que recebe menos pelas tarefas realizadas.

Para que tenhamos uma outra economia, baseada nos princípios de igualdade, solidariedade, cooperação e ética, é necessário pensar novas relações de gênero, quer dizer qual o papel da mulher nesta relação de trabalho diferenciada?

Não podemos falar em solidariedade se as mulheres ainda não vivenciarem a igualdades em todos os espaços de atuação. Debater a necessidade da participação das mulheres nos empreendimentos é formular as respostas e as perguntas. Toda a organização se dá em uns sistemas de relações sociais. Mesmo a empresa de autogestão onde a pessoa é reconhecida como o centro e razão de sua existência, tem que estar atento para a visibilidade das mulheres dentro de empreendimento.

Acreditamos que a economia popular e solidária é uma forma de resistência da classe trabalhadora, mas deve ser também um espaço de emancipação das mulheres e elemento primordial na construção de um mundo de igualdade. As mulheres e homens que atuam na autogestão necessitam a compreensão de que as mesmas relações solidárias exercidas no empreendimento devem ser estendidas aos vários espaços de atuação de cada um e cada uma.

Economia solidária: um jeito de trabalhar e produzir a vida.
Construir uma empresa autogestionária desafia homens e mulheres a desconstruir valores individualistas e estabelecer relações harmônicas, pautadas na igualdade, solidariedade, diálogo e cooperação. Valores esses que busquem o fim toda e qualquer forma de exclusão /discriminação e construa um mundo melhor para todos e todas.
Então, deste tecido de diferentes matizes é preciso construir coletivamente o novo, com novas características que são:
Ø Autogestão – controle da gestão e autonomia.
Ø Democracia – decisões tomadas pelo conjunto dos associados e associadas.
Ø Participação – garantia do direito de decidir e condições para a efetiva participação.
Ø Igualitarismo – todos e todas têm tratamento igualitário seja de remuneração como de acesso à formação e conhecimento, PARA MESMA TAREFA E FUNÇÃO.
Ø Cooperação – responsabilidade partilhada na gestão e produção.
Ø Desenvolvimento humano – concepção da formação como direito de todo / a trabalhador e trabalhadora, numa dimensão humana que possibilite o acesso às novas técnicas e educação integral.
Ø Responsabilidade social – a empresa está inserida em uma comunidade e com esta deve estabelecer relações solidárias e éticas de comprometimento com sua melhoria. Gerando trabalho com qualidade para os / as trabalhadoras e trabalhadores e com o meio ambiente.

O sentido do trabalho.
Ao organizar um empreendimento de autogestão, temos que atentarmos para as desigualdades de gênero, pois se não assim o fizermos poderemos cometer o erro de reproduzir a estrutura construída pela sociedade. Temos que levar em conta os aspectos ligados ao gênero desses grupos ou poderemos estar aumentando as desigualdades entre homens e mulheres ao tratarmos como falsa igualdade os que são desiguais. Desigualdade esta gerada por um longo processo de exclusão /descriminação das mulheres nos vários espaços públicos entre esses o trabalho. É necessário considerar as seguintes questões:
ü Como os princípios da economia solidária estão sendo vivenciados nas relações de gênero dentro da empresa?
ü Onde estão as mulheres na economia solidária?
ü As mulheres estão participando coletivamente com os homens na construção do empreendimento?
ü Como as mulheres participam das instâncias deliberativas? (conselhos, assembléia, diretoria)?

O trabalho é um espaço formativo. Então em um empreendimento solidário as mulheres têm que estar em todas as instâncias. Cada instância contribui de forma diferenciada na formação e é fundamental para o “empoderamento” das mulheres vivenciarem estas experiências e ir assim resistindo e reduzindo as desigualdades até que elas não mais existam. Garantir uma participação efetiva das mulheres em todas as instâncias em uma empresa de autogestão ou unidade produtiva de qualquer de qualquer ramo é tarefa de todos e todas que constrói coletivamente o empreendimento e não só das mulheres.

As trabalhadoras e trabalhadores da autogestão já estão dando os primeiros passos para esta mudança, mas esta caminhada só começou. É preciso incorporar novas formas e criar medidas que ampliem a perspectiva de participação das mulheres nos empreendimentos. Faz-se necessário encarar a problemática do empoderamento das mulheres no espaço político, econômico e de desenvolvimento.

[1] Texto retirado do livro de apoio do Projeto de Promoção do Desenvolvimento Local e Economia Solidária (PPDLES) da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), executado pela Fundação Universitária de Brasília (FUBRA).

quinta-feira, 20 de setembro de 2007


Pra não dizer que não falamos do 20 de setembro...

"A ideologia dominate é a ideologia da classe dominante", já dizia o velho Marx. Essa frase pode nos ajudar a compreender o sentido das comemorações do 20 de setembro no Rio Grande do Sul, ou seja, a Revolução farroupilha. Vale destacar que é o único lugar do mundo onde se comemora uma derrota. A revolução farroupilha foi nada mais do que um movimento político das oligarquias gaúchas em defesa de seus interesses frente ao império brasileiro nos idos de 1835.
Em lembrança a esse "momento" de comemorações em território gaúcho reproduzimos abaixo um trecho de excelente livro A Tradicionalidade na cultura e na história do Rio Grande do Sul, do historiador Tau Golin. (Editora Tchê, 1989 pg. 23-24). Como um estudo marxista é uma abordagem crítica do gaúchismo como ideologia da classe dominante:

[...] No estágio atual da cultura rio-grandense, encontram-se elementos cujos valores sociais foram esterilizados pelo gauchismo. Foi preciso desarmar toda a história real e construir uma outra história, que, antes de ser entendida como manipulação, deve ser compreendida como a criação de um complexo arcabouço cultural que colocou a história humana em uma inversão. Assim o elogio do passado caracteriza a legalidade do presente, solidifica um bloco cultural que fornece, socialmente, uma perspectiva futura, condicionada à tradição de toda a carga histórica.

Essa tradição é alimentada desde os elementos mais sutis até os mais grosseiros. A serviço de uma hipotética pátria cultural, os interesses contraditórios de classes unificam-se mediante o fomento de um inimigo comum. O discurso gauchesco está em permanentemente prontidão contra o estrangeirismo por mais que seus personagens estejam atolados no processo social do capitalismo monopolista. Não raro, os tradicionalistas lidam diretamente com o capital financeiro( ex. os CTGs das agencias bancárias), os organizadores da cultura tradicional ( ex. : os funcionários dos órgãos específicos para promover a tradição de um estado gerenciado pela burguesia), os educadores e divulgadores ( ex.: os órgãos de comunicação estatais e privados), dos militantes da tradição ( patrões de CTGs- estancieiros agro-pastoris, latifundiários, comerciantes de insumos etc.. etc..)

Digamos, os tradicionalistas são provedores de uma sociedade capitalista, vivem materialmente sob suas determinações no presente e, culturalmente, no passado, em um mundo hipotético alimentado por toda a herança cultural das oligarquias rurais, que, por sua vez, têm a sua origem mais remota no feudalismo das parasitárias corte ibéricas. [...]

sábado, 15 de setembro de 2007

Foto " Almoço no topo do arranha céu", de Charles C. Ebbets, durante construção do Rockefeller Center, Nova Yorque, 1932.

" Levantou-se, deitando contas ao tempo de que poderia dispor, o manejeiro nem sequer virou a cabeça para ele, e decidiu dar uma rápida volta pela parte da construção em que tinha trabalhado, a despedir-se, por assim dizer, das tábuas que alisara, das traves que regulara, se tal identificação era possível, qual é a abelha que pode dizer. Este mel fi-lo eu" ( José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo)

Economia Capitalista :
Valorização do mundo das coisas,
desvalorização do mundo dos homens.

De toda a vasta obra teórica –crítica de Marx , os chamados Manuscritos-Econômicos e Filosóficos escritos em 1844 são considerados os que mais aprofundam o tema do trabalho alienado, ou seja, das relações de estranhamento do homem com o seu trabalho a partir da lógica da produção sob o capitalismo.
No sentido de resgatar essa contribuição teórica fundamental para a compreensão do “capitalismo como ele é”, principalmente no contexto da luta em curso pela construção de uma outra economia, apresentamos fragmentos da parte final do primeiro dos manuscritos. O texto na íntegra pode ser lido no livro A Dialética do Trabalho- escritos de Marx e Engels, edição da Expressão Popular, organizado por Ricardo Antunes.
Segundo Antunes, o conceito de trabalho estranhado, ou alienado, “é um a bem elaborada reflexão sobre o lugar do trabalho na composição da sociedade humana, e de como tal composição se reequaciona a partir da transformação do trabalho em elemento subordinado à troca e à propriedade privada”.



Trabalho Estranhado ( alienado) e propriedade privada
K. Marx-1844

[...] Partimos dos pressupostos da economia clássica. Aceitamos sua linguagem e suas leis. Supusemos a propriedade privada, a separação de trabalho, capital e terra, igualmente do salário, lucro de capital e renda da terra, da mesma forma que a divisão do trabalho, a concorrência, o conceito de valor e troca etc.
A partir da economia clássica mesma, com suas próprias palavras, expusemos que o trabalhador baixa à mercadoria e à mais miserável mercadoria, que a miséria do trabalhador põe-se na relação inversa da potência e grandeza da sua produção, que o resultado necessário da concorrência é a acumulação de capital em poucas mãos, portanto a mais tremenda restauração do monopólio, que finalmente desaparece a diferença entre o capitalista e o rentista fundiário, assim como entre o agricultor e o trabalhador em manufatura, e toda a sociedade tem de decompor-se nas duas classes dos proprietários e dos trabalhadores sem propriedade.

A economia clássica parte do fato da propriedade privada. Não nos explica o mesmo. Ela percebe o processo material da propriedade privada, o qual passa, na efetividade, por fórmulas gerais, abstratas, que então a ela valem como leis. Não concebe estas leis, isto é, não mostra como têm rigem na essência da propriedade privada. A economia clássica não nos dá esclarecimento algum sobre o fundamento da divisão entre trabalho e capital, entre capital e terra. Quando ela, por exemplo, determina a relação do salário com o lucro de capital, o que lhe vale com razão última é o interesse do capitalista; ou seja, ela supõe o que deve desenvolver.
Do mesmo modo a concorrência entra por toda a parte. É explicada a partir de circunstâncias exteriores. Até que ponto estas circunstâncias exteriores, aparentemente casuais, são apenas a expressão de um desenvolvimento necessário, sobre isso a economia nacional nada nos ensina. Vimos como a troca mesma aparece a ela como um fato acidental. As únicas rodas que o economista clássico põe em movimento são a ganância e a guerra entre os gananciosos, a concorrência.

Justamente porque a economia clássica não compreende a conexão do movimento, ela pôde por isso novamente opor, por exemplo, a doutrina da concorrência à doutrina do monopólio, a doutrina da liberdade industrial à doutrina da corporação, a doutrina da divisão da posse da terra á doutrina da grande propriedade fundiária, pois concorrência, liberdade industrial, divisão da posse da terra eram desenvolvidas e concebidas apenas como conseqüências acidentais, deliberadas, violentas e não como conseqüências necessárias, inevitáveis, naturais do monopólio, da corporação e da propriedade feudal [...]

[...] Nós partimos de um fato econômico presente. O trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadorias ele cria. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na medida em que produz, de fato, mercadorias em geral.

Este fato nada mais exprime, senão: o objeto que o trabalho produz, o seu produto, se lhe defronta como um ser estranho, como um poder independente do produtor. O produto do trabalho é o trabalho que se fixou num objeto, fez-se “coisal”, é a objetivação do trabalho. A efetivação do trabalho é a sua objetivação. Esta efetivação do trabalho aparece ao estado econômico como desefetivação do trabalhador,a objetivação como perda do objeto e servidão ao objeto,a apropriação como estranhamento como alienação[...]

[...] Na determinação de que o trabalhador se relaciona com o produto de seu trabalho como um objeto estranho estão todas estas conseqüências. Com efeito, segundo este pressuposto está claro: quanto mais o trabalhador se desgasta trabalhando, tão mais poderoso se torna o mundo objetivo, alheio que ele cria diante de si, tão mais pobre se torna ele mesmo, seu mundo interior, e tanto menos o trabalhador pertence a si próprio [...]

[...] O estranhamento não se mostra somente no resultado, mas sim no ato da produção, dentro da atividade produtiva mesma. Como poderia o trabalhador defrontar-se alheio ao produto da sua atividade se no ato mesmo da produção ele não se estranhasse a si mesmo?O produto é, sim, somente o resumo da atividade, da produção [...]

Em que consiste, então , a exteriorização do trabalho?

Primeiro, que o trabalho é externo ao trabalhador, isto é, não pertence ao seu ser, que ele não se afirma, portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele, que não se sente bem, mas infeliz, que não desenvolve nenhuma energia física e espiritual livre, mas mortifica sua phisys e arruína o seu espírito. O trabalhador só se sente, por conseguinte e em primeiro lugar, junto a si quando fora do trabalho e fora de si quando no trabalho. Está em casa quando não trabalha e, quando trabalha, não está em casa.
O seu trabalho não é portanto voluntário, mas forçado, trabalho obrigatório. O trabalho não é , por isso, a satisfação de uma carência, mas somente um meio para satisfazer carências fora dele. Sua “estranhidade” evidencia-se aqui de forma tão pura que, tão logo inexista coerção física ou outra qualquer, foge-se do trabalho como de uma peste. O trabalho externo, trabalho no qual o homem se exterioriza, é um trabalho de auto-sacrifício, de mortificação. Finalmente, a externalidade do trabalho aparece para o trabalhador como não sendo seu próprio, mas um outro que o trabalho não lhe pertence, que ele no trabalho não pertence a si mesmo, mas a um outro.

Assim como na religião a auto –atividade da fantasia humana, do cérebro e do coração humanos, atua independentemente do indivíduo e sobre ele, isto é, como uma atividade estranhada, divina ou diabólica, assim também a atividade do trabalhador não é sua auto –atividade. Ela pertence a outro, é a perda de si mesmo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007


Há todo um velho mundo ainda por destruir e todo um novo mundo a construir. Mas nós conseguiremos, jovens amigos, não é verdade? Nós conseguiremos!
Rosa Luxemburgo

Rosa Luxemburgo e a economia socialista.


No dia 04 de dezembro de 1918 o jornal alemão Die junge Garde de Berlim publica o artigo de Rosa Luxemburgo sob o título de A socialização da sociedade.
Autora de diversas obras clássicas sobre o socialismo, a autora marxista destaca nesse artigo o tema da economia socialista, do homem e a sua relação com o trabalho na sociedade capitalista.
Ao mesmo tempo que discorre sobre a irracionalidade da lógica do trabalho alienado e subordinado sob o regime da acumulação privada, Rosa aponta para a construção de uma outra sociabilidade baseada no trabalho livre, prazeroso no qual o trabalho deixa de ser uma mercadoria e passa a ser uma ação consciente do homem emancipado. É o que ela considera como a criação do trabalhador socialista da nova ordem.

Abaixo reproduzimos o artigo de Rosa Luxembrugo:
A socialização da sociedade- 04/12/1918
A revolução do proletariado, que acaba de começar, não pode ter nenhum outro fim nem nenhum outro resultado a não ser a realização do socialismo. Antes de tudo, a classe operária precisa tentar obter todo o poder político estatal. Mas para nós, socialistas, o poder político é apenas meio.

O fim para o qual precisamos utilizar o poder é a transformação radical da situação econômica como um todo. Hoje, todas as riquezas _ as maiores e melhores terras, as minas e empresas, assim como as fábricas _ pertencem a alguns poucos latifundiários e capitalistas privados. A grande massa dos trabalhadores, por um árduo trabalho, recebe apenas desses latifundiários e capitalistas um parco salário para viver. O enriquecimento de um pequeno número de ociosos é o objetivo da economia atual.

Esta situação deve ser eliminada. Todas as riquezas sociais, o solo com todos os tesouros que abriga no interior e na superfície, todas as fábricas e empresas, enquanto propriedades comuns do povo, precisam ser tiradas das mãos dos exploradores. O primeiro dever de um verdadeiro governo operário consiste em proclamar, através de uma série de decisões soberanas, os meios de produção mais importantes como propriedade nacional e em pô-los sob o controle da sociedade.

Só então começa propriamente a mais difícil tarefa: a construção da economia em bases totalmente novas.
Hoje, em cada empresa, a produção é dirigida pelo próprio capitalista isolado. O que e como deve ser produzido, quando e como as mercadorias fabricadas devem ser vendidas é o empresário quem determina. Os trabalhadores jamais cuidam disso, eles são apenas máquinas vivas que têm de executar seu trabalho.

Na economia socialista tudo isso precisa ser diferente! O empresário privado desaparece. A produção não tem mais como objetivo enriquecer o indivíduo, mas fornecer à coletividade, meios de satisfazer todas as necessidades. Consequentemente, as fábricas, empresas, explorações agrícolas precisam adaptar-se segundo pontos de vista totalmente novos:

Primeiro: se a produção deve ter por objetivo assegurar a todos uma vida digna, fornecer à todos alimentação abundante, vestuário e outros meios culturais de existência, então a produtividade do trabalho precisa ser muito maior que hoje. Os campos precisam fornecer colheitas maiores, nas fábricas precisa ser utilizada a mais alta técnica; quando às minas de carvão e minério, apenas as mais rentáveis precisam ser exploradas etc.
Segue-se daí que a socialização se estenderá, antes de mais nada, às grandes empresas industriais e agrícolas. Não precisamos nem queremos tirar a pequena propriedade ao pequeno agricultor e ao pequeno trabalhador que, com seu próprio trabalho, vive penosamente do seu pedacinho de terra ou da sua oficina. Com o tempo, todos eles virão até nós voluntariamente e compreenderão as vantagens do socialismo sobre a propriedade privada.

Segundo: para que na sociedade todos possam usufruir do bem-estar, todos precisam trabalhar. Apenas quem executa trabalho útil para a coletividade, quer trabalho manual, quer intelectual, pode exigir da sociedade meios para a satisfação de suas necessidades. Uma vida ociosa, como hoje levam na maioria das vezes os ricos exploradores, acaba. A obrigação de trabalhar para todos os que são capazes, exceto naturalmente as crianças pequenas, os velhos e os doentes é, na economia socialista, uma coisa evidente. Quando aos incapazes de trabalhar, a coletividade precisa simplesmente tomar conta dele – não como hoje, com esmolas miseráveis, mas por meio de alimentação abundante, educação pública para as crianças, boas assistência médica pública para os doentes etc.

Terceiro: a partir do mesmo ponto de vista, isto é, do bem-estar da coletividade, é preciso que os meios de produção, assim como as forças de trabalho sejam inteligentemente administradas e economizadas. O desperdício, que ocorre hoje a cada passo, precisa acabar.

Assim, naturalmente, é preciso suprimir a indústria de guerra e de munição no seu conjunto, pois a sociedade socialista não precisa de armas assassinas. Em vez disso, é preciso que os valiosos materiais e a força de trabalho aí empregados sejam utilizados para produzir coisas úteis. As indústrias de luxo, que hoje produzem todo tipo de futilidades para os ociosos, assim como a criadagem pessoal, precisam igualmente desaparecer. Toda a força de trabalho posta nisso encontrará ocupação mais útil e mais digna.

Se desta maneira criarmos um povo de trabalhadores, em que todos trabalhem para todos, para o bem-estar e o beneficio coletivos, então, quarto: o próprio trabalho precisa adquirir uma configuração inteiramente diferente. Hoje em dia, o trabalho, tanto na indústria, quanto na agricultura ou no escritório é, na maioria das vezes, uma tortura e um fardo para o proletário. As pessoas vão para o trabalho porque é preciso, caso contrário não conseguirão meios de subsistência.
Na sociedade socialista, onde todos trabalham em conjunto para o seu bem próprio bem-estar, é preciso ter a maior consideração pela saúde e pelo prazer de trabalhar. Tempo de trabalho reduzido, que não ultrapasse a capacidade normal, locais de trabalho saudáveis, todos os meios para o descanso e o trabalho precisam ser introduzidos, para que cada um faça a sua parte com maior prazer.

Porem para todas as grandes reformas é necessário o material humano correspondente. Hoje atrás do trabalhador, esta o capitalista com seu chicote _ em pessoa, ou através de seu contra-mestre ou capataz. A fome arrasta o proletário para trabalhar na fábrica, na grande propriedade ou no escritório. O empresário cuida então para que o tempo não seja desperdiçado, para que o material não seja estragado, para que seja fornecido trabalho bom e competente.

Na economia socialista é suprimido o empresário com seu chicote. Aqui os trabalhadores são homens livres e iguais, que trabalham para seu próprio bem-estar e benefício. Isso significa trabalhar zelosamente por conta própria, por si mesmo, não desperdiçar a riqueza social, fornecer o trabalho mais honesto e pontual.
Cada empresa socialista precisa, naturalmente, de um dirigente técnico que entenda exatamente do assunto, que estabeleça o que é mais necessário para que tudo funcione, para que seja atingida a divisão do trabalho mais correta e o mais alto rendimento. Ora, isso significa seguir essas ordens de boa vontade, na íntegra, manter a disciplina e a ordem, sem provocar atritos nem confusões.
Numa palavra: o trabalhador da economia socialista precisa mostrar que também pode trabalhar zelosa e ordeiramente sem o chicote da fome, sem o capitalista e seus contra-mestres atrás das costas, que pode manter a disciplina e fazer o melhor. Para isso é preciso auto-disciplina interior, maturidade moral, senso de dignidade, todo um renascimento interior do proletário.

Com homens preguiçosos, levianos, egoístas, irrefletidos e indiferentes não se pode realizar o socialismo. A sociedade socialista precisa de homens que estejam, cada um em seu lugar, cheios de paixão e entusiasmo pelo bem estar coletivo, totalmente dispostos ao sacrifício e cheios de compaixão pelo próximo, cheios de coragem e tenacidade para ousarem o mais difícil.

Porém, não precisamos esperar quase um século ou uma década até que tal espécie de homens se desenvolva. Precisamente agora, na luta, na revolução, as massas proletárias aprendem o idealismo necessário e adquirem rapidamente maturidade intelectual. Também precisamos de coragem e perseverança, clareza interna e disposição ao sacrifício para continuar a revolução até a vitória. Recrutando bons combatentes para a atual revolução, criamos futuros trabalhadores socialistas, necessários como fundamento de uma nova ordem.

A juventude trabalhadora, sobretudo, é chamada para esta grande tarefa. Como geração futura, ela formará com toda certeza o verdadeiro fundamento da economia socialista. Ela tem que mostrar já, como portadora do futuro da humanidade, que está à altura dessa grande tarefa. Há todo um velho mundo ainda por destruir e todo um novo mundo a construir.
Mas nós conseguiremos, jovens amigos, não é verdade? Nós conseguiremos!
Como diz o poema:
Não nos falta nada, minha mulher, meu filho, a não ser tudo que cresce através de nós, para sermos livres como os pássaros: nada, a não ser tempo!
Rosa Luxemburgo- 04/12/1918.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

11 de Setembro

Aquele 11 de Setembro amanhecera com céu claro, sem nuvens em toda a cidade.
No entanto, seus milhões de habitantes, já a caminho do trabalho, ou ainda em suas casas, ao ligarem o rádio ouviam anunciar que chovia muito na cidade.

Chovia, insistia o que mais tarde revelaria-se um alerta cúmplice e desesperado.
Em meio aos avisos das rádios, e como que para colaborar ainda mais com o caos que se estabelecia, das ruas ouviam-se explosões, gritos, sirenes... Terror!

Uma enorme onda de medo e pavor rapidamente tomava conta de todo um país.
Nas ruas, nos lares, nas praças ou nas escolas, em lugar algum seus habitantes sentiriam-se seguros.

Em pouco tempo, milhares, de diferentes nacionalidades, eram mortos.
Assassinados. Covardemente assassinados pela intolerância e brutalidade, que os surpreendia no país em que nasceram ou escolheram viver.

Não eram vítimas inocentes.

Eram milhares de culpados, e por isso morreram. Culpados de coragem. Culpados de sonhar. Culpados de lutar.


Naquele 11 de Setembro de 1973, chovia sobre Santiago do Chile

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

" Se esquecessemos que nossa missão é estabelecer um projeto social para o homem, toda a luta de nosso povo pelo socialismo se converteria em mais uma tentativa reformista. Se esquecessemos as condições concretas de que partimos, pretendendo criar aqui e agora algo que exceda nossas possibilidades, também fracassaríamos" Da primeira mensagem do presidente Allende ao congresso Nacional, 21 de maio de 1971.

Uma homenagem do poeta uruguaio Mario Benedetti ao presidente Salvador Allende

Allende

Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla,
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que congregar todos los odios
y además los aviones y los tanques,
para batir al hombre de la paz
tuvieron que bombardearlo hacerlo llama,
porque el hombre de la paz era una fortaleza


Para matar al hombre de la paz
tuvieron que desatar la guerra turbia,
para vencer al hombre de la paz
y acallar su voz modesta y taladrante
tuvieron que empujar el terror hasta el abismo
y matar mas para seguir matando,
para batir al hombre de la paz
tuvieron que asesinarlo muchas veces
porque el hombre de la paz era una fortaleza,


Para matar al hombre de la paz
tuvieron que imaginar que era una tropa,
una armada, una hueste, una brigada,
tuvieron que creer que era otro ejercito,
pero el hombre de la paz era tan solo un pueblo
y tenia en sus manos un fusil y un mandato
y eran necesarios mas tanques mas rencores
mas bombas mas aviones mas oprobios
porque el hombre de la paz era una fortaleza


Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla,
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que afiliarse siempre a la muerte
matar y matar mas para seguir matando
condenarse a la blindada soledad,
para matar al hombre que era un pueblo
tuvieron que quedarse sin el pueblo.

Mário Benedetti

domingo, 9 de setembro de 2007



O 11 de setembro que não deve ser esquecido

...O Chile se encontra diante da necessidade de iniciar uma nova maneira de construir a sociedade socialista. Os pensadores sociais supuseram que os primeiros a percorrê-la seriam nações mais desenvolvidas, provavelmente Itália e França com seus poderosos partidos operários de definição marxista [...] Chile é hoje a primeira nação da terra chamada a conformar o segundo modelo de transição à sociedade socialista”.
Salvador Allende ( discurso de 1972)


Nessa semana o mundo todo lembrará do “11 de setembro” mas a pergunda a ser feita é: de que 11/09 estamos falando?

Após o 11 de setembro de 1973 toda passagem daquela data não podia ser ignorado. O dia lembrava ao mundo o golpe fascista que enterrou a democracia no Chile, considerada até então a mais sólida da América Latina. A burguesia não tinha como ignorar o que o mundo todo lembrava.

A partir de 2001, com ataque às torres americanas, finalmente a burguesia encontrou um fato, para ela, muito “mais relevante” para lembrar, até porque na visão do norte o que ocorreu foi um “golpe terrorista” contra a “democracia na América” essa sim a “verdadeira” . Por isso quando completa-se em 2007 seis anos do acontecimento certamente veremos uma enxurrada de documentários, reportagens especiais, filmes, novelas todas elas em referência ou seria reverência ao “11 de setembro”

Enquanto ao Chile...

Não temos o direito de esquecer

No dia 11 de setembro de 1973, há 34 anos, o presidente socialista do Chile, Salvador Allende era assassinado pela burguesia e pelo imperialismo yankee. O presidente Allende foi morto por ser marxista e dedicar-se ao projeto de transformação socialista no Chile. O governo da Unidade Popular foi a primeira experiência de construção do socialismo pela via institucional, dentro dos marcos da democracia. O golpe militar de 1973 foi a comprovação de que a democracia só é aceita enquanto serve aos interesses da burguesia.
O malogrado golpe da direita venezuelana para derrubar Chaves em 2001 comprova que a experiência da via chilena ao socialismo é um debate que não está encerrado. Sempre que um projeto emancipatório avança para romper com as contradições da sociedade de classes, a democracia é colocada em cheque, não por aqueles que buscam o protagonismo das mudanças, mas pelos setores que querem conservar o estado das coisas.

A Economia na via chilena ao socialismo
"Para compreender a dinâmica de um processo de transformações é insuficiente recorrer apenas ao emprego da teoria econômica; isto conduziria a conclusões desprovidas de importância para a tarefa de transformar um sistema social. Dentro dessa perspectiva, o sentido último de toda a medida econômica é político e deve ser compreendido em relação a seus objetivo de mudar as extrutura de poder." Sérgio Bitar in Transição, socialismo e democracia. Chile com Allende.

A análise da via chilena de transição ao socialismo precisa ser resgata pela esquerda, não como “receita” ou apenas “lembrança histórica” mas, sobretudo, pelo que representou enquanto experiência de transformação política, econômica e do papel protagonista da classe operária em um processo de profundas transformações no seio da institucionalidade burguesa estabelecida.

Uma importante análise sobre a experiência do Chile de Allende está no livro “Transição, socialismo e democracia-Chile com Allende, de Sérgio Bitar, ex Ministro do Gabinete do presidente Allende. Nessa obra é feita uma interpretação dos fenômenos econômicos em jogo e sua interação com os fatores políticos e estudado o tema mais geral da política econômica durante uma etapa de transição ao socialismo. A obra tem a introdução de Celso Furtado que destaca:

Que essa inusitada experiência tenha sido interrompida por sangrento golpe militar não anula sua significação histórica como um dos primeiros intentos de reconstrução social inspirados nos ideais do socialismo e da democracia. E que tenha tido lugar na América Latina é indicação de que nesta parte do mundo a imaginação política alcançou proeminência”

No livro citado o autor destaca a estratégia global que constava do programa da Unidade Popular, frente de esquerda formada pelo PC e PS, vencedora das eleições de 1970 com Salvador Allende:

O progresso simultâneo em direção da transformação da base econômica e da ampliação da democracia, no marco da institucionalidade, conferia à experiência chilena seu traço distintivo e único: transição ao socialismo em democracia.
O desenvolvimento econômico e institucional do Chile, e a organização social e política, permitiam, de acordo com o Presidente Allende, um ‘ segundo caminho para o socialismo’. Sua peculiaridade rsidiria na transformação da base econômica e a subsequente mudança das relações sociais de produção, no marco da institucionalidade”
.

"A estratégia da UP supunha que as condições ideológicas e institucionais vigentes no Chile deixavam margem para introduzir modificações substantivas tanto na propriedade dos meios de produção, como na participação dos trabalhadores. Uma vez produzidas estas transformações, surgiriam condições mais propícias para mudar a ordem legal vigente.”[1]

Em relação às transformações econômicas mais significativas implantadas pelo governo da UP destaca-se a área de propriedade social que tinha o objetivo iniciar a transição na esfera da produção:

“Da estratégia global, fluiu um objetivo básico: a passagem, para o Estado, dos meios de produção fundamentais, a fim de constituir a área de propriedade social. O Estado assumiria o controle dos centros chaves de decisão econômica e, assim, enfraqueceria o poder político dos grupos dominantes, a fim de dar impulso a um modelo novo de desenvolvimento”[2]

Todas as empresas estatais ou cooperativas constituíram a área de propriedade social, a qual coexistiria com uma área mista e uma área privada. A mista estaria integrada por empresas de propriedade estatal privada nacional ou estrangeira[3]

Conforme afirma Bitar a questão da propriedade dos meios de produção foi uma prioridade estratégica para o governo Allende:

“...o governo Alllende deu grande prioridade às mudanças de propriedade. A esta decisão somou-se uma ampla mobilização popular que conduziu mais além do programado. Os resultados foram espetaculares, mesmo se comparados a outras experiências de transição socialista[4]

Entre julho e novembro de 1972, ou seja, um anos antes do golpe e transcorrido mais de um ano e meio de governo os conflitos políticos acirravam-se:
A presença maciça dos sindicatos,a participação dos trabalhadores nas fábricas e no campo,a supervisão de preços e do abastecimento pelas associações de pobladores, e a firme resolução do governo de mudar as formas de propriedade eram sinais inequívocos do caráter revolucionário do processo[5].

Isso fez com que a burguesia e os partidos de direita iniciassem um processo de confronto direto com o governo. A resposta da UP foi buscar um acordo com a DC (Democracia Cristã), principalmente sua ala progressista, então principal partido de oposição no congresso. O tema central em discussão se deu em torno da área de propriedade social. Dentre os pontos das negociações nos chama a atenção o tema das empresas de trabalhadores ou autogestionárias.

Parta ilustrar em que patamar se deu estas discussões entre as duas principais forças políticas do Chile vale reproduzir aqui o trecho do livro que relata os termos da negociação entre a DC e a UP sobre as empresas autogestionárias. Pode-se perceber que o tema da autogestão estava bem avançado, sendo que a DC se mostra bem mais identificada com a autogestão do que a própria UP, no qual muitos partidos no seu interior mantinham uma concepção estatista e centralizadora da produção.

A DC propôs que, independentemente da propriedade, se estabelecesse um procedimento para que os trabalhadores assumissem a gestão das empresas. Sobre esta matéria não havia unanimidade nesse partido. Uma corrente considerava que a propriedade de cada empresa deveria pertencer ao conjunto dos trabalhadores de todas as empresas auto-geridas. Outra sustentava que a propriedade deveria ser cooperativa, incluindo somente os trabalhadores da empresa respectiva. Um terceiro grupo, menos propenso a alterar as formas de propriedade, sugeria que era suficiente que os trabalhadores assumissem a administração e pagassem uma renda sobre o capital ao proprietário privado. De um modo geral a DC afirmava que as grandes empresas também deveriam ser administradas por seus trabalhadores e não pelo Estado.
Para a UP, a administração das grandes empresas da área social deveria recair no Estado, com participação trabalhista. Em relação às empresas médias, admitia a autogestão, mas não tinha uma opinião definitiva, pois existiam diferentes pontos de vista em seu seio. Alguns sustentavam uma posição eminentemente estatista e centralista. Outros propiciavam um esquema de maior participação, em alguns casos com controle da administração por seus trabalhadores.
Para a maioria dos partidos da UP, as empresas de trabalhadores autogeridas, não tinham relevância nesta fase. Como, para desenvolver-se, teriam que fazê-lo às custas do setor privado, aumentaria a incerteza e a resistência de empresários e proprietários médios e pequenos. Em compensação, os grupos políticos integrantes da UP que provinham da DC (MAPU, Esquerda Cristã) eram partidários de formas de empresas de autogestão.
Nesta matéria, também se progrediu em direção de um acordo com base nos seguintes critérios: a propriedade seria social, mas as empresas que integrassem o sistema de autogestão não dependeriam da Corporação de Fomento, proprietária e órgão de direção superior das empresas estatais, mas sim de uma nova Corporação, onde os trabalhadores das empresas autogeridas tivessem uma representação pelo menos paritária com o Estado. O governo Allende aceitou, também, que algumas das 80 grandes empresas tivessem caráter de empresa de trabalhadores, de acordo com o critério da DC.”
[6]

Esse trecho das discussões em curso demonstra o quanto foi possível avançar no plano institucional na medida em que houve um processo de tranformações na insfra-estrutura econômica. Entretanto, o desfecho trágico da experiência chilena demonstra que é necessário avançar concretamente no terreno das esferas de poder da sociedade, entretanto, isso somente é possível quando se avança na questão da hegemonia na perspectiva de Gramsci, ou seja, da construção de uma direção intelectual e moral da classe trabalhadora sobre os demais grupos sociais, como elemento dialético da fundação de um novo Estado.

Neste início de século XXI com os processos de mudanças em curso na Venezuela, na Bolívia, Equador e outros países com suas especificidades como o caso brasileiro, os projetos de desenvolvimento endógeno e de Economia Solidária nestes governos progressistas estimulam a retomada do debate sobre hegemonia no campo político e econômico na sociedade capitalista.

Nesse sentido que o tema da transição de modelos econômicos em sociedades capitalistas está mais vivo do que nunca e volta com força na América Latina. É um processo ainda em aberto, sem paradigmas e modelos anteriores, entretanto, não podemos esquecer que é parte da história de lutas dos povos latino-americanos pela sua emancipação.

Não seria demais afirmar que a breve experiência chilena é para a América Latina do século XXI tão importante quanto foi a Comuna de Paris para os revolucionários Europeus do século XX.



[1] BITAR, Sérgio. Transição, socialismo e democracia. Chile com Allende. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, pp. 65.
[2] Idem, p. 69
[3] Ibidem, p.71
[4] Idem, p.97
[5] Idem, p. 167.
[6] Idem, pp.170-171.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Comunidade de catadores de lixo comemoram a retirada de polícias militares que iriam retirá los de ocupação no Setor de Inflamáveis em Brasília/DF.

PERGUNTE AONDE É O BRASIL

Se algum estrangeiro perguntar a um brasileiro da elite, ou seja, aquela classe composta pelos 2% da população que detém mais de 50% da renda nacional, onde é o Brasil?Certamente indicarão os Jardins em São Paulo, Copacabana no Rio e o Moinhos de Vento em Porto Alegre.

Mas e se a pergunta for dirigida à classe social que detém apenas 5% da renda nacional? De que Brasil estamos falando? A partir de que lugar compreendemos esse país de contrastes?

A música A SAGA de autoria de Edgard Sacandurra e Arnaldo Antunes que está no novo e excelente CD do grupo Ira nos faz pensar sobre isso.

Em homenagem ao Sete de Setembro a letra da A SAGA

A Saga
Edgard Scandurra e Arnaldo Antunes


Caindo cai
Descalço vai
Na beira da calçada

Olhando vê
Assiste a quê?
Anda atrás de nada

Catando lixo
Correndo risco
Fazendo arruaça

Chutando lata
Xingando placa
Fazendo ameaça

Passa, passa
Cambaleando na praça
Cabeceando vidraça
Descarregando sua desgraça

Passando o carro que passa
Cuspindo sarro e cachaça
Desarrazoa na fumaça

Sacode o trapo da roupa
Sacode o saco de estopa
Se esconde atrás de uma fachada

Suspenso no meio fio
Pergunta aonde é o Brasil
Procura e não encontra nada
Nada, nada

Praça da Sé
cabeça em pé
De olhar pra lua

Na São João
Vai vendo chão
Derrubar a rua

Tomando chuva
Tomando sol
Tomando uma porrada

Não tem lugar
Qualquer lugar
É a sua casa

Puxa a carroça, cavalo
Fuçando o resto do ralo
Desengonçando a sua carcaça

Quem vê não quer nem saber
Quem sabe não quer nem ver
Quem chega perto perde a graça

Sai do terreno baldio
Perambulando vadio
Em meio a marginal parada

Treme de medo ou de frio
Pergunta aonde é o Brasil
Procura e não encontra nada
Nada , nada.

O DESAFIO DA CONSTRUÇÃO DO SOCIALISMO DO SÉCULO XXI


A experiência da revolução bolivariana na Venezuela coloca na ordem do dia a reflexão sobre o socialismo do século XXI.
No texto abaixo pescado do site http://www.aporrea.org/ Carlos Lanz Rodrigues aponta algumas questões centrais para essa necessária reconstrução teórico-prática do socialismo:

La Emancipación del Trabajo como base del programa Socialista: Las interrogantes sobre la construccion socialista
Por: Carlos Lanz Rodríguez

En la actual coyuntura que vive la revolución venezolana se viene generando un clima de debate y reflexión en torno al socialismo, proceso éste donde se comienza a presentar las diversas concepciones, teorías, experiencias, sueños y esperanzas, en torno al cambio revolucionario .


Se trata de un debate inconcluso en el seno de los revolucionarios no sólo en Venezuela sino en todo el mundo, el cual ha cobrado fuerza en diversos momentos y ha producido montones de artículos, textos, sin dejar de dejar de señalar la ola de sanciones, expulsiones, excomuniones y otros expedientes propios de la burocracia partidista que silenció cualquier discrepancia con el dogma oficial del momento.


Esto es harto conocido y puede rastrearse documentalmente en las historias de las Internacionales Comunistas o trotskistas, y en los diversos agrupamiento consulares en los que se dividió la izquierda mundialmente


En tal sentido, la pregunta . ¿ Cual Socialismo ? nos señala la inmensa responsabilidad intelectual que demanda el debate actual, donde la cuestión del socialismo no se puede simplificar ni banalizar, así como tampoco debemos reproducir el dogmatismo-empirismo.
En relación a esta última pareja epistemológica, también podemos señalar por experiencia que la simple repetición de recetas y categorías aplicadas mecánicamente y su combinación con el tareismo no puede conducir sino al fracaso, unas premisas no contextualizadas históricamente amarradas con una práctica ciega, conduce al oportunismo ideológico.


Por otro lado hoy se puede reconstruir como el marxismo soviético, no fue más que una determinada manera de entender los aportes de Marx, donde estaban ausentes varios trabajos de este autor considerados como no “científicos”, “obras juveniles”, entre ellos los Manuscritos Económicos-Filosóficos de 1844, los Grundrisse, el Capítulo VI Inédito de El Capital, entre otros..


Precisamente, se trataba de aquellos escritos donde Marx desarrolla la crítica de la economía política desde una perspectiva humanista, condenando la explotación del trabajo desde el proceso inmediato de producción. Esta última lectura de Marx no permite justificar en su nombre la adopción de un “modelo de acumulación socialista”, ni la aplicación de la Ley del Valor-Trabajo en la construcción de la nueva sociedad, muchos menos pudiese justificar un concepto de productividad de base taylorista tal como lo desarrollaron los soviéticos .


En esa dirección, particular importancia posee las investigaciones planteadas sobre el CAPITULO VI INEDITO DE EL CAPITAL, donde el Marx definido como “maduro” reitera la crítica a la enajenación del trabajo, condena la sumisión del trabajo al capital a partir del proceso inmediato de producción, reivindica el humanismo y la subjetividad del trabajo como emancipación, tal como lo había sostenido en sus escritos llamados de “juventud”, como son los Manuscritos Económicos-Filosóficos de 1844 y otros trabajos.


Algún lector no consustanciado con tal referencia bibliográfica ni con sus implicaciones en la construcción socialista, puede pensar que se trata de una problemática teoricista, propia de académicos.


Sostengo que este es un nudo crítico de cualquier cambio revolucionario, es decir, definir estos aspectos de lecturas es básico en la superación del capitalismo. Los soviéticos no sólo fracasaron por las prácticas burocráticas del partido, sino porque reprodujeron la lógica de la acumulación capitalista en una óptica economicista y tecnocrática: no eliminaron la extorsión del trabajo, aplicaron los desarrollos científico-técnico sin crítica, adoptaron el taylorismo bautizado para la época como “stavjonismo”.


Esta reflexión no es gratuita porque en Venezuela hay grupos e individualidades identificadas con el marxismo soviético que quieren un “socialismo científico” fundado en el desarrollo de las fuerzas productivas, en la aplicación de la ciencia y la tecnología sin discusión, en la perpetuación de la división social del trabajo.


El aspecto dilemático del socialismo como negación del capitalismo, es la superación de la Ley del Valor, como teoría y práctica de la explotación del trabajo, hoy por hoy la clave es eliminar la enajenación del obrero que vive las consecuencias de la fragmentación de la tarea.


De allí, la urgencia de responder las siguientes 5 preguntas:


1.- ¿ Puede construirse el socialismo manteniendo la contradicción entre el proceso de trabajo y la valorización o aceptando la primacía del valor de cambio por encima del valor de uso ?


2.- ¿ Puede construirse el socialismo sin poner en discusión la obtención de plusvalía, el pillaje legalizado del plustrabajo, trabajo excedente o trabajo no pagado al obrero ?


3.- ¿ Puede construirse el socialismo aceptando los paradigmas industriales propios del capitalismo, como son el taylorismo, el fordismo o el neofordismo?


4.- ¿ Puede construirse el socialismo partiendo de la concepción de la productividad del trabajo que se fundamenta en la parcelación del saber y de la tarea, es decir, en la profundización de la separación entre el trabajo intelectual y el trabajo manual del obrero ?


5.- ¿ De qué socialismo estamos hablando ? ¿Capitalismo de Estado ?


Esta son interrogantes que demandan respuestas por parte de los revolucionarios que creemos en el socialismo. No responderlas es reproducir la vieja conseja gatopardiana: CAMBIAR PARA QUE NADA CAMBIE.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Poema nunca dantes...

Vamos, pois,
deixar esta esfera
barulhenta do
mercado,
onde tudo que ocorre é feito à plena vista de todos,
onde tudo parece aberto e franco.

Seguiremos o dono do dinheiro e o
dono da força de trabalho
ao laboratório
oculto
da produção,
sobre cuja soleira
está escrito:
'Entrada proibida exceto para negócios'.

Aqui descobriremos,
não só como o capital
produz,
mas também como ele próprio
é produzido.

A fabricação da mais-valia,
este grande segredo
da sociedade moderna,
irá enfim
se revelar.

No momento em que saímos
da esfera da circulação simples
que fornece ao livre cambista vulgar
suas noções, suas idéias,

opera-se uma transformação
na fisionomia dos
personagens
do nosso drama

Nosso velho homem das moedas
toma a dianteira e,
na qualidade de capitalista,
caminha à frente

Possuidor da força de trabalho
lhe segue atrás como seu trabalhador

O primeiro, com o olhar de escárnio,
um ar importante
e atarefado;

O segundo tímido,
hesitante, teimoso,
Como alguém que trouxe
Sua própria pele ao mercado,

E não pode esperar nada mais
Do que vê-la ser
Curtida.
Karl Marx em O Capital
A necessidade do debate teórico sobre o desenvolvimento: A contribuição de Celso Furtado.

“A estrutura do processo vital da sociedade, isto é, do processo da produção material, só pode desprender-se do seu véu nebuloso e místico no dia em que for obra de homens livremente associados, submetida a seu controle consciente e planejado. Para isso, precisa a sociedade de uma base material ou de uma série de condições materiais de existência que, por sua vez, só podem ser o resultado natural de um longo e penoso processo de desenvolvimento”
K. Marx [1]

O modelo de desenvolvimento econômico configura condições de produção e reprodução, assim como da sobrevivência e vivência de uma sociedade. Por se tratar de processos sociais que se inscrevem nas divergências e disputas ideológicas, ou seja, na correlação de forças entre as classes sociais está em permanente processo de transformações.

O modelo contemporâneo de desenvolvimento capitalista mundializado, submete as sociedades a uma combinação perversa de aceleração do processo de acumulação de capital com aumento do desemprego, da pobreza, da desigualdade, da exclusão social, com a exploração e a degradação sem limites dos recursos ambientais.

Segundo Wallerstein, a economia-mundo capitalista se desenvolve com tanto sucesso que está destruindo-se, e por isso nos defrontamos com uma bifurcação histórica que aponta para a desintegração deste sistema-mundo, sem que nos seja oferecida garantia alguma de melhoria na nossa existência social.

Se o objetivo de quem hoje faz e/ou elabora sobre a economia solidária é apresentar elementos de um novo projeto de desenvolvimento é necessário a retomada do debate teórico sobre o tema a partir do que de melhor o pensamento econômico latino-americano e brasileiro produziu.

Nesse sentido, a referência principal do pensamento criativo, inovador sobre as condições histórico-econômicas do desenvolvimento do Brasil é a obra de Celso Furtado O conjunto de sua obra rompeu com o economicismo positivista dominante, resgatando o sentido histórico do processo econômico e apontando os limites e irracionalidades do modelo hegemônico, soma-se a isso o fato de ser Furtado o autor que antecipou-se em três décadas o debate sobre a necessidade de um modelo ecologicamente sustentável e socialmente justo como premissas para a superação da dependência e da criação de uma outra lógica de desenvolvimento.

Em sua obra Criatividade e Dependência na civilização industrial Furtado apresenta uma visão de conjunto da emergência e difusão da civilização industrial e do tema do desenvolvimento. Escrita em 1978 ela permanece muito atual, pois identificou a conexão, aprofundada em tempos de globalização neoliberal, dos interesses das elites internas com as externas no processo de acumulação.

Reproduzimos abaixo um trecho que versa sobre essa lógica intrínseca aos países dependentes, atualmente denominados de emergentes:


[...] O interlocutor dos interesses externos ( e ocasionalmente o concorrente) será elemento surgido da diversificação da economia, imposta pelas vicissitudes da dependência. Nos países em que a tutela colonial avançou pelo século atual, a transformação das estruturas internas de dominação colonial foi lenta, o que favoreceria a emergência ulterior de forte estamento burocrático. Nos países latino-americanos, onde o Estado nacional se constituiu desde a primeira metade do século dezenove, as repetidas deslocações ocasionadas pela instabilidade do setor primário-exportador propiciaram a diversificação e ampliação dos grupos dominantes, habilitando-os para a fase de industrialização.

O novo pacto entre interesses externos e dirigentes internos, em que se funda a industrialização dependente, viria substituir o mito das vantagens da especialização internacional pela idéia mais mobilizadora do desenvolvimento. Privados progressivamente de memória histórica e senso de identidade, referidos a um sistema de medidas concebido para os fins de acumulação, os povos atraídos pela via indireta para a civilização industrial passaram a ser classificados, ordenados, etiquetados, transfigurados em entidades abstratas cujo comportamento se explica exaustivamente a partir de um número limitado de dados. Posto que se concebe “desenvolvimento” como uma performance internacional- ignorando-se o custo da acumulação em termos de valores culturais próprios- a história dos povos passa a ser vista como uma competição para parecer-se com as nações que lideram o processo acumulativo. Os meios sugeridos para alcançar esse objetivo, sempre fugaz, não terão sido muitos: todos passam pela idéia de aumento da taxa de poupança interna e/ou criação de condições capazes de atrair recursos externos. Essa doutrina serviria de cobertura para os investimentos diretos estrangeiros, mediante os quais as atividades produtivas dos países dependentes viriam a ser controladas do exterior. Se o objetivo estratégico é acelerar a acumulação, todo aporte de recursos forâneos é positivo. Pelo mesmo caminho justifica-se a concentração de renda: são somente os ricos que têm capacidade de poupança. A idéia de progresso que adotam as minorias privilegiadas e a racionalidade das empresas transnacionais convergem para acelerar a diversificação e sofisticação dos padrões de consumo, em detrimento da satisfação das necessidades essenciais do conjunto da população”
[2]
[1] MARX, Karl. O Capital. Critica da economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, pp. 101.
[2] FURTADO, Celso. Criatividade e dependência na civilização industrial. Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1978. pp77-78.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Apontamentos sobre os debates na IV Plenária Nacional de Economia Solidária. Parte I

O Fórum Brasileiro de Economia Solidária - FBES iniciou neste ano um processo de debates, envolvendo os diferentes atores que participam do fórum, que culminará com a IV Plenária Nacional de Economia Solidária , a realizar-se em março de 2008.

Dois temas estarão na pauta da Plenária: A discussão sobre o caráter do FBES e suas bandeiras de luta. Quanto a esse ponto existe consenso na medida em que compõe as demandas históricas da Economia Solidária. No que tange ao tema do caráter do FBES, que será o ponto central das discussões, existem diferentes posições. O documento base elaborado pela executiva do FBES apresenta duas perspectivas para esse debate:
1) O FBES representando a organicidade de um movimento social, nessa perspectiva fórum e movimento se confundem e;
2) O FBES como um dos instrumentos do movimento da Economia Solidária , nessa perspectiva o movimento é entendido como algo mais amplo do que o Fórum Brasileiro.

Em função dessa delimitação podemos identificar que independente das duas perspectivas apresentadas, é possível aferir que o debate da IV Plenária indica que o centro da discussão será o papel da vanguarda da Economia Solidária.

Como o próprio documento base afirma na introdução, onde faz um resgate histórico da criação do FBES, o fórum surge como “ fruto do processo histórico que culminou com o Fórum Social Mundial”. Essa vinculação histórica com o FSM tem como reflexo a hegemonia na direção do FBES de um conjunto de entidades de apoio ( ONGs) de caráter nacional assim como entidades de representação dos empreendimentos econômicos solidários. O que é preciso analisar é o quanto essa direção ou vanguarda, representa e/ou tem capacidade de representar a base concreta que faz a economia solidária na atualidade, ou seja, os trabalhadores autogestionários e a diversidade de seus empreendimentos e se este foco para o debate responde aos desafios da economia solidária.

Nestes últimos quatro anos, desde a última plenária nacional em 2003, verificamos um crescimento significativo da economia solidária com a inclusão de segmentos sociais até então a margem desse campo. Vale citar as comunidades quilombolas, os trabalhadores desempregados, os recicladores, as juventudes rurais e urbanas, os movimentos de luta pelos direitos das mulheres, os portadores de necessidades especiais.

Ou seja, se a economia solidária constitui-se de uma ação coletiva que comporta diversos movimentos afirmativos e de luta por direitos, bem mais que uma discussão sobre a vanguarda da economia solidária, o que é fundamental na atual conjuntura é debater estratégias que possibilitem articular os diversos movimentos sociais nessa perspectiva anticapitalista que é a economia solidária.

Nesse sentido, a premissa necessária para o debate é a discussão do sentido da economia solidária na atual fase de desenvolvimento capitalista. Qual o seu papel na luta de classes? Ou seja, a sua relação com o Estado e com a sociedade. ( isso inclui necessariamente o debate sobre o sindicalismo e os partidos políticos do campo popular e democrático) .

A discussão, portanto, acerca do caráter do FBES e da própria Economia Solidária enquanto práxis dos trabalhadores deve levar em conta estes temas, caso contrário pode subsumir-se numa discussão internista com objetivo apenas de legitimar as vanguardas já estabelecidas.