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sábado, 15 de setembro de 2007

Foto " Almoço no topo do arranha céu", de Charles C. Ebbets, durante construção do Rockefeller Center, Nova Yorque, 1932.

" Levantou-se, deitando contas ao tempo de que poderia dispor, o manejeiro nem sequer virou a cabeça para ele, e decidiu dar uma rápida volta pela parte da construção em que tinha trabalhado, a despedir-se, por assim dizer, das tábuas que alisara, das traves que regulara, se tal identificação era possível, qual é a abelha que pode dizer. Este mel fi-lo eu" ( José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo)

Economia Capitalista :
Valorização do mundo das coisas,
desvalorização do mundo dos homens.

De toda a vasta obra teórica –crítica de Marx , os chamados Manuscritos-Econômicos e Filosóficos escritos em 1844 são considerados os que mais aprofundam o tema do trabalho alienado, ou seja, das relações de estranhamento do homem com o seu trabalho a partir da lógica da produção sob o capitalismo.
No sentido de resgatar essa contribuição teórica fundamental para a compreensão do “capitalismo como ele é”, principalmente no contexto da luta em curso pela construção de uma outra economia, apresentamos fragmentos da parte final do primeiro dos manuscritos. O texto na íntegra pode ser lido no livro A Dialética do Trabalho- escritos de Marx e Engels, edição da Expressão Popular, organizado por Ricardo Antunes.
Segundo Antunes, o conceito de trabalho estranhado, ou alienado, “é um a bem elaborada reflexão sobre o lugar do trabalho na composição da sociedade humana, e de como tal composição se reequaciona a partir da transformação do trabalho em elemento subordinado à troca e à propriedade privada”.



Trabalho Estranhado ( alienado) e propriedade privada
K. Marx-1844

[...] Partimos dos pressupostos da economia clássica. Aceitamos sua linguagem e suas leis. Supusemos a propriedade privada, a separação de trabalho, capital e terra, igualmente do salário, lucro de capital e renda da terra, da mesma forma que a divisão do trabalho, a concorrência, o conceito de valor e troca etc.
A partir da economia clássica mesma, com suas próprias palavras, expusemos que o trabalhador baixa à mercadoria e à mais miserável mercadoria, que a miséria do trabalhador põe-se na relação inversa da potência e grandeza da sua produção, que o resultado necessário da concorrência é a acumulação de capital em poucas mãos, portanto a mais tremenda restauração do monopólio, que finalmente desaparece a diferença entre o capitalista e o rentista fundiário, assim como entre o agricultor e o trabalhador em manufatura, e toda a sociedade tem de decompor-se nas duas classes dos proprietários e dos trabalhadores sem propriedade.

A economia clássica parte do fato da propriedade privada. Não nos explica o mesmo. Ela percebe o processo material da propriedade privada, o qual passa, na efetividade, por fórmulas gerais, abstratas, que então a ela valem como leis. Não concebe estas leis, isto é, não mostra como têm rigem na essência da propriedade privada. A economia clássica não nos dá esclarecimento algum sobre o fundamento da divisão entre trabalho e capital, entre capital e terra. Quando ela, por exemplo, determina a relação do salário com o lucro de capital, o que lhe vale com razão última é o interesse do capitalista; ou seja, ela supõe o que deve desenvolver.
Do mesmo modo a concorrência entra por toda a parte. É explicada a partir de circunstâncias exteriores. Até que ponto estas circunstâncias exteriores, aparentemente casuais, são apenas a expressão de um desenvolvimento necessário, sobre isso a economia nacional nada nos ensina. Vimos como a troca mesma aparece a ela como um fato acidental. As únicas rodas que o economista clássico põe em movimento são a ganância e a guerra entre os gananciosos, a concorrência.

Justamente porque a economia clássica não compreende a conexão do movimento, ela pôde por isso novamente opor, por exemplo, a doutrina da concorrência à doutrina do monopólio, a doutrina da liberdade industrial à doutrina da corporação, a doutrina da divisão da posse da terra á doutrina da grande propriedade fundiária, pois concorrência, liberdade industrial, divisão da posse da terra eram desenvolvidas e concebidas apenas como conseqüências acidentais, deliberadas, violentas e não como conseqüências necessárias, inevitáveis, naturais do monopólio, da corporação e da propriedade feudal [...]

[...] Nós partimos de um fato econômico presente. O trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadorias ele cria. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na medida em que produz, de fato, mercadorias em geral.

Este fato nada mais exprime, senão: o objeto que o trabalho produz, o seu produto, se lhe defronta como um ser estranho, como um poder independente do produtor. O produto do trabalho é o trabalho que se fixou num objeto, fez-se “coisal”, é a objetivação do trabalho. A efetivação do trabalho é a sua objetivação. Esta efetivação do trabalho aparece ao estado econômico como desefetivação do trabalhador,a objetivação como perda do objeto e servidão ao objeto,a apropriação como estranhamento como alienação[...]

[...] Na determinação de que o trabalhador se relaciona com o produto de seu trabalho como um objeto estranho estão todas estas conseqüências. Com efeito, segundo este pressuposto está claro: quanto mais o trabalhador se desgasta trabalhando, tão mais poderoso se torna o mundo objetivo, alheio que ele cria diante de si, tão mais pobre se torna ele mesmo, seu mundo interior, e tanto menos o trabalhador pertence a si próprio [...]

[...] O estranhamento não se mostra somente no resultado, mas sim no ato da produção, dentro da atividade produtiva mesma. Como poderia o trabalhador defrontar-se alheio ao produto da sua atividade se no ato mesmo da produção ele não se estranhasse a si mesmo?O produto é, sim, somente o resumo da atividade, da produção [...]

Em que consiste, então , a exteriorização do trabalho?

Primeiro, que o trabalho é externo ao trabalhador, isto é, não pertence ao seu ser, que ele não se afirma, portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele, que não se sente bem, mas infeliz, que não desenvolve nenhuma energia física e espiritual livre, mas mortifica sua phisys e arruína o seu espírito. O trabalhador só se sente, por conseguinte e em primeiro lugar, junto a si quando fora do trabalho e fora de si quando no trabalho. Está em casa quando não trabalha e, quando trabalha, não está em casa.
O seu trabalho não é portanto voluntário, mas forçado, trabalho obrigatório. O trabalho não é , por isso, a satisfação de uma carência, mas somente um meio para satisfazer carências fora dele. Sua “estranhidade” evidencia-se aqui de forma tão pura que, tão logo inexista coerção física ou outra qualquer, foge-se do trabalho como de uma peste. O trabalho externo, trabalho no qual o homem se exterioriza, é um trabalho de auto-sacrifício, de mortificação. Finalmente, a externalidade do trabalho aparece para o trabalhador como não sendo seu próprio, mas um outro que o trabalho não lhe pertence, que ele no trabalho não pertence a si mesmo, mas a um outro.

Assim como na religião a auto –atividade da fantasia humana, do cérebro e do coração humanos, atua independentemente do indivíduo e sobre ele, isto é, como uma atividade estranhada, divina ou diabólica, assim também a atividade do trabalhador não é sua auto –atividade. Ela pertence a outro, é a perda de si mesmo.

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